Palavras do Abismo

No passado fim de semana, passeava em Alvalade, Lisboa, quando um indivíduo, alto, espadaúdo, envergando um fato caro, mete pelo passeio interferindo no meu ângulo de visão. Rapaz dos seus 30 e tal anos, revelando semelhanças físicas com os modelos Guedes (lembram-se desses manos?), mas com barba maior, o espécime exalava até algum charme, até que...

... pôs uma mochilinha de mulher às costas. Preta, ornada com desenhos florais e com finas correntes, muito feminina. Ainda por cima, a mochilinha ficou-lhe presa às fraldas da camisa, que levantaram todas e se enrolaram com o casaco. Portanto, de gajo parecido com modelos, o rapaz ficou a parecer levemente louco quando, por baixo do seu acessório feminino (que tem todo o direito de usar, atenção, embora não combinasse nada com o seu fato masculino de aspecto carérrimo) a sua roupa ficou enrodilhada e levantada, exibindo-lhe o traseiro. E foi engraçado, até que...

... começou a tirar selfies como se fosse a coisa mais importante que tivesse de fazer naquele dia. De todos os ângulos - de cima, baixo, dos lados, de um lado do passeio, do outro, ainda enrodilhado - ao mesmo tempo que reparei que cambaleava e que a linguagem gestual era a de alguém que tinha passado a noite na farra e cuja última linha de coca ainda estava a bater. É incrível como passamos de presumíveis modelos a presumíveis drogados.

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Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



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Podem substituir "raio" por "caralho" no título deste post para melhor sentirem o meu estado de espírito, que de momento é merdoso. 

Foda-se, tenho 33 anos, pensei que por esta altura a questão dos sisos estava arrumada, e seguia feliz na minha vidinha quando um desses cabrões decidiu infectar. Criou abcesso, a boca inchou, começou a empurrar os outros dentes (um belo moshpit na minha boca - eu sei que mereço) e foram dias intensos a sentir uma das piores dores da minha vida - está no top 3, a seguir à pedra nos rins e à hérnia discal - até o antibiótico fazer efeito. 

Foram quatro noites sem dormir, e porquê? Para quê? Porque é que temos dentes que nos incomodam tão tarde na vida? São como aquelas visitas indesejadas - não queremos que venham, não temos espaço para elas, e mesmo assim elas entram-nos porta adentro, sem dia e hora para bazar, fazendo da nossa vida um rebuliço, deixando tudo de pantanas. E, quando finalmente elas se vão, não deixam saudade alguma. Adeus, já vão tarde! Só é pena não podermos tirar essas pessoas tóxicas da nossa vida com um alicate. 

O meu hóspede indesejado foi retirado esta manhã e ainda estou sob efeito da anestesia, e por isso ainda tenho espírito para escrever antes das dores chegarem. Vim aqui deixar um conselho aos jovens - vocês retirem esses cabrões todos da vossa boca. Assim que souberem que os sisos estão para nascer, ou se começam a espreitar, não hesitem e arranquem-nos. Não os deixem crescer nem infectar, porque depois sofrem em dobro. No mercy para esses motherfockers!

Ah, spoiler alert - como podem ver, o juízo não vem com o siso.


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"Onde há fumo há fogo" - um ditado cuja popularidade e forma serão em breve substituída por "onde há obra há reformado". Desafio um de vós a dizer-me que nunca viu um grupo de reformados diante de uma obra. Por favor, desafio-vos.

É certo e sabido que quando se atinge os 65 anos de idade, começa a crescer um formigueiro, um entusiasmo inexplicável, um íman que atrai o macho sénior para a nobre actividade da observação de obras. É fácil reconhecer estes vândalos da opinião da construção civil: operam em grupos, grandes e pequenos, e ficam estáticos, de mãos atrás das costas, estas ligeiramente inclinadas. De vez em quando arriscam as cruzes, baixando-se até a uma posição que não usavam desde 1986, se for preciso observar de perto por baixo de um pial ou uma entrada subterrânea para uma garagem. Alguns membros do gangue podem usar bigode, ou não, é mais possível que enverguem uma boina ou boné, porque isto de estar lá fora muito tempo deixa assaduras nas bochechas e pontas dos narizes. Todos eles expelem um leve cheiro a mofo e naftalina, mas também todos os velhos cheiram ao mesmo. Não é por observarem as obras, eu é que quis dizer isto.

Quando se atinge a idade da reforma, e não importa qual é a actividade que exerciam, todos ficam experts em obras. Quer tenham sido barbeiros, bancários, contabilistas, motoristas, não importa - entre a faixa dos 60 e 70, um dia eles acordam a saber tudo sobre a arte de armar betão. E assim colam-se à frente da construção, metendo conversa com os pedreiros, atirando bitaites, emitindo opiniões que isto devia ser assim ou assado, e que a tal janela devia estar virada nascente em vez de poente, e que a inclinação da entrada devia ter menos 9 graus, atiram datas para o ar adivinhando quando aquilo irá estar acabado (se calhar fazem apostas), vão buscar o lanche e a mini à pressa e emborcam tudo sem tirar a obra de vista, ainda assim ela termine e eles não estejam no seu posto.

E depois o processo termina e eles lá vão para a próxima obra (devem ter uma aplicação secreta que lhes diz onde existem mais obras nas imediações), até a Maria ter o jantar feito. Um dia, veremos anúncios de emprego para estes observadores de obras, porque é injunto usarem o seu intelecto em decadência para tanta opinião e não receber nada em troca. Quando virem o próximo gangue de observadores, parem, escutem, juntem-se uns minutos, apreciem o conhecimento desmedido que estes homens têm para dar. Pena que seja um clube exclusivo a machos, porque nada me daria mais prazer do que passar a velhice a levar com aquele pó de cimento na tromba. Dizem que faz milagres às rugas.

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Já passaram vários dias desde o lançamento da campanha e provavelmente já toda a gente viu, mas há que enaltecer e parabenizar a Comunicação do Benfica, mesmo com atraso, na campanha do clube cujo mote é "Seja a família como for, o importante é haver amor".

No vídeo, vemos várias famílias - pais e filhos, casais sem filhos, famílias com mãe e mãe, ou pai e pai, com avós, padrastos e madrastas, famílias grandes, pequenas, interaciais - mostrando o que devia ser óbvio para todos - cada família é válida e é única.

Num mundo em constante luta contra a discriminação, é bom ver um clube grande e com expressão mundial a fazer este tipo de campanha, que chegue a milhares de pessoas, e que expresse os valores de vários tipos de igualdade. Deixa-me um fiozinho de orgulho, uma réstia de esperança.

É claro que este tipo de comunicação arranca sempre diarreia mental de alguém, e vi comentários do género "ainda bem que não sou deste clube de panascas", e coisas piores, mas que fazer? Há atrasados mentais em todo o lado, especialmente nas redes sociais, escondidos atrás de um ecrã, masturbadores que ficam com pau com a sua própria graça e perspicácia.

Que não nos deixemos de lembrar desta mensagem. Somos todos diferentes - temos o direito à diferença - e não nos podemos deixar atingir pelas larvas da sociedade que se alimentam do desprazer alheio. Que cada um viva a vida à sua maneira e que respeite o próximo - só isto bastaria para o mundo fosse altamente.

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Ricky Gervais é uma das pessoas que mais admiro no mundo - para além daquela mente genial de onde saem grandes ideias, do elevado sentido de humor (negro), ele é um ser humano notável, um activista vegan que não se cansa de apontar o dedo a quem maltrata e abandona animais, que cria e promove acções para a sua defesa, levanta a voz contra as touradas e outras atrocidades; já para não falar das fortes críticas que não tem vergonha de tecer ao poder político.

Assim, quando a série After Life estreou, escrita e dirigida por ele, mergulhei de cabeça nos seus 6 curtos episódios. Estava à espera que fosse boa, mas não tão boa. Não é possível que tenha sido tão boa.

Em After Life, a esposa de Tony (Ricky) morreu de cancro. E ele, que outrora foi uma pessoa normal, torna-se praticamente insuportável para o resto do mundo, e até para ele próprio. Gozar a vida deixou de fazer sentido; levantar-se e realizar as tarefas normais parece despropositado; seguir em frente com a rotina parece obsceno; tudo porque metade dele morreu, e agora ele quer morrer também.

A depressão tornou-o num ser sem empatia - se ele não se consegue respeitar a si próprio, como é que iria ter em conta os sentimentos dos outros? Assim, deixou de ter filtro. Diz exactamente o que sente, extrapola toda a raiva que tem para cima dos outros, o que para nós, espectadores é, ao mesmo tempo, divertidíssimo e muito triste.

A série tem uma humanidade assustadora, e sentir, ver e ouvir alguém que passa por um período tão negro, faz-nos compreender um pouco a depressão. O impacto na sua vida é notório - a casa desleixada, as roupas por lavar; assim como o impacto nos outros - a família não sabe como lidar com ele, os colegas não sabem com lhe responder aos constantes comentários insultuosos e as pessoas que vão surgindo na sua vida não conseguem descodificar se ele está a sofrer ou é apenas um grande idiota.

É a cadela que o liga à realidade - é por ela que se levanta, que se esforça por ir ao supermercado, que opta por ocasionalmente sair de casa; é com ela que desabafa, e é ela a sua maior ligação com a falecida esposa. É uma relação terna que emociona e na qual muitos de nós nos podemos rever. Também o liga à realidade um vídeo que a sua mulher deixou, onde lhe dá poderosas indicações sobre como, basicamente, viver. Como se ela soubesse exactamente onde ele iria ter dificuldades, como se iria abaixo - como se fossem excertos de aprendizagem que o ajudam a reaprender a apreciar a vida.

After Life tem a capacidade de pôr em imagens, palavras e sons aquilo que não se consegue dizer. Acima de tudo, tem uma honesta brutalidade que choca e emociona ao mesmo tempo. Consegue ser triste, e conter em si esperança, raiva, beleza, humor negro - dá para rir e chorar no mesmo minuto. É genial, fresca, uma obra do caraças que marca um pico de Ricky Gervais. É absolutamente imperdível e está disponível na Netflix.

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"As coisas seguiram o seu rumo, sendo o desejo de ter uma conversa normal refreado, pelo menos durante os primeiros minutos pelo decoro que a situação exigia; o espírito de onde vinham ainda perdurava nos fatos escuros e nos modos silenciosos e postergadores, até que, com um copo de vinho no estômago, as pessoas se viraram, imersas numa conversa súbita, para a janela ou o sofá, e a vida espontânea da festa, que no fundo era a própria vida, começou." 

 In O Caso Sparsholt, de de Alan Hollinghurst (2017)

pos·ter·gar
(latim *postergare, de post tergum, atrás das costas)
verbo transitivo
1. Deixar para trás, dando preferência a pessoa ou coisa que não deveria ser preferida. ≠ FAVORECER, PREFERIR
2. Não dar atenção. = DESCONSIDERAR, DESCUIDAR, DESPREZAR, MENOSPREZAR ≠ ATENTAR, CONSIDERAR, ESTIMAR
3. Deixar em atraso. = ADIAR, PROCRASTINAR ≠ ADIANTAR

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Uma palavra bonita para dizer "preguiçosos como o caralho" ou "fazer escolhas de merda". Quem nunca foi postergador, que atire a primeira pedra. Quem nunca optou por fazer a coisa errada, ou escolheu uma pessoa que se sabe tóxica? Quem nunca descuidou os seus afazeres, as suas tarefas, ou até mesmo as pessoas que se querem bem? Quem nunca adiou algo até não poder mais? Pois é, sois todos postergadores. Eu postergo, tu postergas, todos os dias da nossa vida.

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Estamos no Século XVIII e a Inglaterra está em guerra com a França. A rainha Anne (Olivia Colman) tenta governar como pode mas, devido à progressão da gota, o seu discernimento e capacidade de decisão incertos dão poder à sua amiga, Lady Sarah (Rachel Weisz) para tomar decisões em seu nome. As duas têm uma relação muito próxima e misteriosa, mas parecem entender-se, de uma forma ou outra, sobre os destinos do país e da guerra, que assentam nestas duas mulheres naturalmente líderes.

A relativa paz foi perturbada quando Abigail (Emma Stone) chegou. Prima afastada de Lady Sarah, chega aos aposentos reais pedindo trabalho e o seu charme e juventude sensibilizam a parente. Aos poucos, Abigail vai impondo a sua presença e, com a sua jovialidade e os seus modos prestáveis, ganha a confiança da rainha. Forma-se um trio de mulheres de força que ao início funciona como uma máquina oleada, mas onde a sede de poder e a ambição vão afectando as engrenagens...

Este filme era o meu preferido na corrida ao Melhor Filme nos Óscares, por diversas razões. É realmente diferente - apesar de ser um filme de época, tem técnicas que não estamos habituados a ver neste género. Tem uma abordagem sarcástica, explícita e inteligente, num argumento fortíssimo. A fotografia e cinematografia são de topo. A banda sonora é inesperada e assenta que nem uma luva. O casting é maravilhoso. O realizador Yorgos Lanthimos fez um trabalho extraordinário. É daqueles filmes que vai ser visto daqui a 20 anos e vai continuar a ser um marco.

Para além dos aspectos mais técnicos, explora a natureza corrupta humana de uma forma que extrapola convenções, inserida numa tragédia barroca que provoca a moralidade. Há também toques de surrealismo em determinadas situações mas que, curiosamente, não nos provocam estranheza. Outra coisa inédita é que não existem personagens especialmente simpáticas ou que inspirem confiança, coisa que vai totalmente contra "as regras" que estamos habituados a observar no cinema. Aliás, este filme proporciou-me uma experiência rara - mudei completamente de opinião sobre algumas das personagens, sem reparar, durante o filme. Uma autêntica lavagem cerebral do Yorgos.

Olivia Colman ganhou, merecidamente, o Oscar de Melhor Atriz, e o filme teve outras 9 nomeações - incluindo Melhor Atriz Secundária para as outras duas grandes mulheres da trama, e Melhor Filme. Se ainda não viram, The Favourite é paragem obrigatória - um monumento ao cinema, imoral, absurdo, cativante, emocional, belo na sua estranheza. Vai originar algumas torcidelas de nariz se não tiverem a mente um bocadinho aberta...

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O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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Este artigo é de fevereiro, mas só agora o consegui ler na íntegra. Na altura, reparei em alguns excertos partilhados nas redes sociais, e achei uma comédia tão hilariante que decidi guardar para ler depois. E agora não consigo ficar calada, porque esta senhora, a Joana Bento Rodrigues, que está muito bem conservada para quem tem 240 anos, não me representa enquanto mulher e quero deixar isso bem claro.

"A mulher dita feminista – a que integra as “tribos”, a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar – optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal. São estas três últimas, as características mais belas da mulher!"

Começamos tão bem! De acordo com a Joana, uma mulher que não queira uma relação estável, que não queira ser mãe para não perder oportunidades profissionais ou para não estragar o corpo ou que não se vista com elegância, está-se a objectificar. Que lindeza! Eu pensava que era uma pessoa normal, orgulhosa das minhas escolhas, mas afinal sou um objecto tosco e sem préstimo que não aproveita a maravilhosa tríade feminismo-matrimónio-maternidade, porque toda a gente sabe que a vida só vale a pena ser vivida castamente, de anel no dedo e papel assinado, e com um barrigão produtor de fetos. Estou tão enganada, porque pensava que as minhas colegas que andam aqui na passarelle a mostrar as boobs envolvidas em banho de Chanel e que roçam o pézinho no coisinho do chefinho é que se estavam a objectificar... mas não, elas estão sempre elegantes e impecáveis. Eu, só por andar de ténis, nem merecia o estatuto de mulher. Shame on me.

"O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança."

Joana, Joaninha. A mim, que vivo uma relação em pecado em que é "cada um na sua casa", o que me dá segurança é receber um ordenado ao fim do mês. Estabilidade é não depender de ninguém para me pagar a casa e as despesas. Devias experimentar. Dá um gozo do caraças! Não ter de dar contas porque o dinheiro é meu, faço o que quero com ele. Não fazes ideia de como é libertador! Um dia, quando visitares este século, talvez eu te possa mostrar como.

"O potencial da maternidade é algo biológico! A mulher é provida de um encanto, de uma ternura, que só se encontra na sua relação com os filhos. Ela é o porto de abrigo das crianças. Na maternidade, a mulher sente-se verdadeiramente realizada, pois percebe o que é o verdadeiro e incondicional Amor! Não espanta, pois, que não possa demitir-se dessa função e que a maternidade seja, por norma, um fortíssimo apelo, ainda que subconsciente."

É verdade. É que no ano de 1779 onde a Joana está, não há muito para uma mulher fazer a não ser parir. E também ainda não inventaram os métodos anti-concepcionais, a não ser mandar as prenhas pelas escadas do celeiro abaixo. Temos de avisar a Joana que agora a mulher tem escolhas. E que nunca houve tantas mulheres que não querem ser mães, o que não faz delas menos mulheres ou pessoas piores - é simplesmente uma escolha como outra qualquer. Muitas delas, como eu, a quem a biologia trocou as voltas e não têm o tal relógio, não encontra magia em fraldas cagadas, nas noites sem dormir, nas birras infinitas, nos berros, nas faltas de educação e, principalmente, na falta de liberdade. Ser childfree é tão, mas tão bom. Posso ir jantar fora, a concertos, chegar às horas que quero, posso beber álcool, fumar erva, gastar o meu ordenado só em mim própria, comprar livros e mais livros, e viajar, e ser excêntrica. Foda-se, não ter filhos é a melhor merda. Para outras, ter filhos será a melhor merda. O que é importante é que cada um tem de construir a sua própria felicidade, sem fórmulas. Se ela é feliz de uma maneira, não tem de impor as suas ideias aos outros como se fossem verdades absolutas. Há muitas maneiras de uma mulher se sentir realizada, e dar uso ao útero, é só uma delas...

"Este activismo tornou-se, inclusivamente, desprestigiante para a mulher. Priva-a da possibilidade de ascensão social e profissional pelo mérito. Retira-lhe a doçura e candura. Nega-lhe o papel fundamental do matrimónio e da maternidade. Objectifica a mulher, enquanto presa para sexo fácil e espaço de diversão. Promove paradas onde se expõe o corpo de forma grosseira e agreste à visão. Claramente, não representa a “mulher comum”!"

Faz-me comichão ler "ascensão profissional" e "papel do matrimónio" no mesmo parágrafo - há aqui qualquer coisa que não bate bem. A comichão começa ao ler que o activismo tira prestígio à mulher, mas neste momento só sinto um extremo cansaço - a Joana venceu-me pelo cansaço - e vou dizer, está bem. Ok. Fique lá com o seu mérito de esposa calada e bem apessoada, grande organizadora de jantares com a senhora lá de casa ao leme. A mulher não tem de ser doce e cândida. Isso já nem no Orgulho e Preconceito, escrito em 1813, ainda longe da sua época (há-de lá chegar). A mulher quer-se forte, determinada, arrojada, sem medo de arriscar. Não deve ficar sentada ao canto da sala depois de servir chá, de perna cruzada com a sua saia por baixo do joelho. Deve dançar se lhe apetecer, pôr a música alta, rodopiar, sentir-se uma criança, soltar uns palavrões, correr, ser forte, ser o que quiser! Toda a gente devia ser assim, livre, seja qual for o género! E não tem nada a ver com o sexo, mas que merda! Que mulher travada! Qual é o problema do sexo ocasional, se fosse o caso? Foda! Foda mais! Foda por prazer, não para procriar! Retire os benefícios de uma boa foda! Seja a verdadeira mulher comum, rasgue a roupa cara, dê e leve um tabefe, urre à lua, borre essa maquilhagem, grite, esfole, liberte-se!

E depois no fim do artigo li isto: Médica. Membro da TEM/CDS.
CDS? Nem merecia a pena ter escrito tanto. Havia muito mais por dizer, mas temos de poupar os deficientes. 


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