Palavras do Abismo

Tenho vontade de liberdade
Há tanto tempo que não tenho liberdade
Não sei que faria com tanta liberdade

Talvez me prendesse
Talvez voasse


(sonhei com isto)




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9 minutos. Foi o tempo que o afro-americano George Floyd esteve com a cara empurrada contra o asfalto. 9 minutos a suplicar, a pedir água, a dizer que não conseguia respirar. 9 minutos que representam aquilo que o mundo ainda é: o homem branco a subjugar o negro. Em 9 minutos, morreu. 

Ouve-se o eco do típico comentário racista: "aaahh, mas alguma coisa ele teve de fazer". Queridos, não era nenhuma questão de vida ou de morte. Ele não tinha reféns, não ameaçou ninguém, não tinha nenhuma arma, não representou perigo. Foi acusado de burla quando estava a fazer um pagamento. 

Era advogado, tinha 46 anos, e soube-se imediatamente que estava inocente. Dizem que ele resistiu à detenção, as testemunhas dizem que não. Quem o matou anda à solta enquanto decorre um inquérito, que como sempre não dará em nada.

Não me fodam, o racismo existe, a desigualdade existe, e na América se não fores um homem branco heterosexual (de preferência com porte de arma) corres o risco de levar uma sova, de não teres oportunidades na vida ou, simplesmente, de morrer na via pública. E é claro que isto não é só na América. 

Não, não vai ficar tudo bem, porque nunca esteve. Desculpa George, as pessoas são uma bosta.




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Este domingo, com a padaria da minha rua fechada, fui comprar pão num estabelecimento que vende comida para fora. Estava à torreira do sol na fila, máscara posta, quando vejo dois agentes da polícia (um homem e uma mulher) virem em amena cavaqueira pela rua abaixo. Chegam ali, colocam as suas máscaras, e vá de entrar. 

A primeira coisa que pensei foi que estivessem a fazer algum tipo de fiscalização, que estivessem a ver se as regras de distanciamento, limitação do espaço, estavam a ser respeitadas, coisa assim. Qual não é o meu espanto quando começam a pedir comida. O meu, e o da senhora que está à frente na fila, que diz ao senhor agente (que era mais um menino, vá) que tem de se pôr na fila. "Mas estamos só a encomendar", diz ele, lá de dentro. E a senhora que está a atender ao balcão, diz-lhe, também muito bem, que só podem estar dois clientes lá dentro, e já lá estavam dois. Eles tinham entrado em casalinho sem nenhuma preocupação, e ele lá saiu. Ainda ouviu a senhora da fila dizer-lhe que ela também só está ali para encomendar, e que para encomendar também é preciso tirar senha e ficar a aguardar a vez. "Mas era só pedir...", murmura ele, todo ele sorrisos, enquanto a sua colega, lá dentro, está a escolher espetadas.

Há estabelecimentos que dão prioridade a agentes da autoridade, bombeiros, etc, mas não era o caso. Mesmo não sendo, se eles se tivessem dirigido às pessoas e explicado que estavam em serviço, tinham pouco tempo, de certeza que não teria existido mal-estar. Mas entrar por ali adentro, violando a lei da limitação de pessoas no espaço que deviam ajudar a respeitar, com uma atitude de sorrisinhos e desculpas não válidas, caiu-me mal.

Não gosto de abusadores da autoridade, ainda para mais quando é para escolher espetadas.

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1917. Decorre a I Guerra Mundial. Dois soldados britânicos são enviados numa missão urgente - têm de entregar uma mensagem a um regimento que está prestes a atacar o inimigo e a cair numa cilada. Os dois soldados têm nas mãos as vidas dos seus companheiros. Têm um massacre para evitar, numa corrida desenfreada contra o tempo. Isto é baseado em factos verídicos.

Esta é a premissa de 1917, de Sam Mendes. E que filmaço... Que jornada, que experiência imersiva, que intensidade, que tudo. Fiquei pasmada, e vi o filme na televisão (Videoclube). Que pena não o ter visto no cinema.

O filme foi gravado em one-shot e isso é absolutamente crucial para o sucesso, para que nos sintamos parte integrante da acção, podermos ver todos os ângulos e sentir-mo-nos como se estivéssemos ali, nas trincheiras, enfrentando perigos com os protagonistas. Parece mesmo impossível a forma como tudo foi filmado, evidenciando mais ainda que Sam Mendes é um génio e também o gigante trabalho de produção que o filme teve.

Para além disso é tenso e de uma beleza extraordinária, um autêntico poema. Ao contrário do que dizem algumas críticas, para mim, nunca foi aborrecido, e assisti de olhos arregalados e quase sem pestanejar. É um filme de guerra, onde a amizade, o cumprimento do dever, a generosidade, falam bem alto. Único. Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, arrisco-me a dizer. Os 3 Óscares arrecadados são super merecidos.

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Confesso que quando morre um escritor que aprecio me custa mais do que quando se trata de algumas pessoas que fizeram parte efectiva da minha vida e que nela nada, ou só mal, acrescentaram.

Era muito jovem (tinha talvez uns 13 anos) quando li o meu primeiro livro de Luís Sepúlveda - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Esses tempos já lá vão, mas lembro-me de gostar. Lembro-me também de o reler, já em adulta, e dos novos contornos que assumiu dentro de mim. Com o discernimento da maturidade, a história tomou todo um novo peso, e os ecos do respeito e da amizade bateram ainda mais forte. É essa parte da magia dos livros de Sepúlveda - capazes de encantar as gerações mais novas e de tocar os meandros da alma dos adultos.

No início deste ano, numa das idas à terrinha, visitei a estante para revisitar alguns livros que não lia há algum tempo e trouxe comigo o "Diário de um killer sentimental". Um livro completamente diferente, cómico, irónico, e no entanto, como sempre, com uma moral elevada. Quis o destino que o estivesse a ler enquanto Sepúlveda estava a ser diagnosticado com o Covid-19. 

E agora, partiu. Senti uma pequena partícula dentro de mim crescer e manifestar um extremo desconforto. Ele fez parte do meu crescimento e, consequentemente, da pessoa que sou. A minha inteligência emocional é melhor também por causa dele. "O mais português dos escritores latino-americanos", com uma história de vida tão complexa e rica que o ajudou a ser um ser humano melhor. Dizem os amigos que gostava de ser tratado por Lucho. Obrigada por tudo, Lucho. És um dos que vai viver para sempre.




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Se estás a ler isto e axas que não à nenhum poblema, bem-ajas! És também o público-alvo da tele-escola. Hádem cá vir ensinar como se escrever. Ficas-te com a pulga atráz da orelha? Trouxestes os lápis e o caderno? Bora começar!

Se encontraste menos de 8 erros no parágrafo em cima, precisas de uma ajudinha. Se encontraste uns 3 ou 4, és simplesmente burro e não tens salvação. Mas podes tentar - não mata, e herrar é umano, certo?

A tele-escola, que vai começar na próxima segunda-feira, é não só a esperança do universo escolar para os jovens estudantes em tempos de pandemia, como também vai ser uma oportunidade para nós, adultos, revermos certas matérias. Têm ali uma oportunidade imperdível de aprender o que nunca aprenderam ou cimentar muito do conhecimento que voou para longe ao longo da vossa existência. Apesar de eu ser uma espécie de polícia da língua portuguesa (não totalmente eficiente, implacável e conhecedora como queria), vou assistir, principalmente às aulas de Geografia. Sou tão péssima que dói e nem encontro essa dor no mapa. Nem vou falar da Matemática - depois de 12 anos a levar com ela a única coisa que ficou foi a regra de 3 simples. É pouco para 12 anos, ou não? Também vou tentar aprender qualquer coisinha de Alemão e Espanhol, visto que ouço muito Rammstein sem saber o que estou ali a cantar e vejo também algum porno espanhol que merece melhor compreensão.

Uma parte boa é que podem aprender temas básicos sentados no sofá com uma cerveja na mão. Mas não abusem, ou esquecem-se de tudo o que vão aprender. Se tiverem filhos, têm sempre uma desculpa para ver o canal RTP Memória pelo canto do olho, enquanto mantêm aquela fachada de durões/duronas que se estão a cagar prá escola. 

Cheguem-se à frente. Não saber não é vergonha, vergonha é não querer saber. Podem não ter interesse numa carrada de temas, mas uma coisa que fazem todos os dias é comunicar. Seja ao telefone, em mensagens parvas no Whatsapp, em descrições intermináveis nas fotos do Instagram, a destilar ódio a comentar porcarias no Facebook... pelo menos façam-no com qualidade. Quando estão a debitar merda nas redes sociais, os erros ortográficos tiram-vos a credibilidade. Assim, assistam às aulas de Português, e quem sabe daqui a umas semanas já conseguirão escrever bosta mas com qualidade. Um dia, talvez leiam um livro. Força!






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"Se era obrigado a dirigir-lhe a palavra, fazia-o com uma tal profusão de floreados hipócritas que ela sentia desejos de o estrangular. O homem tinha blandícias repugnantes"

in Crazy Cock, de Henry Miller (1991)


blan·dí·ci·a
(latim blanditia, -ae)
substantivo feminino
1. Gesto ou demonstração de um sentimento de ternura ou de afecto. = AFAGO, CARÍCIA, CARINHO, MIMO
2. Gesto ou esforço para agradar ou atrair alguém. = ILÉCEBRA
3. Doçura, meiguice.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Este excerto e esta explicação do significado de blandícias faz-me lembrar quando era pequena e odiava que me dessem beijinhos (ainda odeio, mas agora consigo calar-me ou recusar). Contam-me os meus pais que quando alguém me dava beijos, especialmente os velhos, eu fazia blhec ou algum outro som de repulsa e limpava a cara com a manga da camisola, ou mesmo com o meu próprio cuspe, esfregando muito bem. Já na altura, não gostava de blandícias e dei origem a alguns momentos de constrangimento que, felizmente, fez os meus pais perceberem que não me podiam obrigar ao contacto físico com outras pessoas, e respeitaram. Nojo. Mal sabiam eles que, décadas depois, este bicho do mato é que viria a ter razão por manter a distância social e pela desinfecção constante.



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Estamos em pleno surto do Covid-19 e os comportamentos dos cidadãos estão longe do ideal. Apesar da grande parte da população estar em isolamento voluntário, continuamos a ver pessoas nas ruas, nos cafés, nos bares. Mentalizem-se que temos de estar em casa o mais possível, apenas saindo para o necessário - supermercado, farmácia, trabalho. Caso contrário, iremos rapidamente chegar ao ponto da Itália em que estar na rua sem um destes motivo dá pena de prisão.

Para além destas pessoas, estão-me a fazer comichão aquelas que optaram por ir de férias nesta altura difícil. No meu Instagram, por entre os posts do pessoal que está a tentar passar um bom bocado em casa e motivar os outros a fazer o mesmo, vejo as fotos e vídeos daqueles que estão a passar o momento das suas vidas no estrangeiro. Conheço algumas pessoas que foram para o Brasil e outras que foram para a Tailândia. Sendo ou não países com mais ou menos infectados, é de uma irresponsabilidade total andar nas praias, nos restaurantes, nas discotecas, nos hotéis, contactando com milhares de pessoas. E, depois, têm de voltar, claro. E mesmo com todos os cuidados que tenham, irão cruzar-se com outras centenas de pessoas nos aeroportos, nos aviões, podendo tornar-se agentes de propagação mesmo que não venham a ter sintomas.

Se é uma questão económica e de perder dinheiro, saibam que milhares de outras pessoas estão na mesma situação. Eu própria tenho uma viagem nacional e duas internacionais marcadas. Provavelmente não vão acontecer, certamente vou perder dinheiro que custou mesmo muito a ganhar, mas isso agora é o menos importante. A vida continuará depois disto e teremos tempo para fazer novos planos. Mas para isso teremos de estar vivos. Para isso, este período negro terá de passar. E para isso, temos de nos unir.

Dito isto, muita força a toda a gente e continuem com os cuidados básicos - lavem as mãos frequentemente e durante 20 segundos; mantenham a distância social; evitem aglomerados de pessoas; estejam o mais possível em casa; não recebam visitas; não estejam com os vossos idosos - depois disto tudo, vamos ter todas as oportunidades para nos voltarmos a ver e a abraçar novamente.



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Alerta - este filme nada tem que ver com a Xana Toc-Toc, a não ser que a moça sofra de algum Transtorno Obsessivo Compulsivo (daí o TOC).

Toc-toc é uma comédia espanhola da Netflix, leve, indicada para aqueles dias em que não nos apetece pensar muito e nos quais precisamos sorrir. No filme, várias pessoas com TOC veem-se fechadas no mesmo espaço. Cada uma delas apresenta diferentes manifestações da doença - há uma mulher obcecada com germes e bactérias que não toca em nada nem ninguém e que gasta o ordenado em embalagens de toalhitas; há um homem que não consegue pisar as linhas do chão - nos passeios, nos tapetes, etc; outra tem de verificar tudo em casa - o gás, as luzes, se tem as chaves consigo - tantas vezes que acaba por perder eventos importantes da vida; e por aí fora.

É um grupo de 6 pessoas cuja interacção por si só provoca situações inusitadas, que embora pareçam estranhas e exageradas, posso assegurar, como pessoa que convive com o TOC, têm muito fundo de verdade. Aliás, apesar da "lufalufa" característica das comédias espanholas do género, o filme pode até servir como catalisador para que alguém que sofra do problema resolva procurar ajuda e/ou saiba rir de si próprio. É um filme colorido, divertido/absurdo e com boas interpretações.

Há duas pessoas na minha vida - o namorado e uma amiga - que padecem de TOC. Há coisas que são ao mesmo tempo engraçadas e maçadoras. Por exemplo, quando vou às compras com o meu namorado já sei que, se existirem duas portas, só podemos usar a da direita. Igualmente, só podemos ir para as caixas da direita. Tem de ir lavar as mãos centenas de vezes. Não toca nos botões do Multibanco com os dedos. Fica doido se vê um CD cujas letras não estejam perfeitamente direitas - e quase me mata se abre a bolsa dos CD's e não estão na ordem que ele mesmo definiu e que eu não entendo. Enfim, é uma risota e um stress diário. Vejam o filme e compreendam "esta gente" 😂


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Depois do trabalho, aguardava eu na plataforma pelo comboio, como sempre de cabeça metida no livro. Nisto, começo a ouvir uma menina a tossir. Cof Cof. Cof cof. Um tossir fininho e com uma cadência fixa que começou a prejudicar a minha atenta leitura.

Começo a maldizer a miúda nos meus pensamentos e a procurá-la pelo canto dos olhos. Mas nada de gaiata. Que raio. Até que reparo que não é uma criança, mas sim um homem dos seus 50 anos. Cof cof fininho sem parar e um leve olhar para os lados que sugere que o próprio sabe que tosse como uma menina.

O homem recebe uma chamada e - ó, surpresa - tem voz grossa, e não tosse uma única vez enquanto fala. Deve ser uma síndrome do tipo Joacine, que não gagueja quando grita. Telefonema terminado, recomeça a tosse de menina. "Foda-se, que não se sente ao pé de mim no comboio", é a única coisa em que penso. Mas não, toda a gente com tiques estranhos tem de acabar na minha esfera de alguma maneira. Agora imaginem o que é estarem a ler um terror do Stephen King com um homem com um tique de tosse de menina ao vosso ouvido esquerdo. A magia perde-se, o mergulho nas trevas vai para o caralho.

Tenho-o apanhado todos os dias desde então. Não sei se tenha pena do homem ou se o empurre para a linha e acabe com o sofrimento sonoro de vários passageiros. E com o sofrimento da sua senhora que, no momento de fazer o amor, tem de ouvir uma criança. Duvido que tenha líbido. Pobre gente.


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