Palavras do Abismo


Há pouco vi esta notícia e achei maravilhoso.

O mecânico norte-americano Cross Scott, de 21 anos, viu uma mulher inanimada dentro de um carro, prontificou-se a partir o vidro para a ajudar e, vendo-a sem resposta, iniciou o processo de reanimação cardiorrespiratória. Ora o moço, sem formação alguma na área da saúde ou de suporte básico de vida, lembrou-se de um episódio do The Office, em que se faziam justamente uns exercícios de reanimação, e onde foi dito, pelos vistos acertadamente, que o ritmo ideal para comprimir o peito é ao som do “Stayin’ Alive” dos Bee Gees.

Então, entoou a canção e vá de bombear ao som da mítica canção de 1977, e não é que a senhora voltou a si momentos depois? Isto é fantástico em tantos sentidos. Em primeiro lugar, sinto-me muito melhor porque o vasto tempo que passo a ver séries pode não ser em vão... Depois, imaginar o homem a tentar salvar a mulher cantando "AH AH AH AH STAYIN' ALIVE, STAYIN' ALIVE" dá-me uma vontade de rir do caraças. E, deus meu, a ironia do nome da música! E, finalmente, porque revi um momento mítico desta série que é uma das melhores de sempre. Michael Scott forever!

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Nada do que possam ter visto do Ben Stiller vos vai preparar para a excelência que é a série Escape at Dannemora. É dos melhores trabalhos de realização que alguma vez vi. Foi uma supresa dos diabos, não estava prepararada para isto. Mas já lá vamos.

A minisérie é baseada numa fuga real que aconteceu em 2015 numa prisão americana - um evento tão mirabolante e surreal que por si só ultrapassa a ficção. Os prisioneiros Richard Matt (Benicio del Toro) e David Sweat (Paul Dano) trabalharam durante meses, arquitectaram o plano perfeito para escapar e, depois de o fazerem, ainda estiveram a monte imenso tempo nas densas florestas que separam a prisão do Canadá. Para conseguirem escapar, contaram com a ajuda de Tilly (Patricia Arquette), uma funcionária da prisão que se envolveu emocional e fisicamente com ambos os condenados.

O plano arquitectado por Matt já é por si só uma obra de arte, mas conhecer todos os trâmites do mesmo, ver as suas ideias a ganhar luz, a sua personalidade calculista a surgir, assistir à forma como manipula as situações e pessoas à sua volta (especialmente Tilly) é algo muito especial e interpretado de forma perfeita por Benicio del Toro. É um papel feito à sua medida e não imagino mais ninguém a fazê-lo. Paul Dano, que pouco conhecia, surpreendeu-me deveras, como Sweat, o braço direito de Matt, o homem que representa o trabalho e a força, em oposição à parte cerebral do seu parceiro. Já agora, não posso deixar de mencionar a parte inicial do episódio 5, protagonizada exactamente por Paul Dano - deve ser o melhor long shot que alguma vez vi, é um hino absoluto à televisão, até ao cinema, e só me apetece fazer vénias ao Ben Stiller. Se virem, vão facilmente saber do que falo.

Deixei a Patricia Arquette para o fim porque não tenho muitas palavras para descrever a perfeição com que desempenhou este papel. Transformou-se fisicamente e entrou na pele desta mulher de corpo e alma. Tilly é uma mulher simples mas ambígua, que tem noção do que faz mas sem ver maldade por aí além, que representa também a vontade de escapar - da sua vida linear e sem aventura. O marido, interpretado por Eric Lange, também merece uma menção honrosa e é mais um caso extraordinário de adaptação física e emocional ao homem, Lyle Mitchell.

Houve um esforço enorme para aproximar a série à realidade, não só no trabalho extraordinário dos actores, mas também também nos locais - tanto a prisão, como a vila, os arredores, tudo o que vemos é real. Isto torna-se um aspecto muito importante que torna a narrativa ainda mais imersiva. A juntar à realização, à fotografia, à banda sonora, torna esta série uma das melhores do ano.

Esta é daquelas que, se tiverem oportunidade, é obrigatória. Está a passar no TVSéries. Foi nomeada nos Globos de Ouro para Melhor Minisérie e a Patricia arrecadou o de Melhor Atriz - super merecido. Antevejo que faça também muito sucesso nos Emmy.

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Vivemos num mundo estranho. Um mundo em que, se um desesperado roubar uma maçã para dar aos filhos esfomeados, incorre em pena de prisão ou em multas que nunca poderá pagar; e onde um futebolista se safa com tudo. Ontem o nosso querido CR7 foi condenado a pagar quase 19 milhões de euros por ter fugido às suas obrigações fiscais. Não nos percamos na semântica - foi um roubo provado, e não foi para a prisão porque em Espanha, nas sentenças inferiores a 24 meses de prisão sem antecedentes criminais, a pena não é aplicada. Curiosamente, a sua sentença foram 23 meses. E esta hein? Por um triz. Que coincidência. Assim, o homem admitiu a falcatrua, pagou a multita que para ele são peanurs e foi à sua vida.

O povo português (e não só) tem uma capacidade imensa de perdoar no que toca às suas estrelas maiores. É como se não fosse nada, está tudo bem. Estão constantemente a criticar quem lhes rouba os cêntimos do bolso que tanto lhes custam a ganhar, têm sempre uma palavra a dizer sobre todas as políticas, são os maiores justiceiros nas redes sociais, mas é deus lá em cima e o Cristiano cá em baixo, intocável e sereno.

"Mas ele ajuda os pobres", "ele eleva o nome de Portugal", "é o melhor futebolista do mundo", blá blá blá. Tudo correcto, mas experimentem não pagar as vossas dívidas e depois digam se foram tratados com a mesma dignidade e respeito. Depois, o homem saiu do tribunal com o maior sorriso no rosto, todo ele autógrafos, charme e perfume, no pasa nada.

Hoje vi esta imagem e pensei, tal e qual. O dinheiro governa o mundo. Ninguém achou a situação estranha, anormal. Não houve manifestações, nas notícias apenas menções, nas ruas apenas fãs a pedir autógrafos. E só me leva a concluir, que nós não odiamos os emigrantes. Odiamos é emigrantes pobres.



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"Entre as longas hastes de bunho que os ultrapassavam em altura, procuraram o melhor sítio. O caminho era inçado de dificuldades. Por vezes, abria-se um buraco cheio de água negra e lodosa, onde as pernas se atascavam até aos joelhos."

in Terra do Pecado, de José Saramago (1947)

in·ça·do
adjectivo
Cheio, contaminado.

in·çar
verbo transitivo
1. Encher (de coisa miúda e molesta).
2. Contagiar.
3. Desenvolver em.

verbo intransitivo
4. Desenvolver-se, propagar-se (animais).

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Um caso daqueles em que nem é preciso ir ao dicionário para perceber a palavra. No entanto, juro que não lhe adivinhava a existência. Inçado é, portanto, cheio, repleto, desenvolvido. Não confundir com o parecidíssimo inchado. Podemos dizer, por exemplo, que aquele gajo do ginásio está inchado e inçado de químicos. Assim, na mesma frase, para nos armarmos em bons. Ou podem reformular velhas expressões e dizer que o copo está meio inçado ou meio vazio. Estou inçada de ideias.

PS: para quem não sabe o que é o bunho, na primeira frase, são estas ervinhas muito comuns no nosso país, especialmente à beira de lagos, rios e outras zonas húmidas.


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"Estás a gozar, não estás? Só podes estar a gozar.

Porque é que haveria de estar a gozar?

Tu não queres morrer.

Também não quero viver.

É melhor estar vivo do que estar morto.

Dá-me uma razão.

Sei lá. Estares vivo para ires à praia no Verão.

O sol faz-me mal à pele.

Para tomares conta dos teus filhos.

Não tenho filhos nem quero tê-los.

Dos teus sobrinhos.

Sou filho único.

Para leres um bom livro.

Já te disse que detesto ler.

Ou veres um bom filme.

Os filmes roubam-nos a imaginação.

Para usufruíres dos prazeres da mesa.

Comer dá-me gases, tenho um estômago fraco.

Dos prazeres da cama.

Tenho um pénis pequeno e sofro de ejaculação precoce.

Porra, disse eu, quase a gritar, e que tal para poderes respirar? E sentires o calor do sol, e o frio da noite, e saboreares um fruto, e poderes olhar para as estrelas e perguntares-te que raio andamos a fazer aqui, e sentires medo e dúvida e esperança e aquelas coisas todas que as pessoas sentem quando não estão fechadas nas suas cabeças a tentar resolver uma equação impossível?"

in Ensina-me A Voar Sobre os Telhados, de João Tordo (2018) 

 

O que é certo é que as minhas razões de viver não são as tuas. As tuas dores não são as minhas. Não quer dizer que não as compreenda, mas tenho as minhas, que também doem, moem, e me distraem das tuas. Os nossos problemas são sempre maiores no nosso íntimo que os problemas dos outros. Mas acredito que cada um de nós lá terá as suas razões para se levantar da cama. Às vezes não são óbvias e não chegamos logo lá. Às vezes demoramos dias, meses, anos, a perceber. Às vezes, enquanto esperamos que se faça luz, faz-se mais negro. Às vezes, também, complicamos demais. Podem não existir razões efectivas mas há decerto sensações e sentimentos a que nos podemos agarrar. Nem que seja o sabor daquele gelado fresco num dia estupidamente quente. Um nascer do sol com um degradé perfeito de cores no horizonte que nos deixa colados ao chão. Ler os nossos Saramago, e José Luís Peixoto, e João Tordo, e Afonso Cruz, e o Camilo, e o Eça. Correr até as pernas tremerem e inspirar o ar às golfadas. O primeiro mergulho do ano. As nossas razões não têm de ser muito complexas, nem têm de se projectar a longo prazo. Viver é só sentir. Um dia de cada vez.

PS: desabafo inspirado nas palavras de João Tordo. Vale a pena lê-lo.


 
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O problema não são as trotinetes em si. São as pessoas. Mas como as pessoas são 100% dos problemas do mundo, explico.

Há algumas empresas em Lisboa que fornecem trotinetes. É uma forma de deslocação ecológica e engraçada, e até aí tudo bem. Só que quem se lembrou desta ideia devia ter pensado melhor na forma como, no final do passeio, as trotinetes devem ser arrumadas. As regras diferem de empresa para empresa, e já fui consultar algumas das condições que dizem, por exemplo, que são aplicadas coimas a quem abandona as ditas cujas nas ruas, em zonas de passagem de peões ou de trânsito, mas basta olhar lá para fora para ver que isso não está a resultar.

Trabalho numa zona de Lisboa que já nem se pode considerar Centro, e no entanto não há um único dia em que não veja trotinetes abandonadas por aí. Vejo-as às portas do metro, nos passeios, e ontem, como mostra a foto em baixo, vi uma caída, abandonada e sozinha no chão, no Campo Grande, junto ao estádio do Sporting.

Na última vez que fui à Baixa, há umas semanas, vi dezenas destas coisas em poucas horas. E em algumas ruas, como na Rua do Alecrim, estavam bem no meio do passeio, impedindo a passagem de cadeiras de rodas ou de carrinhos de bebé, já para não falar dos invisuais, que devem estar contentíssimos por estes novos obstáculos surpreendentes que tornam o seu dia menos banal.

Tudo estaria muito bem se as pessoas fossem civilizadas e pensassem no próximo antes de largarem aquela porcaria em qualquer lado; mas como não são, e como toda a gente sabe que não são, as empresas têm de encontrar uma solução. Não podem lançar as ideias sem pensar nas consequências! E, claro, a Câmara também tem culpa no cartório. O que é assustador é que há 4 empresas do género a operar em Lisboa e estão mais 20 em concurso preparadíssimas para entrar no negócio.

Até agora, isto é mais uma nova forma de poluição na cidade, como se já não houvessem bastantes. O lixo dos novos tempos...

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Vender um rim é sempre coisa chata. Começa por ser chato saber qual é o preço ideal de venda, é item que não abunda muito pelo OLX e sites similares. Depois, é chato por causa das complicações de saúde, e o outro rim pode armar-se em parvo mesmo só para chatear, deixar de funcionar, e dar origem a percalços. E ainda, o motivo. Vender um rim para dar um tecto à família pobre, para pagar medicação da mãezinha moribunda, para salvar a sobrinha que foi raptada e exigem resgate, isso são causas aceitáveis. Vender um rim para comprar um iPad e um iPhone é só estúpido e quem fizer isso merece uma marretada do karma na cabeça.

Foi isso mesmo que aconteceu ao chinês Wang Shangkun, de 25 anos, que achou não precisar de um segundo rim para nada, e lá vendeu o órgão para poder desfrutar do último grito na tecnologia. Vai-se a ver e olha, a coisa não foi bem feita e para além de estar em mau estado, depende da hemodiálise para sobreviver.

Pelo menos agora, quando estiver consciente, a espaços, terá muito tempo para ver vídeos num ecrã fantástico, e para tirar selfies espectaculares numa cama de hospital.

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Mid90s é a primeira longa metragem dirigida por Jonah Hill - e que estreia! Conta a história de Stevie, um rapaz de 13 anos a crescer nos anos 90, e a sua saga para pertencer a algum lugar. É claro que a minha geração, que também era criança / adolescente nessa saudosa década, vai imediatamente criar laços com a película - só de olhar para as roupas, as cassetes, as bandas que o puto ouve, e até o facto de se brincar na rua, sem telemóveis e outras porcarias - ficamos emocionalmente colados.

Stevie está naquela idade parva em que já não é uma criança e está longe de ser um adulto. Tem um irmão mais velho que lhe dá umas sovas de vez em quando e não lhe vemos amigos no horizonte. Ele admira os skaters que vê na rua - rapazes mais velhos do que ele, que se vestem e agem de modo peculiar, à margem da lei, que estão sempre rodeados de outros rapazes e raparigas que os admiram. E, é claro, quer ser como eles. Até que arranja coragem para, um dia, se lhes juntar num spot onde aqueles costumam parar e, a pouco e pouco, vai impondo a sua presença, e ganhando o dia, quando eles se dignam a falar com ele ou a pedir-lhe qualquer coisa.

É enternecedor ver a alegria do miúdo quando consegue a atenção dos rapazes mais velhos; é assustador ver como irá contra a família, especialmente contra os ensinamentos da mãe, para agradar aos novos amigos; e, porque o filme é muito bem feito, acabamos a torcer por ele em todas as etapas em que o acompanhamos.

Tudo isto é contado numa narrativa que prima pela simplicidade e crueza. É a história de um miúdo de um bairro normal e todos conseguiremos encontrar um fio que nos une a ele - e um clique faz-se na nossa cabeça porque também passámos por coisas similares. Não há detalhes desnecessários nesta história, o fio condutor é perfeito, levando-nos a rir e a ficar de lágrima ao canto do olho.

A banda sonora é da autoria de Trent Reznor e Atticus Ross, o que é um selo de qualidade prévio. O casting é perfeito e por momentos nem parece que estamos a ver um filme, mas sim cenas da vida real. Poucos filmes me encheram as medidas como este. É um retrato honesto, refrescante, sentido, uma estreia surpreendente de Jonah Hill.

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"Sentado na carruagem, a observar o seu reflexo no vidro do lado oposto, as muletas encaixadas no meio das pernas, Saburo já não se encontra ali, porque tudo em que consegue pensar é no sorriso envergonhado de Graça, na delicadeza dos seus gestos, na maneira como o seu rosto ocidental reflecte a noite, na sensação, porventura espúria, de que ela o escolheu."

in Ensina-me A Voar Sobre os Telhados, de João Tordo (2018)

es·pú·ri·o
(latim spurius, -a, -um, bastardo, ilegítimo, falso)
adjectivo

1. Que não tem pai certo ou que não pode ser perfilhado (ex.: filho espúrio). = BASTARDO, ILEGÍTIMO
2. [Figurado] Que não está como o autor o fez. = ADULTERADO
3. Cujo autor não é aquele a quem se atribui a autoria. = APÓCRIFO
4. Que se falsificou. = CONTRAFEITO, FALSIFICADO ≠ AUTÊNTICO, GENUÍNO
5. Estranho à boa linguagem (ex.: palavras espúrias). ≠ CASTIÇO, VERNÁCULO
6. Que é contrário às regras. = ILEGÍTIMO, ILÍCITO, INOPORTUNO
7. Que apresenta sujidade ou pouca higiene. = ESPURCO, IMUNDO, SUJO ≠ ASSEADO, LIMPO
8. [Medicina] A que faltam os sintomas característicos ou habituais (ex.: anemia espúria).
9. [Antigo] Despojado, privado.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 

Ena, ena, eis que com 7 letrinhas apenas se pode dizer uma carrada de coisas. Espúrio, palavra pouco bonita mas com tanto significado. Se tiverem um filho fora do casamento, então a cria é espúria. Se comprarem ténis da Nike nos ciganos, lembrem-se que o produto é também espúrio. Assim como é espúrio se assaltarem um banco ou matarem alguém. Se não vos apetecer tomar banho durante uns tempos, ficam espúrios. Se vos faltar água em casa, também se revelam espuriados (?) desse bem essencial. No meio disto tudo, fico sem saber qual é o sentido da palavra na frase de João Tordo, mas vou arriscar que o Saburo ficou uma sensação, porventura, falsa.

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 Nesta sátira política, Sacha Baron Cohen, tal como tão bem ele sabe, entra na pele de vários personagens, para nos dar um vislumbre de como são os americanos. Irreconhecível na maioria das peles em que entra, ele entrevista e promove eventos junto de algumas personalidades políticas, celebridades, mas também do americano comum.

O melhor desta série é que é assustadora. É assustador saber que existem pessoas assim. Custa a crer que a realidade é esta. Que em pleno século XXI exista tanto preconceito, tanta mente fechada, e não só, ignorantes, burros que nem uma porta.

O meu personagem favorito é o coronel Erran Morad, um agente militar israelita islamofóbico e com métodos pouco ortodoxos para combater o Estado Islâmico. Ele é um homem duro, másculo, machista, intolerante. Dando um exemplo que me vai ficar para sempre na memória, ele convenceu um americano de que era possível combater os islâmicos homem-a-homem porque eles têm medo de ficar gays, e uma grande arma contra eles é baixar as calças e esfregar-lhes o rabo nu, ameaçando-os de mariquice. Sim, isto é real. Sim, isto aconteceu, e sim, vemos esse homem a simular um ataque com o seu rabo despido. Podem ver no clip em baixo. Esse gajo, um célebre advogado, ganhou vergonha na cara e apresentou a demissão. E é apenas uma das "vítimas" da série.

Outro personagem que gosto muito é o Billy Wayne Ruddick, apoiante de Trump e que não olha à lógica para defender o melhor presidente de todos os tempos. Mas não há nada como assistir, porque cada episódio é um choque. Sem exagero, disse "foda-se" pelo menos 10 vezes em cada um deles, e passei-os de boca aberta. Não consigo também deixar de pensar na genialidade deste homem. Sasha é um dos melhores. Se puderem, vejam - está a passar no canal TVSéries.

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A parte boa desta geração Netflix em que vivemos é que chegam até nós muitos e bons filmes, com imensa gente talentosa envolvida. É o caso de Bird Box, de Susanne Bier, protagonizado por Sandra Bullock e com a participação de John Malkovich e Sarah Paulson. A parte menos boa é que a quantidade traz, por vezes, ideias que já vimos em algum lado, a originalidade perde-se e temos cada vez mais dificuldade em filtrar o que nos vem parar às mãos.

Não obstante, este é um dos filmes que vale a pena ver, apesar de algumas falhas no argumento e da incapacidade de se encaixar na categoria de "terror", como foi apregoado. Suspense, thriller, aceito.

O filme passa-se num futuro apocalíptico onde, de repente, a população começa a suicidar-se sem explicação. A vontade súbita de morrer causa o caos e torna o início do filme muito dinâmico e prometedor. Esta parte em que o problema ainda é desconhecido e em que pessoas, estranhas, partilham o mesmo espaço, as mesmas dúvidas e medos é de facto interessante. Conforme o avançar da narrativa, vão percebendo que o problema está no olhar - quem abre os olhos fora de portas começa a ver coisas que levam ao suicídio. O quê, não sabemos, pois só temos pequenos vislumbres de movimentos e sombras.

Tudo isto passa-se ao jeito de flashback - no presente, Malorie (Bullock) tenta levar duas crianças para um lugar seguro, e propõe-se a atravessar um rio, numa floresta densa e isolada, durante dias, com os olhos vendados. Ela, e as crianças. E apesar da coragem demonstrada e da experiência adquirida, há um sentimento de impossibilidade que se cola a nós, e não podemos deixar de pensar, "yeah right".

Mas isto sou eu que sou incrédula, e considero-o um bom filme, com um leque de actores excelente, uma boa fotografia, e que consegue criar momentos de intenso suspense, que acaba por nos deixar agarrados até ao final. Não deixamos é de pensar nos filmes recentes do género - ainda há pouco tempo saiu um tal filme em que não se podia falar, outro antes desse em que não se podia respirar, agora não se pode ver, estará para vir aquele onde não se pode tocar, ou onde o chão é lava.

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"A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinária que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperança, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto (...)" 

in Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco (1862)

va·le·tu·di·ná·ri·o
(latim valetudinarius, -a, -um)
adjectivo

1. Que tem pouca saúde.
2. Enfermiço, fraco ou combalido.
3. Sujeito a enfermidades contínuas.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Muito se aprende nos livros do tempo em que a nossa língua era mais completa, complexa e rica. Palavra grande para descrever estado tão simples, e que pena é que se tenha quase perdido em décadas de degradação linguística. Para enriquecerem um pouco o vocabulário neste ano que agora começa, e se estiverem ranhosos como eu, ou com outra enfermidade, podem declarar que estão valetudinários, e a vida não será a mesma, até porque várias pessoas se afastarão de vocês, temendo alguma doença esquisita.


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