Livros Bacanos #10 - A Biblioteca do Censor de Livros, de Bothayna Al-Essa (2019)

junho 09, 2026

Algures no futuro, a sociedade é totalmente controlada pelo Governo e não existe espaço para a individualidade. Os cidadãos devem vestir-se de igual, morar em casas iguais e cumprir o dever de casar, trabalhar e procriar. A internet foi proibida e não existem telemóveis ou outros aparelhos eletrónicos - esses pertences são agora uma relíquia do passado e não têm espaço numa sociedade onde é imperativo não ter ideias. A imaginação é, inclusivamente, proibida. Quando as crianças têm tanta imaginação que não é controlável pelos pais ou pela escola, são encaminhadas para centros de correção, de onde a maioria já não volta. Depois, fazem-se mais filhos para os substituir.
Perante este contexto, é fácil depreender que os livros são censurados - apenas são aprovados os que se mantêm o mais genéricos possível, maioritariamente sobre o amor (entre um homem e uma mulher casados, claro) ou de auto-ajuda. Falar sobre religião, sexo ou o Governo é chumbo automático. Pronunciar "democracia", "homosexualidade" ou "demónio" dá direito a desaparecer do mapa.

O Censor de Livros, protagonista, começou na função há pouco tempo e já está farto de leituras fáceis. Já não pode ver livros insípidos de amor à frente, e sonha ter nas mãos verdadeiros exemplares perigosos, apenas para ter o prazer de ser ele a censurá-los e retirá-los de circulação. Tanto insiste, que lhe é atribuído um clássico - Vida e Andanças, de Alexis Zorbás. No entanto, ao invés do prazer de ser ele próprio a proibi-lo, deixou-se minar pelo prazer da leitura. As personagens passaram a popular-lhe os sonhos e os pensamentos. Nunca mais foi o mesmo. Apoderou-se dele uma sede de ler e saber, e até começou a compreender mais a filha, vítima de imaginação, a qual ele tem tentado esconder.

A sua nova fome de conhecimento e de histórias fez com que encontrasse outras pessoas como ele, da chamada Resistência. Mesmo lutando contra os seus instintos de querer ter uma existência pacífica e obediente, tenta salvar livros essenciais da nossa História no submundo noturno desta cidade sem nome, para evitar a morte da memória coletiva.

Vivendo nestes tempos, esta existência plana controlada por um organismo estatal e sem liberdade de expressão já não nos parece tão distante. E por isso, livros como este são necessários para nos mostrar como o mundo seria sombrio sem livre arbítrio e sem as diferenças que nos tornam humanos. Mostra-nos também a luta interior de um homem que quer ao mesmo tempo obedecer às regras e não levantar ondas, e por outro lado descobrir todo um mundo novo, mágico e encantado, que o chama bem alto. É uma leitura que se faz a bom ritmo: melancólica, mas também com humor, cheia de peripécias e personagens absurdas, que nos lembra o valor de viver em democracia.



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