Palavras do Abismo

No passado fim de semana, passeava em Alvalade, Lisboa, quando um indivíduo, alto, espadaúdo, envergando um fato caro, mete pelo passeio interferindo no meu ângulo de visão. Rapaz dos seus 30 e tal anos, revelando semelhanças físicas com os modelos Guedes (lembram-se desses manos?), mas com barba maior, o espécime exalava até algum charme, até que...

... pôs uma mochilinha de mulher às costas. Preta, ornada com desenhos florais e com finas correntes, muito feminina. Ainda por cima, a mochilinha ficou-lhe presa às fraldas da camisa, que levantaram todas e se enrolaram com o casaco. Portanto, de gajo parecido com modelos, o rapaz ficou a parecer levemente louco quando, por baixo do seu acessório feminino (que tem todo o direito de usar, atenção, embora não combinasse nada com o seu fato masculino de aspecto carérrimo) a sua roupa ficou enrodilhada e levantada, exibindo-lhe o traseiro. E foi engraçado, até que...

... começou a tirar selfies como se fosse a coisa mais importante que tivesse de fazer naquele dia. De todos os ângulos - de cima, baixo, dos lados, de um lado do passeio, do outro, ainda enrodilhado - ao mesmo tempo que reparei que cambaleava e que a linguagem gestual era a de alguém que tinha passado a noite na farra e cuja última linha de coca ainda estava a bater. É incrível como passamos de presumíveis modelos a presumíveis drogados.

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Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



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Podem substituir "raio" por "caralho" no título deste post para melhor sentirem o meu estado de espírito, que de momento é merdoso. 

Foda-se, tenho 33 anos, pensei que por esta altura a questão dos sisos estava arrumada, e seguia feliz na minha vidinha quando um desses cabrões decidiu infectar. Criou abcesso, a boca inchou, começou a empurrar os outros dentes (um belo moshpit na minha boca - eu sei que mereço) e foram dias intensos a sentir uma das piores dores da minha vida - está no top 3, a seguir à pedra nos rins e à hérnia discal - até o antibiótico fazer efeito. 

Foram quatro noites sem dormir, e porquê? Para quê? Porque é que temos dentes que nos incomodam tão tarde na vida? São como aquelas visitas indesejadas - não queremos que venham, não temos espaço para elas, e mesmo assim elas entram-nos porta adentro, sem dia e hora para bazar, fazendo da nossa vida um rebuliço, deixando tudo de pantanas. E, quando finalmente elas se vão, não deixam saudade alguma. Adeus, já vão tarde! Só é pena não podermos tirar essas pessoas tóxicas da nossa vida com um alicate. 

O meu hóspede indesejado foi retirado esta manhã e ainda estou sob efeito da anestesia, e por isso ainda tenho espírito para escrever antes das dores chegarem. Vim aqui deixar um conselho aos jovens - vocês retirem esses cabrões todos da vossa boca. Assim que souberem que os sisos estão para nascer, ou se começam a espreitar, não hesitem e arranquem-nos. Não os deixem crescer nem infectar, porque depois sofrem em dobro. No mercy para esses motherfockers!

Ah, spoiler alert - como podem ver, o juízo não vem com o siso.


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"Onde há fumo há fogo" - um ditado cuja popularidade e forma serão em breve substituída por "onde há obra há reformado". Desafio um de vós a dizer-me que nunca viu um grupo de reformados diante de uma obra. Por favor, desafio-vos.

É certo e sabido que quando se atinge os 65 anos de idade, começa a crescer um formigueiro, um entusiasmo inexplicável, um íman que atrai o macho sénior para a nobre actividade da observação de obras. É fácil reconhecer estes vândalos da opinião da construção civil: operam em grupos, grandes e pequenos, e ficam estáticos, de mãos atrás das costas, estas ligeiramente inclinadas. De vez em quando arriscam as cruzes, baixando-se até a uma posição que não usavam desde 1986, se for preciso observar de perto por baixo de um pial ou uma entrada subterrânea para uma garagem. Alguns membros do gangue podem usar bigode, ou não, é mais possível que enverguem uma boina ou boné, porque isto de estar lá fora muito tempo deixa assaduras nas bochechas e pontas dos narizes. Todos eles expelem um leve cheiro a mofo e naftalina, mas também todos os velhos cheiram ao mesmo. Não é por observarem as obras, eu é que quis dizer isto.

Quando se atinge a idade da reforma, e não importa qual é a actividade que exerciam, todos ficam experts em obras. Quer tenham sido barbeiros, bancários, contabilistas, motoristas, não importa - entre a faixa dos 60 e 70, um dia eles acordam a saber tudo sobre a arte de armar betão. E assim colam-se à frente da construção, metendo conversa com os pedreiros, atirando bitaites, emitindo opiniões que isto devia ser assim ou assado, e que a tal janela devia estar virada nascente em vez de poente, e que a inclinação da entrada devia ter menos 9 graus, atiram datas para o ar adivinhando quando aquilo irá estar acabado (se calhar fazem apostas), vão buscar o lanche e a mini à pressa e emborcam tudo sem tirar a obra de vista, ainda assim ela termine e eles não estejam no seu posto.

E depois o processo termina e eles lá vão para a próxima obra (devem ter uma aplicação secreta que lhes diz onde existem mais obras nas imediações), até a Maria ter o jantar feito. Um dia, veremos anúncios de emprego para estes observadores de obras, porque é injunto usarem o seu intelecto em decadência para tanta opinião e não receber nada em troca. Quando virem o próximo gangue de observadores, parem, escutem, juntem-se uns minutos, apreciem o conhecimento desmedido que estes homens têm para dar. Pena que seja um clube exclusivo a machos, porque nada me daria mais prazer do que passar a velhice a levar com aquele pó de cimento na tromba. Dizem que faz milagres às rugas.

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Já passaram vários dias desde o lançamento da campanha e provavelmente já toda a gente viu, mas há que enaltecer e parabenizar a Comunicação do Benfica, mesmo com atraso, na campanha do clube cujo mote é "Seja a família como for, o importante é haver amor".

No vídeo, vemos várias famílias - pais e filhos, casais sem filhos, famílias com mãe e mãe, ou pai e pai, com avós, padrastos e madrastas, famílias grandes, pequenas, interaciais - mostrando o que devia ser óbvio para todos - cada família é válida e é única.

Num mundo em constante luta contra a discriminação, é bom ver um clube grande e com expressão mundial a fazer este tipo de campanha, que chegue a milhares de pessoas, e que expresse os valores de vários tipos de igualdade. Deixa-me um fiozinho de orgulho, uma réstia de esperança.

É claro que este tipo de comunicação arranca sempre diarreia mental de alguém, e vi comentários do género "ainda bem que não sou deste clube de panascas", e coisas piores, mas que fazer? Há atrasados mentais em todo o lado, especialmente nas redes sociais, escondidos atrás de um ecrã, masturbadores que ficam com pau com a sua própria graça e perspicácia.

Que não nos deixemos de lembrar desta mensagem. Somos todos diferentes - temos o direito à diferença - e não nos podemos deixar atingir pelas larvas da sociedade que se alimentam do desprazer alheio. Que cada um viva a vida à sua maneira e que respeite o próximo - só isto bastaria para o mundo fosse altamente.

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Ricky Gervais é uma das pessoas que mais admiro no mundo - para além daquela mente genial de onde saem grandes ideias, do elevado sentido de humor (negro), ele é um ser humano notável, um activista vegan que não se cansa de apontar o dedo a quem maltrata e abandona animais, que cria e promove acções para a sua defesa, levanta a voz contra as touradas e outras atrocidades; já para não falar das fortes críticas que não tem vergonha de tecer ao poder político.

Assim, quando a série After Life estreou, escrita e dirigida por ele, mergulhei de cabeça nos seus 6 curtos episódios. Estava à espera que fosse boa, mas não tão boa. Não é possível que tenha sido tão boa.

Em After Life, a esposa de Tony (Ricky) morreu de cancro. E ele, que outrora foi uma pessoa normal, torna-se praticamente insuportável para o resto do mundo, e até para ele próprio. Gozar a vida deixou de fazer sentido; levantar-se e realizar as tarefas normais parece despropositado; seguir em frente com a rotina parece obsceno; tudo porque metade dele morreu, e agora ele quer morrer também.

A depressão tornou-o num ser sem empatia - se ele não se consegue respeitar a si próprio, como é que iria ter em conta os sentimentos dos outros? Assim, deixou de ter filtro. Diz exactamente o que sente, extrapola toda a raiva que tem para cima dos outros, o que para nós, espectadores é, ao mesmo tempo, divertidíssimo e muito triste.

A série tem uma humanidade assustadora, e sentir, ver e ouvir alguém que passa por um período tão negro, faz-nos compreender um pouco a depressão. O impacto na sua vida é notório - a casa desleixada, as roupas por lavar; assim como o impacto nos outros - a família não sabe como lidar com ele, os colegas não sabem com lhe responder aos constantes comentários insultuosos e as pessoas que vão surgindo na sua vida não conseguem descodificar se ele está a sofrer ou é apenas um grande idiota.

É a cadela que o liga à realidade - é por ela que se levanta, que se esforça por ir ao supermercado, que opta por ocasionalmente sair de casa; é com ela que desabafa, e é ela a sua maior ligação com a falecida esposa. É uma relação terna que emociona e na qual muitos de nós nos podemos rever. Também o liga à realidade um vídeo que a sua mulher deixou, onde lhe dá poderosas indicações sobre como, basicamente, viver. Como se ela soubesse exactamente onde ele iria ter dificuldades, como se iria abaixo - como se fossem excertos de aprendizagem que o ajudam a reaprender a apreciar a vida.

After Life tem a capacidade de pôr em imagens, palavras e sons aquilo que não se consegue dizer. Acima de tudo, tem uma honesta brutalidade que choca e emociona ao mesmo tempo. Consegue ser triste, e conter em si esperança, raiva, beleza, humor negro - dá para rir e chorar no mesmo minuto. É genial, fresca, uma obra do caraças que marca um pico de Ricky Gervais. É absolutamente imperdível e está disponível na Netflix.

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"As coisas seguiram o seu rumo, sendo o desejo de ter uma conversa normal refreado, pelo menos durante os primeiros minutos pelo decoro que a situação exigia; o espírito de onde vinham ainda perdurava nos fatos escuros e nos modos silenciosos e postergadores, até que, com um copo de vinho no estômago, as pessoas se viraram, imersas numa conversa súbita, para a janela ou o sofá, e a vida espontânea da festa, que no fundo era a própria vida, começou." 

 In O Caso Sparsholt, de de Alan Hollinghurst (2017)

pos·ter·gar
(latim *postergare, de post tergum, atrás das costas)
verbo transitivo
1. Deixar para trás, dando preferência a pessoa ou coisa que não deveria ser preferida. ≠ FAVORECER, PREFERIR
2. Não dar atenção. = DESCONSIDERAR, DESCUIDAR, DESPREZAR, MENOSPREZAR ≠ ATENTAR, CONSIDERAR, ESTIMAR
3. Deixar em atraso. = ADIAR, PROCRASTINAR ≠ ADIANTAR

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Uma palavra bonita para dizer "preguiçosos como o caralho" ou "fazer escolhas de merda". Quem nunca foi postergador, que atire a primeira pedra. Quem nunca optou por fazer a coisa errada, ou escolheu uma pessoa que se sabe tóxica? Quem nunca descuidou os seus afazeres, as suas tarefas, ou até mesmo as pessoas que se querem bem? Quem nunca adiou algo até não poder mais? Pois é, sois todos postergadores. Eu postergo, tu postergas, todos os dias da nossa vida.

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Estamos no Século XVIII e a Inglaterra está em guerra com a França. A rainha Anne (Olivia Colman) tenta governar como pode mas, devido à progressão da gota, o seu discernimento e capacidade de decisão incertos dão poder à sua amiga, Lady Sarah (Rachel Weisz) para tomar decisões em seu nome. As duas têm uma relação muito próxima e misteriosa, mas parecem entender-se, de uma forma ou outra, sobre os destinos do país e da guerra, que assentam nestas duas mulheres naturalmente líderes.

A relativa paz foi perturbada quando Abigail (Emma Stone) chegou. Prima afastada de Lady Sarah, chega aos aposentos reais pedindo trabalho e o seu charme e juventude sensibilizam a parente. Aos poucos, Abigail vai impondo a sua presença e, com a sua jovialidade e os seus modos prestáveis, ganha a confiança da rainha. Forma-se um trio de mulheres de força que ao início funciona como uma máquina oleada, mas onde a sede de poder e a ambição vão afectando as engrenagens...

Este filme era o meu preferido na corrida ao Melhor Filme nos Óscares, por diversas razões. É realmente diferente - apesar de ser um filme de época, tem técnicas que não estamos habituados a ver neste género. Tem uma abordagem sarcástica, explícita e inteligente, num argumento fortíssimo. A fotografia e cinematografia são de topo. A banda sonora é inesperada e assenta que nem uma luva. O casting é maravilhoso. O realizador Yorgos Lanthimos fez um trabalho extraordinário. É daqueles filmes que vai ser visto daqui a 20 anos e vai continuar a ser um marco.

Para além dos aspectos mais técnicos, explora a natureza corrupta humana de uma forma que extrapola convenções, inserida numa tragédia barroca que provoca a moralidade. Há também toques de surrealismo em determinadas situações mas que, curiosamente, não nos provocam estranheza. Outra coisa inédita é que não existem personagens especialmente simpáticas ou que inspirem confiança, coisa que vai totalmente contra "as regras" que estamos habituados a observar no cinema. Aliás, este filme proporciou-me uma experiência rara - mudei completamente de opinião sobre algumas das personagens, sem reparar, durante o filme. Uma autêntica lavagem cerebral do Yorgos.

Olivia Colman ganhou, merecidamente, o Oscar de Melhor Atriz, e o filme teve outras 9 nomeações - incluindo Melhor Atriz Secundária para as outras duas grandes mulheres da trama, e Melhor Filme. Se ainda não viram, The Favourite é paragem obrigatória - um monumento ao cinema, imoral, absurdo, cativante, emocional, belo na sua estranheza. Vai originar algumas torcidelas de nariz se não tiverem a mente um bocadinho aberta...

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O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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Este artigo é de fevereiro, mas só agora o consegui ler na íntegra. Na altura, reparei em alguns excertos partilhados nas redes sociais, e achei uma comédia tão hilariante que decidi guardar para ler depois. E agora não consigo ficar calada, porque esta senhora, a Joana Bento Rodrigues, que está muito bem conservada para quem tem 240 anos, não me representa enquanto mulher e quero deixar isso bem claro.

"A mulher dita feminista – a que integra as “tribos”, a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar – optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal. São estas três últimas, as características mais belas da mulher!"

Começamos tão bem! De acordo com a Joana, uma mulher que não queira uma relação estável, que não queira ser mãe para não perder oportunidades profissionais ou para não estragar o corpo ou que não se vista com elegância, está-se a objectificar. Que lindeza! Eu pensava que era uma pessoa normal, orgulhosa das minhas escolhas, mas afinal sou um objecto tosco e sem préstimo que não aproveita a maravilhosa tríade feminismo-matrimónio-maternidade, porque toda a gente sabe que a vida só vale a pena ser vivida castamente, de anel no dedo e papel assinado, e com um barrigão produtor de fetos. Estou tão enganada, porque pensava que as minhas colegas que andam aqui na passarelle a mostrar as boobs envolvidas em banho de Chanel e que roçam o pézinho no coisinho do chefinho é que se estavam a objectificar... mas não, elas estão sempre elegantes e impecáveis. Eu, só por andar de ténis, nem merecia o estatuto de mulher. Shame on me.

"O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança."

Joana, Joaninha. A mim, que vivo uma relação em pecado em que é "cada um na sua casa", o que me dá segurança é receber um ordenado ao fim do mês. Estabilidade é não depender de ninguém para me pagar a casa e as despesas. Devias experimentar. Dá um gozo do caraças! Não ter de dar contas porque o dinheiro é meu, faço o que quero com ele. Não fazes ideia de como é libertador! Um dia, quando visitares este século, talvez eu te possa mostrar como.

"O potencial da maternidade é algo biológico! A mulher é provida de um encanto, de uma ternura, que só se encontra na sua relação com os filhos. Ela é o porto de abrigo das crianças. Na maternidade, a mulher sente-se verdadeiramente realizada, pois percebe o que é o verdadeiro e incondicional Amor! Não espanta, pois, que não possa demitir-se dessa função e que a maternidade seja, por norma, um fortíssimo apelo, ainda que subconsciente."

É verdade. É que no ano de 1779 onde a Joana está, não há muito para uma mulher fazer a não ser parir. E também ainda não inventaram os métodos anti-concepcionais, a não ser mandar as prenhas pelas escadas do celeiro abaixo. Temos de avisar a Joana que agora a mulher tem escolhas. E que nunca houve tantas mulheres que não querem ser mães, o que não faz delas menos mulheres ou pessoas piores - é simplesmente uma escolha como outra qualquer. Muitas delas, como eu, a quem a biologia trocou as voltas e não têm o tal relógio, não encontra magia em fraldas cagadas, nas noites sem dormir, nas birras infinitas, nos berros, nas faltas de educação e, principalmente, na falta de liberdade. Ser childfree é tão, mas tão bom. Posso ir jantar fora, a concertos, chegar às horas que quero, posso beber álcool, fumar erva, gastar o meu ordenado só em mim própria, comprar livros e mais livros, e viajar, e ser excêntrica. Foda-se, não ter filhos é a melhor merda. Para outras, ter filhos será a melhor merda. O que é importante é que cada um tem de construir a sua própria felicidade, sem fórmulas. Se ela é feliz de uma maneira, não tem de impor as suas ideias aos outros como se fossem verdades absolutas. Há muitas maneiras de uma mulher se sentir realizada, e dar uso ao útero, é só uma delas...

"Este activismo tornou-se, inclusivamente, desprestigiante para a mulher. Priva-a da possibilidade de ascensão social e profissional pelo mérito. Retira-lhe a doçura e candura. Nega-lhe o papel fundamental do matrimónio e da maternidade. Objectifica a mulher, enquanto presa para sexo fácil e espaço de diversão. Promove paradas onde se expõe o corpo de forma grosseira e agreste à visão. Claramente, não representa a “mulher comum”!"

Faz-me comichão ler "ascensão profissional" e "papel do matrimónio" no mesmo parágrafo - há aqui qualquer coisa que não bate bem. A comichão começa ao ler que o activismo tira prestígio à mulher, mas neste momento só sinto um extremo cansaço - a Joana venceu-me pelo cansaço - e vou dizer, está bem. Ok. Fique lá com o seu mérito de esposa calada e bem apessoada, grande organizadora de jantares com a senhora lá de casa ao leme. A mulher não tem de ser doce e cândida. Isso já nem no Orgulho e Preconceito, escrito em 1813, ainda longe da sua época (há-de lá chegar). A mulher quer-se forte, determinada, arrojada, sem medo de arriscar. Não deve ficar sentada ao canto da sala depois de servir chá, de perna cruzada com a sua saia por baixo do joelho. Deve dançar se lhe apetecer, pôr a música alta, rodopiar, sentir-se uma criança, soltar uns palavrões, correr, ser forte, ser o que quiser! Toda a gente devia ser assim, livre, seja qual for o género! E não tem nada a ver com o sexo, mas que merda! Que mulher travada! Qual é o problema do sexo ocasional, se fosse o caso? Foda! Foda mais! Foda por prazer, não para procriar! Retire os benefícios de uma boa foda! Seja a verdadeira mulher comum, rasgue a roupa cara, dê e leve um tabefe, urre à lua, borre essa maquilhagem, grite, esfole, liberte-se!

E depois no fim do artigo li isto: Médica. Membro da TEM/CDS.
CDS? Nem merecia a pena ter escrito tanto. Havia muito mais por dizer, mas temos de poupar os deficientes. 


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Andava eu numa fase confusa da adolescência, em que não sabia se gostava mais de Backstreet Boys ou de Metallica, quando os The Prodigy se meteram lá pelo meio e deram-me novos horizontes. Abriram caminho por mim adentro com um poder que não consegui controlar, numa cena musical que na altura foi completamente inovadora. Suspirei muito com a imagem do Keith Flint. Aquela bola de fogo pronta a explodir, extravagante, enérgica, toda aquela imagem rebelde - aquele cabelo característico, todos aqueles piercings e tatuagens que me tiravam do sério e que, obviamente, influenciaram os meus gostos e aquilo que sou. Desde aquele tempo até hoje que os The Prodigy são uma das minhas bandas favoritas e o Keith é uma das figuras que tenho seguido como a um ícone.

Tive o prazer de os ver ao vivo, bem pertinho de mim, um par de vezes. E repeti, a quem me ouviu falar, que foram concertos de uma vida. Inesquecíveis. O corpo, sem pedir licença, dá o que tem e o que não tem porque eles fazem o que querem com os nossos invólucros. A sensação de esgotamento feliz e loucura ainda toma conta de mim quando penso na última vez que os vi.

Raio de geração amaldiçoada. Brilhante, demasiado brilhante para um mundo demasiado merdoso. Viver uma vida longa não é para todos e a sua escolha foi feita. Privou o mundo de si mesmo, e por isso, nós, fãs, ficamos coxos, numa obscuridade de incompreensão que prevalecerá, porque, garanto, nunca sabemos o que vai na cabeça sequer na pessoa que está ao nosso lado neste momento. Só sei que quando chegarmos ao Inferno teremos uma banda sonora do cacete.

Vemo-nos por aí, Firestarter.


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O sonho começou com um grande vendaval - tão grande que, espreitando pelas janelas, víamos as pessoas voar e a serem atiradas para todos os lados. Tirei, inclusivé, uma foto espectacular de uma senhora loira e magra, agarrada aos seus sacos de supermercado, voando por entre edifícios, com os seus cabelos longos em rodopio, mas com uma grande calma aparente reflectida no rosto. Acho que estava a aproveitar o vento para ir para casa a voar sem usufruir dos transportes públicos àquela hora de ponta que, como todos sabem, são uma chatice maior do que todos os ventos e vendavais juntos.

Achei a minha foto digna de capa da National Geographic e fui para casa, desejosa de a mostrar ao meu namorado. Qual o meu espanto quando abro a porta do quarto, e o vejo todo nu, sentado, à minha espera, com dois calmeirões ao lado, também nus, estendidos na cama, naquele repouso suado que se segue ao esforço sexual.

Não foi preciso ele dizer nada - o cheiro a sexo era palpável, e sabia o que ele tinha feito. Ele estava à minha espera para me contar, e fê-lo com uma cara de pau e com uma conversa fácil que manifestava a sua opinião de que, como tinha sido com gajos, não era traição a sério.

Fiquei triste com a situação, manifestei a minha raiva, gritei, mas no fundo, mesmo sendo um sonho, apercebi-me que a minha mágoa aconteceu mais por ele não me ter convidado para a festa do que propriamente pela traição. Os sonhos são tramados.



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Tony "Lip" Vallelonga é um americano de ascendência italina, chefe de família, que trabalha como segurança num clube nocturno. Quando este fecha portas para renovações, Tony procura trabalho. A oferta mais promissora surge de onde menos espera - uma vaga para ser motorista de um pianista de renome, Don Shirley, que por acaso era negro.

O facto de ser um homem duro com jeito para usar os punhos foi determinante para ser escolhido, e o motivo começa a ser óbvio cedo no filme - Don Shirley é frequentemente vítima de ataques racistas nesta América dos anos 60. Tony, que é um homem também ele alimentado por alguns preconceitos, começa por torcer o nariz por ter de servir um homem negro e com manias de estrela, mas, em última análise, precisa de alimentar a família e tenta encarar aquele trabalho como outro qualquer.

Portanto, temos um homem do povo, branco, algo preconceituoso, a conduzir um pianista negro, com maneiras nobres e muitas manias e requisitos, pelas estradas americanas - e isto, por si só, é um óptimo começo para um filme que, ainda por cima, é baseado em factos reais. Todos sabemos que, quando a realidade ultrapassa a ficção, ainda ficamos mais intrigados, e embrenhamo-nos mais na história.

É um par estranho que vai vivendo algumas aventuras e dissabores nos locais por onde passa e, apesar de se ter passado há décadas, a história faz ecoar em nós resquícios de um tempo que não ficou assim tanto para trás. O racismo ainda é, infelizmente, assunto do dia, e enquanto houver ódio e intolerância no coração humano, não irá acabar. Ou seja, nunca acabará. São as situações mais extremas que nos abalam e que nos fazem questionar como é que tal foi possível, e como é que ainda é possível, e porque é que julgamos os outros pela aparência, como se a cor da pele ou o local onde nascemos determinassem tudo o que podemos ser.

O par de actores é espectacular e foram feitos para estes papéis. Tanto Viggo Mortensen como Mahershala Ali estão perfeitos (este último um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário), revelando um entrosamento e um trabalho extraordinário para entrar na pele daqueles homens que o destino juntou para lhes mudar a vida. As diferenças entre os dois homens, as suas origens, estrato social, tudo está patente nas linguagens corporais, nos modos e gestos, nas maneiras de falar ou na linguagem a si.

O filme tem muita elegância em todos os seus atributos, como a realização, o visual ou a banda sonora tocante. Agora que já vi quase todos os filmes que foram nomeados aos Oscares, posso dizer que era o meu terceiro favorito à corrida (depois de The Favourite e Roma, dos quais falaremos um dia), mas consigo aceitar completamente a decisão de ter ganho o prémio. Pode ter sido uma vitória política, mas pouco importa. É um grande filme, trabalhado por grandes profissionais, com todos os ingredientes para agradar a um público alargado e muito bem executado, que toca algo no mais profundo de nós.

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"Era um ginásio não longe da nossa casa futura. Frequentavam-no sobretudo tipos já na decadência, sujeitos calvos e de ventre excessivo, matronas cheias de roscas, a mama caída. Era a hora de o fado ajustar contas com eles, eles não queriam. Era a hora do fôlego asmático, da enxúndia, do ouvido córneo, as junturas perras."

in Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira (1990)

en·xún·di·a
(latim axungia, -ae)
substantivo feminino
1. Gordura animal, em especial das aves e dos suínos. = BANHA, UNTO
2. Camada adiposa. = BANHA, GORDURA
3. Substância gorda.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

A idade faz coisas indesejáveis ao nosso corpo - a pele crespa e manchada, as articulações que precisam de óleo, os cabelos brancos a marcar forte presença, as carnes moles penduradas sujeitas à inevitável gravidade. Mas o que não sabia é que também trazia enxúndia, mas acho fantástico. É uma maneira de chamar gordos aos gordos sem que eles percebam. É mal que atravessa idades, porque as pessoas entopem-se de enxúndia na enxúndia das carnes e dos fritos e depois é ver a enxúndia a transbordar do cós das calças e dos regos dos cus que insistem em ficar destapados, porque não há pano para tanta enxúndia. Ah, palavras novas...


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Trabalho no Campo Grande, Lisboa. Todos os dias, à hora do almoço, vou ao ginásio, e tenho de atravessar a entrada do metro. E todos os dias tenho de fazer uma pista de obstáculos por entre as ciganas que me esfregam os "xáles", os quatro pares de brincos por 50 cêntimos ou a "calça da moda" na cara. Para além de serem umas 10 a barrar a entrada, obrigando as pessoas a respirar-lhes o bafo para conseguir passar, corre-se o risco sério de ficar surdo com tantos decibéis de gritos.

OLHÓ XÁLE A DOIS E MEIOOOOO
Ó CARA LINDA, OLHÁ CAMISOLA DAS MODAS
É SÓ HOJE, É SÓ HOJE, UM AÉRIO, SÓ UM AÉRIO

Nada a que não estejamos habituados nas feiras, em espaços abertos. Agora, numa entrada de um metro onde aquela mulherada faz eco e onde inventam bancas em cima de caixotes improvisados que nos barram a passagem, é chato. A juntar ao homem das cautelas, ao outro que vende carteiras, aos jeovás, à dos cachorros quentes, à das pipocas, aos da Amnistia Internacional e demais pedinchões, aos professores Mamadus a distribuir aqueles quadradinhos brancos de promessas, aquela entrada de metro tem mais sovaco por metro quadrado que o aeroporto em dia difícil.

Engraçado, engraçado, é quando aparece a bófia. Nesses momentos vê-se quem é que tem o seu negócio "legalizado". É claro que as ciganas pegam sumiço. Só as vi serem apanhadas uma vez, ficando com o seu material confiscado. De resto, têm uma habilidade inacta para fugir aos senhores agentes, como se os farejassem e comunicassem entre si por pensamento. Puf, já foram. Da sua presença, só resta a memória, os ecos nos ouvidos, e pedacinhos de plástico e cartão no chão, ou um eventual brinco da moda.

Mas quando pensamos que a costa está livre do mulherio, basta que a bófia dobre a esquina para elas aparecerem novamente vindas do nada. Não faço ideia onde estiveram. Parecem a CMTV, escondidas debaixo de uma pedra, prontas para qualquer desgraça e infortúnio, uns autênticos Luis de Matos do material contrafeito.

Odeio que invadam o meu espaço pessoal. Sejam as ciganas que passam o material das leggings (ou légues) no braço para eu sentir o estupendo material, seja o professor Mamadu que me estende o papelucho até mo roçar no nariz, seja estar com a cara à altura do cu de alguém quando subo escadas, não interessa, o importante é manter as pessoas à distância de, pelo menos, um braço. Se for um braço do Shaquille O'Neal, melhor. É por isso que estas mulheres me dão afrontamentos, pois sinto-me violada pelos seus corpos que insistem em roçar no meu e pelas suas vozes que entram por mim adentro sem pedir autorização. 


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"_ As pessoas deitam fora tudo e mais alguma coisa - declarou Mike. - A lixeira? Faz-me mal ao coração ir até lá. A sério. Mata-me.
_ Pois é - concordou Ben. - Muitas daquelas coisas poderiam ser reparadas. Além disso, há pessoas na China e na América do Sul que não têm a ponta de um corno. É o que a minha mãe diz.
_ Há pessoas que não têm nada de nada aqui no Maine, lépido rapaz - retorquiu Richie, implacável."

in It - A Coisa (livro 2), de Stephen King (1986)


lé·pi·do 
adjectivo
1. Alegre, prazenteiro.
2. [Informal] Lesto; ligeiro e alegre.

in dicionário Priberam online

Até é estranho aprender uma palavra fofinha e positiva num livro tão negro e cheio de maldade. Mas assim é o meu querido e imprevisível Stephen King, esse senhor que escreve, sei-o agora, lepidamente. Tão lepidamente que é invejado e conhecido no meio pela quantidade de livros que publica em tão pouco tempo. Lá vai ele, rápido, ligeiro e leve, escrevendo mais um épico e fazendo História.

Quanto ao It, livro que há muito aguardava a edição portuguesa (porque eu gosto de ler na língua de Camões) é um livrão cujas duas partes perfazem mais de 1200 páginas, que nunca, em tempo algum, alguém conseguirá adaptar de forma conveniente ao cinema ou à televisão. É demasiado, é impossível. Até a própria essência e premissa têm de ser fortemente adaptadas para que possam ser percebidas nesses meios. Por isso, não há nada como ler. É uma história sem igual. De qualquer forma, a adaptação de 1990 é do melhor que já se fez no terror, e ultrapassa facilmente a recente versão-pipoca.


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O filme é inspirado numa história real, e tem como base o livro de Ron Stallworth, de 2004. Nele, Ron relata como foi o primeiro polícia negro em Colorado Springs, nos anos 70, e como se conseguiu infiltrar no KKK.

Apesar de já ser olhado de lado e de sofrer de bullying às mãos dos seus colegas brancos, Ron (John David Washington) não hesitou em responder a um anúncio que visava recrutar membros para a organização de supremacia branca. Chegou a falar ao telefone com David Duke, líder do KKK, que não o identificou como negro ao telefone... E assim Ron, polícia negro, viu-se neste inusitado processo de recrutamento. Mas, claro, era preciso um homem branco para o substituir nos encontros, e eis que Flip (Adam Driver), seu colega polícia, assumiu a sua identidade nessas ocasiões. Quis o destino que Flip fosse judeu, e é apenas um dos inúmeros apontamentos hilariantes. Um negro e um judeu infiltrados no KKK - parece o início de uma anedota.

Apesar do tema ser extremamente sério, e de ficarmos estupefactos com a estupidez infinita do ser humano, o filme é quase como uma sátira que mascara com bom humor os pensamentos e acções chocantes de um grupo de acéfalos, quase como se fossem caricaturas. Apesar de o racismo ser feio, uma das coisas mais feias desde que o mundo é mundo, Spike Lee consegue fazer-nos rir, gargalhar até, com o seu retrato destas pessoas que se acham no topo do mundo só porque nasceram brancas.

É um filme que levanta alguma poeira e que tem muita atitude, com um cunho muito marcante de Spike Lee, que no fundo é um exímio contador de histórias. Só acho que exagerou um bocadinho na duração do filme - algumas partes acabaram por ser esticadas e espremidas sem darem sumo por aí além. Quanto às nomeações, o Adam seria um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário, mas já não tenho tanta certeza quanto ao prémio de Melhor Filme (sendo que já vi melhores este ano). Não deixa de ser um dos filmes do ano, capaz de agradar a todos os públicos, com uma mensagem abrangente e poderosa, humor na dose certa, deliciosos pormenores, com um tema abominável que já devia ter ficado enterrado no passado.

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Há pouco vi esta notícia e achei maravilhoso.

O mecânico norte-americano Cross Scott, de 21 anos, viu uma mulher inanimada dentro de um carro, prontificou-se a partir o vidro para a ajudar e, vendo-a sem resposta, iniciou o processo de reanimação cardiorrespiratória. Ora o moço, sem formação alguma na área da saúde ou de suporte básico de vida, lembrou-se de um episódio do The Office, em que se faziam justamente uns exercícios de reanimação, e onde foi dito, pelos vistos acertadamente, que o ritmo ideal para comprimir o peito é ao som do “Stayin’ Alive” dos Bee Gees.

Então, entoou a canção e vá de bombear ao som da mítica canção de 1977, e não é que a senhora voltou a si momentos depois? Isto é fantástico em tantos sentidos. Em primeiro lugar, sinto-me muito melhor porque o vasto tempo que passo a ver séries pode não ser em vão... Depois, imaginar o homem a tentar salvar a mulher cantando "AH AH AH AH STAYIN' ALIVE, STAYIN' ALIVE" dá-me uma vontade de rir do caraças. E, deus meu, a ironia do nome da música! E, finalmente, porque revi um momento mítico desta série que é uma das melhores de sempre. Michael Scott forever!

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Nada do que possam ter visto do Ben Stiller vos vai preparar para a excelência que é a série Escape at Dannemora. É dos melhores trabalhos de realização que alguma vez vi. Foi uma supresa dos diabos, não estava prepararada para isto. Mas já lá vamos.

A minisérie é baseada numa fuga real que aconteceu em 2015 numa prisão americana - um evento tão mirabolante e surreal que por si só ultrapassa a ficção. Os prisioneiros Richard Matt (Benicio del Toro) e David Sweat (Paul Dano) trabalharam durante meses, arquitectaram o plano perfeito para escapar e, depois de o fazerem, ainda estiveram a monte imenso tempo nas densas florestas que separam a prisão do Canadá. Para conseguirem escapar, contaram com a ajuda de Tilly (Patricia Arquette), uma funcionária da prisão que se envolveu emocional e fisicamente com ambos os condenados.

O plano arquitectado por Matt já é por si só uma obra de arte, mas conhecer todos os trâmites do mesmo, ver as suas ideias a ganhar luz, a sua personalidade calculista a surgir, assistir à forma como manipula as situações e pessoas à sua volta (especialmente Tilly) é algo muito especial e interpretado de forma perfeita por Benicio del Toro. É um papel feito à sua medida e não imagino mais ninguém a fazê-lo. Paul Dano, que pouco conhecia, surpreendeu-me deveras, como Sweat, o braço direito de Matt, o homem que representa o trabalho e a força, em oposição à parte cerebral do seu parceiro. Já agora, não posso deixar de mencionar a parte inicial do episódio 5, protagonizada exactamente por Paul Dano - deve ser o melhor long shot que alguma vez vi, é um hino absoluto à televisão, até ao cinema, e só me apetece fazer vénias ao Ben Stiller. Se virem, vão facilmente saber do que falo.

Deixei a Patricia Arquette para o fim porque não tenho muitas palavras para descrever a perfeição com que desempenhou este papel. Transformou-se fisicamente e entrou na pele desta mulher de corpo e alma. Tilly é uma mulher simples mas ambígua, que tem noção do que faz mas sem ver maldade por aí além, que representa também a vontade de escapar - da sua vida linear e sem aventura. O marido, interpretado por Eric Lange, também merece uma menção honrosa e é mais um caso extraordinário de adaptação física e emocional ao homem, Lyle Mitchell.

Houve um esforço enorme para aproximar a série à realidade, não só no trabalho extraordinário dos actores, mas também também nos locais - tanto a prisão, como a vila, os arredores, tudo o que vemos é real. Isto torna-se um aspecto muito importante que torna a narrativa ainda mais imersiva. A juntar à realização, à fotografia, à banda sonora, torna esta série uma das melhores do ano.

Esta é daquelas que, se tiverem oportunidade, é obrigatória. Está a passar no TVSéries. Foi nomeada nos Globos de Ouro para Melhor Minisérie e a Patricia arrecadou o de Melhor Atriz - super merecido. Antevejo que faça também muito sucesso nos Emmy.

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Vivemos num mundo estranho. Um mundo em que, se um desesperado roubar uma maçã para dar aos filhos esfomeados, incorre em pena de prisão ou em multas que nunca poderá pagar; e onde um futebolista se safa com tudo. Ontem o nosso querido CR7 foi condenado a pagar quase 19 milhões de euros por ter fugido às suas obrigações fiscais. Não nos percamos na semântica - foi um roubo provado, e não foi para a prisão porque em Espanha, nas sentenças inferiores a 24 meses de prisão sem antecedentes criminais, a pena não é aplicada. Curiosamente, a sua sentença foram 23 meses. E esta hein? Por um triz. Que coincidência. Assim, o homem admitiu a falcatrua, pagou a multita que para ele são peanurs e foi à sua vida.

O povo português (e não só) tem uma capacidade imensa de perdoar no que toca às suas estrelas maiores. É como se não fosse nada, está tudo bem. Estão constantemente a criticar quem lhes rouba os cêntimos do bolso que tanto lhes custam a ganhar, têm sempre uma palavra a dizer sobre todas as políticas, são os maiores justiceiros nas redes sociais, mas é deus lá em cima e o Cristiano cá em baixo, intocável e sereno.

"Mas ele ajuda os pobres", "ele eleva o nome de Portugal", "é o melhor futebolista do mundo", blá blá blá. Tudo correcto, mas experimentem não pagar as vossas dívidas e depois digam se foram tratados com a mesma dignidade e respeito. Depois, o homem saiu do tribunal com o maior sorriso no rosto, todo ele autógrafos, charme e perfume, no pasa nada.

Hoje vi esta imagem e pensei, tal e qual. O dinheiro governa o mundo. Ninguém achou a situação estranha, anormal. Não houve manifestações, nas notícias apenas menções, nas ruas apenas fãs a pedir autógrafos. E só me leva a concluir, que nós não odiamos os emigrantes. Odiamos é emigrantes pobres.



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