Palavras do Abismo

9 minutos. Foi o tempo que o afro-americano George Floyd esteve com a cara empurrada contra o asfalto. 9 minutos a suplicar, a pedir água, a dizer que não conseguia respirar. 9 minutos que representam aquilo que o mundo ainda é: o homem branco a subjugar o negro. Em 9 minutos, morreu. 

Ouve-se o eco do típico comentário racista: "aaahh, mas alguma coisa ele teve de fazer". Queridos, não era nenhuma questão de vida ou de morte. Ele não tinha reféns, não ameaçou ninguém, não tinha nenhuma arma, não representou perigo. Foi acusado de burla quando estava a fazer um pagamento. 

Era advogado, tinha 46 anos, e soube-se imediatamente que estava inocente. Dizem que ele resistiu à detenção, as testemunhas dizem que não. Quem o matou anda à solta enquanto decorre um inquérito, que como sempre não dará em nada.

Não me fodam, o racismo existe, a desigualdade existe, e na América se não fores um homem branco heterosexual (de preferência com porte de arma) corres o risco de levar uma sova, de não teres oportunidades na vida ou, simplesmente, de morrer na via pública. E é claro que isto não é só na América. 

Não, não vai ficar tudo bem, porque nunca esteve. Desculpa George, as pessoas são uma bosta.




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... é este calor e estar com o período. Fosga-se.

O período manifesta-se de diferentes maneiras conforme a gaja. Há quem tenha dores menstruais, dores de cabeça, borbulhas, há as sortudas que não têm nada, e depois há as gajas como eu que lhes sobe a temperatura como se estivessem com febre. Até suporto melhor a diarreia (o meu segundo sintoma) do que a merda do calor. Pois se ontem, para vocês, estiveram 34 graus, para mim estiveram quase 40. Foi impecável. Foi ter o rego do rabo permanentemente molhado e uma cara de quem acabou de fazer a maratona no Uganda. Foi sentir tonturas ao passar todas as portas e sentir as diferenças de temperatura como bofetadas do Hulk.

A sério, odeio o calor, devia haver uma lei para estabelecer 28 graus como máximo permitido.


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O concerto de Bryan Adams estava agendado para quinta-feira 14 de abril, no Mississippi. Mas acontece que este estado norte-americano aprovou uma lei que é concerteza uma das mais discriminatórias de sempre - a lei 1523 dá o direito às entidades comerciais e religiosas de recusarem atender gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transsexuais e até mães solteiras. Ou seja, toda a gente que "ofenda" as suas crenças e convicções morais.

Perante isto, Bryan Adams cancelou o concerto, dizendo em comunicado que não pode actuar com a consciência tranquila num estado em que as pessoas são discriminadas pela orientação sexual.

Já o concerto que Bruce Springsteen tinha agendado no passado domingo na Carolina do Norte também foi cancelado porque foi aprovada uma lei que obriga o público a usar as casas de banho de acordo com o sexo biológico. The Boss disse: "Algumas coisas são mais importantes do que um concerto de rock e esta luta contra o preconceito e a intolerância - que está a acontecer enquanto escrevo - é uma delas. Esta é a forma mais forte que tenho para levantar a voz em oposição aos que continuam a puxar para trás em vez de avançarem".

Ridículo. Não me ocorre outra palavra. Pensava eu que estava num século em que a igualdade era um dado quase adquirido, em que os casos de discriminação seriam raros e provocados pela mesquinhez de pequenos grupos de pessoas indispostas em avançar com a evolução do pensamento. Nunca pensei ver os Estados Unidos, ou qualquer país que se designe de "avançado", a ter leis deste tipo. Leis que catalogam as pessoas como aptas ou inaptas para qualquer coisa de acordo com a orientação sexual. Novamente: ridículo. Uma lei que ignora se o indivíduo é ou não de boa índole, se trata bem os outros, os animais, os mais velhos, se ajuda ou não a comunidade. O que importa realmente é se gosta de pessoas do mesmo sexo. Ridículo.

Parabéns ao Bryan e ao Bruce pela atitude. Só posso agradecer por usarem a voz e o alcance que têm para mostrar indignação perante estas leis de merda. Gente que acha que recusar atender um casal lésbico num estabelecimento comercial é normal não merece música. Nem cinema, nem livros, nem qualquer tipo de arte ou diversão. Nem o ar que respiram. Ridículo.

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Hoje usei, no trabalho, uma camisola de malha que tem um colarinho branco falso, daquelas para dar a ideia de que temos uma camisa por baixo. É o mais perto de uma beta que alguma vez estarei.

Qual não é o meu espanto quando vejo que deixei de ser invisível. As pessoas responderam aos meus bons-dias (e por vezes disseram-me primeiro!), abriram-me portas e desviaram-se para eu passar. Tive direito a ser a primeira a entrar no elevador, pediram-me com licença e disseram desculpa, como se eu fosse uma pessoa e tudo!

Ora isto mete-me muito nojo.

Eu não trabalho com o intelecto ou sequer com as mãos, não sou tratada diferentemente pelo bom trabalho, pela resiliência ou pela eficácia. Só sou uma pessoa igual às outras se estiver vestida como uma menina de bem. Se estiver de ténis e uma camisola larga e confortável não tenho direito a ser tratada com educação.

Eu sei (ou tenho esperança) de que isto não é assim em todo o lado mas sei que o bolo é muitas vezes julgado apenas pelo topping.

Que diriam se soubessem que o colarinho é falso? Provavelmente nunca mais seguravam a porta para eu passar. Que seja! De qualquer forma, prefiro ser ignorada. Que sejam felizes, todos iguais, vestidos da mesma forma, com os mesmos gostos, as mesmas expressões, a mesma vida de cocó, ó carneirada.


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Não são famosos, não fazem parte de nenhum governo, não são líderes mundiais. São pessoas como tu e eu. Quase todos rondam a minha idade, quase todos eram movidos pela música, pelas artes. Tal como tu e eu, gostavam de se sentar numa esplanada com os amigos, assistir a um bom concerto, jantar fora, conviver.

E de um momento para o outro foi posto um ponto final injusto nas suas vidas, e nada mais será o mesmo. Nem para as famílias e amigos que ficam, nem para a cidade, ou para o mundo.

Estas pessoas estavam em Paris, no local errado à hora errada. São vítimas de uma guerra que não era delas. São rostos que vale a pena conhecer, porque, tal como tu e eu, viviam numa normalidade que julgavam inabalável e tiraram-lhes tudo. Eles merecem que os conheçamos, que prestemos esta homenagem singela, mas sentida, hoje, em que nada faz sentido e dificilmente voltará a fazer.

Conheçam-nos aqui.


Marie Lausch e Mathias Dymarski, namoravam há 5 anos. Morreram no Bataclan.
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Mais deplorável do que os actos terroristas de ontem à noite, em Paris, é que, assim que estes começaram, começaram também as manifestações de ódio contra os refugiados.

O cidadão desinformado (e que não se quer informar) não percebe que é deste tipo de ataques que as famílias refugiadas estão a fugir. Não compreendem que bombas, tiroteios e mortes acontecem todos os dias nos países de onde os refugiados provêm. Não entendem que os extremistas radicais de um grupo de loucos nada têm a ver com as crianças que morrem todos os dias às mãos destes.

Ainda ontem, no Líbano, morreram 40 pessoas num ataque suicida planeado pelo Estado Islâmico. Também ontem, em Bagdad, 18 pessoas morreram num ataque suicida levado a cabo num funeral. Os últimos 3 meses registaram o maior número de ataques pelo Estado Islâmico, e acontecem por todo o mundo. Paris é o mais mediático, mas é uma pontinha do iceberg.

Adoptar o lema "por um pagam todos" é tão perigoso como dizer, por exemplo, que todos os alemães são nazis... Ou que os portugueses também são culpados, porque recentemente um português se juntou ao movimento jihad. Isto é o que eles querem. Querem o ódio, que partamos para a vingança, para a morte, que derramemos sangue, que desconfiemos, que sejamos intolerantes, que tenhamos muito medo, tudo em nome de algo que nunca compreenderemos.

Não arranjem desculpas fáceis para justificar a vossa xenofobia. 

Há que pensar antes de apontar o dedo. Podemos estar a ser muito injustos e dar origem a actos irreflectidos contra inocentes. E se assim for, temos algo em comum com aqueles loucos que se arrebentam por aquilo que acreditam ser a verdade absoluta.



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