Palavras do Abismo

Adoptei um gato. Pensava eu. À medida que o bicho foi crescendo, vi que me tinham dado gato por lebre, ou neste caso, por javali. Comecei a reparar nas crescentes presas laterais e no pelo crespo, no formato do focinho, e pensei "foda-se, adoptei um javali".

Depois de pensar no que fazer à vida, visto que seria uma crueldade manter um javali num T2 e com mais 3 gatos, resolvi deixá-lo na Arrábida, perto das comunidades de javalis que por lá andam. Um animal destes só estaria bem na natureza, e perto dos seus pares. E lá fui, despedindo-me com saudade.

Quando o despertador tocou foi o choque total - foi tão brutal que pensei que o javali me estava a atacar por tê-lo abandonado e saltei da cama pronta a correr. Antes de me aperceber que foi tudo um sonho, ainda arranjei tempo para esta imagem me vir à cabeça:


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Ah, a Assembleia. Esse bando de bois que decide o nosso destino de cu sentado, que nos espeta uma bandarilha hipotética no lombo no meio de subidas de impostos, que nos toureia, ludibriando, abanando mantos vermelhos à nossa frente para não vermos o nosso futuro terrível.

E depois há o deputado do PSD, Luís Campos 'Olé' Ferreira, o boi mais boi de todos, o que nos dá a estocada final e nos fica a ver estendidos no chão, a apontar o dedo e a rir, tirando fotos para mostrar aos seus comparsas de cabelo à beto e sapatos de vela, como um perfeito bully da lezíria.

Quando há dias decorreu a votação para o Orçamento de Estado 2019 relativa à redução do IVA das touradas para 6% e os votos foram favoráveis, o queridinho saído da era medieval mas com telemóvel na mão - vá-se lá perceber esta viagem temporal - proferiu o seguinte:

"Aí está o Grupo de Forcados do Largo do Rato. Vai dar entrada o touro!" - e largou um "Olé", antes de pôr a tocar a música das touradas que anuncia a entrada dos touros.

Epá, que classe! Que mostra valente de respeito no palco da democracia. E que risinhos, palmadinhas nas costas, provocou, por parte dos seus comparsas de patilhas e bolsos avantajados. Não sabia que aquilo era o jardim infantil, pensava que era apenas um tacho comum.

Opiniões diferentes, todos temos. Temos de viver em comunidade, de uma forma de outra, porque estamos todos no mesmo barco, este buraquinho único que vê o sol pôr-se no horizonte. Esta atitude de adolescente reprimido que ainda não saiu do armário provoca-me vergonha alheia. Estas merdas despertam o pior das pessoas. Assim sendo, quando a mulher do senhor lhe puser os corninhos, alguém devia lá estar para lhe dar um "Olé" caridoso, ou quando o seu filhote disser que é gay, dando-lhe o desgosto da sua fútil vida, alguém devia pôr a tocar o YMCA, e um gajo vestido de latex devia sair de trás da porta e enrabá-lo. Porque tudo na vida fica melhor com banda sonora e exemplos visuais, não é?

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Não fazia sentido nenhum, não existia justificação plausível. Os "artistas" (muuuito entre aspas) tauromáquicos eram isentos de IVA, e desde que o PAN se sentou no Parlamento lutava para acabar com esta mama. Finalmente aconteceu. Apoie-se ou não as touradas, é uma questão de justiça social, e sinto um orgulho muito grande deste partido que nunca se tem calado.

No Orçamento de Estado de 2019 esta alteração já vai estar prevista. Os betos mamões que se cuidem, porque isto não vai ficar por aqui. É o povo quem mais ordena, nunca se esqueçam...


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Devido ao documentário transmitido na RTP1 (disponível aqui) algumas pessoas estão agora a acordar para a vida. Outras continuam a dormir, a olhar para o lado e a assobiar, que não é nada com elas.

Eu não vi o documentário. Não vi porque me custa, porque choro, porque faço parte de grupos de defensores dos animais e já estou farta de saber o conteúdo. Sei o que se passa, e não preciso de ver e ouvir novamente os gritos e as lágrimas destes seres.

Não sei como as pessoas conseguem dormir à noite descansadas, sabendo que a comida que aparece no prato é obtida à custa do sofrimento e da dor de seres vivos, cuja inteligência e sensiência, sabemos hoje devido à evolução científica, equivale à de uma criança pequena. Não sei como conseguem ser egoístas ao ponto de pôr o seu paladar acima do modo como se tratam os outros habitantes do planeta. É uma questão de dignidade, de respeito, de sensibilidade.

Durante o transporte, os animais são sujeitos a temperaturas de mais de 40º e a água disponível depressa desaparece. Não têm espaço sequer para se virar, vão uns em cima dos outros, pouco importando aqueles que já mal se conseguem manter de pé, que têm feridas ou lesões. Seguem assim, horas intermináveis, dias, semanas, o tempo que for preciso até chegarem ao destino. Quando o transporte tem dois andares, os animais da parte de baixo ficam cobertos de merda, o que aumenta ainda mais a sua temperatura corporal e pode dar origem a infecções. Na transladação, são pendurados pelas patas por uma grua, esperneando, levando com choques eléctricos, e gritando por ajuda que não virá. Muitos morrem antes de chegar, apenas eles sabendo a dor por que passaram. São jogados para o mar, se estiverem num barco.

Mais valia que fossem mortos à partida. Mortos em meios controlados, com anestesia, e transportados em meios refrigeados. Mas isto sai muito mais caro. E nestas coisas o lucro fala sempre mais alto. Para além disso, nos países para onde são transportados são seguidos rituais de morte próprios. Ou seja, para além de tudo o que passam na viagem, muitas vezes são mortos a sangue frio em rituais bárbaros.

Portugal é um país civilizado e não pode permitir isto dentro das suas portas. A petição do PAN para existir um limite de horas de transporte diárias e a presença de um veterinário é assim tão descabida? E ainda assim é apenas uma gota no oceano. Temos de parar de exportar para o Médio Oriente e Norte de África, simplesmente. Mas como isto escapa às leis nacionais e europeias, valem a lei daqueles países. E o lucro, sempre o lucro.

Por mais que os responsáveis joguem areia para os olhos do povo, basta estar presente num dos portos onde atracam os barcos para ver a realidade tal como ela é. A realidade é muito suja, tem lágrimas a escorrer pelos focinhos, ossos partidos, fome, morte. Não podemos ficar de braços cruzados, chega de compactuar com o sofrimento alheio. Estes animais não têm culpa da vergonha que devíamos sentir. Se não sabem o que fazer, comecem por assinar esta petição. Se querem fazer mais, procurem os grupos nas redes sociais, informem-se, a acção está por todo o lado e o maior cego é aquele que não quer ver.

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Esta mulher, que é uma política abaixo do razoável e que raramente dá uma para a caixa, deu um tiro no pé que não posso deixar passar ao lado. Para além de ser uma oportunista, de se contradizer, de ser alheada da realidade e snob, agora veio dizer que a tourada, para ela, é como um bailado.

Dito isto, só me apetece bailar na campa dela. Mas até lá tenho de analisar esta comparação de merda. Uma poia, bosta, cocó de comparação.

Ora bem. Um bailado é feito por pessoas. Por bailarinos, que passaram anos, mesmo décadas, dedicados a esta forma de arte, treinando todos os dias, passando por sacrifícios, em nome da arte. Dão o seu próprio sangue, suor e lágrimas, deixam tudo de si no palco. E não são só eles - os cenários fantásticos, o importante espectáculo de luzes, a música, o guarda-roupa, e tudo o mais - trata-se de pessoas a montar um espectáculo inesquecível para pessoas, para contar uma história através da leveza dos gestos, da beleza, da composição, do entrosamento.

Numa porcaria de uma tourada, o sangue e as lágrimas são apenas dos touros. Não há uma história a ser contada, não há ensaios diários, porque não é uma encenação. É um animal, com sentimentos, que sente medo, raiva, dor, frustração. É um ser vivo que está ali contra a sua vontade e cuja vida nunca irá terminar bem. E poderá ser ali, na arena, o local da sua morte. Pode ser em frente àquelas pessoas que pagaram para o ver desnorteado e que aplaudirão o seu sangue derramado. Soltarão olés perante a sua humilhação e baterão palmas para o ver dominado. E mesmo que o touro tenha a sorte de atingir o seu provocador de pouco lhe servirá, porque este é um jogo no qual vai perder sempre. Eles choram, as lágrimas escorrem-lhes, porque o destino deles está selado e traçado desde que nasceram.

Não, senhora Assunção, você não compare estas coisas. Porque no bailado ninguém se esvai em sangue, ninguém está ali contra a sua vontade, não se está ali por um motivo sádico e nada nobre. Não compare um espectáculo a uma tortura. Não compare arte à morte disfarçada de tradição. Não quero saber se de onde veio isto é normal - felizmente o que não era normal há 500 anos já não é, à excepção desta merda de chacina que nunca mais desaparece. Não ofenda a inteligência de possíveis votantes e da população em geral, você é uma figura pública e deve abster-se de vomitar obscenidades na comunicação social - para isso já basta o seu discurso normal. (Será que veste as calças de ganga para ir à tourada ou essas estão apenas guardadas para as visitas aos bairros sociais?)

Aqui.



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Hoje de manhã, como todos os dias, desloquei-me a um beco a uns metros do meu prédio, onde coloco ração para os gatos de rua. Hoje ia atrasada e vi um vizinho que nunca tinha visto. Um velho que aguardava a mulher dentro do carro e fez questão de sair para termos a seguinte conversa:

Velho Estúpido (VE): Meta isso no seu prédio! Tem de vir para aqui sujar a minha porta?
Eu: Eu metia no meu prédio, mas as pessoas tiram...
VE: Então tiram? Fazem elas bem! Agora não tem nada de vir para a frente do meu prédio meter o que não querem no seu!
Eu: Você nem sabe onde moro... E qual é o mal que lhe faz uma taça com ração?
VE: Não quero isto aqui! Leve isso e os bichos todos para a sua casa!
Eu: Levaria se pudesse! Isto faz-lhe assim tanta comichão?
VE: Faz!
Eu: Então olhe, coce essa micose no escroto! É por causa de pessoas de merda como você que o mundo está podre!
VE: Badalhoca!
Eu: Pois aqui a badalhoca manda-o ir foder-se pró caralhinho, está bem?

E seguiram-se mais trocas de mimos aos berros na rua enquanto me afastava. Infelizmente como estava atrasada não tinha tempo de lhe chamar mais nomes mas espero encontrá-lo novamente porque tenho mais no meu portfólio.

Já onde o meu namorado alimenta uma gata as pessoas volta e meia jogam a comida e a água para o lixo e destroem as coisas no local, já para não falar de outro Velho Estúpido específico que atiça os cães de caça contra os gatos e já conseguiu matar dois... perante a passividade das autoridades, que nada fazem apesar nas queixas apresentadas.

O mundo está cheio desta gentinha que se julga dona das ruas e do mundo. Não lhes faz impressão ver todo o lixo que está no chão, as sarjetas entupidas, os buracos nas estradas, o património destruído. Pequenos tupperwares com ração arrumados e limpos são a pior coisa para estes filhos da puta. Não suportam a ideia que hajam pessoas que queiram ajudar animais de rua, esses 'ratos que apenas transportam doenças'.

Esta cena repete-se por todo o lado, em todo o país. Não digo no mundo, porque sei que há países civilizados onde o respeito pela vida, seja ela qual for, existe. A estas pessoas, que na maioria são velhos de merda, só lhes digo que fico contente por a morte estar à espreita à esquina e espero que fiquem tão arreliados com estas demonstrações de respeito que lhes dê um AVC que os torne vegetais ou cadáveres rapidamente.

Se não gostam que outras pessoas alimentem animais de rua, não se metam e não atrapalhem. Não têm de participar, não têm de gastar dinheiro ou tempo, isso é comigo e com os outros cuidadores. Não se têm de preocupar com a limpeza do local - está garantida. Será assim tão difícil não meterem o bedelho? É um incómodo assim tão grande uma taça colocada a 10 metros das suas portas? Se colocassem essa energia toda para resolver problemas sérios, o mundo era tão, mas tão bom. Resumindo: estimo que morram!

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