Palavras do Abismo


Estamos no Século XVIII e a Inglaterra está em guerra com a França. A rainha Anne (Olivia Colman) tenta governar como pode mas, devido à progressão da gota, o seu discernimento e capacidade de decisão incertos dão poder à sua amiga, Lady Sarah (Rachel Weisz) para tomar decisões em seu nome. As duas têm uma relação muito próxima e misteriosa, mas parecem entender-se, de uma forma ou outra, sobre os destinos do país e da guerra, que assentam nestas duas mulheres naturalmente líderes.

A relativa paz foi perturbada quando Abigail (Emma Stone) chegou. Prima afastada de Lady Sarah, chega aos aposentos reais pedindo trabalho e o seu charme e juventude sensibilizam a parente. Aos poucos, Abigail vai impondo a sua presença e, com a sua jovialidade e os seus modos prestáveis, ganha a confiança da rainha. Forma-se um trio de mulheres de força que ao início funciona como uma máquina oleada, mas onde a sede de poder e a ambição vão afectando as engrenagens...

Este filme era o meu preferido na corrida ao Melhor Filme nos Óscares, por diversas razões. É realmente diferente - apesar de ser um filme de época, tem técnicas que não estamos habituados a ver neste género. Tem uma abordagem sarcástica, explícita e inteligente, num argumento fortíssimo. A fotografia e cinematografia são de topo. A banda sonora é inesperada e assenta que nem uma luva. O casting é maravilhoso. O realizador Yorgos Lanthimos fez um trabalho extraordinário. É daqueles filmes que vai ser visto daqui a 20 anos e vai continuar a ser um marco.

Para além dos aspectos mais técnicos, explora a natureza corrupta humana de uma forma que extrapola convenções, inserida numa tragédia barroca que provoca a moralidade. Há também toques de surrealismo em determinadas situações mas que, curiosamente, não nos provocam estranheza. Outra coisa inédita é que não existem personagens especialmente simpáticas ou que inspirem confiança, coisa que vai totalmente contra "as regras" que estamos habituados a observar no cinema. Aliás, este filme proporciou-me uma experiência rara - mudei completamente de opinião sobre algumas das personagens, sem reparar, durante o filme. Uma autêntica lavagem cerebral do Yorgos.

Olivia Colman ganhou, merecidamente, o Oscar de Melhor Atriz, e o filme teve outras 9 nomeações - incluindo Melhor Atriz Secundária para as outras duas grandes mulheres da trama, e Melhor Filme. Se ainda não viram, The Favourite é paragem obrigatória - um monumento ao cinema, imoral, absurdo, cativante, emocional, belo na sua estranheza. Vai originar algumas torcidelas de nariz se não tiverem a mente um bocadinho aberta...

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Tony "Lip" Vallelonga é um americano de ascendência italina, chefe de família, que trabalha como segurança num clube nocturno. Quando este fecha portas para renovações, Tony procura trabalho. A oferta mais promissora surge de onde menos espera - uma vaga para ser motorista de um pianista de renome, Don Shirley, que por acaso era negro.

O facto de ser um homem duro com jeito para usar os punhos foi determinante para ser escolhido, e o motivo começa a ser óbvio cedo no filme - Don Shirley é frequentemente vítima de ataques racistas nesta América dos anos 60. Tony, que é um homem também ele alimentado por alguns preconceitos, começa por torcer o nariz por ter de servir um homem negro e com manias de estrela, mas, em última análise, precisa de alimentar a família e tenta encarar aquele trabalho como outro qualquer.

Portanto, temos um homem do povo, branco, algo preconceituoso, a conduzir um pianista negro, com maneiras nobres e muitas manias e requisitos, pelas estradas americanas - e isto, por si só, é um óptimo começo para um filme que, ainda por cima, é baseado em factos reais. Todos sabemos que, quando a realidade ultrapassa a ficção, ainda ficamos mais intrigados, e embrenhamo-nos mais na história.

É um par estranho que vai vivendo algumas aventuras e dissabores nos locais por onde passa e, apesar de se ter passado há décadas, a história faz ecoar em nós resquícios de um tempo que não ficou assim tanto para trás. O racismo ainda é, infelizmente, assunto do dia, e enquanto houver ódio e intolerância no coração humano, não irá acabar. Ou seja, nunca acabará. São as situações mais extremas que nos abalam e que nos fazem questionar como é que tal foi possível, e como é que ainda é possível, e porque é que julgamos os outros pela aparência, como se a cor da pele ou o local onde nascemos determinassem tudo o que podemos ser.

O par de actores é espectacular e foram feitos para estes papéis. Tanto Viggo Mortensen como Mahershala Ali estão perfeitos (este último um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário), revelando um entrosamento e um trabalho extraordinário para entrar na pele daqueles homens que o destino juntou para lhes mudar a vida. As diferenças entre os dois homens, as suas origens, estrato social, tudo está patente nas linguagens corporais, nos modos e gestos, nas maneiras de falar ou na linguagem a si.

O filme tem muita elegância em todos os seus atributos, como a realização, o visual ou a banda sonora tocante. Agora que já vi quase todos os filmes que foram nomeados aos Oscares, posso dizer que era o meu terceiro favorito à corrida (depois de The Favourite e Roma, dos quais falaremos um dia), mas consigo aceitar completamente a decisão de ter ganho o prémio. Pode ter sido uma vitória política, mas pouco importa. É um grande filme, trabalhado por grandes profissionais, com todos os ingredientes para agradar a um público alargado e muito bem executado, que toca algo no mais profundo de nós.

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O filme é inspirado numa história real, e tem como base o livro de Ron Stallworth, de 2004. Nele, Ron relata como foi o primeiro polícia negro em Colorado Springs, nos anos 70, e como se conseguiu infiltrar no KKK.

Apesar de já ser olhado de lado e de sofrer de bullying às mãos dos seus colegas brancos, Ron (John David Washington) não hesitou em responder a um anúncio que visava recrutar membros para a organização de supremacia branca. Chegou a falar ao telefone com David Duke, líder do KKK, que não o identificou como negro ao telefone... E assim Ron, polícia negro, viu-se neste inusitado processo de recrutamento. Mas, claro, era preciso um homem branco para o substituir nos encontros, e eis que Flip (Adam Driver), seu colega polícia, assumiu a sua identidade nessas ocasiões. Quis o destino que Flip fosse judeu, e é apenas um dos inúmeros apontamentos hilariantes. Um negro e um judeu infiltrados no KKK - parece o início de uma anedota.

Apesar do tema ser extremamente sério, e de ficarmos estupefactos com a estupidez infinita do ser humano, o filme é quase como uma sátira que mascara com bom humor os pensamentos e acções chocantes de um grupo de acéfalos, quase como se fossem caricaturas. Apesar de o racismo ser feio, uma das coisas mais feias desde que o mundo é mundo, Spike Lee consegue fazer-nos rir, gargalhar até, com o seu retrato destas pessoas que se acham no topo do mundo só porque nasceram brancas.

É um filme que levanta alguma poeira e que tem muita atitude, com um cunho muito marcante de Spike Lee, que no fundo é um exímio contador de histórias. Só acho que exagerou um bocadinho na duração do filme - algumas partes acabaram por ser esticadas e espremidas sem darem sumo por aí além. Quanto às nomeações, o Adam seria um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário, mas já não tenho tanta certeza quanto ao prémio de Melhor Filme (sendo que já vi melhores este ano). Não deixa de ser um dos filmes do ano, capaz de agradar a todos os públicos, com uma mensagem abrangente e poderosa, humor na dose certa, deliciosos pormenores, com um tema abominável que já devia ter ficado enterrado no passado.

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Mid90s é a primeira longa metragem dirigida por Jonah Hill - e que estreia! Conta a história de Stevie, um rapaz de 13 anos a crescer nos anos 90, e a sua saga para pertencer a algum lugar. É claro que a minha geração, que também era criança / adolescente nessa saudosa década, vai imediatamente criar laços com a película - só de olhar para as roupas, as cassetes, as bandas que o puto ouve, e até o facto de se brincar na rua, sem telemóveis e outras porcarias - ficamos emocionalmente colados.

Stevie está naquela idade parva em que já não é uma criança e está longe de ser um adulto. Tem um irmão mais velho que lhe dá umas sovas de vez em quando e não lhe vemos amigos no horizonte. Ele admira os skaters que vê na rua - rapazes mais velhos do que ele, que se vestem e agem de modo peculiar, à margem da lei, que estão sempre rodeados de outros rapazes e raparigas que os admiram. E, é claro, quer ser como eles. Até que arranja coragem para, um dia, se lhes juntar num spot onde aqueles costumam parar e, a pouco e pouco, vai impondo a sua presença, e ganhando o dia, quando eles se dignam a falar com ele ou a pedir-lhe qualquer coisa.

É enternecedor ver a alegria do miúdo quando consegue a atenção dos rapazes mais velhos; é assustador ver como irá contra a família, especialmente contra os ensinamentos da mãe, para agradar aos novos amigos; e, porque o filme é muito bem feito, acabamos a torcer por ele em todas as etapas em que o acompanhamos.

Tudo isto é contado numa narrativa que prima pela simplicidade e crueza. É a história de um miúdo de um bairro normal e todos conseguiremos encontrar um fio que nos une a ele - e um clique faz-se na nossa cabeça porque também passámos por coisas similares. Não há detalhes desnecessários nesta história, o fio condutor é perfeito, levando-nos a rir e a ficar de lágrima ao canto do olho.

A banda sonora é da autoria de Trent Reznor e Atticus Ross, o que é um selo de qualidade prévio. O casting é perfeito e por momentos nem parece que estamos a ver um filme, mas sim cenas da vida real. Poucos filmes me encheram as medidas como este. É um retrato honesto, refrescante, sentido, uma estreia surpreendente de Jonah Hill.

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Finalmente vi o filme-terror-sensação do fim deste verão, mas digamos que foi muita parra para pouca uva, que é como quem diz, não valeu a ponta de um chavelho. Prometeram-me sustos e cenas macabras mas só obtive bocejos e tédio, ou então estou uma pessoa muito exigente no que ao terror diz respeito.

A freira é uma das icónicas vilãs da saga The Conjuring e tinha tudo para ter uma backstory aceitável, mas talvez o facto de não ter James Wan ao comando das operações tenha contribuído para o resultado ser um bocado "meh". Traduzindo para linguagem de gente, o argumento é pobre e foi esticado ao máximo, espremido para dar uns quantos copos de sumo, mas aquilo podia caber num pequeno shot.

Os clichés são mais que muitos. A história é básica e previsível. Os actores não são grande coisa. As tentativas de meter humor ali para o meio são apenas tristes e desapontantes. Há uma personagem em especial, Frenchie, cuja utilidade é mandar bitaites para aliviar a tensão, e quase sinto vergonha alheia por aquele actor. Valha-nos uma banda sonora porreira e uma fotografia aceitável, que não chegam para salvar a desilusão que senti.

Vale o início e o fim do filme. O resto é encher chouriços. Ainda bem que não fui ver isto ao cinema. Talvez seja destinado a uma geração mais recente que se contenta mais com o visual e com o ambiente da coisa, ou com o susto fácil. Ou então estou uma cínica, ou só de mau humor.

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Fui ver o Bohemian Rhapsody ao cinema e saí de lá feliz. É claro que sou suspeita - os Queen são uma das minhas bandas favoritas de sempre e o Freddie Mercury é um dos mais importantes heróis que carrego junto ao peito desde criança, graças aos gostos musicais do meu pai.

Nunca seria fácil fazer um filme sobre um tema que todos conhecem, com músicas que já todos ouviram, com uma história de vida que tem sido explorada e mediatizada há décadas. Quem quer que pegasse neste filme, fizesse como fizesse, seria criticado. E é o que tem acontecido. A crítica diz, por exemplo, que este filme representa os Queen versão Disney, ou que o Rami Malek faz playback (a sério, queriam que o homem cantasse como Freddie?), e ainda que há erros temporais na narrativa. Até os há, mas às vezes, quando se realiza um filme sobre várias vidas e se tem de colocar décadas em 2 horas, torna-se necessário. E se Brian May, guitarrista dos Queen e produtor do filme, concordou com a apresentação dos mesmos, acho que o mero espectador poderá dar um pouco o braço a torcer e aceitar.

É claro que o grande trunfo do filme é a música. Ela fala por si, e aliada a um supremo Rami Malek que, vê-se a léguas, se preparou para o papel de Freddie de alma e coração, apresenta-nos as histórias de como as grandes composições surgiam, como as ideias nasceram, como a banda as defendeu, e como Freddie as suava por todos os poros.

Não considero, ao contrário do que a crítica também apontou, que a sexualidade de Freddie tenha sido demasiado explorada, até porque o maior ênfase foi dado à sua relação heterosexual com Mary Austin - o amor da sua vida, como não se cansava de repetir - e que foi muito importante como rampa de lançamento e inspiração de um Freddie a quem faltava confiança e amor fraterno.

Mais do que uma biografia musical, o filme transporta consigo muitos valores, como a amizade profunda que uniu os membros da banda, ou o valor do trabalho e da preserverança que os fez bater o pé tantas vezes a quem os desacreditava. Também a solidão, o desapontamento, a falta de esperança, de visão, as más influências, a voz do dinheiro, têm papel preponderante.

Resta referir que, pela primeira vez em muito tempo, esteve-se bem num cinema cheio. Sem interferências, conversas paralelas, risadas parvas, este era um público realmente interessado e completamente imerso no que estava a ver. Ouviam-se alguns bateres de pés ao ritmo da música, alguns a murmurar as canções baixinho, até algumas fungadelas, mas isto diz muito acerca do filme que é, das horas de entretenimento que apresentou e do engagement que provocou. Podem ir ver, à confiança!

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Fui ver este filme ao cinema no passado fim-de-semana e a experiência começou logo bem, com uma sala quase vazia (e sem putos barulhentos!). Conforme o filme avançou a experiência correu ainda melhor, porque é de uma inovação brutal, com uma realização nunca antes vista, encaixando-se que nem uma luva na designação do melhor storytelling dos novos tempos.

David Kim (John Cho) é um pai viúvo (a esposa morreu de cancro há alguns anos) e cria sozinho a filha adolescente. Um dia, esta desaparece sem deixar rasto. À medida que o tempo passa, David vai ficando mais e mais preocupado - o que poderia ser considerado ao início como uma saída tardia ou um acto rebelde vai deixando de fazer sentido.

Quando a polícia inicia a investigação e nada parece progredir, David começa a procurar pistas na pegada digital da filha - armado do portátil dela, vai apanhando migalhas dos seus últimos dias, através do seu comportamento nas redes sociais e das pessoas com quem nelas interage, acção que também lhe dá a conhecer um outro lado dela que não sabia existir.

A inovação no meio disto tudo é a forma como a história é contada. Tudo, mas mesmo tudo, do início ao fim, é contado apenas e só através dos meios digitais disponíveis e que usamos todos os dias. Não existem câmaras na sua acepção propriamente dita - vemos a navegação na internet, os sites noticiosos, imagens de câmaras de segurança, chamadas de vídeo, vídeos do Youtube, os perfis das redes sociais, e por aí fora. Ora isto não é novo, mas é a primeira vez que vejo isto resultar - e não devo ter sido a única, visto que o filme está a obter críticas estrondosas.

Se uma pessoa como eu que é tão pouco apologista destas modernices gostou, acredito que mais irão gostar. Outro ponto positivo é que os bois são tratados pelos nomes - o Facebook é o Facebook, o Youtube é o Youtube, etc, não há cá disfarces para não ferir susceptibilidades.

É um verdadeiro thriller dos tempos modernos, sem tempos mortos, que nos mantém agarrados, com uma realização inesperada, e ainda por cima com um John Choo abismal. Altamente recomendado, mesmo aos mais cépticos!

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Os filmes do Predador, tanto o primeiro como o segundo, são grandes clássicos do cinema que, com os parcos recursos visuais existentes nos anos 80 e início de 90 (comparativamente a hoje) conseguiram criar uma criatura mítica que viria a pertencer ao imaginário da cultura pop até hoje, e por cá ficará, provavelmente, após a morte de muitos de nós. São filmes que conseguiram criar um tenebroso suspense a partir da simplicidade a vários níveis, como na banda sonora ou no argumento.

Este The Predator que está agora nos cinemas é uma anedota mais ou menos ao nível do Alien VS Predator, um filme totalmente dispensável. Não quero dizer que foi uma total perda de tempo tê-lo visto no cinema - não é totalmente desprovido de sentido - mas está lá perto. Acredito que a juventude-pipoca vá apreciar o filme, pois tem o barulho, os efeitos, as explosões, perseguições, muito bem vistos pela geração. Mas aqueles que, como eu, cresceram com o verdadeiro Predador e que, ainda por cima, reviram os dois primeiros filmes antes deste, vão sair desiludidos.

A trama sem sentido enfia uns veteranos de guerra, um miúdo autista, uma cientista e até, pasme-se, cães predadores, no mesmo saco, agita, até sair uma mão cheia de nada. Há várias tentativas frustradas para fazer humor e situações que geram humor sem querer - como quando alguns personagens andam de pé, na boa, em cima de uma nave espacial em movimento - wow!

Foi um dos piores filmes que vi este ano no cinema mas não se deixem influenciar pela minha negatividade - vão ver com os vossos próprios olhos. Eu é que, pronto, não tenho paciência para estas coisas, mas pode ser que até apreciem. Não é pior do que, por exemplo, os últimos Velocidade Furiosa...

Até tinha alguma expectativa porque o realizador é um dos actores do primeiro filme. Enfim, devia saber melhor. Falta só mencionar a falta de talento de todos os actores. É triste quando um dos menos maus é o 50 Cent. Meu belo Arnold, volta para a selva, estás perdoado.

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Lady Bird é uma miúda que está na fase difícil da adolescência - no último ano do secundário, já não é uma criança mas ainda não é uma adulta, e tem de fazer escolhas, pensar o futuro, lidar com a família, com as relações amorosas e as amizades. Portanto, é uma vida normal, igual à de muitos de nós que, de uma forma ou de outra, passámos por isso.

E é nesse reconhecimento da existência de um pouco de nós que consta a beleza deste filme. Sem ser pretensioso ou fantasista, encontra na realidade, que quase sempre é um pouco fria e cruel, o seu ponto alto.

O nome "Lady Bird" foi adoptado pela protagonista, e conseguiu "impingi-lo" a quase toda a gente. Ela está naquela idade em que tudo tem de ser rebatido e argumentado, em que as descobertas são diárias, ao mesmo tempo em que surge a necessidade de emancipação, que lhe traz algumas frustrações. Assistimos ao despertar do amor e naturais desilusões decorrentes; às mudanças e valorização da amizade; vemos a sua estranha relação com a mãe, ao mesmo tempo enternecedora e distante; e acima de tudo, à necessidade que tem de ser notada, de descobrir os seus sonhos, de voar sozinha para fora do ninho.

E é assim, sem artifícios e de forma natural, que a história de Lady Bird é contada e nos prende na sua normalidade, que, aliada a interpretações fantásticas e a uma personalidade fora de série por parte da protagonista, que este é um dos melhores filmes do ano passado, merecendo até a nomeação para Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Atriz Secundária, entre outros.

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Este filme conta a história de Christine Chubbuck, a primeira pessoa a cometer suicídio em directo na televisão. Poderá ser um grande spoiler para muitos (peço desculpa), mas é um facto. Nos anos 70, ela era repórter num canal da Florida, nos Estados Unidos, e lutava contra a depressão.

Remetida várias vezes para reportagens de segundo plano e que fugiam ao objectivo que ela perseguia - que era ter um verdadeiro impacto social com as suas histórias - acabou por ficar obcecada quando surgiu uma vaga importante noutro canal. Depois de o chefe lhe apontar que as suas causas não geravam audiências, começou, por todos os meios, a procurar histórias mediáticas, mas que não geraram o sucesso esperado.

Christine perde a cabeça várias vezes e outras tantas se vai levantando e tendo novas ideias, tudo em nome do estatuto que julga que lhe pertence. Vai-se afastando dos seus colegas, gerando discussões e momentos embaraçosos que vão afectando também a relação com a sua mãe, com quem vive. Tudo culmina no momento em que ela não vislumbra outra solução para o sucesso, para as audiências ambicionadas e para o mediatismo desejado do que dar um tiro na própria cabeça, em directo. Tinha 29 anos.

Apesar da estranheza deste acto e de ser fácil fazer um filme também ele mediático acerca do mesmo, não foi esse o caminho escolhido - e ainda bem. Conhecemos Christine como ser humano, como alguém que tem por dentro algo muito negro e inexplicável, mas que é uma pessoa como tantas outras a trabalhar por um objectivo. Sentimos facilmente a empatia e é com calma que acompanhamos o desenrolar das suas desilusões. Não é um simples filme sensionalista e comercial que explora uma grande tragédia - longe disso. É subtil, tem detalhe e sofisticação, num excelente trabalho de realização de Antonio Campos.

Não há palavras suficientes para descrever o profissionalismo e o trabalho da actriz Rebecca Hall para se colocar no papel de Christine. É simplesmente divinal sem qualquer tipo de alarido, é uma coisa natural, mas complexa, que só é possível com uma preparação fora de série. Também já tinha saudades de ver Michael C. Hall (o eterno Dexter) no grande ecrã.

Um filme que passou fora dos grandes circuitos comerciais mas que foi nomeado e ganhou vários prémios em festivais de cinema mais low-profile. Recomendado.

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Ultimamente, ir ao cinema tem sido um martírio. As pessoas deixam a educação em casa (se é que alguma vez tiveram) e comportam-se como selvagens, num local onde supostamente o maior interesse está no que se passa no ecrã.

Apenas supostamente. Na minha última ida, há uns dias, fui ver um filme de terror. A sala estava apinhada de adolescentes. Ver um filme em silêncio pelos vistos é coisa do passado. Devo ser muito velha para compreender, mas as meninas estavam mais preocupadas em sentar-se ao pé do rapaz mais giro e discutiam em alta voz quem iria ficar ao lado dele. Durante o filme, chamavam a sua atenção com comentários inoportunos e risinhos. Outros, gozavam uns com outros por terem apanhado um susto em certa cena. Outros adivinhavam em voz alta quem iria morrer a seguir. Os "shius" e pedidos de silêncio aconteceram durante todo o filme, e houve quem fosse chamar o pessoal do cinema, mas em vão. Os pirralhos de merda de hoje em dia fazem de um evento outrora cultural um acontecimento social onde vale tudo, inclusivé deixar o espaço TODO cagado. E o pior era que um dos paizinhos estava presente, e era como se fosse um cadáver, ignorando os pedidos de silêncio dos outros adultos, provavelmente contente por simplesmente não estar a ouvir a esposa.

Na ida anterior, os adolescentes irritantes também estavam presentes mas em menor número e por isso foi mais fácil controlá-los. Mas tivemos o desprazer de ter, ao nosso lado, um casal que se foi abastecer ao Jumbo. Já é irritante ter alguém a comer pipocas ao lado, mas eventualmente as pipocas acabam e o silêncio repõe-se. O abastecido casal tinha não só as pipocas do Jumbo, mas também nachos, batatas fritas, frutos secos, pacotinhos de sumo, e mais, que nunca pararam de resmalhar durante todo o santo filme. Sacos a abrir, sacos a serem amachucados, lixo a ser armazenado em sacos de plástico, em repeat. Sim, no intervalo mudámos de lugar, e mesmo assim ao longe ainda se ouvia o resmalho.

Há uns tempos fui ao cinema e um homem ria-se como se lhe tivessem a fazer cócegas nos pés enquanto lhe arrancavam as unhas com um alicate. Não era uma comédia. Noutra ocasião, um homem entreteve-se a dobrar e a desdobrar um saco de plástico vazio. Noutra vez ainda, um homem gordo e grande passou o tempo a imitar sons de explosões e a proferir uns "BOOM!", "JÁ FOSTES", "TOMA LÁ QUE JÁ ALMOÇASTES", e para além do incómodo sonoro ainda levei com pontapés no português. Uma vez em que fui ver um filme de animação, em versão original, um burro de um pai levou a filha pequena que não parava de perguntar: "O que é que ele está a dizer agora?", "O que está a acontecer?". Também mudei de lugar ao intervalo.

Já não se consegue ir ao cinema e desfrutar de um filme normalmente. Não há prazer quando o espaço que é de todos é profanado, nem que seja por um só asno. Se o respeito é raro em todas as circunstâncias, no cinema e noutros locais a tendência é seguida. Os espaços de cultura e lazer são vítimas dos tempos em que a partilha, o dizer "estou aqui", "faço coisas", "olhem para mim", e as hashtags são mais importantes do que desfrutar do momento. Um minuto de silêncio pelas pessoas que não conseguem olhar para além do umbigo e do ecrã do telemóvel.

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Há uns dias estava a ver um filme de acção protagonizado por Liam Neeson e a pensar que, coitado, dão ao homem papéis todos iguais. Até se poderia pensar que o senhor não é multifacetado, o que é erro crasso - basta ver o A Lista de Schindler, obviamente, ou até mesmo o recente Silêncio para se obter provas em contrário.

No entanto, é impossível ficar indiferente à lufada de filmes de acção-pipoca que o Liam protagoniza. Basta olhar para a imagem em baixo - todas as imagens são de filmes diferentes, mas podiam muito bem ser do mesmo. Provavelmente foi talhado para estes papéis, até porque nem aprecio filmes de acção mas reconheço o Taken como um dos melhores, mas acho que ele merece mais.

Pelo menos mudem o penteado ao homem ou ponham-lhe nas mãos uma arma branca ou uma bazuca. Quando esbarro num filme dele, preciso de consultar a informação porque não reconheço à primeira vista qual é o filme. É que nem a expressão ajuda - o cenho cerrado e os lábios ligeiramente entreabertos em tensão permanente também se repetem. Todos por um Liam mais variado!

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Gosto de ver filmes de terror que não sejam americanos porque nos oferecem sempre ideias mais frescas, menos comerciais, e que acabam por ser mais assustadoras do que as originárias da popularizada América. Este é da Netflix, canadiano e falado em francês. É um filme de zombies, ou mortos-vivos, com características muito próprias.

Quando o filme começa já o mundo está cheio destes zombies que fogem bastante à ideia generalizada que se tem dos mesmos, devido sobretudo ao The Walking Dead e afins. Estes zombies não estão com meias medidas - não se arrastam devagarinho a fazer aqueles sons estranhos que os anunciam - são rápidos, correm, são inteligentes, silenciosos, salvo as raras vezes em que gritam, som que parece preceder o ataque.

Num mundo caótico onde não sabemos como nem porquê surgiu o vírus (e nem importa), um pequeno grupo de sobreviventes vai percorrendo as estradas e as casas perto de Quebec, numa tentativa de encontrar esconderijo e comida. A história é simples - trata apenas do relato de sobrevivência de um grupo que se vai encontrando e aumentando. Não há espaço para sentimentalismos ou para acudir aos que vão ficando para trás. Não há misericórdia para as personagens com quem vamos criando laços - a morte chega a todos.

Um dos grandes trunfos do filme é que se baseia mais na tensão do que na acção. É um dos filmes mais tensos que já vi, onde o silêncio é desconcertante. Tudo é subtil, sem estereótipos, e cada personagem é um mundo que vamos conhecendo de forma sublime e sem grandes conversas.

Existem algumas cenas violentas onde nada nos é escondido, tudo é gráfico, cru, intenso. As florestas do Canadá são um emblemático cenário bem conhecido do realizador, e como tal são exploradas pela mente de quem bem conhece cada recanto e as glorifica. Apesar de ser low-budget, é um dos melhores filmes de terror que vi nos últimos tempos e recomendo-o a todos os fãs do género.

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Marina Vidal é uma mulher transexual que encontrou o amor junto de Orlando, um homem com o dobro da sua idade. Os vivem uma relação dedicada e tranquila até que Orlando sofre um aneurisma e morre repentinamente. A partir daí, o cenário começa a ficar negro para Marina.

A família dele, especialmente a ex-mulher e o filho, que nunca aceitaram a opção do pai, vão tentar certificar-se que Marina sai o mais rapidamente da vida deles, devolvendo tudo o que os dois tinham - incluindo a cadela, a casa onde os dois moravam, o carro, tratando-a como se não fosse ninguém. Também querem impedi-la de ir ao funeral dele e despedir-se convenientemente do homem que amou - não só por ter sido a pessoa por quem Orlando se apaixonou, mas sobretudo por ter nascido homem, pela vergonha que a sua presença implica.

Marina vai ter de ser uma mulher fantástica, superior, forte, e é-o, que é o que se espera de uma mulher que para estar ali teve se superar, todos os dias, vezes sem conta, elevando-se acima dos outros, lutando pelo seu sonho e identidade contra todas as adversidades.

Este é mais do que um filme sobre Marina Vidal - mostra a guerra travada por aqueles que só querem parecer por fora aquilo que sentem por dentro. Ninguém passa por esse processo pacificamente, é fisicamente e emocionalmente complicado e esgotante. Mas como isso não parece bastar, a sociedade dificulta-lhes a vida ao limite, porque a nossa intolerância à mudança e à diferença é infinita. Mesmo que nós não tenhamos nada a ver com o assunto. Mesmo que a vida seja deles, o resto do mundo faz questão de ter uma palavra a dizer - e nunca é abonatória.

A actriz que interpreta Marina é Daniela Vega, transexual. Como tal, devem imaginar que o papel lhe assentou que nem uma luva - para além do talento imenso, é-lhe natural expressar as frustrações da Marina e é em boa parte culpada pelo sucesso da película.

Este filme chileno ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ainda não vi os outros mas parece-me um prémio adequado. Grandes interpretações, argumento, uma fotografia brilhante e uma banda sonora tocante, assim como a temática polémica que mete os sentimentos à flor da pele.

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Get Out (em português com o título "Foge"), é um filme de terror que esteve nomeado para Melhor Filme. Não me consigo lembrar da última vez que isso aconteceu - talvez em 2000 com o Sexto Sentido; é preciso puxar muito pela memória para encontrar outros, que se contam pelos dedos de uma mão - casos de Tubarão e O Exorcista nos anos 70.

Não ganhou nessa categoria, mas ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original, que é um prémio que mete muito respeito. Para além disso, foi a primeira vez que um negro - o argumentista/realizador Jordan Peele - ganhou este Óscar.

Os filmes de terror não são fáceis de fazer. Provocar o medo com pés e cabeça é das coisas mais difíceis de conseguir. Não se trata de sangue, gritos ou músicas assustadoras no escuro - as fórmulas pré-feitas para se provocar saltos e perdas de urina nas cadeiras de cinema. Get Out cumpre com uma história brutal num suspense de fazer prender a respiração, com interpretações fora de série, tudo isto motivado por diferenças raciais.

Não é um filme fácil ou dado e estou muito contente com o prémio. Como fã do terror, considero o género muito marginalizado e estes reconhecimentos fazem com que se aumente o investimento e a atenção para este tipo de filmes. Para mim, um dos melhores filmes do ano passado.


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Este filme chamou-me a atenção pela premissa. No futuro, o planeta tem demasiados habitantes e simplesmente não há recursos para todos. Para além do espaço físico que ocupam no planeta, fazendo este parecer-se com uma sala sobrelotada onde mal nos conseguimos mexer, não há comida e recursos fósseis que acompanhem o crescimento populacional e, logo, o planeta está a morrer e a rebelar-se. Portanto, até agora, é simplesmente a descrição para onde estamos a caminhar.

Na trama, é imposto o limite de um filho por família. Tudo é muito controlado e a evolução tecnológica do futuro possibilita o acompanhamento de perto de tudo e todos, a toda à hora, através dos mais avançados meios. Há penas severas para o desrespeito desta lei e é por isso que, quando a filha de Terrence (Willem Dafoe) morre a dar à luz 7 gémeas, ele vai ter de ser muito perspicaz para, primeiro, as manter vivas em segredo, e depois, na criação de um esquema que permita às raparigas sair de casa sem ninguém desconfiar que são 7.

Como são 7, tal como os dias da semana, cada uma adopta o nome de um dos dias e são educadas para sair de casa apenas no dia correspondente ao seu nome. No fim de cada dia, têm de contar às irmãs tudo o que se passou para estas poderem continuar a "farsa" como se fossem uma e só pessoa. Tudo sai do controlo quando a irmã Monday não volta para casa ao fim do dia...

É um filme interessante, que não sendo fora de série tem uma óptima e actual premissa, cativante, que é também um alerta. Noomi Rapace, que interpreta 7 mulheres, é de uma grande desenvoltura e faz-nos acreditar que se tratam de seres humanos diferentes, com gostos, carismas, personalidades, completamente  distintas. Não é nada fácil e há que se lhe tirar o chapéu. De resto, é um bom filme de crime / ação com um final inesperado.

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O filme conta a história verídica de Tonya Harding, ex-patinadora artística americana cuja carreira terminou abruptamente após ter-se envolvido num escândalo.

Proveniente de uma família de classe média baixa e com uma mãe-sargento, foi quando tinha apenas 4 anos que Tonya começou a treinar à séria, e cedo a sua treinadora percebeu que a miúda tinha talento para ir longe. Mas o clima familiar disfuncional, a sua apetência para viver caoticamente, as más escolhas, o feitio irascível, os confrontos que provocou com toda a gente, fizeram com que raramente fosse considerada uma candidata à vitória.

Aqui, a história é contada pela sua perspectiva, e também pela da do ex-marido, Jeff. Numa altura bastante competitiva da sua vida, em que lutava pela presença nos Jogos Olímpicos, uma das maiores rivais foi agredida e o casal acabou por ser condenado pelo envolvimento no sucedido. Foi um enorme escândalo na altura, um caso com uma grande expressão mediática e que acabou com a carreira de Tonya como patinadora.

Mais uma vez, esta é a perspectiva do ex-casal. A narrativa foi construída de acordo com as suas declarações e entrevistas, e como tal pode não corresponder totalmente à verdade. O filme não pretende ser um documento factual, mas sim a história de Tonya aos olhos de Tonya e das pessoas que a conhecem melhor. Nesse aspecto, acho que cumpre totalmente.

Esta mulher tem uma história de vida que dá pano para mangas e um espírito lutador e aguerrido, e isso são logo à partida ingredientes para o sucesso - tudo nela é interessante. Para além disso, Margot Robbie interpreta-a de forma irrepreensível - claramente, deu tudo. Também gostei de vários pormenores da realização, principalmente a forma como os diálogos foram estruturados e a interacção com a câmara, que saiu perfeitamente natural, e diferente.

Está em exibição nos cinemas, e nomeado para 3 Óscares: Melhor Atriz, Melhor Atriz Secundária e Melhor Edição.

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A filha de Mildred (Frances McDormand) foi brutalmente violada e assassinada. Passaram-se meses e não há um único suspeito do crime. Revoltada contra as forças policiais, Mildred decide alugar o espaço de três outdoors e preenchê-los com mensagens directamente endereçadas ao chefe da polícia, Willoughby (Woody Harrelson).

A ideia é simples e é uma estrada pouco frequentada, mas mesmo assim a colocação dos cartazes gera indignação no seio da polícia, especialmente no agente Dixon (Sam Rockwell), cuja pouca experiência e espírito rebelde o colocam sempre no fio da navalha à beira da explosão. Ainda para mais, o chefe Willoughby sofre de um cancro e é querido por todos, e tanto os colegas como a população consideram que Mildred foi longe demais naquele ataque pessoal.

Escusado será dizer que Frances McDormand é a força motriz de todo o filme, como é seu hábito em tudo o que protagozina. Desde o Fargo que sou sua fã incondicional, admiração que ficou reforçada na série Olive Kitteridge. Os papéis de mulheres fortes cabem-lhe que nem uma luva e aqui, na pele da desbocada Mildred, espelha na perfeição a mulher que quer ver na cadeia o homem que lhe levou a filha e que lhe destruíu a família. Por trás da máscara de betão que usa para mostrar a sua força infinita, sentimos constantemente a sua mágoa por saber, no fundo, que nada do que fará lhe trará a filha de volta.

Gostei bastante do filme e é um pouco diferente do que estava à espera - esperava algo agressivo e negro, mas tornou-se mais sobre a redenção, e em como a empatia, a ajuda, e as mãos amigas surgem de onde menos se espera, apresentado-nos uma forte moral. Está nomeado para 7 Oscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Actriz, Melhor Ator Secundário e Melhor Argumento Original.

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A trama segue uma menina de 6 anos, Moonee, que vive num motel barato em Orlando, com a jovem mãe, Halley. Apesar de o motel não aceitar estadias prolongadas, o gerente, interpretado por Willem Dafoe, facilita e altera os processos de modo a que as famílias carenciadas consigam por lá ficar e manter uma espécie de tecto.

Paredes meias com a Disneyworld, o cenário pobre contrasta com os turistas abastados dos quais vamos tendo conhecimento enquanto aquelas pessoas tentam sobreviver um dia de cada vez.

Halley, a mãe, vive essencialmente de subsídios e de falcatruas. Mantém uma atitude radical perante a vida e enfrenta todas as pessoas como se todos lhe devessem - essa atitude é absorvida pela filha, que com 6 anos é uma espécie de líder entre as crianças e que não tem respeito pela autoridade e pelos mais velhos.

Quem for ver este filme à espera de uma história com princípio, meio e fim, desengane-se. É quase documental - seguimos "apenas" a vida destas pessoas, o seu dia-a-dia, os seus desabafos, dificuldades, o modo como fazem de qualquer coisa uma alegria imensa - tanto, que ficamos envergonhados por precisarmos de muito mais para criarmos momentos felizes. É quase como se fossemos voyers, espreitando para dentro das portas das vidas que não sabíamos existirem.

O grupo de actores infantil é de uma impertinência profissional de louvar; assim como as cores do filme, de um azul e cor de rosa limpos e brilhantes. Acima de tudo, é a simplicidade deste filme que me faz adorá-lo, porque não tem de existir uma parafernália de recursos para se ser belo. É triste, é ternurento, é trágico, é inocente, é mágico - é a vida.

Nomeado para Melhor Actor Secundário (Willem Dafoe).

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Em 2003, o filme "The Room", realizado por Tommy Wiseau, foi lançado. Devido às más interpretações, às falhas na narrativa e técnicas, depressa se tornou numa anedota. Felizmente ou infelizmente para Tommy, o filme é tão mau que se tornou de culto.

"The Disaster Artist" conta precisamente a história da elaboração deste filme, com base também no livro com o mesmo nome contado na primeira pessoa por Greg Sestero - o melhor amigo de Tommy, com quem este decidiu dar o passo de fazer o filme e ser actor no mesmo. James Franco realiza e interpreta Tommy Wiseau, e o seu irmão Dave Franco dá corpo a Greg Sestero.

Tommy é um homem excêntrico, no mínimo. Tem muito, muito dinheiro, que ninguém sabe de onde veio. Também ninguém sabe a sua idade nem as suas origens. As suas capacidades de socialização são quase inexistentes. É uma pessoa estranha mas tem um sonho: ser actor. Perante o facto das portas de Hollywood se fecharem constantemente na sua cara, e tendo em conta a sua volumosa conta bancária, decide, em conjunto com o amigo Greg, dar corpo a um filme. Então, ele escreve, realiza, produz e é o actor principal em "The Room".

O projecto vai avançando ninguém sabe muito bem como, pois Tommy é irascível e muito difícil de lidar. Chega atrasado, recusa-se a partilhar com a equipa partes importantes do projecto, não fornece as condições necessárias à produção, não se esforça por memorizar as falas, enfim, tudo parece destinado ao fracasso.

O filme por si só é bastante divertido e até custa a crer que é biográfico por aquela personagem ser tão nonsense e inacreditável. James Franco faz um óptimo trabalho tanto na realização como na pele do personagem. Creio que se não tivessem existido as recentes balelas em relação ao assédio sexual teria sido nomeado para Melhor Ator (ganhou o Globo de Ouro). Assim, foi apenas nomeado para Melhor Argumento Adaptado.

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