Palavras do Abismo



1917. Decorre a I Guerra Mundial. Dois soldados britânicos são enviados numa missão urgente - têm de entregar uma mensagem a um regimento que está prestes a atacar o inimigo e a cair numa cilada. Os dois soldados têm nas mãos as vidas dos seus companheiros. Têm um massacre para evitar, numa corrida desenfreada contra o tempo. Isto é baseado em factos verídicos.

Esta é a premissa de 1917, de Sam Mendes. E que filmaço... Que jornada, que experiência imersiva, que intensidade, que tudo. Fiquei pasmada, e vi o filme na televisão (Videoclube). Que pena não o ter visto no cinema.

O filme foi gravado em one-shot e isso é absolutamente crucial para o sucesso, para que nos sintamos parte integrante da acção, podermos ver todos os ângulos e sentir-mo-nos como se estivéssemos ali, nas trincheiras, enfrentando perigos com os protagonistas. Parece mesmo impossível a forma como tudo foi filmado, evidenciando mais ainda que Sam Mendes é um génio e também o gigante trabalho de produção que o filme teve.

Para além disso é tenso e de uma beleza extraordinária, um autêntico poema. Ao contrário do que dizem algumas críticas, para mim, nunca foi aborrecido, e assisti de olhos arregalados e quase sem pestanejar. É um filme de guerra, onde a amizade, o cumprimento do dever, a generosidade, falam bem alto. Único. Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, arrisco-me a dizer. Os 3 Óscares arrecadados são super merecidos.

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Fui com pezinhos de lã ver o Joker ao cinema. Por um lado, odeio filmes de super-heróis. Por outro, adoro o Joaquin Phoenix. Então, fui com expectativas moderadas.

Afinal, não tinha nada com que me preocupar. Não é um filme de super-heróis. É quase uma biografia a um dos maiores vilões da banda desenhada e do cinema. Ao contrário do que estamos habituados com estas personagens saídas dos comics, não há efeitos ou truques na manga. Aqui, o Joker é humano. É o produto da sociedade. Tal como cada um de nós.

O enredo é uma sucessão de eventos que vão acontecendo com Arthur Fleck até ele vestir a pele de Joker. Começamos por conhecer o Arthur palhaço de rua e que trabalha com crianças. Um homem simples, embora resignado, e assombrado pela doença mental. Por ser diferente, a comunidade não o deixa esquecer que ele não encaixa no estereótipo de homem adulto e bem sucedido. A cidade só lhe retorna uma fria indiferença, e até mesmo desprezo, e Arthur acaba por ser consumido pela incompreensão, pela solidão, e tudo descamba quando tudo o que ele acreditava (que já era pouco) acaba por desaparecer.

É claro que o filme não seria a mesma coisa sem Joaquin Phoenix. Nem consigo imaginá-lo de outra forma. E as palavras faltam-me para descrever o que vi este homem fazer no ecrã. Começando pela linguagem corporal, trabalhada até ao limite, até à profundidade do olhar, tudo está perfeito. Tanto que poderia ter sido um filme mudo e seria genial na mesma. Este homem fez um trabalho fenomenal para entrar na personagem e é tudo impressionante. Oscar para o Quim, já!

E depois, o resto... a banda sonora poderosa e super apropriada; o ambiente dark; a fotografia; as mortes fantásticas; as cenas perturbantes, violentas... Não percebo porque é que tanta gente odiou o filme (aliás, até percebo, porque não se enquadra nos típicos filmes fáceis e ocos dos super-heróis) e percebo as discussões sobre quem é o melhor Joker - se o Heath ou o Joaquin), mas seja onde for que se posicionem, esta é uma obra de arte que têm de ver pelo que é e deixar, pelo menos, as comparações de lado. É um dos melhores filmes do ano (senão o melhor, até agora, para mim) e aí não há volta a dar. Lamento, haters. Numa era em que tudo é robotizado, alterado, melhorado, onde a tecnologia é rainha, é uma lufada de ar fresco ter um filme tão humano e uma lenda como o Joaquin à sua frente.

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José e Pilar eram uma força da natureza - um era as nuvens brancas que passam no céu do outro; o outro era o tronco da árvore, sendo o outro a terra que o sustentava. Apesar de tão diferentes na sua génese, José Saramago e Pilar del Rio eram mais do que um casal, uma equipa - eram faíscas, complementos, eram como o amor deve ser, companheirismo, amizade, compreensão, descartando os estigmas que lhes colaram, a diferença de idade, a nacionalidade diferente; eram duas pessoas que o destino juntou e a prova de que tudo na vida é posto no seu devido lugar, mesmo que venha tarde nos anos.

Este documentário (quase ao jeito de reportagem) de Miguel Gonçalves Mendes é uma ode ao escritor, à pessoa de Saramago, e à sua musa, Pilar, o seu pilar. Eu, que tenho coração de pedra, comovi-me com a simplicidade deste homem e o seu querer dar-se aos outros. Ele, que nunca parou de escrever, que tinha tanto por dizer, e cujo medo era mesmo esse - morrer sem ter largado tudo cá para fora. Se há alguém que merecia a imortalidade, ou pelo menos viver umas centenas de anos, seria Saramago, e tenho a certeza que seria brilhante por séculos, se séculos de vida tivesse. Enfim, a sua obra viverá para sempre e quem nunca o leu está a desperdiçar um tesouro que iria mudar qualquer coisa lá dentro.

Assistimos à importância de Pilar em toda a vida de José, tanto nas coisas práticas como a gestão da sua agenda, como sendo um poço sem fundo de energia que durava e durava, em torno dele, por ele. Fiquei supreendida pelo furacão que é esta mulher, pela sua determinação, força inabalável, pela resposta na ponta da língua, pela humanidade. Vemos a intimidade simples dos dois, principalmente em Lanzarote, lar que escolheram, ilha que os acolheu como filhos da terra.

Vemos também a luta de Saramago por escolher as batalhas certas, testemunhamos a sabedoria de um génio que nasceu de pé descalço na Azinhaga do Ribatejo e que nunca prosseguiu os seus estudos. Vemos tudo isto e agradecemos por os caminhos de José e Pilar se terem cruzado. Por terem os dois existido, por serem o motor de algo tão belo que ultrapassa tudo o que poderia dizer.

O filme José e Pilar (assim como o livro que se seguiu) é uma ode à beleza, poético, imperdível, admirável, arrebatador, que só visto.

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Estamos no Século XVIII e a Inglaterra está em guerra com a França. A rainha Anne (Olivia Colman) tenta governar como pode mas, devido à progressão da gota, o seu discernimento e capacidade de decisão incertos dão poder à sua amiga, Lady Sarah (Rachel Weisz) para tomar decisões em seu nome. As duas têm uma relação muito próxima e misteriosa, mas parecem entender-se, de uma forma ou outra, sobre os destinos do país e da guerra, que assentam nestas duas mulheres naturalmente líderes.

A relativa paz foi perturbada quando Abigail (Emma Stone) chegou. Prima afastada de Lady Sarah, chega aos aposentos reais pedindo trabalho e o seu charme e juventude sensibilizam a parente. Aos poucos, Abigail vai impondo a sua presença e, com a sua jovialidade e os seus modos prestáveis, ganha a confiança da rainha. Forma-se um trio de mulheres de força que ao início funciona como uma máquina oleada, mas onde a sede de poder e a ambição vão afectando as engrenagens...

Este filme era o meu preferido na corrida ao Melhor Filme nos Óscares, por diversas razões. É realmente diferente - apesar de ser um filme de época, tem técnicas que não estamos habituados a ver neste género. Tem uma abordagem sarcástica, explícita e inteligente, num argumento fortíssimo. A fotografia e cinematografia são de topo. A banda sonora é inesperada e assenta que nem uma luva. O casting é maravilhoso. O realizador Yorgos Lanthimos fez um trabalho extraordinário. É daqueles filmes que vai ser visto daqui a 20 anos e vai continuar a ser um marco.

Para além dos aspectos mais técnicos, explora a natureza corrupta humana de uma forma que extrapola convenções, inserida numa tragédia barroca que provoca a moralidade. Há também toques de surrealismo em determinadas situações mas que, curiosamente, não nos provocam estranheza. Outra coisa inédita é que não existem personagens especialmente simpáticas ou que inspirem confiança, coisa que vai totalmente contra "as regras" que estamos habituados a observar no cinema. Aliás, este filme proporciou-me uma experiência rara - mudei completamente de opinião sobre algumas das personagens, sem reparar, durante o filme. Uma autêntica lavagem cerebral do Yorgos.

Olivia Colman ganhou, merecidamente, o Oscar de Melhor Atriz, e o filme teve outras 9 nomeações - incluindo Melhor Atriz Secundária para as outras duas grandes mulheres da trama, e Melhor Filme. Se ainda não viram, The Favourite é paragem obrigatória - um monumento ao cinema, imoral, absurdo, cativante, emocional, belo na sua estranheza. Vai originar algumas torcidelas de nariz se não tiverem a mente um bocadinho aberta...

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Tony "Lip" Vallelonga é um americano de ascendência italina, chefe de família, que trabalha como segurança num clube nocturno. Quando este fecha portas para renovações, Tony procura trabalho. A oferta mais promissora surge de onde menos espera - uma vaga para ser motorista de um pianista de renome, Don Shirley, que por acaso era negro.

O facto de ser um homem duro com jeito para usar os punhos foi determinante para ser escolhido, e o motivo começa a ser óbvio cedo no filme - Don Shirley é frequentemente vítima de ataques racistas nesta América dos anos 60. Tony, que é um homem também ele alimentado por alguns preconceitos, começa por torcer o nariz por ter de servir um homem negro e com manias de estrela, mas, em última análise, precisa de alimentar a família e tenta encarar aquele trabalho como outro qualquer.

Portanto, temos um homem do povo, branco, algo preconceituoso, a conduzir um pianista negro, com maneiras nobres e muitas manias e requisitos, pelas estradas americanas - e isto, por si só, é um óptimo começo para um filme que, ainda por cima, é baseado em factos reais. Todos sabemos que, quando a realidade ultrapassa a ficção, ainda ficamos mais intrigados, e embrenhamo-nos mais na história.

É um par estranho que vai vivendo algumas aventuras e dissabores nos locais por onde passa e, apesar de se ter passado há décadas, a história faz ecoar em nós resquícios de um tempo que não ficou assim tanto para trás. O racismo ainda é, infelizmente, assunto do dia, e enquanto houver ódio e intolerância no coração humano, não irá acabar. Ou seja, nunca acabará. São as situações mais extremas que nos abalam e que nos fazem questionar como é que tal foi possível, e como é que ainda é possível, e porque é que julgamos os outros pela aparência, como se a cor da pele ou o local onde nascemos determinassem tudo o que podemos ser.

O par de actores é espectacular e foram feitos para estes papéis. Tanto Viggo Mortensen como Mahershala Ali estão perfeitos (este último um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário), revelando um entrosamento e um trabalho extraordinário para entrar na pele daqueles homens que o destino juntou para lhes mudar a vida. As diferenças entre os dois homens, as suas origens, estrato social, tudo está patente nas linguagens corporais, nos modos e gestos, nas maneiras de falar ou na linguagem a si.

O filme tem muita elegância em todos os seus atributos, como a realização, o visual ou a banda sonora tocante. Agora que já vi quase todos os filmes que foram nomeados aos Oscares, posso dizer que era o meu terceiro favorito à corrida (depois de The Favourite e Roma, dos quais falaremos um dia), mas consigo aceitar completamente a decisão de ter ganho o prémio. Pode ter sido uma vitória política, mas pouco importa. É um grande filme, trabalhado por grandes profissionais, com todos os ingredientes para agradar a um público alargado e muito bem executado, que toca algo no mais profundo de nós.

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O filme é inspirado numa história real, e tem como base o livro de Ron Stallworth, de 2004. Nele, Ron relata como foi o primeiro polícia negro em Colorado Springs, nos anos 70, e como se conseguiu infiltrar no KKK.

Apesar de já ser olhado de lado e de sofrer de bullying às mãos dos seus colegas brancos, Ron (John David Washington) não hesitou em responder a um anúncio que visava recrutar membros para a organização de supremacia branca. Chegou a falar ao telefone com David Duke, líder do KKK, que não o identificou como negro ao telefone... E assim Ron, polícia negro, viu-se neste inusitado processo de recrutamento. Mas, claro, era preciso um homem branco para o substituir nos encontros, e eis que Flip (Adam Driver), seu colega polícia, assumiu a sua identidade nessas ocasiões. Quis o destino que Flip fosse judeu, e é apenas um dos inúmeros apontamentos hilariantes. Um negro e um judeu infiltrados no KKK - parece o início de uma anedota.

Apesar do tema ser extremamente sério, e de ficarmos estupefactos com a estupidez infinita do ser humano, o filme é quase como uma sátira que mascara com bom humor os pensamentos e acções chocantes de um grupo de acéfalos, quase como se fossem caricaturas. Apesar de o racismo ser feio, uma das coisas mais feias desde que o mundo é mundo, Spike Lee consegue fazer-nos rir, gargalhar até, com o seu retrato destas pessoas que se acham no topo do mundo só porque nasceram brancas.

É um filme que levanta alguma poeira e que tem muita atitude, com um cunho muito marcante de Spike Lee, que no fundo é um exímio contador de histórias. Só acho que exagerou um bocadinho na duração do filme - algumas partes acabaram por ser esticadas e espremidas sem darem sumo por aí além. Quanto às nomeações, o Adam seria um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário, mas já não tenho tanta certeza quanto ao prémio de Melhor Filme (sendo que já vi melhores este ano). Não deixa de ser um dos filmes do ano, capaz de agradar a todos os públicos, com uma mensagem abrangente e poderosa, humor na dose certa, deliciosos pormenores, com um tema abominável que já devia ter ficado enterrado no passado.

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