Palavras do Abismo


Já passaram vários dias desde o lançamento da campanha e provavelmente já toda a gente viu, mas há que enaltecer e parabenizar a Comunicação do Benfica, mesmo com atraso, na campanha do clube cujo mote é "Seja a família como for, o importante é haver amor".

No vídeo, vemos várias famílias - pais e filhos, casais sem filhos, famílias com mãe e mãe, ou pai e pai, com avós, padrastos e madrastas, famílias grandes, pequenas, interaciais - mostrando o que devia ser óbvio para todos - cada família é válida e é única.

Num mundo em constante luta contra a discriminação, é bom ver um clube grande e com expressão mundial a fazer este tipo de campanha, que chegue a milhares de pessoas, e que expresse os valores de vários tipos de igualdade. Deixa-me um fiozinho de orgulho, uma réstia de esperança.

É claro que este tipo de comunicação arranca sempre diarreia mental de alguém, e vi comentários do género "ainda bem que não sou deste clube de panascas", e coisas piores, mas que fazer? Há atrasados mentais em todo o lado, especialmente nas redes sociais, escondidos atrás de um ecrã, masturbadores que ficam com pau com a sua própria graça e perspicácia.

Que não nos deixemos de lembrar desta mensagem. Somos todos diferentes - temos o direito à diferença - e não nos podemos deixar atingir pelas larvas da sociedade que se alimentam do desprazer alheio. Que cada um viva a vida à sua maneira e que respeite o próximo - só isto bastaria para o mundo fosse altamente.

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Camille Preaker, interpretada por Amy Adams, é uma repórter que é enviada à sua terra natal, onde não regressa há muitos anos, para cobrir a história de um assassinato. O seu editor, que é também seu amigo, acha que a proximidade de Camille àquelas pessoas e à pequena cidade de Wind Gap pode ser a opção certa, não só para dar luz ao mistério mas também porque acha que lhe vai fazer bem conviver com os demónios do passado.

E são muitos. Vamos conhecendo cada um deles, sendo talvez o maior a sua mãe. Patricia Clarkson dá corpo a essa mulher estranha, hipocondríaca, que acha ter o mundo a girar à sua volta, e que vive num drama constante. Vamos tendo alguns flashbacks que nos ajudam a perceber todos os males que afligiram Camille durante a sua infância e adolescência, e vamos compreendendo porque é que é tão difícil para ela regressar a casa e enfrentar aquelas pessoas e as recordações.

Em Wind Gap vive não só a mãe, mas também o padrasto e a meia-irmã de Camille. Esta, com 13 anos e dona de uma beleza invejável, tem em si um pouco da rebeldia de Camille mas também algo de sinistro, certamente herdado da mãe. É a oportunidade para as duas se conhecerem melhor, e vamos vendo interacções muito interessantes entre as duas. Antigas amizades, amores, desconfianças e vergonhas vão sendo também desenterradas.

Há sempre mais camadas por descobrir - as coisas são sempre mais profundas do que aquilo que parecem. E isto é válido tanto para a vida de Camille e da sua estranha família, mas também em relação à onda de crimes que insiste em tornar-se cada vez maior, e envolta em mais mistério. Camille não vai olhar a meios para chegar ao fundo da questão, dando origem ainda a mais animosidade com os habitantes de Wind Gap, onde já se sente uma estranha, e da sua própria família.

Esta é certamente uma das séries do ano. Tem uma realização, fotografia e edição do outro mundo, aliadas a interpretações fora de série. Eu nem simpatizava muito com a Amy Adams, mas Sharp Objects fez-me mudar completamente a razoável opinião que tinha sobre ela. Talvez porque é um papel diferente de tudo o que fez até agora. Aqui, ela é vulnerável, problemática, viciada, negligenciada, incompreendida, e não a mulher bonita e forte que normalmente vemos no grande ecrã. Por mim, o Emmy pode ser já entregue.

Há também que destacar Patricia Clarkson no papel da mãe. Está tão perfeita que nos desperta as piores sensações do mundo, como é o pretendido. Desde raiva, nojo, medo, desconfiança, aquela mulher loira com algo de angelical consegue passar-nos a completa imagem oposta das aparências que quer passar para a comunidade.

Tenho também de mencionar os fabulosos flashbacks. O passado e o presente, por vezes, enrolam-se, conforme Camille vai recordando certas pessoas e situações, e essas viagens ao passado são supremas. O trabalho de edição é fantástico, as passagens entre as duas épocas são sublimes e só mesmo vendo para perceber. O papel de Sophia Lillis como Camille adolescente também contribui em muito para esse sucesso.

Daqui a uns tempos (não agora, que tenho a história demasiado presente), quero ler o livro de Gillian Flynn com o mesmo nome, no qual é baseado esta série. Se tiverem de escolher uma série para ver nos próximos tempos esta é altamente recomendada. Tem apenas 8 episódios e vê-se num instante, e sem conseguir parar, e com uma grande capacidade de nos deixar de queixo caído.

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Já receberam quantas centenas de emails sobre o RGPD? Hum? Já estão fartinhos como eu? Pelo menos vai ser uma grande limpeza, devia ser dia de RGPD mais vezes!

Com tanto parlapié sobre o assunto, na sua maioria coisas sérias e sem graça, há que dar os parabéns à Control por este post genial que lhes vi no Facebook. Demais!


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Estamos no ano 2018 mas ainda há poucos dias um conhecido hospital mudou as políticas de apresentação dos seus funcionários que, para além de outras coisas, não podem mostrar muita pele, e muito menos piercings e tatuagens. Estas ideias só contribuem para o pensamento errático de que aquilo que fazemos, o nosso empenho e profissionalismo, são determinados não pelo desempenho, simpatia e dedicação, mas sim pelo aspecto.

Ter uma boa imagem para atender ao público, a meu ver, não depende dos acessórios ou dos rabiscos na pele. O primeiro "acessório" obrigatório devia ser o sorriso na cara, coisa rara que devia ser inerente mas que falha redondamente. E não nos esqueçamos que as pessoas que nos roubam constantemente, as mais corruptas, mesquinhas e que se estão a cagar para nós, estão muito bem apresentáveis nos seus fatos impecáveis.

Por isso, quando vi este anúncio de emprego fiquei contente. Não é um negócio "da moda", como as novas barbearias ou uma loja alternativa - é uma peixaria, um negócio tipicamente tradicional. É mostrado o braço de um homem tatuado, que está a trabalhar. E é com naturalidade e sem dizer nada que a Sea Me diz muito. Parabéns!


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Não sei quantas vezes já os vi. Venham cá as vezes que vierem, irei sempre vê-los. Ou até deslocar-me lá fora, como já fiz. Irei, mesmo que venham com as muletas e em cadeira de rodas. Porque foram a primeira banda de metal que ouvi - a partir do momento em que me emprestaram o Black Album na escola a minha vida nunca mais foi a mesma. Foi por eles e através deles que o metal se apoderou de mim e fez de mim a pessoa que sou hoje. Foram a porta de entrada para um mundo do qual me orgulho de pertencer, onde se encontra muita da família que eu escolhi. Foram a chave para um modo de vida que me assenta que nem uma luva. Foram essenciais para me descobrir.

Ainda mal tinha maminhas e já sonhava vê-los de perto, tinha fantasias com o James e os cadernos da escola preenchidos com juras de amor eterno. Se eu dissesse a essa adolescente que iria tê-los pertinho, pertinho, pertinho, ali ao alcance de alguns braços, ela iria salivar e chorar baba e ranho.

Irei vê-los sempre. E ontem fui. Desde a última vez que os vi têm o cabelo mais branco e alguns quilos a mais. Eu também já tenho alguns brancos, e uns quilos a menos. Todos mudámos, mas somos exactamente os mesmos. Eles continuam a ser uns putos que sabem o que estão a fazer e que se divertem em palco. Eu continuo a olhar para eles com aquele brilhozinho nos olhos. O público continua a esgotar os lugares por onde eles passam. Eles continuam a gostar de nós, de tocar para nós, e a dizer que somos o melhor público do mundo. E às vezes até acho que somos.

A empatia entre Metallica e Portugal é velhinha mas bem firme. É uma história de amor que acredito que só acabe quando todos morrermos - nós e eles. Eles mudaram o mundo, mudaram a música, e quer gostem deles ou não, quer já estejam fartos ou não, terão de admitir que a música é o que é hoje porque eles existem.

Quanto ao concerto de ontem. Os jovens que ponham os olhos neles. Um palco no meio do recinto - proporcionando uma grande proximidade - uns quadrados por cima do palco a passar vídeos que contam histórias e uns pequenos drones que apareceram por lá para dar uns efeitos foram as únicas coisas necessárias para um espectáculo do caraças. Não estou a criticar as bandas que andam com uma parafernália de coisas atrás, camionetas de luzes, efeitos, confetis, realidade aumentada - cada um faz o que quer e cabe tudo na definição de espectáculo - mas há qualquer coisa na simplicidade que nos liga mais à música e uns aos outros.

Terem tocado Xutos e dedicado o momento ao Zé Pedro. Eles não tinham de o fazer. Andam por cá desde antes de eu nascer. Nem precisam de tocar para viver. E no entanto dão-se ao trabalho de aprender músicas locais e de saber mais sobre as bandas dos países que visitam, e isso para mim é humildade. Ser uma das maiores  bandas do universo - senão a maior - e fazê-lo, torna-os ainda maiores.

Irei sempre. E ficarei com saudades deles, todas as vezes.










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Ontem, quando ia apanhar o comboio para casa, ouvi aquele apito que avisa que as portas vão fechar, estava eu mesmo a chegar ao topo das escadas rolantes da gare. A maior parte de mim sabia que era impossível chegar à porta mais próxima, que estava a uns 10 metros, antes que ela se fechasse.

Mas tenho o cérebro apanhadinho de tantos comprimidos para a rinite e constipações, e as minhas pernas não obedeceram ao cérebro. Desatei a correr como se a minha vida dependesse de apanhar aquele comboio e como se não houvesse outro dali a 10 minutos, já a visualizar levar com a porta na tromba e passar uma vergonha.

Nisto um senhor grita "VAI, VAI, VAI", e talvez entusiasmada com o apoio, chego àquelas portas que estão quase fechadas e contorço-me por entre elas como uma atleta do salto à vara. Nem lhes toco com a ponta da mochila, foi uma entrada imaculada e gloriosa. Fiquei mesmo contente e agradecida pelo meu peso-pluma e horas no ginásio, só para ter este pequeno momento de glória. Podia jurar que ouvi o senhor a bater palmas, mas pode ter sido apenas a ilusão do deslumbramento da vitória.

Infelizmente a vida prosseguiu como sempre, mas foram uns bons segundos da minha vida.


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