Palavras do Abismo

Podem substituir "raio" por "caralho" no título deste post para melhor sentirem o meu estado de espírito, que de momento é merdoso. 

Foda-se, tenho 33 anos, pensei que por esta altura a questão dos sisos estava arrumada, e seguia feliz na minha vidinha quando um desses cabrões decidiu infectar. Criou abcesso, a boca inchou, começou a empurrar os outros dentes (um belo moshpit na minha boca - eu sei que mereço) e foram dias intensos a sentir uma das piores dores da minha vida - está no top 3, a seguir à pedra nos rins e à hérnia discal - até o antibiótico fazer efeito. 

Foram quatro noites sem dormir, e porquê? Para quê? Porque é que temos dentes que nos incomodam tão tarde na vida? São como aquelas visitas indesejadas - não queremos que venham, não temos espaço para elas, e mesmo assim elas entram-nos porta adentro, sem dia e hora para bazar, fazendo da nossa vida um rebuliço, deixando tudo de pantanas. E, quando finalmente elas se vão, não deixam saudade alguma. Adeus, já vão tarde! Só é pena não podermos tirar essas pessoas tóxicas da nossa vida com um alicate. 

O meu hóspede indesejado foi retirado esta manhã e ainda estou sob efeito da anestesia, e por isso ainda tenho espírito para escrever antes das dores chegarem. Vim aqui deixar um conselho aos jovens - vocês retirem esses cabrões todos da vossa boca. Assim que souberem que os sisos estão para nascer, ou se começam a espreitar, não hesitem e arranquem-nos. Não os deixem crescer nem infectar, porque depois sofrem em dobro. No mercy para esses motherfockers!

Ah, spoiler alert - como podem ver, o juízo não vem com o siso.


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"Estás a gozar, não estás? Só podes estar a gozar.

Porque é que haveria de estar a gozar?

Tu não queres morrer.

Também não quero viver.

É melhor estar vivo do que estar morto.

Dá-me uma razão.

Sei lá. Estares vivo para ires à praia no Verão.

O sol faz-me mal à pele.

Para tomares conta dos teus filhos.

Não tenho filhos nem quero tê-los.

Dos teus sobrinhos.

Sou filho único.

Para leres um bom livro.

Já te disse que detesto ler.

Ou veres um bom filme.

Os filmes roubam-nos a imaginação.

Para usufruíres dos prazeres da mesa.

Comer dá-me gases, tenho um estômago fraco.

Dos prazeres da cama.

Tenho um pénis pequeno e sofro de ejaculação precoce.

Porra, disse eu, quase a gritar, e que tal para poderes respirar? E sentires o calor do sol, e o frio da noite, e saboreares um fruto, e poderes olhar para as estrelas e perguntares-te que raio andamos a fazer aqui, e sentires medo e dúvida e esperança e aquelas coisas todas que as pessoas sentem quando não estão fechadas nas suas cabeças a tentar resolver uma equação impossível?"

in Ensina-me A Voar Sobre os Telhados, de João Tordo (2018) 

 

O que é certo é que as minhas razões de viver não são as tuas. As tuas dores não são as minhas. Não quer dizer que não as compreenda, mas tenho as minhas, que também doem, moem, e me distraem das tuas. Os nossos problemas são sempre maiores no nosso íntimo que os problemas dos outros. Mas acredito que cada um de nós lá terá as suas razões para se levantar da cama. Às vezes não são óbvias e não chegamos logo lá. Às vezes demoramos dias, meses, anos, a perceber. Às vezes, enquanto esperamos que se faça luz, faz-se mais negro. Às vezes, também, complicamos demais. Podem não existir razões efectivas mas há decerto sensações e sentimentos a que nos podemos agarrar. Nem que seja o sabor daquele gelado fresco num dia estupidamente quente. Um nascer do sol com um degradé perfeito de cores no horizonte que nos deixa colados ao chão. Ler os nossos Saramago, e José Luís Peixoto, e João Tordo, e Afonso Cruz, e o Camilo, e o Eça. Correr até as pernas tremerem e inspirar o ar às golfadas. O primeiro mergulho do ano. As nossas razões não têm de ser muito complexas, nem têm de se projectar a longo prazo. Viver é só sentir. Um dia de cada vez.

PS: desabafo inspirado nas palavras de João Tordo. Vale a pena lê-lo.


 
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Ai que escândalo, que horror, o drama, o fim do mundo! Tudo por causa do comentário do professor Daniel Cardoso no programa Prós & Contras. Para quem ainda não ouviu falar, se é que tal é possível, Daniel disse no programa que obrigar uma criança a beijar os avós é uma violência, uma acção pequena mas que pode desencadear comportamentos impróprios no futuro.

E caiu-lhe tudo em cima - o céu e o inferno, o Carmo e a Trindade, fizeram trinta por uma linha, começando pelo esterco de comunicação social que temos até aos justiceiros das redes sociais, esses seres que têm a opinião certa sobre todos os assuntos da vida e mais alguns, detentores da razão absoluta, guardiões da verdade e da moral.

Quanto ao que foi dito, a minha opinião é igual à dele. As crianças têm de se reger sobre regras, sim, mas devem ser menos rígidas no que toca ao contacto físico com os outros. Eu era uma criança que detestava dar beijinhos e todo o tipo de contacto. Hoje, sou uma adulta que odeia dar beijinhos e todo o tipo de contacto. Et voilá, sou uma pessoa completamente normal (que tem uma relação normal com os avós!). A minha mãe, no início, obrigava-me, mas depois de um episódio em que eu limpei a cara com o meu próprio cuspe e com a ajuda da manga do casaco depois de um beijinho de uma velha, tinha eu uns 4 anos e transbordava de nojo, desistiu, cheia de vergonha. E como ela própria é uma pessoa que não gosta de contacto, caiu na real e achou que não me devia obrigar. E hoje, agradeço-lhe por isso.

Ela considerou mais importante que eu fosse educada, que dissesse bom dia e boa tarde, que segurasse a porta, que dissesse obrigada,  que ajudasse em casa, que fosse aplicada nos estudos, que respeitasse os meus amigos e professores, do que ver o meu mal estar quando tinha de cumprimentar, tocando, em alguém. Esta aversão que tinha e continuo a ter é um traço da minha personalidade e que está também relacionada com outra característica minha - não suporto que violem o meu espaço pessoal, mesmo que não me toquem. Mantenho a minha distância, tanto física como mental, e abro mesmo muito pouco espaço para que alguém entre na minha vida. Sou, portanto, feliz na minha solidão. Tenho a certeza de que seria mais amarga se, na minha infância, tivesse passado mais tempo por essa provação de ser obrigada a ter contacto físico com os outros.

Esta é a minha opinião e a minha experiência pessoal, e todos sabem que as opiniões são como os cus. O mais lastimável é quando se transforma um comentário ou opinião num circo tão grande que a coisa extrapola para níveis inacreditáveis. Os haters foram imediatamente investigar Daniel Cardoso, e viram que é praticante do poliamor e que gosta de tirar fotografias eróticas. E pronto, às armas, às armas, foram disparados os canhões e o homem foi atacado por todos os lados e vexado em praça pública, porque, toda a gente sabe, um homem capaz de amar várias mulheres em relações consentidas e que gosta de fotografia artística com menos roupa não tem qualquer legitimidade para falar de comportamentos violentos na infância, mesmo sendo dourado em Ciências da Comunicação e que seja professor de Comunicação e da Sexologia na Universidade Nova. Um taralhoco, portanto!

Neste país, nada se pode meter com os velhos costumes. A instituição "família" é uma coisa muito sagrada, nada a pode perturbar, mesmo que não existam laços que o justifiquem. As pessoas não conseguem aceitar que, sim, há famílias unidas e com laços afectivos muito fortes; mas também há outras em que nem tanto, porque nem sempre o sangue fala mais alto, mas sim as coisas que temos em comum, os caminhos que seguimos juntos, os sentimentos que partilhamos, as amizades que fluem no seio familiar. É por isso que muitas vezes as famílias são as pessoas que vão surgindo para junto de nós vindas de outros meios, os amigos que escolhemos ou que a vida nos escolheu, as pessoas que vamos amando e querendo manter do nosso lado, os laços que não queremos perder. Por isso, obrigar uma criança a beijar um avô, ou um tio, um vizinho, é muitas vezes sinónimo de obrigar a beijar um desconhecido ou alguém por quem a criança não sente nada.

E depois de passear nas redes sociais e ver o bullying que se está a passar com o Daniel e, passando a citar, chamando-o de "evadido do Júlio de Matos", "insano", "desajustado social", "verdadeiro psicopata", "atrasado dos pirulitos", "bastardo", "maluco da moina", "nojento", "lixo humano", "aberração", "lunático", "sem valores", "deficiente mental", "pobre diabo", "besta sadomasoquista" dizendo que "gosta é de apanhar no traseiro", é um "tarado vindo de Marte", que "bate na avó", tem "cara de parvo", que "anda é à procura de fama", devia "ter o instestino grosso dentro da cabeça" (e isto numa pesquisa rápida de 5 minutos), eu é que fico com cara de parva a tentar perceber como é que a comunidade que defende tanto um ataque à moral é capaz de ser tão imoral na maneira como trata outro ser humano.

Mas, enfim, eu já devia estar habituada à dualidade e falta de coerência das pessoas estranhas vindas de Marte. Se cada um se preocupasse com o que se passa dentro das suas próprias casas, isso é que era.

PS: só de olhar para a cara de nojo da senhora Fátima Campos Ferreira dá-me vontade de lhe dar um beijinho na cara, com uma cadeira. Vídeo aqui.

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António Variações foi um visionário, um sábio, nascido numa era que não o compreendeu mas que carrega e carregará consigo, para sempre, palavras mágicas que, mais tarde ou mais cedo, acabamos por senti-las como nossas.

"Estou além" é uma canção muito inteligente, alegre nos acordes e algo sombria na mensagem, que nos fala da eterna insatisfação do ser humano. Há inevitavelmente momentos de maior confusão interna em que esta canção nos assenta que nem uma luva e, enfim, temos a pressa e a ansiedade de chegar onde só estamos bem onde não estamos. A lado nenhum.

Mais dia menos dia, um dia acordamos desejosos que o dia acabe. Sabemos de antemão que nada de bom virá de mais um nascer do sol. Sabemos que serão apenas 24 horas pesando sobre os ombros, mais uma ruga, uma rotina, um cabelo branco, mais um dia sem significado. Queremos sair desta linha monótona, mas não sabemos como. Queremos ir para outro lugar, mas não sabemos qual.

Questionamos o que estamos aqui a fazer. Pesamos os "ses" da vida e onde poderíamos estar se tivessemos ido para a esquerda em vez de para a direita. Os pensamentos vão recuando no tempo, e questionamos até as escolhas que fizemos na adolescência e infância. E se tivesse estudado outra coisa? E se tivesse emigrado? E se me tivesse tornado uma eremita vivendo isolada num monte alentejano? Todas as respostas possíveis embrulham-se num novelo que, embora confuso e sem conseguirmos descobrir o início e o fim da meada, nos parecem melhores do que a vida que levamos.

Tentamos descortinar onde aconteceu o ponto sem retorno que definou a vida que levamos hoje. Tudo parece errado. Se existiram más decisões, sentimos que as tomámos todas. E apesar dos clichés que nos atiram, que nunca é tarde para mudar, para ir, para conhecer, falta-nos a energia e a coragem para refutar um presente construído por nós mas que, a cada dia, nos vai passando ao lado.

Um dia destes, ouvindo o Variações, confirmei para mim mesma que as dúvidas nos assaltaram desde o início dos tempos e vão continuar a assombrar a nossa existência até que o último humano desapareça da Terra. Nascemos e morremos sozinhos, mas estamos unidos nesta incessante busca por um lugar de pertença. Alguns fazem esta travessia no deserto com a animação típica dos optimistas; outros, têm sempre qualquer coisa atravessada na garganta que não sai nem a ferros, acumulando frustrações.

A vida é um cemitério de expectativas.

 
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É sabido que a raça humana é uma valente merda. Cuspimos à grande no prato onde comemos, temos um umbigo gigante (o mundo gira à volta dele), o individualismo permanece, o egoísmo enaltece os comportamentos cada vez mais erráticos de quem se está a cagar para outra coisa que não eles próprios. Apesar dos esforços de muitas pessoas, e até mesmo da comunicação social que tem divulgado muitas imagens, estudos, chamadas de atenção, ora para o excessivo uso do plástico, ora para o esgotamento dos recursos, ora para as espécies que morrem e que sofrem com o nosso lixo, tal não é suficiente para uma geração muito, muito rasca, que neste momento assola o país.


Este vídeo foi gravado por estes jovens que se dispuseram a limpar a porcaria que os outros fizeram na praia de Carcavelos, e fazem um apelo para que cada um cumpra a sua parte. Reuniram sacos e sacos de lixo, ao fim de um dia com aquele calor infernal que tivemos há duas semanas. Estas atitudes são louváveis, e quem de nós (civilizados) nunca andou com um saquinho a apanhar merda dos outros na praia? Tudo muito bem, só que esses canalhas vão achar que têm criados, que não têm de limpar porque há quem limpe, e mesmo se não houver, é para o lado que dormem melhor.

 

Mais fotos de exemplo de uma rapariga indignada com o lixo nessa mesma praia. Eu sei que há porcos de merda de todas as idades, de todos os estratos sociais, mas parece-me, de acordo com os relatos, com as fotos, vídeos, que os adolescentes de hoje são uns burros acéfalos e vaidosos que se importam mais com as selfies do que a morte do planeta, e que o nível de bateria do telemóvel é mais preocupante do que a extinção das espécies ou a escassez de recursos. Odeio generalizações, mas estes chamados adolescentes da pastilha deviam ficar sem um dedo por cada porcaria que deitam para o chão, até terem apenas um coto que nem lhes permitisse limpar o rabo. 


Um exemplo fulcral é o Sudoeste. Um festival da pastilha para miúdos da pastilha típicos que vão lá para tudo e mais alguma coisa menos pela música e para serem civilizados. Como moça alentejana, eu fui ao Sudoeste, claro, era o apogeu do verão. E posso garantir que isto não era assim. E eu tinha os cornos no ar nessa altura da vida em que tudo acontece, e mesmo assim, eu e os meus amigos tínhamos o mínimo de consciência, e nunca vi as coisas chegarem ao estado, nem nada que se pareça, com o que podemos ver. Nessa imagem, no topo, podem ver um print do recinto do Sudoeste este ano, e em baixo, uma fotografia do recinto do campismo do Vagos Metal Fest também este ano (tirada por uma pessoa conhecida). Os metaleiros é que são feios, porcos e maus, não é?

Não sei se o mal pode ser corrigido. É difícil endireitar quem se está a cagar, e vê-se que ninguém os meteu na linha quando deviam. É a geração que compra tudo feito, completamente sem valores, sem moral, sem hábitos que os ajudem a ser pessoas melhores. Não lêem, na televisão só vêem lixo dos degredos e afins, se vão ao cinema é para engatar e estar a falar, se vão para a praia é para fazer poluição sonora e física, se vão para os festivais é para beberem até cair, se vão à escola é para fazer merda e passar à rasca, enfim, não dão uma para a caixa, e o futuro é negro.
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Devido ao documentário transmitido na RTP1 (disponível aqui) algumas pessoas estão agora a acordar para a vida. Outras continuam a dormir, a olhar para o lado e a assobiar, que não é nada com elas.

Eu não vi o documentário. Não vi porque me custa, porque choro, porque faço parte de grupos de defensores dos animais e já estou farta de saber o conteúdo. Sei o que se passa, e não preciso de ver e ouvir novamente os gritos e as lágrimas destes seres.

Não sei como as pessoas conseguem dormir à noite descansadas, sabendo que a comida que aparece no prato é obtida à custa do sofrimento e da dor de seres vivos, cuja inteligência e sensiência, sabemos hoje devido à evolução científica, equivale à de uma criança pequena. Não sei como conseguem ser egoístas ao ponto de pôr o seu paladar acima do modo como se tratam os outros habitantes do planeta. É uma questão de dignidade, de respeito, de sensibilidade.

Durante o transporte, os animais são sujeitos a temperaturas de mais de 40º e a água disponível depressa desaparece. Não têm espaço sequer para se virar, vão uns em cima dos outros, pouco importando aqueles que já mal se conseguem manter de pé, que têm feridas ou lesões. Seguem assim, horas intermináveis, dias, semanas, o tempo que for preciso até chegarem ao destino. Quando o transporte tem dois andares, os animais da parte de baixo ficam cobertos de merda, o que aumenta ainda mais a sua temperatura corporal e pode dar origem a infecções. Na transladação, são pendurados pelas patas por uma grua, esperneando, levando com choques eléctricos, e gritando por ajuda que não virá. Muitos morrem antes de chegar, apenas eles sabendo a dor por que passaram. São jogados para o mar, se estiverem num barco.

Mais valia que fossem mortos à partida. Mortos em meios controlados, com anestesia, e transportados em meios refrigeados. Mas isto sai muito mais caro. E nestas coisas o lucro fala sempre mais alto. Para além disso, nos países para onde são transportados são seguidos rituais de morte próprios. Ou seja, para além de tudo o que passam na viagem, muitas vezes são mortos a sangue frio em rituais bárbaros.

Portugal é um país civilizado e não pode permitir isto dentro das suas portas. A petição do PAN para existir um limite de horas de transporte diárias e a presença de um veterinário é assim tão descabida? E ainda assim é apenas uma gota no oceano. Temos de parar de exportar para o Médio Oriente e Norte de África, simplesmente. Mas como isto escapa às leis nacionais e europeias, valem a lei daqueles países. E o lucro, sempre o lucro.

Por mais que os responsáveis joguem areia para os olhos do povo, basta estar presente num dos portos onde atracam os barcos para ver a realidade tal como ela é. A realidade é muito suja, tem lágrimas a escorrer pelos focinhos, ossos partidos, fome, morte. Não podemos ficar de braços cruzados, chega de compactuar com o sofrimento alheio. Estes animais não têm culpa da vergonha que devíamos sentir. Se não sabem o que fazer, comecem por assinar esta petição. Se querem fazer mais, procurem os grupos nas redes sociais, informem-se, a acção está por todo o lado e o maior cego é aquele que não quer ver.

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"Cipriano Algor pôs a furgoneta em andamento. Distraíra-se com a demolição dos prédios e agora queria recuperar o tempo perdido, palavras estas insensatas entre as que mais o forem, expressão absurda com a qual supomos enganar a dura realidade de que nenhum tempo perdido é recuperável, como se acreditássemos, ao contrário desta verdade, que o tempo que críamos para sempre perdido teria, afinal, resolvido ficar parado lá atrás, esperando, com a paciência de quem dispõe do tempo todo, que déssemos pela falta dele."

in A Caverna, de José Saramago (2000)

Quem nunca falou em recuperar o tempo perdido? Todos temos mentido a nós mesmos. O tempo nunca, em situação alguma, é recuperado. Ele é-nos tirado, segundo a segundo. Se acelerarem na estrada para recuperar o tempo que estiveram parados, no fim do percurso não estará lá o mestre do tempo a dizer-vos "Peço perdão, tomem lá meia hora de compensação, subtraiam aos vossos relógios." Ou quando um certo relatório ou apresentação vai parar ao balde do lixo, o vosso chefe não vos pede "desculpa por qualquer coisinha, não tomem a peito a afronta, tomem lá 8 horas de vida a mais." Não se iludam, o que foi já lá vai e não vão ter novos fôlegos a somar aos que vos restam. Percebo a lógica, mas que a ilusão da oralidade não vos dê falsas esperanças.

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A gaja mais chata do mundo mora no meu local de trabalho e eu tenho de escrever sobre isso antes que arranque os cabelos - os dela primeiro, depois os meus.

Nunca tive o desprazer de lidar com alguém assim. Já conheci muita gente chata, mas que acabam por se tornar conscientes de si próprias e acalmar o pito. Esta, já se viu que é mesmo coisa dela, intrínseca, inerente, uma coisa descontrolada que me descontrola.

Será impossível replicar aqui os seus comportamentos por escrito. Só visto e vivido ao vivo. De qualquer forma, vou dar o meu melhor e listar o que me aborrece.  

Ela não se cala
Existe nela uma necessidade de falar. Falar, falar, falar. Nunca a vi mais de 5 minutos calada. Quando esse tempo limite passa e ninguém vai falar com ela, ela levanta-se e toma a iniciativa. E estando num local de trabalho, seria de imaginar que falasse sobre trabalho. Mas não. Até pode começar a conversa por aí, mas depressa tudo resvala para ela própria. Do género: "Viste o email que eu te mandei? Sim? Possa, tenho aqui uma dor de lado, acho que foi de blá blá blá blá...". Ou: "Já fiz o powerpoint. Esta cor de verniz, que achas?". Foda-se, foda-se, foda-se. Se há alguém que não tem pachorra para este tipo de conversas, sou eu. E tive de lhe dizer, à segunda ou terceira tentativa de falar sobre si própria comigo, que, primeiro, tenho mais do que fazer, e, segundo, não quero saber.

É a pessoa mais importante do seu mundo e tem de falar sobre isso a alguém
No decorrer do ponto anterior... Eu também sou importante para mim. Sou a pessoa mais importante do meu mundo, no meu mundo. Este mundo que está fechado a sete chaves e que só revelo às pessoas mais próximas. Mas garanto, bastam uns segundos com esta mulher e ela desbonina tudo cá para fora. Despeja o currículo, cor preferida, gostos musicais, o que gosta de vestir, se está com período... sem que ninguém lhe pergunte... NADA!

Parece um suricata
Estão a visualizar um suricata, que estica o pescocinho para ver o que se passa à sua volta? Tal e qual. Ela está à minha frente, na diagonal, e basta alguém se mexer, ou falar, ou ir à casa de banho, ou qualquer coisa, para ver o seu pescocinho se levantar, muito erecto, a rodar de um lado para o outro, ainda assim não perca nenhuma acção deste escritório!

É uma queixinhas
Em conversa com um colega, que ela chamou para falar de como é eficiente, começou a falar dos colegas que andavam sempre a passar no corredor, que concerteza iam fumar, e ela, como não fuma, que é muito dedicada ao trabalho. Ela não sabe se eles vão para reunião, se vão cagar, se vão tirar café. Ela não tem nada a ver com isso, mas a tóxica que há em si acha por bem ir dizer a uma pessoa que mal conhece que os outros colegas têm maus hábitos e não são eficientes. Pois claro que ele veio chibar-se a mim.

É uma lambe-cus
Já perdi a conta às vezes em que ela disse que trabalhava pela noite dentro, que acordava mais cedo para trabalhar, que trabalhava ao fim de semana. E quando há um chefe por perto, diz ainda mais vezes e mais alto. E diz-lhes diretamente, que eu vi e ouvi, "és o chefe mais fixe, atendes-me ao sábado!". Querida. Isso só me diz que tu não tens vida social e familiar, bons hábitos e respeito pelo teu próprio tempo. E que gostas de lamber rabinhos.  

Toca nas pessoas
Não basta falar, ela tem de tocar na pessoa com quem fala. Pois que caíu no erro de me tocar. A mim, bicho do mato, pessoa-fóbica, que nem os meus pais estão autorizados a tal. Quando ela me tocou e enrolou uma meada de cabelo na sua unha de gel, eu tive de lhe dizer: "Se fazes o favor, esta foi a primeira e última vez que me tocas". O meu olhar gélido foi a cereja no topo do bolo que a fez parecer um disco riscado, ou um robô do Westworld com problemas na programação.

Eu cheguei a pensar que isto era apenas implicação minha, que já gosto pouco de gajas e esta, sendo chata como a putaça, ficou-me aqui tipo espinha na garganta. Mantive-me caladinha no meu canto, até que um colega, meio a medo, me veio perguntar se não achava a colega nova a maior chata do universo. E contou-me uma data de coisas, como quando ela o chamou com o pretexto de trabalho para lhe mostrar uma assadura na perna e as suas playlists do Spotify. No seu primeiro dia aqui. Mais tarde, fê-lo tirar os phones para dizer que ia à casa de banho e almoçar. Ele, que é simpático e não consegue dizer-lhe na cara para ir para a puta que a pariu, tem aguentado com ela e depois desabafa comigo. E depois, claro, ela liga-lhe nas férias, fazendo com que ele bloqueie o seu número. Há muito, muito mais por dizer, mas acho que isto basta para terem uma pequena noção.

Acho que ela é solteira, e tenho a certeza que assim vai continuar, até morrer, a não ser que arranje um surdo. É humanamente impossível um homem (ou uma mulher) aguentar uma relação amorosa com alguém assim. É daquelas que acabaria por ser vítima de um crime passional, e eu iria compreender perfeitamente. "Homem atira esposa da janela do 7º andar" seria uma manchete credível nesse cenário. Que pessoa tão, mas tão carente!

Hoje, já somos uns quantos que desabafamos uns com os outros sobre quanto a odiamos. No fundo, ela uniu-nos. Obrigada, suricata. Mas podes ir morrer longe.

PS: e logo esta bitch é a pessoa #100 desta rúbrica, mesmo para eu não me esquecer dela enquanto for sã.


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Hoje de manhã, como todos os dias, desloquei-me a um beco a uns metros do meu prédio, onde coloco ração para os gatos de rua. Hoje ia atrasada e vi um vizinho que nunca tinha visto. Um velho que aguardava a mulher dentro do carro e fez questão de sair para termos a seguinte conversa:

Velho Estúpido (VE): Meta isso no seu prédio! Tem de vir para aqui sujar a minha porta?
Eu: Eu metia no meu prédio, mas as pessoas tiram...
VE: Então tiram? Fazem elas bem! Agora não tem nada de vir para a frente do meu prédio meter o que não querem no seu!
Eu: Você nem sabe onde moro... E qual é o mal que lhe faz uma taça com ração?
VE: Não quero isto aqui! Leve isso e os bichos todos para a sua casa!
Eu: Levaria se pudesse! Isto faz-lhe assim tanta comichão?
VE: Faz!
Eu: Então olhe, coce essa micose no escroto! É por causa de pessoas de merda como você que o mundo está podre!
VE: Badalhoca!
Eu: Pois aqui a badalhoca manda-o ir foder-se pró caralhinho, está bem?

E seguiram-se mais trocas de mimos aos berros na rua enquanto me afastava. Infelizmente como estava atrasada não tinha tempo de lhe chamar mais nomes mas espero encontrá-lo novamente porque tenho mais no meu portfólio.

Já onde o meu namorado alimenta uma gata as pessoas volta e meia jogam a comida e a água para o lixo e destroem as coisas no local, já para não falar de outro Velho Estúpido específico que atiça os cães de caça contra os gatos e já conseguiu matar dois... perante a passividade das autoridades, que nada fazem apesar nas queixas apresentadas.

O mundo está cheio desta gentinha que se julga dona das ruas e do mundo. Não lhes faz impressão ver todo o lixo que está no chão, as sarjetas entupidas, os buracos nas estradas, o património destruído. Pequenos tupperwares com ração arrumados e limpos são a pior coisa para estes filhos da puta. Não suportam a ideia que hajam pessoas que queiram ajudar animais de rua, esses 'ratos que apenas transportam doenças'.

Esta cena repete-se por todo o lado, em todo o país. Não digo no mundo, porque sei que há países civilizados onde o respeito pela vida, seja ela qual for, existe. A estas pessoas, que na maioria são velhos de merda, só lhes digo que fico contente por a morte estar à espreita à esquina e espero que fiquem tão arreliados com estas demonstrações de respeito que lhes dê um AVC que os torne vegetais ou cadáveres rapidamente.

Se não gostam que outras pessoas alimentem animais de rua, não se metam e não atrapalhem. Não têm de participar, não têm de gastar dinheiro ou tempo, isso é comigo e com os outros cuidadores. Não se têm de preocupar com a limpeza do local - está garantida. Será assim tão difícil não meterem o bedelho? É um incómodo assim tão grande uma taça colocada a 10 metros das suas portas? Se colocassem essa energia toda para resolver problemas sérios, o mundo era tão, mas tão bom. Resumindo: estimo que morram!

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Este "senhor" que se julga Deus, dono da razão, e detentor de todo o conhecimento sobre a mente e corpo humanos, diz o seguinte:

"Vi um documentário aterrador. O pior que se pode ver antes de ir para a cama. O documentário era sobre um transexual. (...)

Depois da operação, entrevistavam o fulano que se queria transformar em fulana. Numa voz estranha, deu umas respostas que tornaram óbvio estarmos perante uma pessoa débil mental. Dizia umas patetices. Mostrava-se ansioso por se tornar uma mulher. Mas aí eu pergunto: se em vez de lhe operarem o corpo para se parecer com uma mulher, por que não optaram por tratá-lo psicologicamente para adaptar a mente ao físico que realmente tinha? (...)

Depois cortou o pénis, explicando que ia aproveitar uma parte deste para fazer o clítoris. Neste ponto, não consegui ver mais e mudei de canal. (....)

Se a sua cabeça já era confusa, tornar-se-á muito mais confusa depois da operação. Nunca poderão ter uma vida familiar normal: não podem ter filhos e qual é o homem que se vai casar com uma mulher que já foi um homem? Só por caridade alguém condescenderá em fazê-lo. (...)

Se um homem pensar que é uma galinha, os médicos não vão transformá-lo em galinha."

Podem ver o texto na íntegra aqui.
 
Bem. Aterrador é ainda existirem pessoas assim. Pessoas que acham que querer mudar de sexo, sentir-se no corpo errado, é doença mental, que se resolveria com uma terapiazinha, provavelmente com uns choques eléctricos. Ou prendê-los, abrir-lhes os olhos com uns palitos, e obrigá-los a ver cenas entre um homem e uma mulher - todos no corpo certo - a cupular, como deus manda.

Aterrador são estes velhos do restelo acharem que a normalidade é apenas aquilo que conhecem, aquilo que a sociedade lhes disse que era normal e que eles aceitaram sem dizer ai nem ui; é não admitirem que as coisas não são lineares, não são a + b, que o universo, e a mente, o cérebro, os sentimentos, as emoções, não são uma fórmula matemática.

Aterrador é chamar de débil mental a quem, numa atitude corajosa que ele nunca saberá o que é, mostrar ao mundo que não temos de ser infelizes, que devemos perseguir o que desejamos, viver na pele que queremos, que não temos de ficar presos uma vida inteira às convenções e à tal "normalidade" que nos impingem.

Aterrador é dizer que ninguém vai querer uma pessoa assim. Assim como? Que foi em frente quando existem pessoas como o senhor arquitecto que acham que deviam ter estado quietinhas? Que cumpriram o seu sonho? Que decidiram ser felizes? E por não poderem ter filhos, são pessoas incompletas? O objectivo primordial da espécie é parir? Gostar de nós próprios, não conta para nada?

Aterrador é comparar um homem ou uma mulher que estão a cumprir um sonho, num processo custoso, longo, demorado e controverso, em que muito provavelmente foram criticados e ostracizados pelo mundo inteiro, com a pretensão de ser uma galinha...

Aterrador é partilhar este planeta com pessoas cuja mente ficou presa no séc. XIX e que ainda se auto-intitulam de liberais. Se cada um se metesse na sua vida, isso é que era bom. Se deixassem os outros serem felizes da maneira como são, se aceitassem a diferença, o mundo era um lugar bem melhor. Se vos faz impressão, ignorem, deixem-nos ser. A indiferença é melhor do que a promoção da opinião odiosa.

Aterrador é você, senhor arquitecto. E se não fosse essa tacanhez e pequenez, não teria essas trombas.



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Ter um emprego. Mal pago para a pressão e as horas que trabalhas. Com colegas de merda que, se escolhesses, nunca os terias na tua vida. Conversas de merda, bocas de merda, horário de merda. Andaste a estudar para isto? Parece que sim. Sairás alguma vez deste ciclo? Pode ser que sim, mas muito provavelmente, não. Tal como os teus pais ainda têm um emprego de merda, tu também continuarás nessa sopa.

Porque tens contas para pagar, animais ou filhos à tua responsabilidade, uma hipoteca de uma casa mal situada difícil de vender. Não podes simplesmente deixar tudo para trás e percorrer o mundo como vês de vez em quando nas notícias que alguém faz. Invejas secretamente o filho da puta e acedes ao site do teu banco para ver se alguém se enganou e transferiu alguns milhares para a tua conta. Mas não. Continuas com o saldo para pagar as contas assim rés-vés-campo-de-ourique. Vá lá, este mês não está a negativo. Nem tudo é mau.

Queres ocupar o pouco tempo livre com algo importante. Mas os teus amigos têm a vida deles e deixaste de estar incluído. Já não aguentas o ginásio e as corridas como antigamente - aquela dor no joelho que não passa e a coluna deformada das horas que passas sentado ao computador. Ler é cada vez mais difícil com a miopia a aumentar. Ir para a praia implica dinheiro, e este mês já está tudo contado. Nem podes dar uma bufa fora do sítio. E o dentista vai ter de ficar para o mês que vem. Ou para o outro. Resta-te o sofá, a televisão, e a tua própria desanimada companhia.

Olhas-te ao espelho. Já não és o mesmo. A pele manchada, os cabelos brancos que teimam em espreitar, as rugas inevitáveis. Lembras-te como as ganhaste? Valeu a pena? Contam histórias bonitas, como dizem nos anúncios? Não. Cambada de tretas. Nem deste pelo tempo passar. Os cabelos brancos foram todos ganhos a aturar as merdas do teu chefe e os gritos da tua ex-mulher. As rugas, a franzir os olhos para olhar para o computador, tentando compensar a crescente falta de vista.

Queres agarrar-te às coisas boas, mas agora tudo é responsabilidade e maturidade. A melhor coisa que tens ainda é a merda da rotina que, pelo menos, te faz levantar o cu da cama todas as manhãs. E quando isso é a melhor coisa que tens, bem podes ver a vida de merda que é a tua.

De vez em quando sentes o sol na pele, ouves os pássaros e sentes a brisa na fronha. Mergulhas na música, e na pintura, e num texto que te atingiu como um tiro bom. Vês um filme que te toca, lês um livro que mexe contigo. Mas são apenas momentos. Fazes por esticá-los e prolongar essa sensação, mas é rapidamente esmagada sob o peso da vida adulta. Tentas partilhar o que sentes com alguém, mas espetam-te com uma frase feita cheia de moralismo que não te diz um cu.

Ainda por cima, não és suficiente bom para nada. Não correspondes às expectativas de ninguém. Estás sempre a fazer tudo errado. Para o teu chefe, para a tua ex-mulher, para os teus pais, para os teus filhos, para a sociedade. Fazes tudo mal. Todas as tuas escolhas estão todas erradas. Deves ter defeito. Todos te saltam em cima. Se calhar és apenas um erro de cálculo. Um espermatozóide que só deve ter chegado à meta porque os outros desistiram.

Merda para a vida adulta. O nosso tempo por cá é tão curto e não passa de uma prisão, de um presente envenenado. Onde preencho os papéis para voltar atrás? Ou então para o "que se foda". Também pode ser.





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Um dia muito ocupado no trabalho. Sem tempo para respirar. As tarefas acumulam-se. O telefone toca. Pensas em deixar tocar e não atender. Aliás, pensas em tirar o telefone da tomada e desligar o telemóvel. E jogar ambos pela janela. Desejas acrescentar mais umas horas ao teu dia ou, melhor, que toda a gente desapareça. E que o edifício arda e não sobre nada. Mas lá atendes o telefone, e então...

(ler muito devagar, como se estivessem a saborear o último pedaço de chocolate existente no universo)

"Estou? Olha... tudo bem... então é assim. O motivo pelo qual te estou a ligar é porque, pronto, surgiu uma campanha e vamos ter de... bem, vais perceber pelo meu email. Vou explicar tudo por escrito. Para que não hajam dúvidas. Não vale a pena estar a falar disso pelo telefone. É só para saberes. Que vou mandar um email. Para estares preparada, para não estranhares. Não é urgente, não. Mas pronto. Para saberes. Que vais ter um email meu na tua caixa de entrada. Não agora. Ainda hoje, provavelmente."


Mas porquê??? Porque é que as pessoas são assim? Porque é que desperdiçam o tempo delas e o meu? Depois levo nos cornos porque desligo os telefones, mas é porque esta gente existe realmente e mói-me o dia inteiro! Parasitas anti-produtividade! Socorro! Ahhhhh!


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Trouxe da biblioteca um livro que me deu a conhecer um período negro da História, conhecido agora como o Holocausto Brasileiro. Fiquei estarrecida, em primeiro lugar por aquela realidade ter acontecido durante tanto tempo nas barbas de toda a gente; em segundo lugar, porque o desconhecia. E a ignorância que tinha disto envergonha-me. Foi negro, horrível, doentio, e como tal sinto a necessidade de falar sobre isso. Se mais alguém tomar conhecimento do que se passou, nem que seja uma pessoa, será um passo de formiga dado para que não volte a acontecer.

Ora o Holocausto Brasileiro refere-se a um manicómio, o Colônia, em Minas Gerais, em funcionamento entre 1903 e 1980 onde morreram 60 mil pessoas. Logo por aqui se vê algo de muito errado. O número de mortes tão elevado deve-se, muito resumida e assertivamente, ao facto de as pessoas serem colocadas lá para morrer.

Qualquer pessoa que revelasse problemas mentais, desde os mais profundos até às coisas mais simples como depressão, tristeza, ou patologias como epilepsia, estava sujeita a ir lá parar. De todos os cantos do Brasil, homens, mulheres e crianças eram lá depositados pelos seus familiares ou instituições para nunca mais saírem. Como se estivessem a jogar um papel no lixo. Outros havia, claro, que as famílias achavam que estavam a fazer o melhor para eles. Mas não.

As condições no manicómio eram as piores que se possam imaginar. Logo à partida, os "doentes" eram despojados da roupa e ficavam nus, num clima que era bastante frio no meio das montanhas. Para além da vergonha, que acabavam por perder porque andavam todos assim, o frio matava. Para dormir, empilhavam-se uns em cima dos outros para procurar algum calor, e muitos acabaram por morrer sufocados. Também não haviam camas na maior parte dos locais. Para ganhar espaço para mais e mais pessoas num espaço já de si sobrelotado, foram retiradas as camas e substituídas por montes de relva.

A comida era pouca e a subnutrição também matava. Para se ter comida, eram obrigados, em jejum, a ficar horas numa fila porque quem ficasse para trás já não teria nada para comer. Para beber, era água do esgoto, bebida a partir do chão.

Os "doentes" também eram recebidos com choques eléctricos. Quando se "portassem mal" também os recebiam. Outra causa de morte. Nem todos os aguentavam. Quem já era maluco ficava ainda mais, e quem não era acabava por se tornar. Com a fome, comiam os pequenos animais que se atravessem a aparecer nos pátios, matando-os com as próprias mãos e comendo-os a sangue frio.

Num ambiente aberto ao sexo, muitas das mulheres engravidavam. E, claro, não eram autorizadas a ficar com os filhos. Para impedirem que os médicos e enfermeiros se aproximassem, cobriam o corpo com as próprias fezes.

Os cadáveres resultantes deste terror eram mais que muitos. Foi feito negócio com muitas faculdades para ficarem com os mesmos, mas isso não impedia que os corpos que sobravam fossem sendo amontoados no cemitério anexo.

Isto é uma pequena parte do que acontecia. Sugiro que leiam o livro ou que vejam o documentário. Este, ainda não tive coragem para ver. Alguns dos sobreviventes ainda são vivos e mal conseguem contar o que foi feito das suas vidas. Nem eu tenho palavras para dizer o que sinto. Quem é capaz de manter estas pessoas assim, não tem qualquer humanidade dentro. O ser humano consegue ser para lá de repugnante. Hoje, o manicómio é um museu. Da vergonha.

As fotografias em baixo são de Luiz Alfredo, repórter fotográfico que nunca mais foi o mesmo depois de ver o que viu.










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Quando vejo televisão é quase sempre os canais por cabo, e não sei como é nos nacionais, mas os que vejo foram tomados pela Trivago nos intervalos. Os intervalos no cabo são mais pequenos, mas mesmo assim levo com eles 3 ou 4 vezes! Como é que é possível? Foda-se!

Já não quero ouvir mais a voz daquela mulher a perguntar-me se alguma vez procurei um hotel online... não querida, eu nasci no século passado e uso só a lista telefónica e ocasionais folhetos que me enfiam no correio! Já sei que o Trivago compara os preços de mais de 700 mil hotéis e que posso poupar até 27%! Sei isso 4 vezes por intervalo!

Não quero saber mais! Vocês estão a levar-me à loucura! Nunca irei ao site da Trivago agora! Não quero ouvir mais essa palavra! AHHHH! Prefiro pagar esses 27% e esquecer que vocês existem! Que enjoo!! Há empresas que não têm noção do efeito contrário que provocam pelo cansaço...

Esta mulher não tem culpa mas só me apetece partir-lhe a boca.


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Cada vez que há um caso de ataque de animais a humanos e se mete a hipótese de abater o bicho, revolvem-se-me as entranhas de indignação. Como é que não entendem não há raças perigosas? Que não há animais maus? O culpado de tudo é, sempre e só, o humano de merda que está por trás disto.

Ou seja: donos violentos geram cães violentos. Assim como pais violentos geram crianças violentas (e deprimidas, socialmente estranhas, idiotas e por aí fora). Donos que batem geram animais que querem morder. Donos que atiçam geram cães que querem atacar. Há raças em que este estímulo é mais fácil de passar? Claro, assim como há raças mais propensas a tudo (a serem treinados para cães polícia, a serem cães guia, a trabalharem com crianças autistas...) mas, como não me parece difícil de entender, a educação vem do exemplo.

Mudam-se tanto as leis, abrem-se um pouco as mentes, mas quem se lixa são sempre os mesmos. Há tanto assassino, ladrão, corrupto, pedófilo, a passear por aí, e ninguém os abate. Com os animais, seres irracionais que respondem a estímulos, a primeira coisa que se mete em cima da mesa é a sua morte.

Reconheço a frustração dos lesados, mas isto não é justiça. Não é respeito pela vida nem pelo próximo. Nós não estamos acima de ninguém nem de nenhuma espécie. Não temos esse direito. Somos nós que promovemos o ódio, não eles.


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Ouvido no trabalho:

"_ Que sapatos fantásticos! São novos?
_ Sim! De marca, e foram uma pechincha...
_ São confortáveis?
_ Nadinha! Apertam-me à frente, esmagam-me os dedos, mas são mesmo elegantes!"

Ó filhas. Tenho pena de vós. Tenho pena que achem que andar com dedos esmagados seja condição necessária para serem apreciadas a desempenhar uma função. É que nem as putas. E elas têm de vender a imagem. Vocês trabalham num escritório, têm de trabalhar com os dedinhos e com a cabecinha (vá, as putas também, mas é diferente).

Tenho pena que pessoas como vocês elevem o patamar de beleza e de cuidado estético, que sofram, que sejam mártires por uma causa inexistente, que é a de parecer bem, confortável, linda e cuidada quando estão a morrer por dentro e só pensam em calçar o chinelinho (de marca) quando chegarem a casa.

Tenho pena pelo resto das mulheres que, como eu, têm de passar as piores horas do dia convosco, comparadas até ao mais ínfimo pintelho, e que fiquemos sempre a perder, porque trabalhamos as mesmas horas e parecemos umas vadias, de ténis (onde já se viu?) e com uma camisola qualquer manchada com lixívia porque não há guito para roupa nova, e com as sobrancelhas todas revoltadas não depiladas, e sem o Chanel.

No meio disto tudo, não, não tenho pena nenhuma de vós, merecem os sapatos que calçam, as bolhas, os dedos deformados, as artroses, as dores na coluna por causa dos saltos, o suor na planta dos pés, o chulé, as feridas, as unhas entaladas, porque se decidiram pela aparência e pela perpetuação deste mundo capitalista, de aparências, de convenções, superficial. Nunca bateram o pé na vossa vida, pelo vosso conforto e bem estar, por nada, até porque esse gesto vos deve doer para caraças.

Descalcem-se, sintam o que é meter os pés na lama, na relva, vejam como é bom pisar o chão sem dor, caguem na merda dos sapatos desconfortáveis e vivam!




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Sabem aquelas pessoas que numa conversa são capazes de proferir "eu sou sincera" quinhentas vezes? Pois é, irritam-me profundamente.

Quando estou a falar com alguém, parto do princípio de que a outra pessoa está a ser verdadeira, logo, não precisa de estar sempre a dizer "para ser sincera...", "sou-te sincera, isto e aquilo". Se sente necessidade de repetir que é sincera até à exaustão, essa pessoa tem concerteza esqueletos no armário, que é como diz, uma habituação ao mentiredo fora de série.

Ou então é só um tique parvo, muito parvo! Que sentido tem isto?:

- Ai mulher, eu sou-te sincera, comigo ninguém faz farinha!
- Pois, comigo também não, para ser sincera!
- Falando sinceramente, ela irritou-me um bocado quando disse aquilo...
- Eu vi. Sinceramente...

Porquê?? Porquê?? Porquê essa necessidade de afirmação da vossa beleza de espírito imaculado? Credo, que irritação sincera...


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Os justiceiros do Facebook e afins são uns verdadeiros guerreiros no que toca a criticar e a mandar abaixo. A mais recente polémica é relativa à campanha da Zara, com a premissa "Love Your Curves", em que na imagem aparecem duas modelos magrinhas.

Saltaram logo cá para fora as malucas defensoras da humanidade, comparando-as com paus, louva-a-deus, lápis, perguntando "quais curvas?". Ora, cá na minha modesta opinião, a campanha incentiva a que se goste das próprias curvas, sejam elas poucochinhas ou gorduchas. É claro que não se pode colocar imagens de todo o tipo de mulheres e de corpos, por isso as miúdas vão ter de ser representativas. Mas esse conceito é difícil de perceber, porque faça-se o que se fizer, há sempre alguém que se vai sentir excluído e magoado.

Como gaja que não consegue passar dos 50 quilos mesmo comendo pizza e brigadeiro todos os dias, a magoada sou eu. Vou todos os dias ao ginásio para ver se incho e apesar de ser magra tomo muito bem conta das minhas curvas. E prefiro ser assim, leve, ágil, activa, com destreza e força, do que ser como o boneco da Michelin e rebolar em curvas acentuadas. Estão sempre preocupados com os sentimentos das gordas, mas cada um sabe das suas curvas, pá!!


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O ritmo dos nossos dias é frenético, eu compreendo e sinto-o na pele, mas nada justifica a falta de educação que os apressados dos transportes públicos mostram.

São aqueles que procuram a porta mais próxima como se estivessem a oferecer fatias de pizza a quem puser o pezinho primeiro dentro do comboio ou do metro. Estão-se a cagar se há pessoas que querem sair, eles precisam de entrar, desesperadamente, porque toda a gente sabe que o último a entrar é um ovo podre.

As pessoas que estão a sair, coitadas, levam com o turbilhão de apressados que querem entrar à força, e nesse momento lembro-me sempre daquela batalha mítica do Game of Thrones (os fãs sabem do que falo). Pena que não haja um gigante para lhes esmagar os crânios vazios. Em vez de espadas ou arco e flecha há malas, mochilas, sacos do ginásio e do supermercado a serem arremessados e apertadinhos entre as pernas do pessoal enquanto se dão empurrões que se querem subtis mas são incomodativos como o caralho. Aposto que nenhum espinafre chega ao destino com boa cara.

Ainda assim não percam um lugar sentado, esse Santo Graal de quem faz viagens de minutos, preciosos para descansar as pernas. E depois, se entra algum velho ou grávida que fica em pé, enfiam a cabeça no telemóvel como se o Papa Francisco tivesse enviado o SMS mais sagrado do mundo, para fingir que nada vêem. Ai não, aquele lugar foi ganho à custa de uma batalha épica.

As pessoas precisam de fazer mais amor e ioga. Pessoas, cabe sempre mais um.





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Não nos estamos hoje só a despedir de um dos melhores presidentes que a América já viu, de uma das mais carismáticas primeiras damas, de um casal terra-a-terra, de uma família humana, próxima, carinhosa, verdadeira, sem manias, como dificilmente veremos novamente à frente de uma nação. Não é só esse adeus que custa. As mascotes caninas fofas também vão abandonar os jardins da Casa Branca, e ainda por cima, Cães de Água portugueses que nos devem orgulhar.

E como o Trump não pretende ter animais (há mais de 150 anos que isso não acontecia na Casa Branca), a Sunny e o Bo devem ser os últimos a usufruir daquele espaço todo nos próximos anos. Tendo em conta as tradições familiares dos Trump, se calhar até é melhor assim, não fossem cair na tentação de lhes espetar uns tiros de caçadeira, para o jantar.

Ficam algumas fotos dos fofões, para mais tarde recordar. Adeus a todos, foi muito, muito bom, enquanto durou.

 




























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