Palavras do Abismo



1917. Decorre a I Guerra Mundial. Dois soldados britânicos são enviados numa missão urgente - têm de entregar uma mensagem a um regimento que está prestes a atacar o inimigo e a cair numa cilada. Os dois soldados têm nas mãos as vidas dos seus companheiros. Têm um massacre para evitar, numa corrida desenfreada contra o tempo. Isto é baseado em factos verídicos.

Esta é a premissa de 1917, de Sam Mendes. E que filmaço... Que jornada, que experiência imersiva, que intensidade, que tudo. Fiquei pasmada, e vi o filme na televisão (Videoclube). Que pena não o ter visto no cinema.

O filme foi gravado em one-shot e isso é absolutamente crucial para o sucesso, para que nos sintamos parte integrante da acção, podermos ver todos os ângulos e sentir-mo-nos como se estivéssemos ali, nas trincheiras, enfrentando perigos com os protagonistas. Parece mesmo impossível a forma como tudo foi filmado, evidenciando mais ainda que Sam Mendes é um génio e também o gigante trabalho de produção que o filme teve.

Para além disso é tenso e de uma beleza extraordinária, um autêntico poema. Ao contrário do que dizem algumas críticas, para mim, nunca foi aborrecido, e assisti de olhos arregalados e quase sem pestanejar. É um filme de guerra, onde a amizade, o cumprimento do dever, a generosidade, falam bem alto. Único. Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, arrisco-me a dizer. Os 3 Óscares arrecadados são super merecidos.

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários


Alerta - este filme nada tem que ver com a Xana Toc-Toc, a não ser que a moça sofra de algum Transtorno Obsessivo Compulsivo (daí o TOC).

Toc-toc é uma comédia espanhola da Netflix, leve, indicada para aqueles dias em que não nos apetece pensar muito e nos quais precisamos sorrir. No filme, várias pessoas com TOC veem-se fechadas no mesmo espaço. Cada uma delas apresenta diferentes manifestações da doença - há uma mulher obcecada com germes e bactérias que não toca em nada nem ninguém e que gasta o ordenado em embalagens de toalhitas; há um homem que não consegue pisar as linhas do chão - nos passeios, nos tapetes, etc; outra tem de verificar tudo em casa - o gás, as luzes, se tem as chaves consigo - tantas vezes que acaba por perder eventos importantes da vida; e por aí fora.

É um grupo de 6 pessoas cuja interacção por si só provoca situações inusitadas, que embora pareçam estranhas e exageradas, posso assegurar, como pessoa que convive com o TOC, têm muito fundo de verdade. Aliás, apesar da "lufalufa" característica das comédias espanholas do género, o filme pode até servir como catalisador para que alguém que sofra do problema resolva procurar ajuda e/ou saiba rir de si próprio. É um filme colorido, divertido/absurdo e com boas interpretações.

Há duas pessoas na minha vida - o namorado e uma amiga - que padecem de TOC. Há coisas que são ao mesmo tempo engraçadas e maçadoras. Por exemplo, quando vou às compras com o meu namorado já sei que, se existirem duas portas, só podemos usar a da direita. Igualmente, só podemos ir para as caixas da direita. Tem de ir lavar as mãos centenas de vezes. Não toca nos botões do Multibanco com os dedos. Fica doido se vê um CD cujas letras não estejam perfeitamente direitas - e quase me mata se abre a bolsa dos CD's e não estão na ordem que ele mesmo definiu e que eu não entendo. Enfim, é uma risota e um stress diário. Vejam o filme e compreendam "esta gente" 😂


Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Em primeiro lugar, devo salientar o mais óbvio. A parecença física entre o actor Jonathan Pryce e o Papa Francisco é assombrosa. Já o havia notado no Game of Thrones (na altura surgiram imensos memes de comparação) e aposto que quem teve a brilhante ideia de fazer este filme foi precisamente porque era necessário pôr o homem a interpretar o Papa. Era o desígnio divino. Até conheço uma pessoa que pensava que o Papa Francisco tinha dado uma perninha como actor. Ele sentiu-se estúpido quando lhe disse, mas aceito o erro. É uma semelhança paranormal.

Feito o aparte, gostei bastante do filme da Netflix que concorre com 3 nomeações aos Óscares - Melhor Filme, Melhor Actor para Jonathan Pryce e Melhor Ator Secundário para Anthony Hopkins. Considero até que não teve (tem) a atenção devida, muito por causa de todo o buzz do The Irishman (imerecido, na minha opinião), também Netflix.

O Papa Bento XVI e o Papa Francisco são, como é do conhecimento geral, pessoas completamente diferentes. O primeiro é conservador, tradicional, e o seu papado esteve envolto em polémicas que abalaram a Igreja católica. Já o segundo, transporta consigo ideias de progresso e perdão, sendo uma pessoa muito mais simples, humilde, aberta, próxima das pessoas.

O que eu não sabia - mas também não acompanho estas coisas de perto - é que no papado de Bento XVI, o Cardial Jorge Bergoglio (que viria a ser o Papa Francisco) lhe havia pedido a reforma. Bergoglio estava decidido, e foram as longas conversas que ambos tiveram que o demoveram. Bento XVI, a quem muitos chamavam nazi e acusado de encobrir crimes graves no seio da Igreja, apesar de tudo prezava muito as qualidades humanas de Jorge e sabia perfeitamente do que o mundo precisava.

No filme são retratadas estas conversas, e outras, e é-nos dado a conhecer o passado tormentoso do Papa Francisco. Assistimos de perto à resignação polémica de Bento XVI e ao processo que elegeu o actual Papa. Testemunhamos a ligação improvável destes dois homens, sendo que isto, para mim, é mesmo o melhor do filme. As situações são obviamente romantizadas, eu sei, mas não deixam de ser baseadas em factos reais. Há até vários artigos que analisam o que é verdade e o que tem uma base de verdade mas que não se passou bem assim.

O que é certo é que dois homens profundamente diferentes em tudo conseguiram sentar-se, conversar, entender-se, rir, criar uma ligação. É uma pequena lição de vida, não é? E no entanto não deixa de ser um filme sobre dois velhos que acreditam numa coisa na qual eu não acredito. E sem explosões, gajas nuas ou reviravoltas de última hora se fez um filme do caraças com uma realização brutal por parte de Fernando Meirelles e dois dinossauros da interpretação.

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
"_Oh, porra! - exclamou. Olhei para ele. - Os medicamentos - disse ele. - Estão a deixar de fazer efeito. - Começou a bater os dentes e cerrou-os. Tinha farfalheira e reparei que o seu rosto glabro começava a encher-se de suor."

in "Querido, Querido Dexter" de Jeff Lindsay (2006)


gla·bro
(latim glaber, -bra, -brum) adjectivo
1. Desprovido de pêlos ou barba.
2. [Botânica] Que não tem pêlo ou cotanilho. ≠ PUBESCENTE
Superlativo: glabérrimo.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Ah, adoro significados tão simples pela manhã. Glabro, palavra estranha que faz com que pareçamos bêbados quando a dizemos em voz alta, quer dizer uma coisa tão simples como ser desprovido de pêlos. Como aqueles gatos estranhos - toda a gente os chama de Sphynx, mas aposto que ninguém sabe que são glabérrimos. Agora já podem fazer boa figura junto daquela pessoa que largou uma nota preta para comprar um. E dizer-lhes que no gatil os gatos não são glabros, mas são grátis.

Mas passando de gatos para pussys, glabras são também a maioria das vaginas nos filmes de ginástica para adultos; e glabros são também aqueles adolescentes que têm dois pintelhos debaixo do nariz e se acham no apogeu da masculinidade. A cabecinha do The Rock, Vin Diesel, Bruce Willis e do J. K. Simmons também são glabras. E agora já podem atirar estas preciosidades em conversas de cultura geral e parecer para lá de inteligentes. De nada.

PS: esta saga de livros sobre o Dexter é mesmo mesmo sobre o Dexter. Daquela série. O assassino. E olhem, não é glabro. Fiquem com outro senhor que é glabro e faz uns filmes:

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Fui com pezinhos de lã ver o Joker ao cinema. Por um lado, odeio filmes de super-heróis. Por outro, adoro o Joaquin Phoenix. Então, fui com expectativas moderadas.

Afinal, não tinha nada com que me preocupar. Não é um filme de super-heróis. É quase uma biografia a um dos maiores vilões da banda desenhada e do cinema. Ao contrário do que estamos habituados com estas personagens saídas dos comics, não há efeitos ou truques na manga. Aqui, o Joker é humano. É o produto da sociedade. Tal como cada um de nós.

O enredo é uma sucessão de eventos que vão acontecendo com Arthur Fleck até ele vestir a pele de Joker. Começamos por conhecer o Arthur palhaço de rua e que trabalha com crianças. Um homem simples, embora resignado, e assombrado pela doença mental. Por ser diferente, a comunidade não o deixa esquecer que ele não encaixa no estereótipo de homem adulto e bem sucedido. A cidade só lhe retorna uma fria indiferença, e até mesmo desprezo, e Arthur acaba por ser consumido pela incompreensão, pela solidão, e tudo descamba quando tudo o que ele acreditava (que já era pouco) acaba por desaparecer.

É claro que o filme não seria a mesma coisa sem Joaquin Phoenix. Nem consigo imaginá-lo de outra forma. E as palavras faltam-me para descrever o que vi este homem fazer no ecrã. Começando pela linguagem corporal, trabalhada até ao limite, até à profundidade do olhar, tudo está perfeito. Tanto que poderia ter sido um filme mudo e seria genial na mesma. Este homem fez um trabalho fenomenal para entrar na personagem e é tudo impressionante. Oscar para o Quim, já!

E depois, o resto... a banda sonora poderosa e super apropriada; o ambiente dark; a fotografia; as mortes fantásticas; as cenas perturbantes, violentas... Não percebo porque é que tanta gente odiou o filme (aliás, até percebo, porque não se enquadra nos típicos filmes fáceis e ocos dos super-heróis) e percebo as discussões sobre quem é o melhor Joker - se o Heath ou o Joaquin), mas seja onde for que se posicionem, esta é uma obra de arte que têm de ver pelo que é e deixar, pelo menos, as comparações de lado. É um dos melhores filmes do ano (senão o melhor, até agora, para mim) e aí não há volta a dar. Lamento, haters. Numa era em que tudo é robotizado, alterado, melhorado, onde a tecnologia é rainha, é uma lufada de ar fresco ter um filme tão humano e uma lenda como o Joaquin à sua frente.

Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários

Árctico é um filme de 2018 protagonizado por Mads Mikkelsen. Pronto, o selo de qualidade está garantido, podemos acabar por aqui. É verdade que o dinamarquês "me encanta", mas o filme é mais do que o Mads. Mas não muito mais, porque todo o peso da trama recai nos seus ombros.

Ele interpreta um piloto cujo avião se despenhou algures no Ártico. Completamente sozinho num cenário branco de neve, suportando o frio imenso, vai sobrevivendo dia após dia pondo em prática as suas skills de sobrevivência. Este é um ponto que diverge dos outros filmes do género. Normalmente, os personagens que se veem nestas situações vão sobrevivendo (ou não) por tentativa e erro, fazendo inúmeras coisas erradas. Aqui, Overgård faz tudo bem, mas não é suficiente. Todos os dias, limpa a área de SOS, carrega um rádio manualmente na esperança de obter algum contacto, verifica os iscos feitos com canas improvisadas com as quais vai apanhando peixe.

Não sabemos há quanto tempo ele está ali, mas a rotina repete-se. Até ao dia em que é quebrada pela queda de outro avião... Dos dois tripulantes a bordo, uma mulher ainda respira. Overgård leva-a consigo para o seu avião caído, trata-lhe os ferimentos, dá-lhe de comer e beber quando ela tem períodos de semi-consciência. Vai falando com ela, mas dado o seu estado grave e diferente nacionalidade torna-se quase um monólogo. Depressa toma consciência de que, para ajudá-la a sobreviver, terá de sair dali. Terá de carregá-la e contar apenas consigo próprio e com um velho mapa para tentar chegar a um ponto onde pensa que conseguirá ajuda.

Assim, puxando um trenó onde carrega esta desconhecida mulher deitada, aventura-se numa difícil e longa caminhada que é uma ode ao homem versus natureza.

A beleza deste filme reside em muitos pontos. Um dos mais óbvios são os cenários fantásticos, o branco sem fim das montanhas, as intempéries, a mãe natureza arreliada. Outro, é, claro, o Mads. Esta tem de ser uma das interpretações da sua vida. Para além de carregar o filme às costas, fá-lo impecavelmente e com um evoluir de emoções que assusta. Começamos por vê-lo resignado, calmo, solitário, mas competente, nas suas tarefas, assistimos ao evoluir da sua empatia por aquela mulher e acabamos por vê-lo numa luta desenfreada e sofrida pela sobrevivência de ambos.

É um dos melhores filmes de sobrevivência que irão ver, dramático, intenso, com uma cinematrografica fantástica, com um Mads de peso, num filme quase silencioso mas que transmite emoções até quando o céu muda de cor...


Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Older Posts

Translate

Seguir por email

Seguir

  • twitter
  • Google+
  • pinterest

Recentes

Categorias

pessoas estranhas música gajas coisas boas filmes desabafos animais cinema as coisas que se aprendem portugal morte trabalho vida sonhos merda tristeza séries ambiente redescobertas musicais vozes de gaja

Top da semana

  • Sonhos marados #46 - o antro gótico do deboche
  • 2017, acalma lá o pito
  • Todos choram por Chapecó
  • Um dia essa saudade vai ser benigna
  • Pessoas estranhas #118 - o senhor de Vizela
  • Um foda-se fofinho - ponto cruz

Arquivo

Pesquisar

Blogs fixolas

  • Abencerragem
    «Thick as a Brick»
  • Ponto Aqui! Ponto Acolá!
    Parabéns ao meu Cavaleiro Andante!
  • Manuscritos da Galaxia
    Abbas Kiarostami - “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”
  • Unicornia Cross Stitch
    Terminator - pdf pattern
  • Naturalmente Cusca
    Sobre o Caso Ronaldo
  • thebarraustuffs
    Matt Hollywood & The Bad Feelings
  • Dissertações (pouco) científicas
    E lá se foi o bem bom
  • Por Falar Noutra Coisa

Visitas

No abismo

Created with by ThemeXpose | Distributed by Blogger Templates