Palavras do Abismo



Confesso que quando morre um escritor que aprecio me custa mais do que quando se trata de algumas pessoas que fizeram parte efectiva da minha vida e que nela nada, ou só mal, acrescentaram.

Era muito jovem (tinha talvez uns 13 anos) quando li o meu primeiro livro de Luís Sepúlveda - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Esses tempos já lá vão, mas lembro-me de gostar. Lembro-me também de o reler, já em adulta, e dos novos contornos que assumiu dentro de mim. Com o discernimento da maturidade, a história tomou todo um novo peso, e os ecos do respeito e da amizade bateram ainda mais forte. É essa parte da magia dos livros de Sepúlveda - capazes de encantar as gerações mais novas e de tocar os meandros da alma dos adultos.

No início deste ano, numa das idas à terrinha, visitei a estante para revisitar alguns livros que não lia há algum tempo e trouxe comigo o "Diário de um killer sentimental". Um livro completamente diferente, cómico, irónico, e no entanto, como sempre, com uma moral elevada. Quis o destino que o estivesse a ler enquanto Sepúlveda estava a ser diagnosticado com o Covid-19. 

E agora, partiu. Senti uma pequena partícula dentro de mim crescer e manifestar um extremo desconforto. Ele fez parte do meu crescimento e, consequentemente, da pessoa que sou. A minha inteligência emocional é melhor também por causa dele. "O mais português dos escritores latino-americanos", com uma história de vida tão complexa e rica que o ajudou a ser um ser humano melhor. Dizem os amigos que gostava de ser tratado por Lucho. Obrigada por tudo, Lucho. És um dos que vai viver para sempre.




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Se estás a ler isto e axas que não à nenhum poblema, bem-ajas! És também o público-alvo da tele-escola. Hádem cá vir ensinar como se escrever. Ficas-te com a pulga atráz da orelha? Trouxestes os lápis e o caderno? Bora começar!

Se encontraste menos de 8 erros no parágrafo em cima, precisas de uma ajudinha. Se encontraste uns 3 ou 4, és simplesmente burro e não tens salvação. Mas podes tentar - não mata, e herrar é umano, certo?

A tele-escola, que vai começar na próxima segunda-feira, é não só a esperança do universo escolar para os jovens estudantes em tempos de pandemia, como também vai ser uma oportunidade para nós, adultos, revermos certas matérias. Têm ali uma oportunidade imperdível de aprender o que nunca aprenderam ou cimentar muito do conhecimento que voou para longe ao longo da vossa existência. Apesar de eu ser uma espécie de polícia da língua portuguesa (não totalmente eficiente, implacável e conhecedora como queria), vou assistir, principalmente às aulas de Geografia. Sou tão péssima que dói e nem encontro essa dor no mapa. Nem vou falar da Matemática - depois de 12 anos a levar com ela a única coisa que ficou foi a regra de 3 simples. É pouco para 12 anos, ou não? Também vou tentar aprender qualquer coisinha de Alemão e Espanhol, visto que ouço muito Rammstein sem saber o que estou ali a cantar e vejo também algum porno espanhol que merece melhor compreensão.

Uma parte boa é que podem aprender temas básicos sentados no sofá com uma cerveja na mão. Mas não abusem, ou esquecem-se de tudo o que vão aprender. Se tiverem filhos, têm sempre uma desculpa para ver o canal RTP Memória pelo canto do olho, enquanto mantêm aquela fachada de durões/duronas que se estão a cagar prá escola. 

Cheguem-se à frente. Não saber não é vergonha, vergonha é não querer saber. Podem não ter interesse numa carrada de temas, mas uma coisa que fazem todos os dias é comunicar. Seja ao telefone, em mensagens parvas no Whatsapp, em descrições intermináveis nas fotos do Instagram, a destilar ódio a comentar porcarias no Facebook... pelo menos façam-no com qualidade. Quando estão a debitar merda nas redes sociais, os erros ortográficos tiram-vos a credibilidade. Assim, assistam às aulas de Português, e quem sabe daqui a umas semanas já conseguirão escrever bosta mas com qualidade. Um dia, talvez leiam um livro. Força!






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"Se era obrigado a dirigir-lhe a palavra, fazia-o com uma tal profusão de floreados hipócritas que ela sentia desejos de o estrangular. O homem tinha blandícias repugnantes"

in Crazy Cock, de Henry Miller (1991)


blan·dí·ci·a
(latim blanditia, -ae)
substantivo feminino
1. Gesto ou demonstração de um sentimento de ternura ou de afecto. = AFAGO, CARÍCIA, CARINHO, MIMO
2. Gesto ou esforço para agradar ou atrair alguém. = ILÉCEBRA
3. Doçura, meiguice.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Este excerto e esta explicação do significado de blandícias faz-me lembrar quando era pequena e odiava que me dessem beijinhos (ainda odeio, mas agora consigo calar-me ou recusar). Contam-me os meus pais que quando alguém me dava beijos, especialmente os velhos, eu fazia blhec ou algum outro som de repulsa e limpava a cara com a manga da camisola, ou mesmo com o meu próprio cuspe, esfregando muito bem. Já na altura, não gostava de blandícias e dei origem a alguns momentos de constrangimento que, felizmente, fez os meus pais perceberem que não me podiam obrigar ao contacto físico com outras pessoas, e respeitaram. Nojo. Mal sabiam eles que, décadas depois, este bicho do mato é que viria a ter razão por manter a distância social e pela desinfecção constante.



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"_Oh, porra! - exclamou. Olhei para ele. - Os medicamentos - disse ele. - Estão a deixar de fazer efeito. - Começou a bater os dentes e cerrou-os. Tinha farfalheira e reparei que o seu rosto glabro começava a encher-se de suor."

in "Querido, Querido Dexter" de Jeff Lindsay (2006)


gla·bro
(latim glaber, -bra, -brum) adjectivo
1. Desprovido de pêlos ou barba.
2. [Botânica] Que não tem pêlo ou cotanilho. ≠ PUBESCENTE
Superlativo: glabérrimo.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Ah, adoro significados tão simples pela manhã. Glabro, palavra estranha que faz com que pareçamos bêbados quando a dizemos em voz alta, quer dizer uma coisa tão simples como ser desprovido de pêlos. Como aqueles gatos estranhos - toda a gente os chama de Sphynx, mas aposto que ninguém sabe que são glabérrimos. Agora já podem fazer boa figura junto daquela pessoa que largou uma nota preta para comprar um. E dizer-lhes que no gatil os gatos não são glabros, mas são grátis.

Mas passando de gatos para pussys, glabras são também a maioria das vaginas nos filmes de ginástica para adultos; e glabros são também aqueles adolescentes que têm dois pintelhos debaixo do nariz e se acham no apogeu da masculinidade. A cabecinha do The Rock, Vin Diesel, Bruce Willis e do J. K. Simmons também são glabras. E agora já podem atirar estas preciosidades em conversas de cultura geral e parecer para lá de inteligentes. De nada.

PS: esta saga de livros sobre o Dexter é mesmo mesmo sobre o Dexter. Daquela série. O assassino. E olhem, não é glabro. Fiquem com outro senhor que é glabro e faz uns filmes:

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"_ Devias estar na praia, como hoje. Devias apanhar mocas e bebedeiras e fazer uma data de sexo. (...) Para mim, a coisa mais triste do mundo é um rapaz de vinte e cinco anos a falar da Bolsa! Ou dos impostos. Ou da propriedade imobiliária, raios partam! Não vais falar de outra coisa quando tiveres quarenta. Propriedade imobiliária! Qualquer tipo com vinte e cinco anos que diga a palavra refinanciar devia ser morto a tiro. Fala de amor, de música e de poesia. De coisas que toda a gente se esquece de que chegou a achar importantes. Desperdiça cada dia, é isso que te digo."

in Less, de Andrew Sean Greer (2017)

A vida é uma seca. Mais dia menos dia, quem for vivo vai-se deparar com os impostos, o desemprego, a pressão no trabalho, a hipoteca, ou aluguer, o empréstimo para o carro (e o selo, e a gasolina, e o seguro, e as portagens, e as inspecções, e as revisões), a comida na mesa, o IRS, inquéritos, formulários, contratos, assinaturas, créditos, cartões, mensalidades, os transportes, mais a luz, e o gás e a água, a internet e a TV, os dados móveis, para não falar do apoio à família, e do sistema de saúde que não funciona, e as consultas que tardam, e do tempo que é para renovar o CC - a vida é a porra duma burocracia e se formos a contabilizar o tempo e o dinheiro que gastamos nestas andanças ficamos depré.

Por isso fico admiradíssima quando as pessoas querem que os filhos, sobrinhos, enteados, amigos, etc, amadureçam à força. Não é errado ser-se maduro, mas deixem que a coisa vá lá naturalmente (quando possível). É uma tristeza quando deixamos de ser jovens, não no papel, mas no espírito. Deixem os moços e moças errar, e beber, e chegar a casa no dia seguinte, e dormir até tarde, ouvir música aos berros, viajar, ir a concertos e festivais, e esbanjar dinheiro numa loucura. Não se zanguem por fazerem concursos de peidos e arrotos, ou jogarem strip-poker, ou por lerem banda desenhada. Não lhes digam quando casar e se devem ou não procriar. Eles vão ter muito tempo, o resto da vida - a pior parte dela - para lidar com a responsabilidade. E poucos serão adultos completamente felizes.

Sou uma adulta normal e orgulho-me de ganhar concursos de arrotos aos 34 anos. Não há qualquer problema nisso. Adoro dar grandes peidos quando vou com o meu namorado no elevador (e ele faz o mesmo). É nesses momentos que me rio até me doer a barriga e que me esqueço do peso da vida. Ainda me sento com os amigos a dar pontuações às gajas que passam. Ainda ando no moche nos concertos. Ainda gasto um balúrdio de dinheiro só num dia, se me apetecer, como no mês que vem, para ir ver um concerto a Paris. Ainda faço photobombs quando vejo alguém a tirar fotos e me meto por trás. Ainda faço de emplastro quando vejo uma câmara da TV. Ainda ando nos carrosséis e faço corridas para ver quem chega primeiro a algum lado. E não deixo ser uma pessoa que cumpre as suas responsabilidades sociais, civis, que tem um trabalho e um ordenado razoáveis e que é relativamente respeitada pelos pares.

Sem ir a extremos, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, sejam infantis q.b. e vejam a vida que ganham. Se vos disserem que aproveitar a vida é ser apenas sério, construindo os pilares seguros do vosso futuro financeiramente, e na educação, e na vida social, (boring) então disperdicem-na um bocadinho...


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"Grace compreende que os encómios são para o cozinhado, todavia percorre-a a sensação reconfortante de mulher cortejada. E agrada-lhe. Estranhamente, agrada-lhe."

in Uma Noite Não São Dias, de Mário Zambujal (2009)

en·có·mi·o
substantivo masculino
1. Elogio rasgado.
2. Gabo, aplauso, louvor.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Se alguém me dissesse "aquela gaja quer dar-te um encómio" provavelmente partia a fuça à desgraçada. Ai quer? Venha cá que eu dou de volta e a dobrar! Males entendidos há muitos e se calhar algumas guerras poderiam ter sido evitadas se houvesse um dicionário à mão. Enfim, encómios afinal são coisas positivas - grandes elogios e louvores. No caso da citação, faz parte do cortejo homem-mulher, que isto para levar uma gaja de bem a tirar a calcinha é preciso ser especialista na arte do encómio...


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