Palavras do Abismo

9 minutos. Foi o tempo que o afro-americano George Floyd esteve com a cara empurrada contra o asfalto. 9 minutos a suplicar, a pedir água, a dizer que não conseguia respirar. 9 minutos que representam aquilo que o mundo ainda é: o homem branco a subjugar o negro. Em 9 minutos, morreu. 

Ouve-se o eco do típico comentário racista: "aaahh, mas alguma coisa ele teve de fazer". Queridos, não era nenhuma questão de vida ou de morte. Ele não tinha reféns, não ameaçou ninguém, não tinha nenhuma arma, não representou perigo. Foi acusado de burla quando estava a fazer um pagamento. 

Era advogado, tinha 46 anos, e soube-se imediatamente que estava inocente. Dizem que ele resistiu à detenção, as testemunhas dizem que não. Quem o matou anda à solta enquanto decorre um inquérito, que como sempre não dará em nada.

Não me fodam, o racismo existe, a desigualdade existe, e na América se não fores um homem branco heterosexual (de preferência com porte de arma) corres o risco de levar uma sova, de não teres oportunidades na vida ou, simplesmente, de morrer na via pública. E é claro que isto não é só na América. 

Não, não vai ficar tudo bem, porque nunca esteve. Desculpa George, as pessoas são uma bosta.




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1917. Decorre a I Guerra Mundial. Dois soldados britânicos são enviados numa missão urgente - têm de entregar uma mensagem a um regimento que está prestes a atacar o inimigo e a cair numa cilada. Os dois soldados têm nas mãos as vidas dos seus companheiros. Têm um massacre para evitar, numa corrida desenfreada contra o tempo. Isto é baseado em factos verídicos.

Esta é a premissa de 1917, de Sam Mendes. E que filmaço... Que jornada, que experiência imersiva, que intensidade, que tudo. Fiquei pasmada, e vi o filme na televisão (Videoclube). Que pena não o ter visto no cinema.

O filme foi gravado em one-shot e isso é absolutamente crucial para o sucesso, para que nos sintamos parte integrante da acção, podermos ver todos os ângulos e sentir-mo-nos como se estivéssemos ali, nas trincheiras, enfrentando perigos com os protagonistas. Parece mesmo impossível a forma como tudo foi filmado, evidenciando mais ainda que Sam Mendes é um génio e também o gigante trabalho de produção que o filme teve.

Para além disso é tenso e de uma beleza extraordinária, um autêntico poema. Ao contrário do que dizem algumas críticas, para mim, nunca foi aborrecido, e assisti de olhos arregalados e quase sem pestanejar. É um filme de guerra, onde a amizade, o cumprimento do dever, a generosidade, falam bem alto. Único. Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, arrisco-me a dizer. Os 3 Óscares arrecadados são super merecidos.

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Confesso que quando morre um escritor que aprecio me custa mais do que quando se trata de algumas pessoas que fizeram parte efectiva da minha vida e que nela nada, ou só mal, acrescentaram.

Era muito jovem (tinha talvez uns 13 anos) quando li o meu primeiro livro de Luís Sepúlveda - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Esses tempos já lá vão, mas lembro-me de gostar. Lembro-me também de o reler, já em adulta, e dos novos contornos que assumiu dentro de mim. Com o discernimento da maturidade, a história tomou todo um novo peso, e os ecos do respeito e da amizade bateram ainda mais forte. É essa parte da magia dos livros de Sepúlveda - capazes de encantar as gerações mais novas e de tocar os meandros da alma dos adultos.

No início deste ano, numa das idas à terrinha, visitei a estante para revisitar alguns livros que não lia há algum tempo e trouxe comigo o "Diário de um killer sentimental". Um livro completamente diferente, cómico, irónico, e no entanto, como sempre, com uma moral elevada. Quis o destino que o estivesse a ler enquanto Sepúlveda estava a ser diagnosticado com o Covid-19. 

E agora, partiu. Senti uma pequena partícula dentro de mim crescer e manifestar um extremo desconforto. Ele fez parte do meu crescimento e, consequentemente, da pessoa que sou. A minha inteligência emocional é melhor também por causa dele. "O mais português dos escritores latino-americanos", com uma história de vida tão complexa e rica que o ajudou a ser um ser humano melhor. Dizem os amigos que gostava de ser tratado por Lucho. Obrigada por tudo, Lucho. És um dos que vai viver para sempre.




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Apesar de ser baseada numa história real que conhecia por alto, fiz questão de ver a série The Act sem saber mais, e poder assim surpreender-me. Deste modo, pude conhecer esta história surreal que ultrapassa a ficção em larga escala. É daquelas que nos faz arrepiar cabelo, tão inacreditável e chocante que diria ter sido escrita por Hitchcock.

Em linhas gerais, Dee Dee Blanchard era uma mãe que fez da sua própria filha refém, inventando-lhe doenças e limitações sem fim, desde tenra idade até ao dia em que a filha, Gypsy Rose, se revoltou e conspirou para a matar, o que acabou por acontecer em junho de 2015.

Dee Dee convenceu a filha e o mundo de que esta não podia andar, mantendo-a numa cadeira de rodas, que era demasiado fraca para brincar, que tinha leucemia, asma, epilepsia, alergia aos doces, problemas de visão, distrofia, apneia do sono, que tinha de se alimentar por uma sonda, que não podia conviver com outros meninos, que tinha danos cerebrais, que tinha de estudar em casa, rapava-lhe o cabelo dar um ar real à coisa, impediu o pai de ter uma relação com ela... Para além de ser uma das maiores manipuladoras da História com todos estes problemas médicos e muitos mais, Dee Dee apenas deixava Gypsy ver filmes da Disney, vestir-se de princesa, mantendo-a com mentalidade de criança, para parecer sempre criança também por dentro, frágil, débil, inspirando a comiseração dos vizinhos, conhecidos e desconhecidos que enviavam donativos frequentemente.

Para além disso, Dee Dee mentia à própria filha, e a quem perguntasse, sobre a idade real de Gypsy, extendendo ainda mais a mentira. Gypsy não era uma rapariga doente, nem nunca foi, mas é claro que acabou por ficar extremamente traumatizada e socialmente estranha pela maneira horrível como cresceu. Aquando da idade adulta, Gypsy arranjou maneira de se ligar à internet, acedendo a um mundo completamente novo, obtendo também algumas respostas, e é lá que viria a conhecer o seu namorado, com quem conspirou para matar a mãe.

Uma história tão estranha é meio caminho andando para dar uma óptima série, e é realmente estrondosa. Mas para isso muito contribui o duo de actrizes - Patricia Arquette como Dee Dee e Joey King como Gypsy - simplesmente perfeitas, fabulosas, tão fantásticas que já sinto os ecos dos Emmys. O design de produção, que seguiu detalhamente os pormenores, desde a casa onde viviam, até às roupas, maquilhagem, abriu as portas para o elevado realismo da série. A realização e cinematografia são também de ressalvar - tudo isto nos prende ao ecrã desde o primeiro episódio.

Não deixem de ver uma das melhores séries dramáticas do ano. Disponível na HBO.


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Ricky Gervais é uma das pessoas que mais admiro no mundo - para além daquela mente genial de onde saem grandes ideias, do elevado sentido de humor (negro), ele é um ser humano notável, um activista vegan que não se cansa de apontar o dedo a quem maltrata e abandona animais, que cria e promove acções para a sua defesa, levanta a voz contra as touradas e outras atrocidades; já para não falar das fortes críticas que não tem vergonha de tecer ao poder político.

Assim, quando a série After Life estreou, escrita e dirigida por ele, mergulhei de cabeça nos seus 6 curtos episódios. Estava à espera que fosse boa, mas não tão boa. Não é possível que tenha sido tão boa.

Em After Life, a esposa de Tony (Ricky) morreu de cancro. E ele, que outrora foi uma pessoa normal, torna-se praticamente insuportável para o resto do mundo, e até para ele próprio. Gozar a vida deixou de fazer sentido; levantar-se e realizar as tarefas normais parece despropositado; seguir em frente com a rotina parece obsceno; tudo porque metade dele morreu, e agora ele quer morrer também.

A depressão tornou-o num ser sem empatia - se ele não se consegue respeitar a si próprio, como é que iria ter em conta os sentimentos dos outros? Assim, deixou de ter filtro. Diz exactamente o que sente, extrapola toda a raiva que tem para cima dos outros, o que para nós, espectadores é, ao mesmo tempo, divertidíssimo e muito triste.

A série tem uma humanidade assustadora, e sentir, ver e ouvir alguém que passa por um período tão negro, faz-nos compreender um pouco a depressão. O impacto na sua vida é notório - a casa desleixada, as roupas por lavar; assim como o impacto nos outros - a família não sabe como lidar com ele, os colegas não sabem com lhe responder aos constantes comentários insultuosos e as pessoas que vão surgindo na sua vida não conseguem descodificar se ele está a sofrer ou é apenas um grande idiota.

É a cadela que o liga à realidade - é por ela que se levanta, que se esforça por ir ao supermercado, que opta por ocasionalmente sair de casa; é com ela que desabafa, e é ela a sua maior ligação com a falecida esposa. É uma relação terna que emociona e na qual muitos de nós nos podemos rever. Também o liga à realidade um vídeo que a sua mulher deixou, onde lhe dá poderosas indicações sobre como, basicamente, viver. Como se ela soubesse exactamente onde ele iria ter dificuldades, como se iria abaixo - como se fossem excertos de aprendizagem que o ajudam a reaprender a apreciar a vida.

After Life tem a capacidade de pôr em imagens, palavras e sons aquilo que não se consegue dizer. Acima de tudo, tem uma honesta brutalidade que choca e emociona ao mesmo tempo. Consegue ser triste, e conter em si esperança, raiva, beleza, humor negro - dá para rir e chorar no mesmo minuto. É genial, fresca, uma obra do caraças que marca um pico de Ricky Gervais. É absolutamente imperdível e está disponível na Netflix.

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Andava eu numa fase confusa da adolescência, em que não sabia se gostava mais de Backstreet Boys ou de Metallica, quando os The Prodigy se meteram lá pelo meio e deram-me novos horizontes. Abriram caminho por mim adentro com um poder que não consegui controlar, numa cena musical que na altura foi completamente inovadora. Suspirei muito com a imagem do Keith Flint. Aquela bola de fogo pronta a explodir, extravagante, enérgica, toda aquela imagem rebelde - aquele cabelo característico, todos aqueles piercings e tatuagens que me tiravam do sério e que, obviamente, influenciaram os meus gostos e aquilo que sou. Desde aquele tempo até hoje que os The Prodigy são uma das minhas bandas favoritas e o Keith é uma das figuras que tenho seguido como a um ícone.

Tive o prazer de os ver ao vivo, bem pertinho de mim, um par de vezes. E repeti, a quem me ouviu falar, que foram concertos de uma vida. Inesquecíveis. O corpo, sem pedir licença, dá o que tem e o que não tem porque eles fazem o que querem com os nossos invólucros. A sensação de esgotamento feliz e loucura ainda toma conta de mim quando penso na última vez que os vi.

Raio de geração amaldiçoada. Brilhante, demasiado brilhante para um mundo demasiado merdoso. Viver uma vida longa não é para todos e a sua escolha foi feita. Privou o mundo de si mesmo, e por isso, nós, fãs, ficamos coxos, numa obscuridade de incompreensão que prevalecerá, porque, garanto, nunca sabemos o que vai na cabeça sequer na pessoa que está ao nosso lado neste momento. Só sei que quando chegarmos ao Inferno teremos uma banda sonora do cacete.

Vemo-nos por aí, Firestarter.


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