Palavras do Abismo

Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



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O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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A capa de junho da revista National Geographic está a dar que falar, pelas melhores e piores razões. Quanto à parte positiva, é uma composição genial, que na sua simplicidade consegue passar a ideia do que se passa.

No entanto, estamos a falar de um dos maiores flagelos dos nossos tempos - o plástico nos oceanos. São 8 biliões de quilos de plástico que, todos os anos, vão parar ao fundo do mar. As consequências são gravíssimas para a vida de todos nós, afectando a biodiversidade, a vida marinha, o ambiente e, consequentemente, afecta muitas mais áreas.

Temos de cuidar da nosso planeta, da nossa casa, para que ele vá aguentando todo o mal que lhe fazemos e para que continue a ser habitável para todas as espécies, incluindo a humana. E cabe a cada um de nós preservá-lo.

Ainda há uns dias fui à praia e saí de lá com uma tristeza imensa e a certeza de que vamos todos parar ao buraco do esgoto. Tanto, mas tanto lixo, que as pessoas vão despejar às imediações. Até móveis, cadeiras velhas, mantas, roupas, despejadas ao acaso, mesmo havendo grandes caixotes por perto. As pessoas não querem saber, só se querem livrar do que é velho, mantendo as casas vazias para os egos gigantes ocuparem o espaço todo.

O plástico nos oceanos, tal como a capa indica, é apenas a ponta do icebergue. Há muitas coisas simples que podemos fazer para reduzir a produção de plástico, mas a missão não acaba aí. Só sendo responsáveis é que este planeta sobreviverá. Neste momento, não tenho muita esperança na sua sobrevivência. Não enquanto uma raça que se acha superior a todas as outras existir.


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Esta série documental do National Geographic começou a ser transmitida no domingo passado. Apenas com um episódio, deixou-me completamente colada ao ecrã.

Quando vi o trailer e percebi que era realizada por Darren Aronofsky (realizador dos fantásticos Mother!, Black Swan ou Requiem For a Dream) abri logo a pestana e fiquei com a pulga atrás da orelha - era certo e sabido que ia ver imagens fantásticas, uma fotografia brutal, uma edição fora de série, num projecto inovador. Tal e qual.

"One Strange Rock" conta a história do planeta Terra. Não é uma história aborrecida e monótona, mas sim cheia de vida, cores, curiosidades, num relato que mistura a ciência com a emoção. Pretende fazer-nos ver que a vida não é só o que vemos e o que conhecemos superficialmente - todo o mundo se move para que vivamos e consigamos, primeiro do que tudo, respirar, num equilíbrio de factores que parece inacreditável.

Neste primeiro episódio, ficamos a saber como é possível que respiremos e o que acontece no planeta inteiro que torna isso possível. Percebemos que cada inalação, cada lufada de ar que inspiramos inconscientemente, sem parar um segundo para pensar, é a conjugação de vários factores que acontecem por todo o lado e de várias formas, e que, se um deles falhar, o planeta terá de arranjar uma nova forma de se equilibrar. E irá, porque é vivo, uma entidade que se adapta apesar de todo o mal que lhe fazemos. E isso é contado de uma forma que tem tanto de elucidativa como de mágica, dando a conhecer, por exemplo, o rio voador da Amazónia ou os fascinantes lagos ácidos na Etiópia, todos parte do processo.

Will Smith é o improvável narrador (e não só, como irão descobrir) e o programa conta com vários astronautas a contar e a comentar as histórias e os factos que tornam esta nossa casa única e estranha. A estrela da companhia é o astronauta Chris Hadfield, que é uma absoluta lenda, especialmente para os que se lembram da sua cover da Space Oddity, do David Bowie, no espaço. Um momento genial.

Vários talentos se juntaram para criar esta série e o resultado é tão formidável que não o consigo verbalizar. Se não viram, vão a tempo de ver, procurem nas vossas boxes. Vale a pena, e é surreal perceber que elementos tão pequenos que nem os conseguimos ver, ou tão grandes como as montanhas, determinam o que somos e para onde vamos. E, mais do que tudo, que estamos todos no mesmo barco. Chama-se Terra.

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O plástico é um problema. Ele domina quase todas as nossas compras. Quase tudo está envolto em plástico, sejam produtos com larga duração, sejam os de consumo mega rápido, como os iogurtes ou as garrafas de água. Mesmo que reutilizemos alguns destes recipientes até à exaustão, a pegada ecológica é gigantesca e permanecerá até muito tempo depois de morrermos. Prova disso é a imagem que se tornou viral de um pacote de batatas fritas Ruffles encontrado numa mata, que anunciava um prémio de 5.000 contos. A embalagem, de 1995, andava por ali há 23 anos e seria capaz de permanecer intacta por mais algumas centenas deles.

Os oceanos estão cheios de plástico, ocupando já uma larga parte destes, o que tem um impacto brutal no ambiente e na vida marinha. Reciclar não chega - até porque nem tudo é reciclável - a produção e o uso de plástico têm de ser reduzidos para não tornar este planeta (ainda mais) uma lixeira. Felizmente o assunto está na ordem do dia e têm existido alguns movimentos para chamar a atenção para este flagelo.

Uma das iniciativas vem de Amesterdão - foi inaugurado, num supermercado Ekoplaza, um corredor onde o plástico não entra. Todos os produtos que ali estão (e são mais de 700) são embalados com alternativas biodegradáveis, e há de tudo - carne, arroz, iogurtes, vegetais - mostrando que é possível banir totalmente a utilização de plástico. A iniciativa vai ser alargada, até ao final do ano, aos outros 74 supermercados da cadeia. Ora grão a grão, isto vai ter um grande impacto. Acredito na inspiração dos exemplos e que mais cadeias vão adoptar a ideia, ao mesmo tempo que o consumidor se habitua a um novo modo de comprar e que se consciencializa para a causa.

Em Portugal existem vários locais, especialmente lojas de compra a granel, onde não se utiliza plástico e os clientes podem até levar os seus próprios recipientes. Em grandes hipermercados também se vai vendo bons exemplos, como a área a granel no Continente, com sacos de papel. Infelizmente, no Jumbo, embora exista área a granel, são utilizados sacos de plástico.

Como tudo o que envolve o nosso planeta, a contribuição individual é fulcral. Podemos pensar que a nossa acção não vai mudar em nada o curso das coisas, mas se 7 biliões de pessoas não pensarem assim e se fizerem um pouquinho, tornar-se-á muito.


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O método é simples e eficaz - na compra de uma bebida engarrafada, o cliente paga uma coroa norueguesa a mais. Esse dinheiro é-lhe devolvido quando devolver a garrafa, em máquinas preparadas para o efeito. Sendo que uma garrafa pode ser reutilizada 12 vezes, a produção de plástico reduziu significativamente e em 2016 foram recicladas 600 milhões de garrafas, o que corresponde a 97% da produção. Genial!

Quem paga por isso são as empresas de bebidas, mas sendo um método totalmente voluntário pagam menos impostos se aderirem. O Reino Unido está a considerar copiar este método. Quando a BBC fez a reportagem, viu um sem-abrigo que tinha recolhido garrafas a colocá-las na máquina e a ganhar dinheiro por elas, o que mostra que também é uma óptima ideia para quem menos tem ganhar uns trocos ao mesmo tempo que ajuda o ambiente.

Não sei se em Portugal isto teria pernas para andar. Acho que teriam de cobrar uns €2 pelas garrafas para que o tuga preferisse deslocar-se à máquina do que atirar a dita cuja pela janela do carro, queixando-se depois que as autarquias não fazem a limpeza das ruas e das matas. Imagino o caos e a revolução que iriam surgir nas redes sociais se nos fossem cobrados 10 cêntimos (o equivalente a uma coroa norueguesa) por uma embalagem, tal como aconteceu com os sacos de plástico. Agora até já aceitam a ideia, mas foi o descalabro. Mas um saquinho coloca-se na mala para se reutilizar, uma garrafa já tem um volume que dá muito trabalho... por cá, trata-se mais de reciclar as consciências do que propriamente o plástico...

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