Palavras do Abismo

Este domingo, com a padaria da minha rua fechada, fui comprar pão num estabelecimento que vende comida para fora. Estava à torreira do sol na fila, máscara posta, quando vejo dois agentes da polícia (um homem e uma mulher) virem em amena cavaqueira pela rua abaixo. Chegam ali, colocam as suas máscaras, e vá de entrar. 

A primeira coisa que pensei foi que estivessem a fazer algum tipo de fiscalização, que estivessem a ver se as regras de distanciamento, limitação do espaço, estavam a ser respeitadas, coisa assim. Qual não é o meu espanto quando começam a pedir comida. O meu, e o da senhora que está à frente na fila, que diz ao senhor agente (que era mais um menino, vá) que tem de se pôr na fila. "Mas estamos só a encomendar", diz ele, lá de dentro. E a senhora que está a atender ao balcão, diz-lhe, também muito bem, que só podem estar dois clientes lá dentro, e já lá estavam dois. Eles tinham entrado em casalinho sem nenhuma preocupação, e ele lá saiu. Ainda ouviu a senhora da fila dizer-lhe que ela também só está ali para encomendar, e que para encomendar também é preciso tirar senha e ficar a aguardar a vez. "Mas era só pedir...", murmura ele, todo ele sorrisos, enquanto a sua colega, lá dentro, está a escolher espetadas.

Há estabelecimentos que dão prioridade a agentes da autoridade, bombeiros, etc, mas não era o caso. Mesmo não sendo, se eles se tivessem dirigido às pessoas e explicado que estavam em serviço, tinham pouco tempo, de certeza que não teria existido mal-estar. Mas entrar por ali adentro, violando a lei da limitação de pessoas no espaço que deviam ajudar a respeitar, com uma atitude de sorrisinhos e desculpas não válidas, caiu-me mal.

Não gosto de abusadores da autoridade, ainda para mais quando é para escolher espetadas.

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Estamos em pleno surto do Covid-19 e os comportamentos dos cidadãos estão longe do ideal. Apesar da grande parte da população estar em isolamento voluntário, continuamos a ver pessoas nas ruas, nos cafés, nos bares. Mentalizem-se que temos de estar em casa o mais possível, apenas saindo para o necessário - supermercado, farmácia, trabalho. Caso contrário, iremos rapidamente chegar ao ponto da Itália em que estar na rua sem um destes motivo dá pena de prisão.

Para além destas pessoas, estão-me a fazer comichão aquelas que optaram por ir de férias nesta altura difícil. No meu Instagram, por entre os posts do pessoal que está a tentar passar um bom bocado em casa e motivar os outros a fazer o mesmo, vejo as fotos e vídeos daqueles que estão a passar o momento das suas vidas no estrangeiro. Conheço algumas pessoas que foram para o Brasil e outras que foram para a Tailândia. Sendo ou não países com mais ou menos infectados, é de uma irresponsabilidade total andar nas praias, nos restaurantes, nas discotecas, nos hotéis, contactando com milhares de pessoas. E, depois, têm de voltar, claro. E mesmo com todos os cuidados que tenham, irão cruzar-se com outras centenas de pessoas nos aeroportos, nos aviões, podendo tornar-se agentes de propagação mesmo que não venham a ter sintomas.

Se é uma questão económica e de perder dinheiro, saibam que milhares de outras pessoas estão na mesma situação. Eu própria tenho uma viagem nacional e duas internacionais marcadas. Provavelmente não vão acontecer, certamente vou perder dinheiro que custou mesmo muito a ganhar, mas isso agora é o menos importante. A vida continuará depois disto e teremos tempo para fazer novos planos. Mas para isso teremos de estar vivos. Para isso, este período negro terá de passar. E para isso, temos de nos unir.

Dito isto, muita força a toda a gente e continuem com os cuidados básicos - lavem as mãos frequentemente e durante 20 segundos; mantenham a distância social; evitem aglomerados de pessoas; estejam o mais possível em casa; não recebam visitas; não estejam com os vossos idosos - depois disto tudo, vamos ter todas as oportunidades para nos voltarmos a ver e a abraçar novamente.



Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários
Quem, em conversa, ou respondendo a perguntas demasiado pessoais, já disse que não queria ter filhos, já levou com uma destas observações (ou com várias, ou com todas):

- Quem é que vai cuidar de ti quando fores velha?
- Como é que vais dar sentido à vida se não fores mãe?
- Vais-te arrepender e depois é demasiado tarde!
- Tanta gente que quer e não pode ter e tu podes e não queres, que egoísmo!
- Mas ser mãe é a melhor coisa da vida!
- Não serás uma mulher completa até ter filhos.
- Não sabes o que estás a perder.
- Mas tens algum problema físico ou psicológico?
- Mas tu também já foste uma criança!
- Não sabes o que é o amor até teres filhos.



É uma merda que a sociedade tenha produzido ao longo dos séculos tanta gente carneira, que faz as coisas porque os outros fazem. Casam porque os seus pares, a Igreja, a família e os amigos acham que é o normal. Têm filhos porque é a ordem natural das coisas. Crescei e multiplicai-vos, carneiros, sem pensamento próprio, livre arbítrio, escolhas. Pois, a questão é que todos temos o direito de escolha, que quase nunca é aceite e respeitado quando foge dos termos gerais que assinámos, sem saber, quando alguém nos decidiu parir.




A liberdade pressupõe que eu possa fazer o que quero, desde que não prejudique o próximo nem viole alguma lei, mas as coisas não são bem assim quando dizemos em voz alta que não pretendemos parir. Parece que é uma ofensa aos próprios, como se não dar uso ao nosso útero fosse o mesmo que meter-lhes o dedo por dentro das calças e enfiá-lo no rabo. Estão tão formatados que fazem todos as mesmas perguntas e os mesmos comentários, o que deixa os childfree completamente esgotados e cansados.

Quando essas pessoas decidiram ser pais, eu não fui lá perguntar porquê, e se estão a pensar no planeta que está sobrelotado, e que a geração dos filhos vai provavelmente assistir ao fim dos recursos naturais, até mesmo da Terra, e se já ouviram falar do aquecimento global, embora me apetecesse. Mas não, calo-me, porque tenho de aceitar as decisões dos outros, e respeitar as suas vontades. Aliás, se cada um fizesse o que o faz feliz, sem julgamentos, a vida seria bem mais leve.

Estou farta de ser julgada por uma decisão que é só minha mas que parece afectar a vida das centenas de pessoas que se preocupam tanto com o meu sistema reprodutor. Sei que muitas mulheres e homens sofrem com este tipo de pressão, como tal deixar-lhes-ei aqui algumas respostas porque estou farta de gastar perdigotos.

O que é bom para ti pode não ser bom para mim
Se a melhor coisa da tua vida é ser mãe ou pai, parabéns! Encontraste o teu objectivo, a tua felicidade, a tua razão de viver. Mas tens de admitir que há mais formas de se ser feliz - a tua não é universal. Eu sou feliz quando viajo, quando vou a concertos, quando consigo ler um dia inteiro em silêncio, quando faço ioga no silêncio, quando me estendo no sofá em silêncio... já mencionei que adoro o silêncio? Ah, também gosto muito do sossego. 



Nem todos nasceram para ser pais
Ser mãe ou pai implica deixares de ser a pessoa mais importante da tua vida. Passas a ser responsável por uma pessoa - por alimentá-lo, vesti-lo, educá-lo, proporcionar-lhe cuidados de saúde - e isto é só o básico dos básicos. Acham que toda a gente está preparada para isso? Se assim fosse, não existiriam maus pais. E acho que basta ligar a televisão, abrir um jornal, ir à internet, para saber que há maus pais. E muitos. Ser-se pai só porque sim, mais dia menos dia, vai dar merda. Ainda para mais quando não se está disposto a abdicar de um grande pedaço de si próprio e do bem que temos de mais precioso - o tempo.



O corpo é meu
Muitos acusam as mulheres childfree de serem egoístas (nem percebo muito bem esse argumento), mas penso que (também) será por não querer estragar o corpinho, porque também já ouvi isso. E se fosse? Acham que quem não quer ser mãe para não estragar o corpo está preparada para ser mãe? Querem que essa pessoa traga mesmo alguém ao mundo? Da parte que me toca, este corpinho custou muitas horas no ginásio para que agora estragasse tudo... Sinto-me tão confiante na minha pele, tão orgulhosa da minha barriga lisa, do meu rabo duro como a pedra! Isto pode parecer conversa da treta, mas uma das coisas que a minha mãe me disse foi que nunca mais foi a mesma pessoa depois de me ter. Teve um parto difícil, ficou com a barriga completamente rasgada, ganhou 30 quilos que nunca perdeu, teve uma crise de confiança (que dura até hoje, mais de 30 anos depois), nunca mais foi à praia, aliás, nem usa camisolas de alças em público. Para juntar a tudo, roubei-lhe todo o cálcio durante a gravidez e perdeu quase todos os dentes - só tem quatro, o resto é placa. Quando ela fala no passado é com uma grande mágoa e, pessoas, a depressão pós-parto é real e afecta mesmo muitas mulheres - muitas delas nunca recuperam. E eu não me quero ver como a minha mãe se vê. Poderia acontecer-me, poderia não acontecer, mas o sentimento dela marcou-me ao crescer e a minha auto-confiança é das coisas que mais me orgulho...



Um gugu-dadá não compensa tudo
Quando pessoas que têm filhos, principalmente pequenos, e comentam que não leem livros há anos, e que já não conseguem ver séries, e que a televisão tem de estar sempre ligada no Canal Panda, e que já não viajam, e que passam muitas noites sem dormir, e que comem mal, que não têm tempo para fazer exercício, já não sabem o que é ouvir a música que querem aos altos berros em casa, já não sabem o que é ir a um concerto, já mal se lembram da última vez que jantaram com amigos sem hora para chegar, o único copito que bebem é a acompanhar o jantar, muito de vez em quando, que o sexo é mais raro e recatado, eu fico - WTF? "Ah, mas tudo é compensado... com um sorriso, com as primeiras palavras, com amor..." O caralho! Mais uma vez, se resulta para vocês, muito bem, mas imaginar a minha vida assim é morrer. É perder a minha identidade, aquilo que sou, o que me faz feliz. Não quero substituir 1000 amores por um maior, quero viver intensamente todas as minhas paixões. E a escolha é minha!



Não sou menos mulher que as parideiras
Com que então uma mulher define-se pelo uso que dá ao útero? Bullshit! Só pessoas muito limitadas e muito atrasadas podem dizer uma coisa destas. Uma mulher não é um depósito de esporra. Não é mamas e cona. É um ser humano complexo, com paixões, gostos e desgostos, que tira prazer da vida como quiser. Pode ser focada na carreira, na família, no lazer, no que lhe der na gana, e continuará a ser mulher. O que importa é que seja de boa índole, e não que consiga e queira reproduzir. Qualquer dia andaremos com autocolantes na roupa, como faziam com os judeus, a dizer "sou mulher e estou pronta para acasalar" ou "não te chegues perto que tenho defeito". Ah, vão atirar agora com a desculpa biológica? "Não sei quê, o sistema reprodutivo faz parte do corpo humano e é para ser usado". Pois, se calhar temos de dizer aos gordos que se têm perninhas é para correr, aos atrasados que se têm cérebro é para usar, e aos padres que se têm pila escusam de viver na abstinência. E já agora, biologicamente não fomos feitos para comer carne - pesquisem porque é que temos um intestino de 8 metros, como os macacos, e não de 1, como os leões e afins. Mas a biologia é uma desculpa só para o que convém, certo?



Não preciso de ninguém para me limpar o cu na velhice
O argumento "Quem vai cuidar de ti quando fores velha?" é o supra-sumo do egoísmo. Ora eu sou egoísta por não querer parir, mas quem o faz com medo da solidão é legítimo? Em primeiro lugar, ter filhos não é sinónimo de terem alguém que cuide de vocês, ou os lares não teriam uma lista de espera de anos, os velhos não seriam abandonados nos hospitais, etc e tal. Esperarem isso de um filho é uma lotaria. Em segundo lugar, a partir do momento em que precisar de alguém para me limpar o cu, mato-me. Não quero viver assim. Aliás, isso não será viver, mas vegetar. Não quero que os outros se submetam a isso. 



Eu sei o que é o amor
Abram a vossa mente e aceitem que o amor pode tomar várias formas. Há o amor que vem das relações familiares - com um parceiro ou parceira (ou vários), dos filhos, dos pais, dos irmãos. Há o amor que damos e recebemos dos nossos amigos, os nossos pares, que nos compreendem, apoiam, que estão sempre lá. O amor pelos nossos animais de estimação, também parte da família. O amor pela natureza, por estar em comunhão com o espaço que nos rodeia, as sensações que o vento, e os cheiros, e a luz do sol, e a água do mar, e os pés descalços na relva nos provocam. O amor pelas coisas que gostamos, por fazermos as coisas acontecerem numa carreira que amamos, por vermos um projecto manual ganhar vida, pelas leituras que nos deixam a chorar, pelo filme que nos marca a vida, pela música que nos faz sentir que estamos vivos. Sinto amor ao ajudar o próximo, sinto amor na gratidão, na partilha. Sinto amor ao visitar um sítio onde nunca tinha estado antes, ao sentir o peso da história dos locais envolver-me. "Mas é diferente". Não quero saber. Sou feliz com os meus amores. 



Há muitas pessoas arrependidas de terem sido pais
Este é um dos grandes tabus do mundo. Se uma mãe disser que se arrependeu, que não gosta de ser mãe, que não é o que esperava, ou que não gosta dos filhos, é imediatamente estigmatizada, criticada, posta de parte, atiravam-lhe pedras e queimavam-na, se pudessem. A sociedade não percebe como é que uma mãe pode não gostar de ser mãe. Mas trata-se de pessoas, não de robôs - mutáveis, voláteis, capazes do arrependimento, de reconhecer más decisões. Mas neste caso, sem poder verbalizá-las. É por isso que hoje em dia há várias mulheres (e homens também, mas estes não são tão criticados) que utilizam fóruns, blogs, grupos do Facebook, etc, onde, de forma anónima, desabafam sobre o peso, o ressentimento, a tristeza que carregam. E, atenção, provavelmente serão melhores pais que muitos porque continuam a ser pessoas responsáveis - apenas não são felizes e se pudessem voltar atrás no tempo, voltariam.



Nem todos gostam de crianças e há putos realmente estúpidos
Não tenho qualquer instinto maternal ou relógio biológico. Há mulheres que sonham desde pequenas em casar e ser mães, eu sonho desde adolescente em ser rica para poder contratar os Metallica para tocar na minha casa ou poder viajar sem bilhete de volta comprado. Há quem comece a bordar babetes e cenas de enxoval, eu bordo pénis e gatinhos. Há quem se pele pelo cheiro de um bebé, e eu perco-me pelo cheiro de crepes e pizzas. Até prefiro o cheiro a peixe da boca dos meus gatos. É raro ir a um supermercado, a um restaurante, a uma feira do livro, ao centro comercial, a um parque, a um café, à praia, onde quer que esses diabos sejam permitidos, sem haver um puto horrível a gritar, a fazer birra, a espernear que quer um brinquedo, que não quer comer, ou que tem fome, ou que o outro lhe puxou o cabelo, ou porque sim. E eu só quero silêncio. Silêncio. Calem-se, caralho. Voltem prá cona das vossas mães. 



Em resumo, vivem e deixem viver, sem julgamentos. Ninguém é ninguém para dizer aos outros como viver a vida. Não há formas e certas e erradas de se ser feliz - a certa é a que vos fizer sorrir e que vos preencher. Não se metam na vida dos outros. Estas perguntas são íntimas e poderão estar a magoar alguém ao fazê-las: alguém que não possa ter filhos, casais incompatíveis, ou simplesmente pessoas cansadas de levar tantas e tantas vezes com os mesmos comentários ignorantes sobre a sua forma de viver. 

Para apanhar cocó e me acordar durante a noite já basta o gordo do meu gato. 










Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Podem substituir "raio" por "caralho" no título deste post para melhor sentirem o meu estado de espírito, que de momento é merdoso. 

Foda-se, tenho 33 anos, pensei que por esta altura a questão dos sisos estava arrumada, e seguia feliz na minha vidinha quando um desses cabrões decidiu infectar. Criou abcesso, a boca inchou, começou a empurrar os outros dentes (um belo moshpit na minha boca - eu sei que mereço) e foram dias intensos a sentir uma das piores dores da minha vida - está no top 3, a seguir à pedra nos rins e à hérnia discal - até o antibiótico fazer efeito. 

Foram quatro noites sem dormir, e porquê? Para quê? Porque é que temos dentes que nos incomodam tão tarde na vida? São como aquelas visitas indesejadas - não queremos que venham, não temos espaço para elas, e mesmo assim elas entram-nos porta adentro, sem dia e hora para bazar, fazendo da nossa vida um rebuliço, deixando tudo de pantanas. E, quando finalmente elas se vão, não deixam saudade alguma. Adeus, já vão tarde! Só é pena não podermos tirar essas pessoas tóxicas da nossa vida com um alicate. 

O meu hóspede indesejado foi retirado esta manhã e ainda estou sob efeito da anestesia, e por isso ainda tenho espírito para escrever antes das dores chegarem. Vim aqui deixar um conselho aos jovens - vocês retirem esses cabrões todos da vossa boca. Assim que souberem que os sisos estão para nascer, ou se começam a espreitar, não hesitem e arranquem-nos. Não os deixem crescer nem infectar, porque depois sofrem em dobro. No mercy para esses motherfockers!

Ah, spoiler alert - como podem ver, o juízo não vem com o siso.


Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários
Trabalho no Campo Grande, Lisboa. Todos os dias, à hora do almoço, vou ao ginásio, e tenho de atravessar a entrada do metro. E todos os dias tenho de fazer uma pista de obstáculos por entre as ciganas que me esfregam os "xáles", os quatro pares de brincos por 50 cêntimos ou a "calça da moda" na cara. Para além de serem umas 10 a barrar a entrada, obrigando as pessoas a respirar-lhes o bafo para conseguir passar, corre-se o risco sério de ficar surdo com tantos decibéis de gritos.

OLHÓ XÁLE A DOIS E MEIOOOOO
Ó CARA LINDA, OLHÁ CAMISOLA DAS MODAS
É SÓ HOJE, É SÓ HOJE, UM AÉRIO, SÓ UM AÉRIO

Nada a que não estejamos habituados nas feiras, em espaços abertos. Agora, numa entrada de um metro onde aquela mulherada faz eco e onde inventam bancas em cima de caixotes improvisados que nos barram a passagem, é chato. A juntar ao homem das cautelas, ao outro que vende carteiras, aos jeovás, à dos cachorros quentes, à das pipocas, aos da Amnistia Internacional e demais pedinchões, aos professores Mamadus a distribuir aqueles quadradinhos brancos de promessas, aquela entrada de metro tem mais sovaco por metro quadrado que o aeroporto em dia difícil.

Engraçado, engraçado, é quando aparece a bófia. Nesses momentos vê-se quem é que tem o seu negócio "legalizado". É claro que as ciganas pegam sumiço. Só as vi serem apanhadas uma vez, ficando com o seu material confiscado. De resto, têm uma habilidade inacta para fugir aos senhores agentes, como se os farejassem e comunicassem entre si por pensamento. Puf, já foram. Da sua presença, só resta a memória, os ecos nos ouvidos, e pedacinhos de plástico e cartão no chão, ou um eventual brinco da moda.

Mas quando pensamos que a costa está livre do mulherio, basta que a bófia dobre a esquina para elas aparecerem novamente vindas do nada. Não faço ideia onde estiveram. Parecem a CMTV, escondidas debaixo de uma pedra, prontas para qualquer desgraça e infortúnio, uns autênticos Luis de Matos do material contrafeito.

Odeio que invadam o meu espaço pessoal. Sejam as ciganas que passam o material das leggings (ou légues) no braço para eu sentir o estupendo material, seja o professor Mamadu que me estende o papelucho até mo roçar no nariz, seja estar com a cara à altura do cu de alguém quando subo escadas, não interessa, o importante é manter as pessoas à distância de, pelo menos, um braço. Se for um braço do Shaquille O'Neal, melhor. É por isso que estas mulheres me dão afrontamentos, pois sinto-me violada pelos seus corpos que insistem em roçar no meu e pelas suas vozes que entram por mim adentro sem pedir autorização. 


Share
Tweet
Pin
Share
4 comentários
Older Posts

Translate

Seguir por email

Seguir

  • twitter
  • Google+
  • pinterest

Recentes

Categorias

pessoas estranhas música gajas coisas boas filmes desabafos animais cinema as coisas que se aprendem portugal morte trabalho vida sonhos merda tristeza séries ambiente redescobertas musicais vozes de gaja

Top da semana

  • Sonhos marados #46 - o antro gótico do deboche
  • 2017, acalma lá o pito
  • Todos choram por Chapecó
  • Um dia essa saudade vai ser benigna
  • Pessoas estranhas #118 - o senhor de Vizela
  • Um foda-se fofinho - ponto cruz

Arquivo

Pesquisar

Blogs fixolas

  • Abencerragem
    «Thick as a Brick»
  • Ponto Aqui! Ponto Acolá!
    Parabéns ao meu Cavaleiro Andante!
  • Manuscritos da Galaxia
    Abbas Kiarostami - “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”
  • Unicornia Cross Stitch
    Terminator - pdf pattern
  • Naturalmente Cusca
    Sobre o Caso Ronaldo
  • thebarraustuffs
    Matt Hollywood & The Bad Feelings
  • Dissertações (pouco) científicas
    E lá se foi o bem bom
  • Por Falar Noutra Coisa

Visitas

No abismo

Created with by ThemeXpose | Distributed by Blogger Templates