Palavras do Abismo

"Se era obrigado a dirigir-lhe a palavra, fazia-o com uma tal profusão de floreados hipócritas que ela sentia desejos de o estrangular. O homem tinha blandícias repugnantes"

in Crazy Cock, de Henry Miller (1991)


blan·dí·ci·a
(latim blanditia, -ae)
substantivo feminino
1. Gesto ou demonstração de um sentimento de ternura ou de afecto. = AFAGO, CARÍCIA, CARINHO, MIMO
2. Gesto ou esforço para agradar ou atrair alguém. = ILÉCEBRA
3. Doçura, meiguice.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Este excerto e esta explicação do significado de blandícias faz-me lembrar quando era pequena e odiava que me dessem beijinhos (ainda odeio, mas agora consigo calar-me ou recusar). Contam-me os meus pais que quando alguém me dava beijos, especialmente os velhos, eu fazia blhec ou algum outro som de repulsa e limpava a cara com a manga da camisola, ou mesmo com o meu próprio cuspe, esfregando muito bem. Já na altura, não gostava de blandícias e dei origem a alguns momentos de constrangimento que, felizmente, fez os meus pais perceberem que não me podiam obrigar ao contacto físico com outras pessoas, e respeitaram. Nojo. Mal sabiam eles que, décadas depois, este bicho do mato é que viria a ter razão por manter a distância social e pela desinfecção constante.



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Devo ter encontrado a pessoa mais estranha do universo para vir parar aqui pela segunda vez, e devido a um tema diferente. Esta foi a primeira, quando o senhor arquitecto chamou de débeis mentais aos transexuais. Agora, encontramo-nos aqui, de novo, devido a esta fantástica opinião. Mas vamos por partes.

O senhor começa por falar de gastronomia. Diz que os hambúrgueres e as cozinhas estrangeiras não são necessários em Portugal (diz mesmo que "não fazem falta nenhuma"), visto termos uma gastronomia muito rica. A seguir diz que não é fundamentalista e que gosta de ir ao chinês, e ao italiano e aos hambúrgueres. Só não gosta de sushi, pois enjoou-se no Japão. 

Não percebo a esquizofrenia das declarações. Foi uma tentativa de ser nacionalista e defender o que é de Portugal? Que o cozido e os estufados, e o peixe grelhado, o bacalhau à brás é que são a cena legítima? Foi uma piscadela de olho ao PNR? Mas depois pensou melhor, e na eventualidade de algum leitor o ver a comer Chop Suey de vaca, fica registado, em sua defesa, que não é fundamentalista. Que o que é nacional é que é bom, mas um gajo ir às chinocas de vez em quando não tem mal. Chupar um McFlurry e um hambúrguer importado é na boa, se tivermos pernas de jamon nacional penduradas no tecto.

Depois, da gastronomia esquizofrénica passamos à pura estupidez. O senhor arquitecto diz, já que estamos a falar de hambúrgueres, by the way, que viu um casal mesmo estranho numa casa de hambúrgueres em Algés, vindos desse antro nojento que é a Comic Con.

"Ao meu lado estava um jovem casal, de cerca de 20 anos, ambos andrajosamente vestidos. Ele com um boné enfiado na cabeça, uma barba descuidada, uma t-shirt e uns calções que pareciam apanhados no lixo e umas sapatilhas gastas. Ela demasiado gorda para a sua idade, com uma roupa justa e sem graça que lhe ficava pessimamente."

O nosso querido senhor arquitecto afinal é uma pessoa que sabe muito. Sabe que as pessoas, quando vão para festivais andar o dia inteiro à torreira do sol, deviam no mínimo levar um fato saia-casaco que tape a maior parte da pele nojenta dessas gordas. Deviam andar cheirosas e de salto alto - todos sabem que as gostosas não suam nem têm calos. Gajos sem gravata deviam simplesmente falecer. Pelo menos a barba por fazer ficaria melhor no rosto cinzento da morte. Gente nojenta esta, que acha que pode comer um hambúrguer vestidos com tralha da Primark e com pele à mostra. Gente sem nível que anda por Algés num festival e que se mistura nas casas de hambúrgueres da zona com as pessoas de bem. Gente que anda de transportes, a tocarem uns nos outros, nojo, vómito.

Agora, o senhor arquitecto tem uma saída de génio, dizendo que os incêndios e os festivais são um flagelo para o nosso país...

"Os incêndios são um flagelo desta época do ano. Devastam a floresta e destroem a vida de muitas famílias. (...) Quanto aos festivais (de música e outros), são uma autêntica praga. Antigamente, a música no Verão resumia-se aos cantores pimba (...) Então, inventaram os festivais para a ‘malta urbana’, ‘culta’, ‘erudita’. (...) Ora, olhamos para essa ‘malta’ e o que vemos? Vemos aquele casal mal vestido que não troca uma palavra. Vemos gente maltrapilha, sem aprumo, aparentemente sem interesses, agarrada ao telemóvel, que vai aos festivais não para ouvir música mas para se excitar."

Primeiro, meter os incêndios e os festivais no mesmo parágrafo devia ser suficiente para o meterem num lar. Mas tá tudo parvo? Comparar um verdadeiro flagelo que mata, que destrói, que muda negativamente a vida de tanta gente, a um festival? Ele poderá achar que a música de hoje em dia é um flagelo, estaria no seu direito, mas muito, muito longe, de poder ser enfiada no mesmo saco.

E volta ao mesmo assunto - o casal mal vestido. O senhor arquitecto devia ter tirado umas cadeiras de moda na faculdade e só não o fez porque o iriam chamar de panasca. Assim, vinga-se agora nas suas "crónicas" sexualmente reprimidas. Não nego que há pessoal que vai para os festivais e que fica a olhar para os telemóveis - também não gosto - mas ficar ofendido porque as pessoas vão mal vestidas é o cúmulo da panasquice. O senhor arquitecto só vai às casas de fados mais distintas de Lisboa, com o lencinho impecável a sair do bolso do fato, e não admite nada menos do que isso. Prometo ter isso em consideração, e levarei já para o meu próximo concerto o meu vestido Gucci e o meu sapato Prada. Isto depois de ter ido ao cabeleireiro e à manicure - as mãos que vão comer os canapés e beber o Martini têm de estar impecáveis. Se uma pessoa pobretanas qualquer meter conversa comigo fingirei que não existe. Gente de tshirt, que horror, que pardieiro.

Para terminar, o senhor manda um número recorde de pérolas em tão poucas linhas:

"De facto, muita da música que se toca nos festivais não é bem música: é ruído. Um ruído tremendo, assustador, destinado a excitar as multidões. As pessoas ficam em transe, abanam os corpos, gritam, como se estivessem num exorcismo. Tenho dificuldade em imaginar como será o mundo amanhã. Não vejo que com aquela gente se faça alguma coisa de jeito. Gente que só quer pão e circo: comer, beber e excitar-se com doses bombásticas de música ao vivo. (...) E às vezes snifar e aspirar umas ‘linhas’. Sem esquecer o sexo quando não há mais nada para fazer."

Drogados, todos drogados! Essa gentalha que ouve música rafeira só quer snifar e foder! Badamecos! Andam ali a esfregar a tesão uns nos outros, todos possuídos pelo diabo! Safadeza! Ah, antigamente é que era, só se fodia para procriar, no escuro, e com roupa vestida!

Foda-se, foda-se. Bem, numa coisa tenho de dar a mão à palmatória - às vezes, num concerto, eu própria pareço estar a ser exorcizada. Mas acho que qualquer pessoa que gosta de música percebe que às vezes sentimos tanto o momento que os gestos nos escapam, e sim, parece que temos o diabo no corpo. A música é transcendente e é para sentir, e para dançar como se ninguém estivesse a ver. Mas quem levar o senhor a sério, parece que ir a um festival ou a um concerto é a coisa mais decadente desta vida. É ali que as pessoas são levadas para a má vida - prostituição, sexo explícito, drogas e mais drogas a rodar, e fica tudo deprimido, com falta de um sentido para a vida. É ali que se formam pessoas irresponsáveis, sem futuro, onde, ainda por cima, se vestem com qualquer trapinho.

Se a conotação de velho do Restelo assenta a alguém, é a José António Saraiva. E isto, para mim, não é um artigo de opinião, é uma declaração de ódio. É a antítese de tudo o que devemos ser - tolerantes, principalmente. E é também perigoso, como todas as vezes em que espalhamos ódio. É falar com desconhecimento de causa, baseado apenas no seu instinto, que infelizmente expirou em 1870.

E agora, o que faço? Vou a concertos e festivais, pulo e grito como se tivesse o diabo no corpo, mas estou confusa. Tenho um emprego de segunda a sexta, tenho uma casa, um carro, faço voluntariado, contribuo para diversas causas, tento ser activista o mais que posso, nunca snifei sequer. Ah, mas espera. Visto-me pobremente, não me maquilho, corto o meu próprio cabelo, não vou à manicure. Tinha de ter algo de errado comigo. Que vai ser do planeta?

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Estes a quem chamo de anormais são os promotores da festa dos touros de fogo e a população que aplaude e participa nessa merda e não, claro, aos habitantes em geral. Até porque há por lá boa gente.

Mas não o são, decerto, aqueles que vibram ao ver pegar fogo aos cornos de um touro e que ficam a bater palminhas ao vê-lo enraivecido, humilhado e em pânico. Esses, são apenas anormais de merda, sádicos, pessoas sem escrúpulos, deficientes mentais, excrementos em forma humana.

Ora depois das queixas feitas por várias organizações de defesa animal e pelo público em geral, esta prática foi cancelada. As associações, em especial a Animal, foi até às últimas instâncias para garantir que tal não se realizava. Só que... os deficientes mentais são insistentes e afirmaram desde logo que iam fazê-lo à mesma.

As autoridades foram avisadas desta intenção, mas como em tudo o que tenho testemunhado em relação à defesa animal da parte deles, cagaram de alto. E assim, esta merda realizou-se. Os cornos são sensíveis - os touros têm dores reais quando estão em chamas, e ficam também com o focinho todo queimado. É um cenário de loucos, que apenas excrementos humanos podem apreciar.

Por isso, seus excrementos de merda, se gostam de ver fogo em cornos, ponham os vossos a arder. Ou metam um pau no cu, peguem-lhe fogo e fujam. Ou simplesmente apontem um lança-chamas uns aos outros e matem-se de vez. Vocês merecem morrer, e sofrer. Julgam-se os reis do universo, a maior e melhor das espécies, mas não passam de um vírus nojento que é preciso destruir. E espero que sejam destruídos rapidamente. Espero que se fodam, que vão para o inferno, que tenham uma morte lenta. Joguem-se dum prédio, afoguem-se. Tanta gente boa a morrer e vocês de pé. Mundo injusto. Morram.


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Trouxe da biblioteca um livro que me deu a conhecer um período negro da História, conhecido agora como o Holocausto Brasileiro. Fiquei estarrecida, em primeiro lugar por aquela realidade ter acontecido durante tanto tempo nas barbas de toda a gente; em segundo lugar, porque o desconhecia. E a ignorância que tinha disto envergonha-me. Foi negro, horrível, doentio, e como tal sinto a necessidade de falar sobre isso. Se mais alguém tomar conhecimento do que se passou, nem que seja uma pessoa, será um passo de formiga dado para que não volte a acontecer.

Ora o Holocausto Brasileiro refere-se a um manicómio, o Colônia, em Minas Gerais, em funcionamento entre 1903 e 1980 onde morreram 60 mil pessoas. Logo por aqui se vê algo de muito errado. O número de mortes tão elevado deve-se, muito resumida e assertivamente, ao facto de as pessoas serem colocadas lá para morrer.

Qualquer pessoa que revelasse problemas mentais, desde os mais profundos até às coisas mais simples como depressão, tristeza, ou patologias como epilepsia, estava sujeita a ir lá parar. De todos os cantos do Brasil, homens, mulheres e crianças eram lá depositados pelos seus familiares ou instituições para nunca mais saírem. Como se estivessem a jogar um papel no lixo. Outros havia, claro, que as famílias achavam que estavam a fazer o melhor para eles. Mas não.

As condições no manicómio eram as piores que se possam imaginar. Logo à partida, os "doentes" eram despojados da roupa e ficavam nus, num clima que era bastante frio no meio das montanhas. Para além da vergonha, que acabavam por perder porque andavam todos assim, o frio matava. Para dormir, empilhavam-se uns em cima dos outros para procurar algum calor, e muitos acabaram por morrer sufocados. Também não haviam camas na maior parte dos locais. Para ganhar espaço para mais e mais pessoas num espaço já de si sobrelotado, foram retiradas as camas e substituídas por montes de relva.

A comida era pouca e a subnutrição também matava. Para se ter comida, eram obrigados, em jejum, a ficar horas numa fila porque quem ficasse para trás já não teria nada para comer. Para beber, era água do esgoto, bebida a partir do chão.

Os "doentes" também eram recebidos com choques eléctricos. Quando se "portassem mal" também os recebiam. Outra causa de morte. Nem todos os aguentavam. Quem já era maluco ficava ainda mais, e quem não era acabava por se tornar. Com a fome, comiam os pequenos animais que se atravessem a aparecer nos pátios, matando-os com as próprias mãos e comendo-os a sangue frio.

Num ambiente aberto ao sexo, muitas das mulheres engravidavam. E, claro, não eram autorizadas a ficar com os filhos. Para impedirem que os médicos e enfermeiros se aproximassem, cobriam o corpo com as próprias fezes.

Os cadáveres resultantes deste terror eram mais que muitos. Foi feito negócio com muitas faculdades para ficarem com os mesmos, mas isso não impedia que os corpos que sobravam fossem sendo amontoados no cemitério anexo.

Isto é uma pequena parte do que acontecia. Sugiro que leiam o livro ou que vejam o documentário. Este, ainda não tive coragem para ver. Alguns dos sobreviventes ainda são vivos e mal conseguem contar o que foi feito das suas vidas. Nem eu tenho palavras para dizer o que sinto. Quem é capaz de manter estas pessoas assim, não tem qualquer humanidade dentro. O ser humano consegue ser para lá de repugnante. Hoje, o manicómio é um museu. Da vergonha.

As fotografias em baixo são de Luiz Alfredo, repórter fotográfico que nunca mais foi o mesmo depois de ver o que viu.










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Ia a sair do meu prédio e um homem dos seus 50 e tal anos passa por mim a puxar um escarro. Olha para trás, apercebe-se da minha presença e espera até virar a esquina do prédio para mandar o dito cujo para o chão.

Portanto, tive de ouvir aquele sonoro, demasiado audível, puxar de escarro, mas tive o prazer de não o ver ser enviado ao chão. Só o ouvi. A bater nas pedras da calçada como se tivesse caído um martelo do primeiro andar.

Obrigado senhor, você é um gentleman. Assim, em vez de assistir a tudo, fiz uma bonita imagem mental.


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Faz lembrar o hino, mas em vez de "nação valente e imortal", neste momento é mais "doente e imoral". E hipócrita. E porca.

O casal de meia-idade que fez sexo em Paredes de Coura, durante o dia e à descarada aos olhos de todos os que passavam deve ter algum tipo de deficiência mental. Assim o espero. Porque gostarem do deboche e de fazer sexo em público é aceitável, e ninguém tem nada a ver com isso a não ser quem se depare com o sucedido. Fetiches são fetiches. Mas fazerem-no com a filha ao lado já roça o 'atrasadismo' mental. Se não for isso, são apenas uns filhos da puta, e prefiro o primeiro cenário.

Não há justificação para estarem a foder com a filha ao lado, enquanto esta está ali deitada a comer como se nada fosse. Aliás, a descontracção da miúda só mostra que não foi a primeira vez que isto sucedeu. Não há desculpa para tirarem a inocência de uma criança desta maneira. Não é com a visão dos pais a foder que ela deve crescer. Não é o vídeo da mãe a olhar deleitada com ar lascivo para a câmara enquanto cavalga o pai que deve ver quando for à internet. Não está certo, em lado nenhum do mundo.

A única coisa boa de isto ter acontecido é que o casal vai ser investigado. Gostava de ter visto alguém das pessoas que por ali passavam a tirar a miúda dali. Isso é que era. Por agora, era bom que este país se preocupasse mais com os maus exemplos que influenciam negativamente a vida de muita gente, em vez de meterem o bedelho na vida privada dos outros que não prejudicam ninguém. Porque há quem, por exemplo, apenas se ria com este exemplo de depravação imoral, e aponte o dedo aos homossexuais como se de criminosos ou doentes se tratassem.

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