Palavras do Abismo

O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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Ai que escândalo, que horror, o drama, o fim do mundo! Tudo por causa do comentário do professor Daniel Cardoso no programa Prós & Contras. Para quem ainda não ouviu falar, se é que tal é possível, Daniel disse no programa que obrigar uma criança a beijar os avós é uma violência, uma acção pequena mas que pode desencadear comportamentos impróprios no futuro.

E caiu-lhe tudo em cima - o céu e o inferno, o Carmo e a Trindade, fizeram trinta por uma linha, começando pelo esterco de comunicação social que temos até aos justiceiros das redes sociais, esses seres que têm a opinião certa sobre todos os assuntos da vida e mais alguns, detentores da razão absoluta, guardiões da verdade e da moral.

Quanto ao que foi dito, a minha opinião é igual à dele. As crianças têm de se reger sobre regras, sim, mas devem ser menos rígidas no que toca ao contacto físico com os outros. Eu era uma criança que detestava dar beijinhos e todo o tipo de contacto. Hoje, sou uma adulta que odeia dar beijinhos e todo o tipo de contacto. Et voilá, sou uma pessoa completamente normal (que tem uma relação normal com os avós!). A minha mãe, no início, obrigava-me, mas depois de um episódio em que eu limpei a cara com o meu próprio cuspe e com a ajuda da manga do casaco depois de um beijinho de uma velha, tinha eu uns 4 anos e transbordava de nojo, desistiu, cheia de vergonha. E como ela própria é uma pessoa que não gosta de contacto, caiu na real e achou que não me devia obrigar. E hoje, agradeço-lhe por isso.

Ela considerou mais importante que eu fosse educada, que dissesse bom dia e boa tarde, que segurasse a porta, que dissesse obrigada,  que ajudasse em casa, que fosse aplicada nos estudos, que respeitasse os meus amigos e professores, do que ver o meu mal estar quando tinha de cumprimentar, tocando, em alguém. Esta aversão que tinha e continuo a ter é um traço da minha personalidade e que está também relacionada com outra característica minha - não suporto que violem o meu espaço pessoal, mesmo que não me toquem. Mantenho a minha distância, tanto física como mental, e abro mesmo muito pouco espaço para que alguém entre na minha vida. Sou, portanto, feliz na minha solidão. Tenho a certeza de que seria mais amarga se, na minha infância, tivesse passado mais tempo por essa provação de ser obrigada a ter contacto físico com os outros.

Esta é a minha opinião e a minha experiência pessoal, e todos sabem que as opiniões são como os cus. O mais lastimável é quando se transforma um comentário ou opinião num circo tão grande que a coisa extrapola para níveis inacreditáveis. Os haters foram imediatamente investigar Daniel Cardoso, e viram que é praticante do poliamor e que gosta de tirar fotografias eróticas. E pronto, às armas, às armas, foram disparados os canhões e o homem foi atacado por todos os lados e vexado em praça pública, porque, toda a gente sabe, um homem capaz de amar várias mulheres em relações consentidas e que gosta de fotografia artística com menos roupa não tem qualquer legitimidade para falar de comportamentos violentos na infância, mesmo sendo dourado em Ciências da Comunicação e que seja professor de Comunicação e da Sexologia na Universidade Nova. Um taralhoco, portanto!

Neste país, nada se pode meter com os velhos costumes. A instituição "família" é uma coisa muito sagrada, nada a pode perturbar, mesmo que não existam laços que o justifiquem. As pessoas não conseguem aceitar que, sim, há famílias unidas e com laços afectivos muito fortes; mas também há outras em que nem tanto, porque nem sempre o sangue fala mais alto, mas sim as coisas que temos em comum, os caminhos que seguimos juntos, os sentimentos que partilhamos, as amizades que fluem no seio familiar. É por isso que muitas vezes as famílias são as pessoas que vão surgindo para junto de nós vindas de outros meios, os amigos que escolhemos ou que a vida nos escolheu, as pessoas que vamos amando e querendo manter do nosso lado, os laços que não queremos perder. Por isso, obrigar uma criança a beijar um avô, ou um tio, um vizinho, é muitas vezes sinónimo de obrigar a beijar um desconhecido ou alguém por quem a criança não sente nada.

E depois de passear nas redes sociais e ver o bullying que se está a passar com o Daniel e, passando a citar, chamando-o de "evadido do Júlio de Matos", "insano", "desajustado social", "verdadeiro psicopata", "atrasado dos pirulitos", "bastardo", "maluco da moina", "nojento", "lixo humano", "aberração", "lunático", "sem valores", "deficiente mental", "pobre diabo", "besta sadomasoquista" dizendo que "gosta é de apanhar no traseiro", é um "tarado vindo de Marte", que "bate na avó", tem "cara de parvo", que "anda é à procura de fama", devia "ter o instestino grosso dentro da cabeça" (e isto numa pesquisa rápida de 5 minutos), eu é que fico com cara de parva a tentar perceber como é que a comunidade que defende tanto um ataque à moral é capaz de ser tão imoral na maneira como trata outro ser humano.

Mas, enfim, eu já devia estar habituada à dualidade e falta de coerência das pessoas estranhas vindas de Marte. Se cada um se preocupasse com o que se passa dentro das suas próprias casas, isso é que era.

PS: só de olhar para a cara de nojo da senhora Fátima Campos Ferreira dá-me vontade de lhe dar um beijinho na cara, com uma cadeira. Vídeo aqui.

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Não fazia sentido nenhum, não existia justificação plausível. Os "artistas" (muuuito entre aspas) tauromáquicos eram isentos de IVA, e desde que o PAN se sentou no Parlamento lutava para acabar com esta mama. Finalmente aconteceu. Apoie-se ou não as touradas, é uma questão de justiça social, e sinto um orgulho muito grande deste partido que nunca se tem calado.

No Orçamento de Estado de 2019 esta alteração já vai estar prevista. Os betos mamões que se cuidem, porque isto não vai ficar por aqui. É o povo quem mais ordena, nunca se esqueçam...


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Hoje vi esta notícia. Basicamente, a McDonald's nos EUA vai, até 2020, substituir toda a mão-de-obra humana por ecrãs de led's no atendimento. Isto porque o aumento do salário mínimo está, pelos vistos, a inviabilizar a contratação de pessoal e há que reduzir custos... E se pensam que isto acontece apenas ao balcão, está a ser desenvolvido, por exemplo, o robô Flippy, que vira hamburgueres. Não demorará a existir um que tire as batatas do óleo e meta sal, até parece uma operação bastante simples para quem pôs um foguetão na lua.

É claro que as consequências sociais são mais que muitas, especialmente na empregabilidade jovem. Metade dos trabalhadores com ordenado mínimo são jovens entre os 16 e os 24 anos e é o primeiro emprego de muitos deles. São milhares e milhares postos de trabalho que se extinguem e, visto que o exemplo vai ser seguido por outras cadeias, estamos a falar de números preocupantes.

E se pensarmos que estamos a falar de uma das maiores marcas do planeta, com lucros astronómicos e que nem eles estão dispostos a pagar um mísero ordenado mínimo, o que esperar das outras empresas?

A tecnologia faz muito por nós e facilita-nos a vida mas também está a estragá-la. Este é apenas um exemplo de que como a evolução tratou de rebaixar o trabalho humano, e veremos disto cada vez mais. Não admira que já pouco se deseje os bons dias, que haja cada vez menos empatia e simpatia. Passamos o dia colados a aparelhos electrónicos - olhamos para eles, falamos para eles, trabalhamos com eles, interagimos, damos ordens, registamos, confirmamos e com eles acordamos.

Deixamos de saber falar cara a cara com os outros, pedir e agradecer, olhar e sorrir, porque os pixeis e os 0 e 1's não nos exigem grande coisa. A vida está a aproximar-se daqueles cenários que vemos em filmes futuristas ou em séries do género Black Mirror, e é assustador. O mundo está a mudar e acho que não é para melhor.

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Este filme conta a história de Christine Chubbuck, a primeira pessoa a cometer suicídio em directo na televisão. Poderá ser um grande spoiler para muitos (peço desculpa), mas é um facto. Nos anos 70, ela era repórter num canal da Florida, nos Estados Unidos, e lutava contra a depressão.

Remetida várias vezes para reportagens de segundo plano e que fugiam ao objectivo que ela perseguia - que era ter um verdadeiro impacto social com as suas histórias - acabou por ficar obcecada quando surgiu uma vaga importante noutro canal. Depois de o chefe lhe apontar que as suas causas não geravam audiências, começou, por todos os meios, a procurar histórias mediáticas, mas que não geraram o sucesso esperado.

Christine perde a cabeça várias vezes e outras tantas se vai levantando e tendo novas ideias, tudo em nome do estatuto que julga que lhe pertence. Vai-se afastando dos seus colegas, gerando discussões e momentos embaraçosos que vão afectando também a relação com a sua mãe, com quem vive. Tudo culmina no momento em que ela não vislumbra outra solução para o sucesso, para as audiências ambicionadas e para o mediatismo desejado do que dar um tiro na própria cabeça, em directo. Tinha 29 anos.

Apesar da estranheza deste acto e de ser fácil fazer um filme também ele mediático acerca do mesmo, não foi esse o caminho escolhido - e ainda bem. Conhecemos Christine como ser humano, como alguém que tem por dentro algo muito negro e inexplicável, mas que é uma pessoa como tantas outras a trabalhar por um objectivo. Sentimos facilmente a empatia e é com calma que acompanhamos o desenrolar das suas desilusões. Não é um simples filme sensionalista e comercial que explora uma grande tragédia - longe disso. É subtil, tem detalhe e sofisticação, num excelente trabalho de realização de Antonio Campos.

Não há palavras suficientes para descrever o profissionalismo e o trabalho da actriz Rebecca Hall para se colocar no papel de Christine. É simplesmente divinal sem qualquer tipo de alarido, é uma coisa natural, mas complexa, que só é possível com uma preparação fora de série. Também já tinha saudades de ver Michael C. Hall (o eterno Dexter) no grande ecrã.

Um filme que passou fora dos grandes circuitos comerciais mas que foi nomeado e ganhou vários prémios em festivais de cinema mais low-profile. Recomendado.

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Esta mulher, que é uma política abaixo do razoável e que raramente dá uma para a caixa, deu um tiro no pé que não posso deixar passar ao lado. Para além de ser uma oportunista, de se contradizer, de ser alheada da realidade e snob, agora veio dizer que a tourada, para ela, é como um bailado.

Dito isto, só me apetece bailar na campa dela. Mas até lá tenho de analisar esta comparação de merda. Uma poia, bosta, cocó de comparação.

Ora bem. Um bailado é feito por pessoas. Por bailarinos, que passaram anos, mesmo décadas, dedicados a esta forma de arte, treinando todos os dias, passando por sacrifícios, em nome da arte. Dão o seu próprio sangue, suor e lágrimas, deixam tudo de si no palco. E não são só eles - os cenários fantásticos, o importante espectáculo de luzes, a música, o guarda-roupa, e tudo o mais - trata-se de pessoas a montar um espectáculo inesquecível para pessoas, para contar uma história através da leveza dos gestos, da beleza, da composição, do entrosamento.

Numa porcaria de uma tourada, o sangue e as lágrimas são apenas dos touros. Não há uma história a ser contada, não há ensaios diários, porque não é uma encenação. É um animal, com sentimentos, que sente medo, raiva, dor, frustração. É um ser vivo que está ali contra a sua vontade e cuja vida nunca irá terminar bem. E poderá ser ali, na arena, o local da sua morte. Pode ser em frente àquelas pessoas que pagaram para o ver desnorteado e que aplaudirão o seu sangue derramado. Soltarão olés perante a sua humilhação e baterão palmas para o ver dominado. E mesmo que o touro tenha a sorte de atingir o seu provocador de pouco lhe servirá, porque este é um jogo no qual vai perder sempre. Eles choram, as lágrimas escorrem-lhes, porque o destino deles está selado e traçado desde que nasceram.

Não, senhora Assunção, você não compare estas coisas. Porque no bailado ninguém se esvai em sangue, ninguém está ali contra a sua vontade, não se está ali por um motivo sádico e nada nobre. Não compare um espectáculo a uma tortura. Não compare arte à morte disfarçada de tradição. Não quero saber se de onde veio isto é normal - felizmente o que não era normal há 500 anos já não é, à excepção desta merda de chacina que nunca mais desaparece. Não ofenda a inteligência de possíveis votantes e da população em geral, você é uma figura pública e deve abster-se de vomitar obscenidades na comunicação social - para isso já basta o seu discurso normal. (Será que veste as calças de ganga para ir à tourada ou essas estão apenas guardadas para as visitas aos bairros sociais?)

Aqui.



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