Palavras do Abismo

O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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Mid90s é a primeira longa metragem dirigida por Jonah Hill - e que estreia! Conta a história de Stevie, um rapaz de 13 anos a crescer nos anos 90, e a sua saga para pertencer a algum lugar. É claro que a minha geração, que também era criança / adolescente nessa saudosa década, vai imediatamente criar laços com a película - só de olhar para as roupas, as cassetes, as bandas que o puto ouve, e até o facto de se brincar na rua, sem telemóveis e outras porcarias - ficamos emocionalmente colados.

Stevie está naquela idade parva em que já não é uma criança e está longe de ser um adulto. Tem um irmão mais velho que lhe dá umas sovas de vez em quando e não lhe vemos amigos no horizonte. Ele admira os skaters que vê na rua - rapazes mais velhos do que ele, que se vestem e agem de modo peculiar, à margem da lei, que estão sempre rodeados de outros rapazes e raparigas que os admiram. E, é claro, quer ser como eles. Até que arranja coragem para, um dia, se lhes juntar num spot onde aqueles costumam parar e, a pouco e pouco, vai impondo a sua presença, e ganhando o dia, quando eles se dignam a falar com ele ou a pedir-lhe qualquer coisa.

É enternecedor ver a alegria do miúdo quando consegue a atenção dos rapazes mais velhos; é assustador ver como irá contra a família, especialmente contra os ensinamentos da mãe, para agradar aos novos amigos; e, porque o filme é muito bem feito, acabamos a torcer por ele em todas as etapas em que o acompanhamos.

Tudo isto é contado numa narrativa que prima pela simplicidade e crueza. É a história de um miúdo de um bairro normal e todos conseguiremos encontrar um fio que nos une a ele - e um clique faz-se na nossa cabeça porque também passámos por coisas similares. Não há detalhes desnecessários nesta história, o fio condutor é perfeito, levando-nos a rir e a ficar de lágrima ao canto do olho.

A banda sonora é da autoria de Trent Reznor e Atticus Ross, o que é um selo de qualidade prévio. O casting é perfeito e por momentos nem parece que estamos a ver um filme, mas sim cenas da vida real. Poucos filmes me encheram as medidas como este. É um retrato honesto, refrescante, sentido, uma estreia surpreendente de Jonah Hill.

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Uma escola em Vigo está nas bocas do mundo por causa de uma disciplina de sucesso, destinada aos rapazes - trabalho doméstico.

Lá, eles põem o avental, e aprendem o básico de lidar com uma casa, que inclui, entre outras tarefas, limpar, lavar a roupa, aprender a cozinhar, passar a ferro, e até mesmo aprender algumas técnicas de costura.

Ora isto é uma disciplina realmente útil, que não só os prepara para poderem viver sozinhos ou em comunidade sem quaisquer problemas, como promove a igualdade de género. Porque estas coisas não são trabalho de mulher, são de todos. E, ao compreender isto, estes rapazes serão também homens melhores.

Só tenho uma crítica - isto devia ser também para meninas, porque ser gaja não garante talento e predisposição para estas coisas. Basta olhar para mim que, tirando gostar de cozinhar, preferia perder um dedo mindinho e nunca mais fazer nada do resto. Mas pelo menos sei fazer... há garotas que são umas verdadeiras atadas (e mimadas) que faleceriam caso tivessem de morar sozinhas e sem ajudas.

De qualquer maneira, é uma grande ideia, que irá certamente fazer muita gaja (e gajo) feliz.

Fonte: CM Jornal




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Eight Grade segue a vida de Kayla, uma adolescente de 13 anos que está a finalizar o oitavo ano. Ela vive sozinha com o pai e têm uma relação estranha - apesar de só se terem um ao outro, Kayla não confia totalmente nele para expressar o que sente, talvez porque nem ela mesma sabe interpretar muito bem. Como qualquer pessoa que se lembre de ter passado pela adolescência, Kayla carrega consigo os sentimentos típicos da altura e, como tal, é cheia de inseguranças, dúvidas, com uma vontade enorme de se integrar mas sem saber como. Olha com inveja para as raparigas da sua idade que já têm namorados, melhores amigas, que são requisitadas para as festas, que estão sempre bem arranjadas, têm grande estilo, cabelos bonitos, enquanto a sua vida é desprovida de tudo isto.

Com este background é difícil acreditar que Kayla tem um canal no Youtube onde, imagine-se, dá conselhos a outros da sua idade, sobre integração, ser fixe, parecer bem, ser confiante. É claro que o seu canal não é um grande sucesso - ou melhor, não é nenhum - mas não deixa de ser cómico ouvi-la dar conselhos sobre tudo o que a incomoda e depois vê-la fazer exactamente o contrário.

O Youtube é apenas uma das redes sociais abordadas e, tratando-se de um filme sobre uma adolescente, todas elas acabam por espreitar, relevando ainda mais a importância das mesmas na vida dos jovens de hoje. Não é uma novidade, mas para quem, como eu, cresceu apenas com o mIRC e o Messenger, não deixa de ser chocante como as vidas dos adolescentes são completamente tomadas de assalto por um número crescente e chocante de redes. E torna-se difícil, para uma jovem insegura, tímida, que tem dificuldade em encontrar valor em si, estar constantemente a ser bombardeada pela aparente alegria, beleza e vida social dos outros, não podendo deixar de se comparar e, como tal, ser uma fonte de desconforto. Ao mesmo tempo, os adultos, totalmente fora destes aquários, não sabem lidar com isto.

Trata-se de um filme honesto que não pretende pintar a adolescência nem de uma coisa terrível, nem de algo maravilhoso, mas simplesmente uma coisa que acontece e, como tal, tem um carácter quase documental. Apesar de não ser uma comédia pura (apesar de ser realizada por um comediante e ter muito de auto-biográfico), pois puxa ao melodramatismo, não conseguimos não rir em algumas situações, não por serem bizarras, mas por nos surpreenderem na sua simplicidade e honestidade acutilantes.

É um filme para todos os públicos e que acaba por surpreender por ser tão bom na sua falta de complexidade aparente.

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Ontem esperava pelo comboio enquanto lia o meu livrinho, até que fui parcialmente distraída por uma conversa que o miúdo ao meu lado, talvez com 17 ou 18 anos, estava a ter ao telemóvel:

"Puto... não me faças isso (...) Não vou ficar com o puto, mano. (...) Se eu ficar com o puto, vais ter de me pagar. (...) Tou a falar a sério, vais pagar e vai sair caro. Tu é que a violaste, tu é que tiveste a diversão, e eu é que me fodo?"

Pensei imediatamente que aquilo devia ser para o programa "E Se Fosse Consigo?" e que a minha reacção deveria estar a ser filmada. Das duas uma - ou vão passar a minha imagem a continuar a ler tranquilamente "O Homem nas Sombras", enquanto em casa vão assistir e abanar a cabeça com desapontamento perante a minha inactividade; ou anda por aí uma miúda prenha dorida cujo objecto do útero está a ser empurrado para lá e para cá. Eu - 1, Empatia - 0.


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É sabido que a raça humana é uma valente merda. Cuspimos à grande no prato onde comemos, temos um umbigo gigante (o mundo gira à volta dele), o individualismo permanece, o egoísmo enaltece os comportamentos cada vez mais erráticos de quem se está a cagar para outra coisa que não eles próprios. Apesar dos esforços de muitas pessoas, e até mesmo da comunicação social que tem divulgado muitas imagens, estudos, chamadas de atenção, ora para o excessivo uso do plástico, ora para o esgotamento dos recursos, ora para as espécies que morrem e que sofrem com o nosso lixo, tal não é suficiente para uma geração muito, muito rasca, que neste momento assola o país.


Este vídeo foi gravado por estes jovens que se dispuseram a limpar a porcaria que os outros fizeram na praia de Carcavelos, e fazem um apelo para que cada um cumpra a sua parte. Reuniram sacos e sacos de lixo, ao fim de um dia com aquele calor infernal que tivemos há duas semanas. Estas atitudes são louváveis, e quem de nós (civilizados) nunca andou com um saquinho a apanhar merda dos outros na praia? Tudo muito bem, só que esses canalhas vão achar que têm criados, que não têm de limpar porque há quem limpe, e mesmo se não houver, é para o lado que dormem melhor.

 

Mais fotos de exemplo de uma rapariga indignada com o lixo nessa mesma praia. Eu sei que há porcos de merda de todas as idades, de todos os estratos sociais, mas parece-me, de acordo com os relatos, com as fotos, vídeos, que os adolescentes de hoje são uns burros acéfalos e vaidosos que se importam mais com as selfies do que a morte do planeta, e que o nível de bateria do telemóvel é mais preocupante do que a extinção das espécies ou a escassez de recursos. Odeio generalizações, mas estes chamados adolescentes da pastilha deviam ficar sem um dedo por cada porcaria que deitam para o chão, até terem apenas um coto que nem lhes permitisse limpar o rabo. 


Um exemplo fulcral é o Sudoeste. Um festival da pastilha para miúdos da pastilha típicos que vão lá para tudo e mais alguma coisa menos pela música e para serem civilizados. Como moça alentejana, eu fui ao Sudoeste, claro, era o apogeu do verão. E posso garantir que isto não era assim. E eu tinha os cornos no ar nessa altura da vida em que tudo acontece, e mesmo assim, eu e os meus amigos tínhamos o mínimo de consciência, e nunca vi as coisas chegarem ao estado, nem nada que se pareça, com o que podemos ver. Nessa imagem, no topo, podem ver um print do recinto do Sudoeste este ano, e em baixo, uma fotografia do recinto do campismo do Vagos Metal Fest também este ano (tirada por uma pessoa conhecida). Os metaleiros é que são feios, porcos e maus, não é?

Não sei se o mal pode ser corrigido. É difícil endireitar quem se está a cagar, e vê-se que ninguém os meteu na linha quando deviam. É a geração que compra tudo feito, completamente sem valores, sem moral, sem hábitos que os ajudem a ser pessoas melhores. Não lêem, na televisão só vêem lixo dos degredos e afins, se vão ao cinema é para engatar e estar a falar, se vão para a praia é para fazer poluição sonora e física, se vão para os festivais é para beberem até cair, se vão à escola é para fazer merda e passar à rasca, enfim, não dão uma para a caixa, e o futuro é negro.
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