Palavras do Abismo

"Se era obrigado a dirigir-lhe a palavra, fazia-o com uma tal profusão de floreados hipócritas que ela sentia desejos de o estrangular. O homem tinha blandícias repugnantes"

in Crazy Cock, de Henry Miller (1991)


blan·dí·ci·a
(latim blanditia, -ae)
substantivo feminino
1. Gesto ou demonstração de um sentimento de ternura ou de afecto. = AFAGO, CARÍCIA, CARINHO, MIMO
2. Gesto ou esforço para agradar ou atrair alguém. = ILÉCEBRA
3. Doçura, meiguice.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Este excerto e esta explicação do significado de blandícias faz-me lembrar quando era pequena e odiava que me dessem beijinhos (ainda odeio, mas agora consigo calar-me ou recusar). Contam-me os meus pais que quando alguém me dava beijos, especialmente os velhos, eu fazia blhec ou algum outro som de repulsa e limpava a cara com a manga da camisola, ou mesmo com o meu próprio cuspe, esfregando muito bem. Já na altura, não gostava de blandícias e dei origem a alguns momentos de constrangimento que, felizmente, fez os meus pais perceberem que não me podiam obrigar ao contacto físico com outras pessoas, e respeitaram. Nojo. Mal sabiam eles que, décadas depois, este bicho do mato é que viria a ter razão por manter a distância social e pela desinfecção constante.



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Quem, em conversa, ou respondendo a perguntas demasiado pessoais, já disse que não queria ter filhos, já levou com uma destas observações (ou com várias, ou com todas):

- Quem é que vai cuidar de ti quando fores velha?
- Como é que vais dar sentido à vida se não fores mãe?
- Vais-te arrepender e depois é demasiado tarde!
- Tanta gente que quer e não pode ter e tu podes e não queres, que egoísmo!
- Mas ser mãe é a melhor coisa da vida!
- Não serás uma mulher completa até ter filhos.
- Não sabes o que estás a perder.
- Mas tens algum problema físico ou psicológico?
- Mas tu também já foste uma criança!
- Não sabes o que é o amor até teres filhos.



É uma merda que a sociedade tenha produzido ao longo dos séculos tanta gente carneira, que faz as coisas porque os outros fazem. Casam porque os seus pares, a Igreja, a família e os amigos acham que é o normal. Têm filhos porque é a ordem natural das coisas. Crescei e multiplicai-vos, carneiros, sem pensamento próprio, livre arbítrio, escolhas. Pois, a questão é que todos temos o direito de escolha, que quase nunca é aceite e respeitado quando foge dos termos gerais que assinámos, sem saber, quando alguém nos decidiu parir.




A liberdade pressupõe que eu possa fazer o que quero, desde que não prejudique o próximo nem viole alguma lei, mas as coisas não são bem assim quando dizemos em voz alta que não pretendemos parir. Parece que é uma ofensa aos próprios, como se não dar uso ao nosso útero fosse o mesmo que meter-lhes o dedo por dentro das calças e enfiá-lo no rabo. Estão tão formatados que fazem todos as mesmas perguntas e os mesmos comentários, o que deixa os childfree completamente esgotados e cansados.

Quando essas pessoas decidiram ser pais, eu não fui lá perguntar porquê, e se estão a pensar no planeta que está sobrelotado, e que a geração dos filhos vai provavelmente assistir ao fim dos recursos naturais, até mesmo da Terra, e se já ouviram falar do aquecimento global, embora me apetecesse. Mas não, calo-me, porque tenho de aceitar as decisões dos outros, e respeitar as suas vontades. Aliás, se cada um fizesse o que o faz feliz, sem julgamentos, a vida seria bem mais leve.

Estou farta de ser julgada por uma decisão que é só minha mas que parece afectar a vida das centenas de pessoas que se preocupam tanto com o meu sistema reprodutor. Sei que muitas mulheres e homens sofrem com este tipo de pressão, como tal deixar-lhes-ei aqui algumas respostas porque estou farta de gastar perdigotos.

O que é bom para ti pode não ser bom para mim
Se a melhor coisa da tua vida é ser mãe ou pai, parabéns! Encontraste o teu objectivo, a tua felicidade, a tua razão de viver. Mas tens de admitir que há mais formas de se ser feliz - a tua não é universal. Eu sou feliz quando viajo, quando vou a concertos, quando consigo ler um dia inteiro em silêncio, quando faço ioga no silêncio, quando me estendo no sofá em silêncio... já mencionei que adoro o silêncio? Ah, também gosto muito do sossego. 



Nem todos nasceram para ser pais
Ser mãe ou pai implica deixares de ser a pessoa mais importante da tua vida. Passas a ser responsável por uma pessoa - por alimentá-lo, vesti-lo, educá-lo, proporcionar-lhe cuidados de saúde - e isto é só o básico dos básicos. Acham que toda a gente está preparada para isso? Se assim fosse, não existiriam maus pais. E acho que basta ligar a televisão, abrir um jornal, ir à internet, para saber que há maus pais. E muitos. Ser-se pai só porque sim, mais dia menos dia, vai dar merda. Ainda para mais quando não se está disposto a abdicar de um grande pedaço de si próprio e do bem que temos de mais precioso - o tempo.



O corpo é meu
Muitos acusam as mulheres childfree de serem egoístas (nem percebo muito bem esse argumento), mas penso que (também) será por não querer estragar o corpinho, porque também já ouvi isso. E se fosse? Acham que quem não quer ser mãe para não estragar o corpo está preparada para ser mãe? Querem que essa pessoa traga mesmo alguém ao mundo? Da parte que me toca, este corpinho custou muitas horas no ginásio para que agora estragasse tudo... Sinto-me tão confiante na minha pele, tão orgulhosa da minha barriga lisa, do meu rabo duro como a pedra! Isto pode parecer conversa da treta, mas uma das coisas que a minha mãe me disse foi que nunca mais foi a mesma pessoa depois de me ter. Teve um parto difícil, ficou com a barriga completamente rasgada, ganhou 30 quilos que nunca perdeu, teve uma crise de confiança (que dura até hoje, mais de 30 anos depois), nunca mais foi à praia, aliás, nem usa camisolas de alças em público. Para juntar a tudo, roubei-lhe todo o cálcio durante a gravidez e perdeu quase todos os dentes - só tem quatro, o resto é placa. Quando ela fala no passado é com uma grande mágoa e, pessoas, a depressão pós-parto é real e afecta mesmo muitas mulheres - muitas delas nunca recuperam. E eu não me quero ver como a minha mãe se vê. Poderia acontecer-me, poderia não acontecer, mas o sentimento dela marcou-me ao crescer e a minha auto-confiança é das coisas que mais me orgulho...



Um gugu-dadá não compensa tudo
Quando pessoas que têm filhos, principalmente pequenos, e comentam que não leem livros há anos, e que já não conseguem ver séries, e que a televisão tem de estar sempre ligada no Canal Panda, e que já não viajam, e que passam muitas noites sem dormir, e que comem mal, que não têm tempo para fazer exercício, já não sabem o que é ouvir a música que querem aos altos berros em casa, já não sabem o que é ir a um concerto, já mal se lembram da última vez que jantaram com amigos sem hora para chegar, o único copito que bebem é a acompanhar o jantar, muito de vez em quando, que o sexo é mais raro e recatado, eu fico - WTF? "Ah, mas tudo é compensado... com um sorriso, com as primeiras palavras, com amor..." O caralho! Mais uma vez, se resulta para vocês, muito bem, mas imaginar a minha vida assim é morrer. É perder a minha identidade, aquilo que sou, o que me faz feliz. Não quero substituir 1000 amores por um maior, quero viver intensamente todas as minhas paixões. E a escolha é minha!



Não sou menos mulher que as parideiras
Com que então uma mulher define-se pelo uso que dá ao útero? Bullshit! Só pessoas muito limitadas e muito atrasadas podem dizer uma coisa destas. Uma mulher não é um depósito de esporra. Não é mamas e cona. É um ser humano complexo, com paixões, gostos e desgostos, que tira prazer da vida como quiser. Pode ser focada na carreira, na família, no lazer, no que lhe der na gana, e continuará a ser mulher. O que importa é que seja de boa índole, e não que consiga e queira reproduzir. Qualquer dia andaremos com autocolantes na roupa, como faziam com os judeus, a dizer "sou mulher e estou pronta para acasalar" ou "não te chegues perto que tenho defeito". Ah, vão atirar agora com a desculpa biológica? "Não sei quê, o sistema reprodutivo faz parte do corpo humano e é para ser usado". Pois, se calhar temos de dizer aos gordos que se têm perninhas é para correr, aos atrasados que se têm cérebro é para usar, e aos padres que se têm pila escusam de viver na abstinência. E já agora, biologicamente não fomos feitos para comer carne - pesquisem porque é que temos um intestino de 8 metros, como os macacos, e não de 1, como os leões e afins. Mas a biologia é uma desculpa só para o que convém, certo?



Não preciso de ninguém para me limpar o cu na velhice
O argumento "Quem vai cuidar de ti quando fores velha?" é o supra-sumo do egoísmo. Ora eu sou egoísta por não querer parir, mas quem o faz com medo da solidão é legítimo? Em primeiro lugar, ter filhos não é sinónimo de terem alguém que cuide de vocês, ou os lares não teriam uma lista de espera de anos, os velhos não seriam abandonados nos hospitais, etc e tal. Esperarem isso de um filho é uma lotaria. Em segundo lugar, a partir do momento em que precisar de alguém para me limpar o cu, mato-me. Não quero viver assim. Aliás, isso não será viver, mas vegetar. Não quero que os outros se submetam a isso. 



Eu sei o que é o amor
Abram a vossa mente e aceitem que o amor pode tomar várias formas. Há o amor que vem das relações familiares - com um parceiro ou parceira (ou vários), dos filhos, dos pais, dos irmãos. Há o amor que damos e recebemos dos nossos amigos, os nossos pares, que nos compreendem, apoiam, que estão sempre lá. O amor pelos nossos animais de estimação, também parte da família. O amor pela natureza, por estar em comunhão com o espaço que nos rodeia, as sensações que o vento, e os cheiros, e a luz do sol, e a água do mar, e os pés descalços na relva nos provocam. O amor pelas coisas que gostamos, por fazermos as coisas acontecerem numa carreira que amamos, por vermos um projecto manual ganhar vida, pelas leituras que nos deixam a chorar, pelo filme que nos marca a vida, pela música que nos faz sentir que estamos vivos. Sinto amor ao ajudar o próximo, sinto amor na gratidão, na partilha. Sinto amor ao visitar um sítio onde nunca tinha estado antes, ao sentir o peso da história dos locais envolver-me. "Mas é diferente". Não quero saber. Sou feliz com os meus amores. 



Há muitas pessoas arrependidas de terem sido pais
Este é um dos grandes tabus do mundo. Se uma mãe disser que se arrependeu, que não gosta de ser mãe, que não é o que esperava, ou que não gosta dos filhos, é imediatamente estigmatizada, criticada, posta de parte, atiravam-lhe pedras e queimavam-na, se pudessem. A sociedade não percebe como é que uma mãe pode não gostar de ser mãe. Mas trata-se de pessoas, não de robôs - mutáveis, voláteis, capazes do arrependimento, de reconhecer más decisões. Mas neste caso, sem poder verbalizá-las. É por isso que hoje em dia há várias mulheres (e homens também, mas estes não são tão criticados) que utilizam fóruns, blogs, grupos do Facebook, etc, onde, de forma anónima, desabafam sobre o peso, o ressentimento, a tristeza que carregam. E, atenção, provavelmente serão melhores pais que muitos porque continuam a ser pessoas responsáveis - apenas não são felizes e se pudessem voltar atrás no tempo, voltariam.



Nem todos gostam de crianças e há putos realmente estúpidos
Não tenho qualquer instinto maternal ou relógio biológico. Há mulheres que sonham desde pequenas em casar e ser mães, eu sonho desde adolescente em ser rica para poder contratar os Metallica para tocar na minha casa ou poder viajar sem bilhete de volta comprado. Há quem comece a bordar babetes e cenas de enxoval, eu bordo pénis e gatinhos. Há quem se pele pelo cheiro de um bebé, e eu perco-me pelo cheiro de crepes e pizzas. Até prefiro o cheiro a peixe da boca dos meus gatos. É raro ir a um supermercado, a um restaurante, a uma feira do livro, ao centro comercial, a um parque, a um café, à praia, onde quer que esses diabos sejam permitidos, sem haver um puto horrível a gritar, a fazer birra, a espernear que quer um brinquedo, que não quer comer, ou que tem fome, ou que o outro lhe puxou o cabelo, ou porque sim. E eu só quero silêncio. Silêncio. Calem-se, caralho. Voltem prá cona das vossas mães. 



Em resumo, vivem e deixem viver, sem julgamentos. Ninguém é ninguém para dizer aos outros como viver a vida. Não há formas e certas e erradas de se ser feliz - a certa é a que vos fizer sorrir e que vos preencher. Não se metam na vida dos outros. Estas perguntas são íntimas e poderão estar a magoar alguém ao fazê-las: alguém que não possa ter filhos, casais incompatíveis, ou simplesmente pessoas cansadas de levar tantas e tantas vezes com os mesmos comentários ignorantes sobre a sua forma de viver. 

Para apanhar cocó e me acordar durante a noite já basta o gordo do meu gato. 










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O que se passou hoje é emocionante. Milhares de estudantes em Portugal, muitos mais por toda a Europa, responderam ao apelo feito por Greta Thunberg, nomeada para o Nobel da Paz que, com apenas 16 anos, convenceu uma geração inteira, e mais, a sair à rua pelo clima.

O que vi hoje nos telejornais foram miúdos informados, preocupados com o seu futuro, o futuro da Terra, com os animais, com a poluição desmedida, as espécies que levámos à extinção, os recursos que não chegam, o aquecimento global, o uso desenfreado de plástico, o aumento do nível dos oceanos, as manifestações da natureza. Eles deram uma lição - tanto pela organização desta demonstração de força, como pela compreensão do que se passa, e mais do que tudo, pela empatia.

Mostraram eloquência, sabiam os dados, os estudos, percebem a consequência do que fizemos e do que continuamos a fazer; sabem que o planeta é só um, é a nossa casa, a única casa, e lutaram não só por eles, mas por nós e por todos os que hão-de vir.

Deram uma chapada de luva branca aos adultos egoístas que só pensam no seu próprio conforto e que não são capazes de dar um passo por nada nem ninguém. Sugeriram soluções, pediram a atenção dos populares, dos governos, contagiaram com os seus cartazes e gritos de guerra, chamando a atenção para um problema que é de todos, embora muitos escolham ignorar.

Uma réstia de esperança mora agora em mim, talvez nem tudo esteja perdido. Foi emotivo assistir a isto e sinto muito orgulho. Boa, miúdos.

Foto: António Pedro Santos/lusa
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Mid90s é a primeira longa metragem dirigida por Jonah Hill - e que estreia! Conta a história de Stevie, um rapaz de 13 anos a crescer nos anos 90, e a sua saga para pertencer a algum lugar. É claro que a minha geração, que também era criança / adolescente nessa saudosa década, vai imediatamente criar laços com a película - só de olhar para as roupas, as cassetes, as bandas que o puto ouve, e até o facto de se brincar na rua, sem telemóveis e outras porcarias - ficamos emocionalmente colados.

Stevie está naquela idade parva em que já não é uma criança e está longe de ser um adulto. Tem um irmão mais velho que lhe dá umas sovas de vez em quando e não lhe vemos amigos no horizonte. Ele admira os skaters que vê na rua - rapazes mais velhos do que ele, que se vestem e agem de modo peculiar, à margem da lei, que estão sempre rodeados de outros rapazes e raparigas que os admiram. E, é claro, quer ser como eles. Até que arranja coragem para, um dia, se lhes juntar num spot onde aqueles costumam parar e, a pouco e pouco, vai impondo a sua presença, e ganhando o dia, quando eles se dignam a falar com ele ou a pedir-lhe qualquer coisa.

É enternecedor ver a alegria do miúdo quando consegue a atenção dos rapazes mais velhos; é assustador ver como irá contra a família, especialmente contra os ensinamentos da mãe, para agradar aos novos amigos; e, porque o filme é muito bem feito, acabamos a torcer por ele em todas as etapas em que o acompanhamos.

Tudo isto é contado numa narrativa que prima pela simplicidade e crueza. É a história de um miúdo de um bairro normal e todos conseguiremos encontrar um fio que nos une a ele - e um clique faz-se na nossa cabeça porque também passámos por coisas similares. Não há detalhes desnecessários nesta história, o fio condutor é perfeito, levando-nos a rir e a ficar de lágrima ao canto do olho.

A banda sonora é da autoria de Trent Reznor e Atticus Ross, o que é um selo de qualidade prévio. O casting é perfeito e por momentos nem parece que estamos a ver um filme, mas sim cenas da vida real. Poucos filmes me encheram as medidas como este. É um retrato honesto, refrescante, sentido, uma estreia surpreendente de Jonah Hill.

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Uma escola em Vigo está nas bocas do mundo por causa de uma disciplina de sucesso, destinada aos rapazes - trabalho doméstico.

Lá, eles põem o avental, e aprendem o básico de lidar com uma casa, que inclui, entre outras tarefas, limpar, lavar a roupa, aprender a cozinhar, passar a ferro, e até mesmo aprender algumas técnicas de costura.

Ora isto é uma disciplina realmente útil, que não só os prepara para poderem viver sozinhos ou em comunidade sem quaisquer problemas, como promove a igualdade de género. Porque estas coisas não são trabalho de mulher, são de todos. E, ao compreender isto, estes rapazes serão também homens melhores.

Só tenho uma crítica - isto devia ser também para meninas, porque ser gaja não garante talento e predisposição para estas coisas. Basta olhar para mim que, tirando gostar de cozinhar, preferia perder um dedo mindinho e nunca mais fazer nada do resto. Mas pelo menos sei fazer... há garotas que são umas verdadeiras atadas (e mimadas) que faleceriam caso tivessem de morar sozinhas e sem ajudas.

De qualquer maneira, é uma grande ideia, que irá certamente fazer muita gaja (e gajo) feliz.

Fonte: CM Jornal




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Eight Grade segue a vida de Kayla, uma adolescente de 13 anos que está a finalizar o oitavo ano. Ela vive sozinha com o pai e têm uma relação estranha - apesar de só se terem um ao outro, Kayla não confia totalmente nele para expressar o que sente, talvez porque nem ela mesma sabe interpretar muito bem. Como qualquer pessoa que se lembre de ter passado pela adolescência, Kayla carrega consigo os sentimentos típicos da altura e, como tal, é cheia de inseguranças, dúvidas, com uma vontade enorme de se integrar mas sem saber como. Olha com inveja para as raparigas da sua idade que já têm namorados, melhores amigas, que são requisitadas para as festas, que estão sempre bem arranjadas, têm grande estilo, cabelos bonitos, enquanto a sua vida é desprovida de tudo isto.

Com este background é difícil acreditar que Kayla tem um canal no Youtube onde, imagine-se, dá conselhos a outros da sua idade, sobre integração, ser fixe, parecer bem, ser confiante. É claro que o seu canal não é um grande sucesso - ou melhor, não é nenhum - mas não deixa de ser cómico ouvi-la dar conselhos sobre tudo o que a incomoda e depois vê-la fazer exactamente o contrário.

O Youtube é apenas uma das redes sociais abordadas e, tratando-se de um filme sobre uma adolescente, todas elas acabam por espreitar, relevando ainda mais a importância das mesmas na vida dos jovens de hoje. Não é uma novidade, mas para quem, como eu, cresceu apenas com o mIRC e o Messenger, não deixa de ser chocante como as vidas dos adolescentes são completamente tomadas de assalto por um número crescente e chocante de redes. E torna-se difícil, para uma jovem insegura, tímida, que tem dificuldade em encontrar valor em si, estar constantemente a ser bombardeada pela aparente alegria, beleza e vida social dos outros, não podendo deixar de se comparar e, como tal, ser uma fonte de desconforto. Ao mesmo tempo, os adultos, totalmente fora destes aquários, não sabem lidar com isto.

Trata-se de um filme honesto que não pretende pintar a adolescência nem de uma coisa terrível, nem de algo maravilhoso, mas simplesmente uma coisa que acontece e, como tal, tem um carácter quase documental. Apesar de não ser uma comédia pura (apesar de ser realizada por um comediante e ter muito de auto-biográfico), pois puxa ao melodramatismo, não conseguimos não rir em algumas situações, não por serem bizarras, mas por nos surpreenderem na sua simplicidade e honestidade acutilantes.

É um filme para todos os públicos e que acaba por surpreender por ser tão bom na sua falta de complexidade aparente.

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