Palavras do Abismo

9 minutos. Foi o tempo que o afro-americano George Floyd esteve com a cara empurrada contra o asfalto. 9 minutos a suplicar, a pedir água, a dizer que não conseguia respirar. 9 minutos que representam aquilo que o mundo ainda é: o homem branco a subjugar o negro. Em 9 minutos, morreu. 

Ouve-se o eco do típico comentário racista: "aaahh, mas alguma coisa ele teve de fazer". Queridos, não era nenhuma questão de vida ou de morte. Ele não tinha reféns, não ameaçou ninguém, não tinha nenhuma arma, não representou perigo. Foi acusado de burla quando estava a fazer um pagamento. 

Era advogado, tinha 46 anos, e soube-se imediatamente que estava inocente. Dizem que ele resistiu à detenção, as testemunhas dizem que não. Quem o matou anda à solta enquanto decorre um inquérito, que como sempre não dará em nada.

Não me fodam, o racismo existe, a desigualdade existe, e na América se não fores um homem branco heterosexual (de preferência com porte de arma) corres o risco de levar uma sova, de não teres oportunidades na vida ou, simplesmente, de morrer na via pública. E é claro que isto não é só na América. 

Não, não vai ficar tudo bem, porque nunca esteve. Desculpa George, as pessoas são uma bosta.




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Tony "Lip" Vallelonga é um americano de ascendência italina, chefe de família, que trabalha como segurança num clube nocturno. Quando este fecha portas para renovações, Tony procura trabalho. A oferta mais promissora surge de onde menos espera - uma vaga para ser motorista de um pianista de renome, Don Shirley, que por acaso era negro.

O facto de ser um homem duro com jeito para usar os punhos foi determinante para ser escolhido, e o motivo começa a ser óbvio cedo no filme - Don Shirley é frequentemente vítima de ataques racistas nesta América dos anos 60. Tony, que é um homem também ele alimentado por alguns preconceitos, começa por torcer o nariz por ter de servir um homem negro e com manias de estrela, mas, em última análise, precisa de alimentar a família e tenta encarar aquele trabalho como outro qualquer.

Portanto, temos um homem do povo, branco, algo preconceituoso, a conduzir um pianista negro, com maneiras nobres e muitas manias e requisitos, pelas estradas americanas - e isto, por si só, é um óptimo começo para um filme que, ainda por cima, é baseado em factos reais. Todos sabemos que, quando a realidade ultrapassa a ficção, ainda ficamos mais intrigados, e embrenhamo-nos mais na história.

É um par estranho que vai vivendo algumas aventuras e dissabores nos locais por onde passa e, apesar de se ter passado há décadas, a história faz ecoar em nós resquícios de um tempo que não ficou assim tanto para trás. O racismo ainda é, infelizmente, assunto do dia, e enquanto houver ódio e intolerância no coração humano, não irá acabar. Ou seja, nunca acabará. São as situações mais extremas que nos abalam e que nos fazem questionar como é que tal foi possível, e como é que ainda é possível, e porque é que julgamos os outros pela aparência, como se a cor da pele ou o local onde nascemos determinassem tudo o que podemos ser.

O par de actores é espectacular e foram feitos para estes papéis. Tanto Viggo Mortensen como Mahershala Ali estão perfeitos (este último um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário), revelando um entrosamento e um trabalho extraordinário para entrar na pele daqueles homens que o destino juntou para lhes mudar a vida. As diferenças entre os dois homens, as suas origens, estrato social, tudo está patente nas linguagens corporais, nos modos e gestos, nas maneiras de falar ou na linguagem a si.

O filme tem muita elegância em todos os seus atributos, como a realização, o visual ou a banda sonora tocante. Agora que já vi quase todos os filmes que foram nomeados aos Oscares, posso dizer que era o meu terceiro favorito à corrida (depois de The Favourite e Roma, dos quais falaremos um dia), mas consigo aceitar completamente a decisão de ter ganho o prémio. Pode ter sido uma vitória política, mas pouco importa. É um grande filme, trabalhado por grandes profissionais, com todos os ingredientes para agradar a um público alargado e muito bem executado, que toca algo no mais profundo de nós.

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Estamos no ano 2018 mas ainda há poucos dias um conhecido hospital mudou as políticas de apresentação dos seus funcionários que, para além de outras coisas, não podem mostrar muita pele, e muito menos piercings e tatuagens. Estas ideias só contribuem para o pensamento errático de que aquilo que fazemos, o nosso empenho e profissionalismo, são determinados não pelo desempenho, simpatia e dedicação, mas sim pelo aspecto.

Ter uma boa imagem para atender ao público, a meu ver, não depende dos acessórios ou dos rabiscos na pele. O primeiro "acessório" obrigatório devia ser o sorriso na cara, coisa rara que devia ser inerente mas que falha redondamente. E não nos esqueçamos que as pessoas que nos roubam constantemente, as mais corruptas, mesquinhas e que se estão a cagar para nós, estão muito bem apresentáveis nos seus fatos impecáveis.

Por isso, quando vi este anúncio de emprego fiquei contente. Não é um negócio "da moda", como as novas barbearias ou uma loja alternativa - é uma peixaria, um negócio tipicamente tradicional. É mostrado o braço de um homem tatuado, que está a trabalhar. E é com naturalidade e sem dizer nada que a Sea Me diz muito. Parabéns!


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Marina Vidal é uma mulher transexual que encontrou o amor junto de Orlando, um homem com o dobro da sua idade. Os vivem uma relação dedicada e tranquila até que Orlando sofre um aneurisma e morre repentinamente. A partir daí, o cenário começa a ficar negro para Marina.

A família dele, especialmente a ex-mulher e o filho, que nunca aceitaram a opção do pai, vão tentar certificar-se que Marina sai o mais rapidamente da vida deles, devolvendo tudo o que os dois tinham - incluindo a cadela, a casa onde os dois moravam, o carro, tratando-a como se não fosse ninguém. Também querem impedi-la de ir ao funeral dele e despedir-se convenientemente do homem que amou - não só por ter sido a pessoa por quem Orlando se apaixonou, mas sobretudo por ter nascido homem, pela vergonha que a sua presença implica.

Marina vai ter de ser uma mulher fantástica, superior, forte, e é-o, que é o que se espera de uma mulher que para estar ali teve se superar, todos os dias, vezes sem conta, elevando-se acima dos outros, lutando pelo seu sonho e identidade contra todas as adversidades.

Este é mais do que um filme sobre Marina Vidal - mostra a guerra travada por aqueles que só querem parecer por fora aquilo que sentem por dentro. Ninguém passa por esse processo pacificamente, é fisicamente e emocionalmente complicado e esgotante. Mas como isso não parece bastar, a sociedade dificulta-lhes a vida ao limite, porque a nossa intolerância à mudança e à diferença é infinita. Mesmo que nós não tenhamos nada a ver com o assunto. Mesmo que a vida seja deles, o resto do mundo faz questão de ter uma palavra a dizer - e nunca é abonatória.

A actriz que interpreta Marina é Daniela Vega, transexual. Como tal, devem imaginar que o papel lhe assentou que nem uma luva - para além do talento imenso, é-lhe natural expressar as frustrações da Marina e é em boa parte culpada pelo sucesso da película.

Este filme chileno ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ainda não vi os outros mas parece-me um prémio adequado. Grandes interpretações, argumento, uma fotografia brilhante e uma banda sonora tocante, assim como a temática polémica que mete os sentimentos à flor da pele.

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Os justiceiros do Facebook e afins são uns verdadeiros guerreiros no que toca a criticar e a mandar abaixo. A mais recente polémica é relativa à campanha da Zara, com a premissa "Love Your Curves", em que na imagem aparecem duas modelos magrinhas.

Saltaram logo cá para fora as malucas defensoras da humanidade, comparando-as com paus, louva-a-deus, lápis, perguntando "quais curvas?". Ora, cá na minha modesta opinião, a campanha incentiva a que se goste das próprias curvas, sejam elas poucochinhas ou gorduchas. É claro que não se pode colocar imagens de todo o tipo de mulheres e de corpos, por isso as miúdas vão ter de ser representativas. Mas esse conceito é difícil de perceber, porque faça-se o que se fizer, há sempre alguém que se vai sentir excluído e magoado.

Como gaja que não consegue passar dos 50 quilos mesmo comendo pizza e brigadeiro todos os dias, a magoada sou eu. Vou todos os dias ao ginásio para ver se incho e apesar de ser magra tomo muito bem conta das minhas curvas. E prefiro ser assim, leve, ágil, activa, com destreza e força, do que ser como o boneco da Michelin e rebolar em curvas acentuadas. Estão sempre preocupados com os sentimentos das gordas, mas cada um sabe das suas curvas, pá!!


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Hoje houve zumzum nas redes socias devido a uma crónica de um tal Pedro Afonso que se auto-intitula de "Médico Psiquiatra". Se não sabem do que estou a falar, podem ver aqui. E o que diz este senhor? Basicamente, que não vale a pena estar a repudiar actos de maus tratos contra animais, quando nos devemos preocupar é com as práticas sadomasoquistas em tendência crescente desde o fenómeno das Cinquenta Sombras de Grey. Que as ondas que se elevaram contra o jovem que mandou o cão da ponte abaixo, por exemplo, são despropositadas porque há gente que gosta de levar tau-tau.

Caro Pedro Afonso, algumas coisas que pelos vistos ninguém lhe ensinou nesse curso de psiquiatria:

Sadomasoquismo não é violência
É sim uma práctica entre duas ou mais pessoas completamente consentida. Fazem dela parte actos submissos e porventura existe dor e sofrimento, mas é porque os envolvidos assim o querem. É uma fantasia sexual como qualquer outra. Há pessoas que desejam sexo em público, em grupo, que trocam de parceiros, e há outras que gostam de levar ou dar tau-tau. É consentido, estão em acordo, qual é o seu problema? Não sobrou nenhum chicote para si? Acontecem acidentes? Claro. Também já morreram pessoas com corta-unhas e não é por isso que vamos bani-los do mundo. Assim como já morreram centenas de pessoas durante um acto sexual dito "normal", e o que vai fazer, transformar o povo em eunucos?

Não compare alhos com bogalhos
Devo ser muito burra para não compreender a relação entre os problemas que refere. Quer dizer que se eu gostar de levar umas lambadas na fronha durante o sexo não posso denunciar ou queixar-me às autoridades de maus tratos a animais? O que é que as minhas preferências sexuais têm que ver com o que quer que seja? Não tenho o direito de enfrentar quem promove a violência animal porque o mundo está cheio de gente que gosta que lhes apertem o pescoço quando se estão quase a vir? Poupe-me! É a mesma coisa que dizer que hoje não faço almoço porque a televisão está ligada. Sem sentido!

Não é violência doméstica que quer repudiar?
Talvez o senhor se tenha confundido, e ainda vai a tempo de se corrigir. Não trocou o sadomasoquismo com a violência doméstica? Eu espero que sim! Porque um é uma práctica sexual desejada e fantasiosa entre dois adultos e que você nem ninguém têm algo a ver com isso, e outra é realmente um grave problema da sociedade, especialmente para muitas mulheres que sofrem em silêncio. Mas olhe... mesmo assim, podemos e devemos levantar-nos contra esse flagelo ao mesmo tempo que defendemos os animais. Sim, é possível apoiar mais do que uma causa ao mesmo tempo! Surpreendido?

Nem comento o resto das suas declarações. Não vale a pena. Você parece-me uma pessoa de mente fechada que usa um galardão ao peito para justificar o que não consegue compreender ou aceitar, cheio de falsa moral. E na minha terra isso é ser-se bronco.


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