Palavras do Abismo


Ricky Gervais é uma das pessoas que mais admiro no mundo - para além daquela mente genial de onde saem grandes ideias, do elevado sentido de humor (negro), ele é um ser humano notável, um activista vegan que não se cansa de apontar o dedo a quem maltrata e abandona animais, que cria e promove acções para a sua defesa, levanta a voz contra as touradas e outras atrocidades; já para não falar das fortes críticas que não tem vergonha de tecer ao poder político.

Assim, quando a série After Life estreou, escrita e dirigida por ele, mergulhei de cabeça nos seus 6 curtos episódios. Estava à espera que fosse boa, mas não tão boa. Não é possível que tenha sido tão boa.

Em After Life, a esposa de Tony (Ricky) morreu de cancro. E ele, que outrora foi uma pessoa normal, torna-se praticamente insuportável para o resto do mundo, e até para ele próprio. Gozar a vida deixou de fazer sentido; levantar-se e realizar as tarefas normais parece despropositado; seguir em frente com a rotina parece obsceno; tudo porque metade dele morreu, e agora ele quer morrer também.

A depressão tornou-o num ser sem empatia - se ele não se consegue respeitar a si próprio, como é que iria ter em conta os sentimentos dos outros? Assim, deixou de ter filtro. Diz exactamente o que sente, extrapola toda a raiva que tem para cima dos outros, o que para nós, espectadores é, ao mesmo tempo, divertidíssimo e muito triste.

A série tem uma humanidade assustadora, e sentir, ver e ouvir alguém que passa por um período tão negro, faz-nos compreender um pouco a depressão. O impacto na sua vida é notório - a casa desleixada, as roupas por lavar; assim como o impacto nos outros - a família não sabe como lidar com ele, os colegas não sabem com lhe responder aos constantes comentários insultuosos e as pessoas que vão surgindo na sua vida não conseguem descodificar se ele está a sofrer ou é apenas um grande idiota.

É a cadela que o liga à realidade - é por ela que se levanta, que se esforça por ir ao supermercado, que opta por ocasionalmente sair de casa; é com ela que desabafa, e é ela a sua maior ligação com a falecida esposa. É uma relação terna que emociona e na qual muitos de nós nos podemos rever. Também o liga à realidade um vídeo que a sua mulher deixou, onde lhe dá poderosas indicações sobre como, basicamente, viver. Como se ela soubesse exactamente onde ele iria ter dificuldades, como se iria abaixo - como se fossem excertos de aprendizagem que o ajudam a reaprender a apreciar a vida.

After Life tem a capacidade de pôr em imagens, palavras e sons aquilo que não se consegue dizer. Acima de tudo, tem uma honesta brutalidade que choca e emociona ao mesmo tempo. Consegue ser triste, e conter em si esperança, raiva, beleza, humor negro - dá para rir e chorar no mesmo minuto. É genial, fresca, uma obra do caraças que marca um pico de Ricky Gervais. É absolutamente imperdível e está disponível na Netflix.

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Nada do que possam ter visto do Ben Stiller vos vai preparar para a excelência que é a série Escape at Dannemora. É dos melhores trabalhos de realização que alguma vez vi. Foi uma supresa dos diabos, não estava prepararada para isto. Mas já lá vamos.

A minisérie é baseada numa fuga real que aconteceu em 2015 numa prisão americana - um evento tão mirabolante e surreal que por si só ultrapassa a ficção. Os prisioneiros Richard Matt (Benicio del Toro) e David Sweat (Paul Dano) trabalharam durante meses, arquitectaram o plano perfeito para escapar e, depois de o fazerem, ainda estiveram a monte imenso tempo nas densas florestas que separam a prisão do Canadá. Para conseguirem escapar, contaram com a ajuda de Tilly (Patricia Arquette), uma funcionária da prisão que se envolveu emocional e fisicamente com ambos os condenados.

O plano arquitectado por Matt já é por si só uma obra de arte, mas conhecer todos os trâmites do mesmo, ver as suas ideias a ganhar luz, a sua personalidade calculista a surgir, assistir à forma como manipula as situações e pessoas à sua volta (especialmente Tilly) é algo muito especial e interpretado de forma perfeita por Benicio del Toro. É um papel feito à sua medida e não imagino mais ninguém a fazê-lo. Paul Dano, que pouco conhecia, surpreendeu-me deveras, como Sweat, o braço direito de Matt, o homem que representa o trabalho e a força, em oposição à parte cerebral do seu parceiro. Já agora, não posso deixar de mencionar a parte inicial do episódio 5, protagonizada exactamente por Paul Dano - deve ser o melhor long shot que alguma vez vi, é um hino absoluto à televisão, até ao cinema, e só me apetece fazer vénias ao Ben Stiller. Se virem, vão facilmente saber do que falo.

Deixei a Patricia Arquette para o fim porque não tenho muitas palavras para descrever a perfeição com que desempenhou este papel. Transformou-se fisicamente e entrou na pele desta mulher de corpo e alma. Tilly é uma mulher simples mas ambígua, que tem noção do que faz mas sem ver maldade por aí além, que representa também a vontade de escapar - da sua vida linear e sem aventura. O marido, interpretado por Eric Lange, também merece uma menção honrosa e é mais um caso extraordinário de adaptação física e emocional ao homem, Lyle Mitchell.

Houve um esforço enorme para aproximar a série à realidade, não só no trabalho extraordinário dos actores, mas também também nos locais - tanto a prisão, como a vila, os arredores, tudo o que vemos é real. Isto torna-se um aspecto muito importante que torna a narrativa ainda mais imersiva. A juntar à realização, à fotografia, à banda sonora, torna esta série uma das melhores do ano.

Esta é daquelas que, se tiverem oportunidade, é obrigatória. Está a passar no TVSéries. Foi nomeada nos Globos de Ouro para Melhor Minisérie e a Patricia arrecadou o de Melhor Atriz - super merecido. Antevejo que faça também muito sucesso nos Emmy.

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 Nesta sátira política, Sacha Baron Cohen, tal como tão bem ele sabe, entra na pele de vários personagens, para nos dar um vislumbre de como são os americanos. Irreconhecível na maioria das peles em que entra, ele entrevista e promove eventos junto de algumas personalidades políticas, celebridades, mas também do americano comum.

O melhor desta série é que é assustadora. É assustador saber que existem pessoas assim. Custa a crer que a realidade é esta. Que em pleno século XXI exista tanto preconceito, tanta mente fechada, e não só, ignorantes, burros que nem uma porta.

O meu personagem favorito é o coronel Erran Morad, um agente militar israelita islamofóbico e com métodos pouco ortodoxos para combater o Estado Islâmico. Ele é um homem duro, másculo, machista, intolerante. Dando um exemplo que me vai ficar para sempre na memória, ele convenceu um americano de que era possível combater os islâmicos homem-a-homem porque eles têm medo de ficar gays, e uma grande arma contra eles é baixar as calças e esfregar-lhes o rabo nu, ameaçando-os de mariquice. Sim, isto é real. Sim, isto aconteceu, e sim, vemos esse homem a simular um ataque com o seu rabo despido. Podem ver no clip em baixo. Esse gajo, um célebre advogado, ganhou vergonha na cara e apresentou a demissão. E é apenas uma das "vítimas" da série.

Outro personagem que gosto muito é o Billy Wayne Ruddick, apoiante de Trump e que não olha à lógica para defender o melhor presidente de todos os tempos. Mas não há nada como assistir, porque cada episódio é um choque. Sem exagero, disse "foda-se" pelo menos 10 vezes em cada um deles, e passei-os de boca aberta. Não consigo também deixar de pensar na genialidade deste homem. Sasha é um dos melhores. Se puderem, vejam - está a passar no canal TVSéries.

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Na série Bodyguard, disponível na Netflix, Richard Madden (Game of Thrones) interpreta David Budd, um herói de guerra veterano que agora trabalha numa unidade que tem como missão proteger membros do governo. Depois de um episódio em que se evidenciou ao salvar inúmeras vidas numa tentativa de ataque terrorista, foi destacado para proteger e acompanhar a Secretária de Estado, Julia Montague.

Foi uma relação algo turbulenta ao início, visto que Montague, bastante conservadora, defendia valores e medidas que iam totalmente contra os princípios de Budd, principalmente no que toca ao envio de tropas em situações militares. O especialista em protecção e segurança, sendo um profissional acima de tudo, manteve uma abertura na relação entre os dois e os três primeiros episódios mostram uma viragem surpreendente na maneira como os dois, que têm de trabalhar muitíssimo de perto, se relacionam.

Mais do que o tema relacional entre Budd e Julia, vamos assistindo ao crescente suspense, a um puzzle político que vai aos poucos sendo montado, e à consagração de um dos melhores argumentos do mundo televisivo deste ano, que acaba por nos prender a respiração no fim de cada acto e, basicamente, não conseguimos parar de ver, até porque existem inúmeras situações inesperadas e surpreendentes, o que não é assim tão banal dentro do género. Os momentos de tensão estão absurdamente bem feitos, deixando-nos paralisados, embasbacados e babados em frente à televisão.

O casting é soberano mas, claro, o destaque é todo para Richard Madden que, por ser figura central, leva o peso todos aos ombros. Safa-se lindamente, interpretando um homem duro, no entanto perturbado, que é também pai e é, e quer continuar a ser, um dos profissionais de topo na segurança nacional e por isso, é também impenetrável e inabalável (pelo menos à primeira vista).

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Eu adoro o Stephen King. Amo-o de paixão. Quando soube que ia ser lançada uma série baseada no universo das suas histórias, fiquei toda eu com borboletas na barriga. O facto de ter Stephen King e J. J. Abrams como produtores executivos aguçou-me ainda mais o apetite. A ideia da série era um argumento totalmente novo, mas tendo vários elementos dos escritos de King.

Comecei a ver, e foi para mim um delírio começar a identificar os elementos ligados a Stephen King aqui e ali - um dos locais da acção é a prisão de Shawshank (The Shawshank Redemption); uma das actrizes, Sissy Spacek, foi a Carrie no filme original; no genérico aparece referência ao Misery; um dos protagonistas é Bill Skarsgård, que foi o palhaço do It na versão do ano passado; há uma personagem - Jackie Torrance -, sobrinha de Jack Torrance (The Shining). E mais não digo, porque fazer estas descobertas foi o maior prazer que tive ao ver a série e acredito que outros fãs irão sentir o mesmo.

Em Castle Rock, um homem aparece misteriosamente numa zona vazia da prisão de Shawshank - não há qualquer registo dele, não é um prisioneiro e ninguém o conhece na comunidade. Ele não profere uma palavra e torna-se impossível identificá-lo, ao mesmo tempo que os responsáveis da prisão lutam para que este súbito aparecimento não seja mencionado nos media. Depois de alguns dias, finalmente o estranho profere algumas palavras - um nome, na verdade - Henry Deaver, um advogado que outrora viveu na cidade.

Chamado à prisão de emergência, Henry depara-se com um cenário surreal - vai representar um desconhecido que não falou nada para além do seu nome, numa cidade com um grande historial de desaparecimentos, assassíninos, desastres, eventos misteriosos sem explicação, e de onde saiu para fugir ao seu passado envolto em mistério. E, à volta do desconhecido que já é considerado o próprio diabo, a história vai-se desenrolando.

Devo dizer que adorei os primeiros episódios - parecia algo realmente diferente, uma história medonha, onde os elementos do Stephen King se misturavam perfeitamente. Com uma boa fotografia, óptimos actores, uma aura negra, tinha tudo para ser uma série que iria adorar. Mas, para mim, tudo descambou a partir, mais ou menos, do 6º episódio. Uma história que estava a ser linear, apesar de estranha, por vezes, tornou-se uma confusão quando começou a misturar o espaço temporal e colocou o espectador numa rambóia de emoções. Pensava que estava a perceber tudo o que estava a acontecer, e afinal não. E fiquei assim até ao fim, na dúvida, obrigando-me a ir pesquisar sobre o que tinha visto, sem compreender.

Tornou-se, enfim, demasiado rebuscada, e culpo o J. J. Abrams por isso. Parece coisa dele, tal como acabou por fazer com o Lost. A temporada terminou com um apontamento que revela qual será o cenário da próxima temporada e fiquei entusiasmada com a ideia visto tratar-se da minha obra favorita do Stephen King. No entanto, não sei se irá acontecer. Neste momento temo que cancelem a série. Veremos.

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Camille Preaker, interpretada por Amy Adams, é uma repórter que é enviada à sua terra natal, onde não regressa há muitos anos, para cobrir a história de um assassinato. O seu editor, que é também seu amigo, acha que a proximidade de Camille àquelas pessoas e à pequena cidade de Wind Gap pode ser a opção certa, não só para dar luz ao mistério mas também porque acha que lhe vai fazer bem conviver com os demónios do passado.

E são muitos. Vamos conhecendo cada um deles, sendo talvez o maior a sua mãe. Patricia Clarkson dá corpo a essa mulher estranha, hipocondríaca, que acha ter o mundo a girar à sua volta, e que vive num drama constante. Vamos tendo alguns flashbacks que nos ajudam a perceber todos os males que afligiram Camille durante a sua infância e adolescência, e vamos compreendendo porque é que é tão difícil para ela regressar a casa e enfrentar aquelas pessoas e as recordações.

Em Wind Gap vive não só a mãe, mas também o padrasto e a meia-irmã de Camille. Esta, com 13 anos e dona de uma beleza invejável, tem em si um pouco da rebeldia de Camille mas também algo de sinistro, certamente herdado da mãe. É a oportunidade para as duas se conhecerem melhor, e vamos vendo interacções muito interessantes entre as duas. Antigas amizades, amores, desconfianças e vergonhas vão sendo também desenterradas.

Há sempre mais camadas por descobrir - as coisas são sempre mais profundas do que aquilo que parecem. E isto é válido tanto para a vida de Camille e da sua estranha família, mas também em relação à onda de crimes que insiste em tornar-se cada vez maior, e envolta em mais mistério. Camille não vai olhar a meios para chegar ao fundo da questão, dando origem ainda a mais animosidade com os habitantes de Wind Gap, onde já se sente uma estranha, e da sua própria família.

Esta é certamente uma das séries do ano. Tem uma realização, fotografia e edição do outro mundo, aliadas a interpretações fora de série. Eu nem simpatizava muito com a Amy Adams, mas Sharp Objects fez-me mudar completamente a razoável opinião que tinha sobre ela. Talvez porque é um papel diferente de tudo o que fez até agora. Aqui, ela é vulnerável, problemática, viciada, negligenciada, incompreendida, e não a mulher bonita e forte que normalmente vemos no grande ecrã. Por mim, o Emmy pode ser já entregue.

Há também que destacar Patricia Clarkson no papel da mãe. Está tão perfeita que nos desperta as piores sensações do mundo, como é o pretendido. Desde raiva, nojo, medo, desconfiança, aquela mulher loira com algo de angelical consegue passar-nos a completa imagem oposta das aparências que quer passar para a comunidade.

Tenho também de mencionar os fabulosos flashbacks. O passado e o presente, por vezes, enrolam-se, conforme Camille vai recordando certas pessoas e situações, e essas viagens ao passado são supremas. O trabalho de edição é fantástico, as passagens entre as duas épocas são sublimes e só mesmo vendo para perceber. O papel de Sophia Lillis como Camille adolescente também contribui em muito para esse sucesso.

Daqui a uns tempos (não agora, que tenho a história demasiado presente), quero ler o livro de Gillian Flynn com o mesmo nome, no qual é baseado esta série. Se tiverem de escolher uma série para ver nos próximos tempos esta é altamente recomendada. Tem apenas 8 episódios e vê-se num instante, e sem conseguir parar, e com uma grande capacidade de nos deixar de queixo caído.

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