Palavras do Abismo

António Variações foi um visionário, um sábio, nascido numa era que não o compreendeu mas que carrega e carregará consigo, para sempre, palavras mágicas que, mais tarde ou mais cedo, acabamos por senti-las como nossas.

"Estou além" é uma canção muito inteligente, alegre nos acordes e algo sombria na mensagem, que nos fala da eterna insatisfação do ser humano. Há inevitavelmente momentos de maior confusão interna em que esta canção nos assenta que nem uma luva e, enfim, temos a pressa e a ansiedade de chegar onde só estamos bem onde não estamos. A lado nenhum.

Mais dia menos dia, um dia acordamos desejosos que o dia acabe. Sabemos de antemão que nada de bom virá de mais um nascer do sol. Sabemos que serão apenas 24 horas pesando sobre os ombros, mais uma ruga, uma rotina, um cabelo branco, mais um dia sem significado. Queremos sair desta linha monótona, mas não sabemos como. Queremos ir para outro lugar, mas não sabemos qual.

Questionamos o que estamos aqui a fazer. Pesamos os "ses" da vida e onde poderíamos estar se tivessemos ido para a esquerda em vez de para a direita. Os pensamentos vão recuando no tempo, e questionamos até as escolhas que fizemos na adolescência e infância. E se tivesse estudado outra coisa? E se tivesse emigrado? E se me tivesse tornado uma eremita vivendo isolada num monte alentejano? Todas as respostas possíveis embrulham-se num novelo que, embora confuso e sem conseguirmos descobrir o início e o fim da meada, nos parecem melhores do que a vida que levamos.

Tentamos descortinar onde aconteceu o ponto sem retorno que definou a vida que levamos hoje. Tudo parece errado. Se existiram más decisões, sentimos que as tomámos todas. E apesar dos clichés que nos atiram, que nunca é tarde para mudar, para ir, para conhecer, falta-nos a energia e a coragem para refutar um presente construído por nós mas que, a cada dia, nos vai passando ao lado.

Um dia destes, ouvindo o Variações, confirmei para mim mesma que as dúvidas nos assaltaram desde o início dos tempos e vão continuar a assombrar a nossa existência até que o último humano desapareça da Terra. Nascemos e morremos sozinhos, mas estamos unidos nesta incessante busca por um lugar de pertença. Alguns fazem esta travessia no deserto com a animação típica dos optimistas; outros, têm sempre qualquer coisa atravessada na garganta que não sai nem a ferros, acumulando frustrações.

A vida é um cemitério de expectativas.

 
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"Doença, velhice, aborrecimento, insuportável griséu. Nada que não seja sobejamente conhecido à face da terra."

in Dublinesca, de Enrique Vila-Matas (2010)

gri·séu
adjectivo
1. Cor cinzenta esverdeada.
substantivo masculino
2. [Portugal: Algarve] Ervilha grada.

Engraçada a forma como descobrimos regionalismos. Com que então no Algarve griséu é ervilha grada! Muito bom, mas depreendo que o autor de Dublinesca não estava a pensar em ervilhas associadas à velhice e ao aborrecimento. Não deixa de ter uma certa piada, porque há muita gente aborrecida quando vê ervilhas no prato. Adiante, aqui, podemos dizer que griséu é aquele estado cinzentão em que muitas vezes nos vamos encontrando ao longo do nosso caminho. Porque nem tudo é cor, arco-íris e dias felizes, o céu não está sempre azul e nem sempre é tudo sorrisos; o griséu cá está para nos dizer que a vida também tem tonalidades mais monocromáticas. E está tudo bem.


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É sabido que a raça humana é uma valente merda. Cuspimos à grande no prato onde comemos, temos um umbigo gigante (o mundo gira à volta dele), o individualismo permanece, o egoísmo enaltece os comportamentos cada vez mais erráticos de quem se está a cagar para outra coisa que não eles próprios. Apesar dos esforços de muitas pessoas, e até mesmo da comunicação social que tem divulgado muitas imagens, estudos, chamadas de atenção, ora para o excessivo uso do plástico, ora para o esgotamento dos recursos, ora para as espécies que morrem e que sofrem com o nosso lixo, tal não é suficiente para uma geração muito, muito rasca, que neste momento assola o país.


Este vídeo foi gravado por estes jovens que se dispuseram a limpar a porcaria que os outros fizeram na praia de Carcavelos, e fazem um apelo para que cada um cumpra a sua parte. Reuniram sacos e sacos de lixo, ao fim de um dia com aquele calor infernal que tivemos há duas semanas. Estas atitudes são louváveis, e quem de nós (civilizados) nunca andou com um saquinho a apanhar merda dos outros na praia? Tudo muito bem, só que esses canalhas vão achar que têm criados, que não têm de limpar porque há quem limpe, e mesmo se não houver, é para o lado que dormem melhor.

 

Mais fotos de exemplo de uma rapariga indignada com o lixo nessa mesma praia. Eu sei que há porcos de merda de todas as idades, de todos os estratos sociais, mas parece-me, de acordo com os relatos, com as fotos, vídeos, que os adolescentes de hoje são uns burros acéfalos e vaidosos que se importam mais com as selfies do que a morte do planeta, e que o nível de bateria do telemóvel é mais preocupante do que a extinção das espécies ou a escassez de recursos. Odeio generalizações, mas estes chamados adolescentes da pastilha deviam ficar sem um dedo por cada porcaria que deitam para o chão, até terem apenas um coto que nem lhes permitisse limpar o rabo. 


Um exemplo fulcral é o Sudoeste. Um festival da pastilha para miúdos da pastilha típicos que vão lá para tudo e mais alguma coisa menos pela música e para serem civilizados. Como moça alentejana, eu fui ao Sudoeste, claro, era o apogeu do verão. E posso garantir que isto não era assim. E eu tinha os cornos no ar nessa altura da vida em que tudo acontece, e mesmo assim, eu e os meus amigos tínhamos o mínimo de consciência, e nunca vi as coisas chegarem ao estado, nem nada que se pareça, com o que podemos ver. Nessa imagem, no topo, podem ver um print do recinto do Sudoeste este ano, e em baixo, uma fotografia do recinto do campismo do Vagos Metal Fest também este ano (tirada por uma pessoa conhecida). Os metaleiros é que são feios, porcos e maus, não é?

Não sei se o mal pode ser corrigido. É difícil endireitar quem se está a cagar, e vê-se que ninguém os meteu na linha quando deviam. É a geração que compra tudo feito, completamente sem valores, sem moral, sem hábitos que os ajudem a ser pessoas melhores. Não lêem, na televisão só vêem lixo dos degredos e afins, se vão ao cinema é para engatar e estar a falar, se vão para a praia é para fazer poluição sonora e física, se vão para os festivais é para beberem até cair, se vão à escola é para fazer merda e passar à rasca, enfim, não dão uma para a caixa, e o futuro é negro.
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A capa de junho da revista National Geographic está a dar que falar, pelas melhores e piores razões. Quanto à parte positiva, é uma composição genial, que na sua simplicidade consegue passar a ideia do que se passa.

No entanto, estamos a falar de um dos maiores flagelos dos nossos tempos - o plástico nos oceanos. São 8 biliões de quilos de plástico que, todos os anos, vão parar ao fundo do mar. As consequências são gravíssimas para a vida de todos nós, afectando a biodiversidade, a vida marinha, o ambiente e, consequentemente, afecta muitas mais áreas.

Temos de cuidar da nosso planeta, da nossa casa, para que ele vá aguentando todo o mal que lhe fazemos e para que continue a ser habitável para todas as espécies, incluindo a humana. E cabe a cada um de nós preservá-lo.

Ainda há uns dias fui à praia e saí de lá com uma tristeza imensa e a certeza de que vamos todos parar ao buraco do esgoto. Tanto, mas tanto lixo, que as pessoas vão despejar às imediações. Até móveis, cadeiras velhas, mantas, roupas, despejadas ao acaso, mesmo havendo grandes caixotes por perto. As pessoas não querem saber, só se querem livrar do que é velho, mantendo as casas vazias para os egos gigantes ocuparem o espaço todo.

O plástico nos oceanos, tal como a capa indica, é apenas a ponta do icebergue. Há muitas coisas simples que podemos fazer para reduzir a produção de plástico, mas a missão não acaba aí. Só sendo responsáveis é que este planeta sobreviverá. Neste momento, não tenho muita esperança na sua sobrevivência. Não enquanto uma raça que se acha superior a todas as outras existir.


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O Intermarché de Beauvais, França, está a fazer uma promoção nos frascos de Nutella - €1,40 em vez de €4,50. Ora a mim e provavelmente a você que está a ler isto, isto não seria um motivo para provocar o caos completo e uma luta pela sobrevivência em pleno supermercado. Mas aconteceu.

O stock de hoje evaporou-se em menos de uma hora. Foi publicado este vídeo em baixo que mostra a anarquia - pessoas aos berros, outras a tentar roubar o frasco alheio, num local já completamente desarrumado e destruído. A polícia foi chamada a intervir.

É tão estúpido, tão mesquinho. Somos umas meras peças de xadrez nesta sociedade de consumo onde devia ser o consumidor a mandar, mas em vez disso são os interesses económicos a fazer-nos de parvos, e caímos que nem patinhos. Nunca na minha vida pensei ver uma situação destas por causa de Nutella em promoção. Insultamos, somos violentos, tornamo-nos bestas, por um bocado de chocolate mais barato.

A Nutella é nociva, um completo poço de açúcar refinado, e talvez advenha daí esta agressividade toda. Há produtos no mercado tão ou mais saborosos, e até mais baratos, que este veneno. Há produtos que não usam esta quantidade de açúcar, e que utilizam alternativas como açúcar de cana, de côco, entre outros. A Nutella também utiliza óleo de palma, grande responsável pela desflorestação e pela extinção de vários animais. Por isso, se você é guloso, como eu, saiba que pode continuar a ser, respeitando o próximo e o planeta. Algumas sugestões:

. Fazer em casa (a melhor opção) - é fácil, saudável, barato, e só precisa de 4 ingredientes. Ver aqui.
. Costumo comprar este online. É óptimo, com açúcar de cana e óleo de girassol.
. Esta opção existe no Continente e já apanhei imensas vezes em promoção.

Vá lá, não temos de ser umas bestas para poupar uns trocos, ainda por cima por coisas que não valem a pena. Eu sei que a guerra por comida e água vai acontecer, mas por Nutella? Get a life...


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Este "senhor" que se julga Deus, dono da razão, e detentor de todo o conhecimento sobre a mente e corpo humanos, diz o seguinte:

"Vi um documentário aterrador. O pior que se pode ver antes de ir para a cama. O documentário era sobre um transexual. (...)

Depois da operação, entrevistavam o fulano que se queria transformar em fulana. Numa voz estranha, deu umas respostas que tornaram óbvio estarmos perante uma pessoa débil mental. Dizia umas patetices. Mostrava-se ansioso por se tornar uma mulher. Mas aí eu pergunto: se em vez de lhe operarem o corpo para se parecer com uma mulher, por que não optaram por tratá-lo psicologicamente para adaptar a mente ao físico que realmente tinha? (...)

Depois cortou o pénis, explicando que ia aproveitar uma parte deste para fazer o clítoris. Neste ponto, não consegui ver mais e mudei de canal. (....)

Se a sua cabeça já era confusa, tornar-se-á muito mais confusa depois da operação. Nunca poderão ter uma vida familiar normal: não podem ter filhos e qual é o homem que se vai casar com uma mulher que já foi um homem? Só por caridade alguém condescenderá em fazê-lo. (...)

Se um homem pensar que é uma galinha, os médicos não vão transformá-lo em galinha."

Podem ver o texto na íntegra aqui.
 
Bem. Aterrador é ainda existirem pessoas assim. Pessoas que acham que querer mudar de sexo, sentir-se no corpo errado, é doença mental, que se resolveria com uma terapiazinha, provavelmente com uns choques eléctricos. Ou prendê-los, abrir-lhes os olhos com uns palitos, e obrigá-los a ver cenas entre um homem e uma mulher - todos no corpo certo - a cupular, como deus manda.

Aterrador são estes velhos do restelo acharem que a normalidade é apenas aquilo que conhecem, aquilo que a sociedade lhes disse que era normal e que eles aceitaram sem dizer ai nem ui; é não admitirem que as coisas não são lineares, não são a + b, que o universo, e a mente, o cérebro, os sentimentos, as emoções, não são uma fórmula matemática.

Aterrador é chamar de débil mental a quem, numa atitude corajosa que ele nunca saberá o que é, mostrar ao mundo que não temos de ser infelizes, que devemos perseguir o que desejamos, viver na pele que queremos, que não temos de ficar presos uma vida inteira às convenções e à tal "normalidade" que nos impingem.

Aterrador é dizer que ninguém vai querer uma pessoa assim. Assim como? Que foi em frente quando existem pessoas como o senhor arquitecto que acham que deviam ter estado quietinhas? Que cumpriram o seu sonho? Que decidiram ser felizes? E por não poderem ter filhos, são pessoas incompletas? O objectivo primordial da espécie é parir? Gostar de nós próprios, não conta para nada?

Aterrador é comparar um homem ou uma mulher que estão a cumprir um sonho, num processo custoso, longo, demorado e controverso, em que muito provavelmente foram criticados e ostracizados pelo mundo inteiro, com a pretensão de ser uma galinha...

Aterrador é partilhar este planeta com pessoas cuja mente ficou presa no séc. XIX e que ainda se auto-intitulam de liberais. Se cada um se metesse na sua vida, isso é que era bom. Se deixassem os outros serem felizes da maneira como são, se aceitassem a diferença, o mundo era um lugar bem melhor. Se vos faz impressão, ignorem, deixem-nos ser. A indiferença é melhor do que a promoção da opinião odiosa.

Aterrador é você, senhor arquitecto. E se não fosse essa tacanhez e pequenez, não teria essas trombas.



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Estes a quem chamo de anormais são os promotores da festa dos touros de fogo e a população que aplaude e participa nessa merda e não, claro, aos habitantes em geral. Até porque há por lá boa gente.

Mas não o são, decerto, aqueles que vibram ao ver pegar fogo aos cornos de um touro e que ficam a bater palminhas ao vê-lo enraivecido, humilhado e em pânico. Esses, são apenas anormais de merda, sádicos, pessoas sem escrúpulos, deficientes mentais, excrementos em forma humana.

Ora depois das queixas feitas por várias organizações de defesa animal e pelo público em geral, esta prática foi cancelada. As associações, em especial a Animal, foi até às últimas instâncias para garantir que tal não se realizava. Só que... os deficientes mentais são insistentes e afirmaram desde logo que iam fazê-lo à mesma.

As autoridades foram avisadas desta intenção, mas como em tudo o que tenho testemunhado em relação à defesa animal da parte deles, cagaram de alto. E assim, esta merda realizou-se. Os cornos são sensíveis - os touros têm dores reais quando estão em chamas, e ficam também com o focinho todo queimado. É um cenário de loucos, que apenas excrementos humanos podem apreciar.

Por isso, seus excrementos de merda, se gostam de ver fogo em cornos, ponham os vossos a arder. Ou metam um pau no cu, peguem-lhe fogo e fujam. Ou simplesmente apontem um lança-chamas uns aos outros e matem-se de vez. Vocês merecem morrer, e sofrer. Julgam-se os reis do universo, a maior e melhor das espécies, mas não passam de um vírus nojento que é preciso destruir. E espero que sejam destruídos rapidamente. Espero que se fodam, que vão para o inferno, que tenham uma morte lenta. Joguem-se dum prédio, afoguem-se. Tanta gente boa a morrer e vocês de pé. Mundo injusto. Morram.


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Chris Cornell. Uma das minhas companhias musicais desde que me conheço, não fosse eu uma rockeira e a sua carreira mais longa do que a minha idade. Importante na cena grunge, e não só, é daqueles que vai ficar para sempre. Por aqueles êxitos que teimam em atravessar gerações, captando fãs para o rock depois de tantos anos, pelo talento inegável, e porque, vá, era um dos gajos mais sexy do meio. A sua voz rouca e inconfundível e aquele visual de bad boy que se está a cagar quebraram muitos corações e fizeram suar muito boa gente nas virilhas.

52 anos não é idade para morrer, por princípio. A sua última música tocada ao vivo, na noite anterior, foi sobre a morte. E acabou por tirar a própria vida, enforcando-se.

Podes ter achado que a tua hora acabou, mas os que ficam acham sempre que não, e que caíste num acto de cobardia. Mas, Chris, para mim, conhecer o limite e pôr um ponto final é escolha e libertação. Be yourself, it's all that you can do.


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Muitas vezes acusam Casey Affleck de ser entediante, muito por causa, digo eu, do seu tom monocórdico. Afinal, ele estava apenas à espera do papel feito à sua medida, que acredito ser este que desempenha em "Manchester By The Sea".

No filme, Casey veste a pele de Lee, um homem a quem o irmão morre e tem de voltar à sua terra natal, Manchester, para tratar dos trâmites que envolvem a morte e cuidar do seu sobrinho adolescente, de quem foi designado tutor e com quem vai ter uma relação atribulada. Só que voltar a esta terra e ver aquelas pessoas vai despertar o pior de si devido a uma situação do passado, carregada de negrume, de arrependimento e de dor. Vamos compreendendo aos poucos os motivos que o levaram a afastar-se de Manchester e como esse retorno lhe é penoso.

Os saltos temporais são constantes ao longo da trama e, na minha opinião, são feitos de forma genial. Apesar de por vezes serem bruscos, percebemos perfeitamente em que tempo estamos e com que intenção esse salto foi feito. A dor carregada por Lee é um crescendo que começa numa letargia melancólica e que tem alguns expoentes fantásticos.

A história é simples mas densa, carregada, e sentimos perfeitamente o peso que a personagem também carrega, e esta capacidade de passar esse sentimento para o espectador faz deste um dos meus filmes favoritos à corrida pelos Óscares.


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"procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido."*

in A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe (2013)

Depois da frustração, da profunda tristeza, do vazio dos lugares e das coisas que são criados com a ausência permanente do corpo de alguém que partiu, há-de chegar um tempo, uma altura, uma hora, em que a recordação provocará um sorriso. Será a saudade, sim, mas envolta em recordações doces, como o reconhecimento de um privilégio por termos privado com essa pessoa. A glória da partilha tomará conta de nós. É assim a a vida, e sempre será.

 *Não é gralha - o texto original é mesmo sem maiúsculas.


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"A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento".

in Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz (2011)

Os cabelos brancos que vão aparecendo, as rugas que se vão perpetuando na nossa pele, as manchas que já não desaparecem, aquela dor que já não vai embora, os dentes que nos caíram na infância e que voltam a cair mais tarde, já mais amarelos. 
A curva na coluna que se vai acentuando, os medicamentos que precisamos de tomar, a maquilhagem que muitos usam para disfarçar os sinais da idade. 
As dificuldades na visão que são cada vez maiores, uma compreensão diferente e trágica do mundo. 
A energia que já não é a mesma, os calos nas mãos e nos pés. Tudo isso é morte.
No momento em que nos finamos a nossa alma deixa de existir, mas a morte começou muito antes. Começou quando nascemos. Tudo isto é morte, mas também é vida.

 
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Guilherme Duarte é humorista, mas isto não tem piada nenhuma. Desta vez usou o seu conhecido blog (Por Falar Noutra Coisa) para falar dos filhos da puta que abandonam os seus animais. Esses abortos que não deviam ter nascido, que têm zero empatia, que não respeitam a vida, e a quem desejo o pior Natal de sempre. Que vejam a vossa vida a descambar, que vos falte tudo, que vos caia um raio em cima que vos parta.

Que os móveis que os bichos arranharam e que serviram de desculpa para os deixarem amarrados a uma árvore vos caiam em cima e vos partam os cornos, no mínimo. Que o xixi que eles fizeram no tapete e que justificou que os deixassem na estrada se transforme num lago de merda que vos engula vivos. Aquelas férias que tiveram e nas quais o animal não tinha lugar e foi deixado para trás, que morram lá, que se afoguem nas águas do Algarve ou partam o pescoço nas corridas na neve.

Revejo-me nesta mensagem, e sofro a cada olhar destes animais que não compreendem porque é que foram amados e deixaram de o ser. E vós, abortos de merda que os abandonaram, que nunca mais se aproximem destas alminhas. Deixem-nos em paz, porque não merecem pinga de amor.


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É possível morrer de tanto trabalhar. Os portugueses trabalham muito tempo, genericamente (e recebem pouco, comparativamente à média europeia) mas não se compara à ética de trabalho dos países asiáticos. Lá, praticamente não há tempo livre. Trabalha-se todos os dias da semana, fazem-se horas extra até à hora em que for preciso e a vida pessoal e o tempo para respirar ou simplesmente dormir ficam para segundo plano. Tantas e tantas vezes morre-se de exaustão e os problemas psicológicos e neurológicos são frequentes.

Nada disto é novidade. O que eu não sabia é que no Japão o problema é tão premente que existe uma palavra para caracterizar 'morrer de tanto de trabalhar' - karoshi. E até existe uma linha telefónica de emergência para apoio aos funcionários que se esfolam a trabalhar, livros de auto-ajuda sobre o tema e uma lei que beneficia o(a) viúvo(a) e os filhos dos trabalhadores que vierem a falecer de tanto trabalhar.

Isto é tão triste. O que anda esta gente a fazer da vida? Nunca ninguém lhes disse que ela é tão curta? Quem me dera que a palavra karoshi não existisse.


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Os militantes do PNR já são pessoas estranhas por si só, mas agora superaram-se com o seu teatrinho em Belém. Com o mote "Islão, aqui, não!", simularam uma degolação em grupo, realizada por quatro supostos terroristas. Com sangue simulado e espalhado pelo chão e tudo.

O que vale é que esta manifestação contou com o fantástico apoio de cerca de 50 pessoas de estômago forte que provavelmente passaram ali para comer pastéis e por lá ficaram enquanto faziam a digestão.

Esperarei impacientemente pelas próximas manifestações xenófobas, e até tenho algumas sugestões:

  •  Beberem vodka até entrarem em coma em homenagem aos malucos dos russos
  • Esfaquearem-se até à morte vestidos de preto e correntes de ouro, em congruência com o que acontece com os parasitas dos ciganos
  • Fazerem rastas e tentarem assaltar-se uns aos outros como os rufias dos pretos passam a vida a fazer
  • Irem trabalhar para uma obra o dia inteiro neste sol intenso a ganhar o ordenado mínimo como os formados em medicina vindos do Kosovo (só têm aquilo que merecem!)
  • Armarem-se com uma pá de fazer kebabs e espancar pretos como o monhé Mustafa (uma faca de dois gumes, esta opção)
  • Invadirem as pistas dos aeroportos para nos lembrarem dos cabrões dos argelinos, essa raça que só atrapalha a vida das pessoas
  • Comerem 15 menus Big Mac's e 20 coca-colas de seguida para provocarem os gordos nojentos dos americanos
  •  Trabalharem sete dias por semana como os chineses armados em chicos-espertos (devem pensar que são mais que os outros)

Tenho mais ideias pré-fabricadas e erróneas aqui de lado caso estas se esgotem. Espero que algum islamita veja o vosso vídeo e vos ajude a desaparecer, o que não é difícil já que são tão poucos. Alguns devem ficar arrumados depois dos 15 Big Mac's. Entretanto, cuidado com as generalizações.

Ah, e se quiserem fazer coisas em grupo há ideias bem melhores (muitas delas podem envolver os desgraçados dos paneleiros, por isso pode entrar também na lista!).


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Faz lembrar o hino, mas em vez de "nação valente e imortal", neste momento é mais "doente e imoral". E hipócrita. E porca.

O casal de meia-idade que fez sexo em Paredes de Coura, durante o dia e à descarada aos olhos de todos os que passavam deve ter algum tipo de deficiência mental. Assim o espero. Porque gostarem do deboche e de fazer sexo em público é aceitável, e ninguém tem nada a ver com isso a não ser quem se depare com o sucedido. Fetiches são fetiches. Mas fazerem-no com a filha ao lado já roça o 'atrasadismo' mental. Se não for isso, são apenas uns filhos da puta, e prefiro o primeiro cenário.

Não há justificação para estarem a foder com a filha ao lado, enquanto esta está ali deitada a comer como se nada fosse. Aliás, a descontracção da miúda só mostra que não foi a primeira vez que isto sucedeu. Não há desculpa para tirarem a inocência de uma criança desta maneira. Não é com a visão dos pais a foder que ela deve crescer. Não é o vídeo da mãe a olhar deleitada com ar lascivo para a câmara enquanto cavalga o pai que deve ver quando for à internet. Não está certo, em lado nenhum do mundo.

A única coisa boa de isto ter acontecido é que o casal vai ser investigado. Gostava de ter visto alguém das pessoas que por ali passavam a tirar a miúda dali. Isso é que era. Por agora, era bom que este país se preocupasse mais com os maus exemplos que influenciam negativamente a vida de muita gente, em vez de meterem o bedelho na vida privada dos outros que não prejudicam ninguém. Porque há quem, por exemplo, apenas se ria com este exemplo de depravação imoral, e aponte o dedo aos homossexuais como se de criminosos ou doentes se tratassem.

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Quem tem por hábito ajudar os outros, sejam pessoas, animais ou quem apoia qualquer causa humanitária ou ambiental, não tem descanso.

Quem se decide dedicar a causas, está perdido. Nunca há dinheiro suficiente para ajudar toda a gente, nunca há tempo suficiente para acudir a tudo. E mesmo quando finalmente se chega a casa, estafados, e podemos e devemos descansar, a cabeça não pára de trabalhar.

No meu caso, que ajudo os animais, não consigo virar as costas, não consigo parar de pensar nos casos que vão aparecendo todos os dias, nos que sou impotente para fazer algo. Não consigo descansar sabendo que há bichos que passam fome, que são maltratados sem compreenderem o porquê, que são deixados em varandas noite e dia, que são abandonados pela suposta família, que estão expostos aos elementos, que estão doentes, sozinhos. E depois, como se não bastasse, ainda aparecem energúmenos que atiram cães de pontes, que amarram cães a carrinhas e os arrastam pela estrada, que queimam gatos em "festas", que usam cavalos e burros até estes caírem para o lado e morrerem, e que se metem numa arena a espetar-lhes bandarilhas.

Não dá para ir um dia para a cama sem dar voltas e voltas a pensar na crueldade das pessoas sobre os animais, ou sobre as coisas que acontecem, as merdas do destino que volta e meia nos coloca à prova. E com as outras causas é igual. Para quem apoia os sem-abrigo, famílias carenciadas, crianças doentes, mulheres maltratadas, menores em perigo, idosos, e muitos outros, a história é a mesma. Damos muito de nós e às vezes não sobra grande coisa. Nem estômago, nem cabeça, nem lágrimas.

Felizes são aqueles que se estão a borrifar. Por vezes invejo-os, mas é só por uns segundos. Nesses momentos, gostava de não me ralar com nada, de guardar o dinheiro e gastá-lo comigo, de ter imenso tempo para mim, de ter a cabeça limpa de preocupações, de olhar para o lado, de não sentir dó e compaixão que fizesse doer à séria. Mas depressa caio em mim. Sou mais humana assim, sou eu, tenho um propósito e não o trocava por nada.

Um grande bem-haja, um xi-coração do tamanho do mundo a quem se preocupa. A quem tira o cu do sofá para fazer alguma coisa por alguém. A quem lhe dói o coração pelos outros, a quem sofre por desconhecidos, a quem tem empatia, essa qualidade tão delicada, faca de dois gumes que tanto nos mete no píncaros do mundo como lá em baixo, no fundo, tantas vezes. Vocês são os maiores. O mundo não está completamente na merda porque vocês existem.


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Engraçado como há 20 anos atrás eu ouvia os Mamonas Assassinas. Era uma miúda, ouvia aquilo e fartava-me de rir. Fazia competições com o meu tio mais maluco a ver quem os conseguia acompanhar melhor naquelas lenga-lengas super rápidas e porcalhonas.

Hoje faz 20 anos que partiram, naquele dia fatídico em que a avioneta em que seguiam se despenhou na Serra da Cantareira depois de um concerto em Brasília. Todos os passageiros morreram. Apesar de ter sido há tantos anos, lembro-me das notícias em todo o lado e de uma legião de fãs ter acompanhado o funeral. Foi um choque imenso também para mim.

Ainda tenho o CD deles guardado, e são dos artistas que mais ouço no Spotify (eles haviam de ficar contentes com estas modernices). Foi uma carreira bem curta mas meteórica, com mais de 3 milhões de cópias vendidas só no Brasil. Eles foram únicos e inimitáveis, com tantas influências musicais (inclusivé portuguesas), e deixo em baixo a recordação inspirada no nosso vira.

São daqueles que vão viver para sempre. Mina... seus cabelo é da hora.

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Um dos vídeos mais virais do ano passado foi o de uma jovem autista com Síndrome de Asperger que se atacava a si própria, e tinha um cão treinado para acalmar esses ataques (o vídeo pode ser visto aqui).

Acontece que recentemente ela trancou-se num quarto, sem a presença do cão, e ameaçou matar-se. A mãe, impotente para a ajudar, chama a polícia. Eles chegam, a mãe explica a situação e pede ajuda, e a certa altura a rapariga sai do quarto com uma faca na mão. Os agentes sentiram-se ameaçados e abriram fogo sobre ela. Morreu, ali, à frente da mãe e do melhor amigo.

E eu pergunto-me: mas que merda de mundo é este em que a polícia decide disparar a matar para uma miúda deficiente mental? Mas tá tudo parvo? Eles sabiam claramente que ela tinha problemas psicológicos, que não era uma ameaça para eles, e mesmo que fosse, dois homens feitos não conseguiam dominá-la sem lhe tirar a vida? Merda de abuso de autoridade, acham que por terem uma arma na mão podem fazer tudo! Pois olhem amigos, a merda da arma não compensa a falta de colhões que vocês têm!

Os agentes estão sob investigação, mas para mim deviam era estar com o cu enfiado na cadeia até morrerem. Este mundo é uma vergonha. Que tristeza, que revolta. Descansa em paz, miúda.

danielle asperger dog
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O título está em espanhol para perceberes bem, mas agora vou insultar-te em bom português. És um filho da puta. Um cabrão. Um gajo que não pensa sequer um bocadinho antes de fazer merda.

Porquê? Para começar, porque achas normal segurar uma criança de meses ao colo enquanto toureias um animal com centenas de quilos, que a podia esmigalhar em caso de queda ou espetar-lhe um dos seus corninhos. Sabes, os acidentes só acontecem quando as pessoas se predispõem para tal.

Porque justificas o acto como uma tradição, que é uma das desculpas mais usadas para bestas como fazerem a merda que quiserem, apoiando-se em prácticas mórbidas que já deviam ter caído em desuso. Ainda bem que no teu país não é tradição cortar o clítoris das meninas, que de certeza é uma tradição como qualquer outra e que terias todo o gosto em seguir, certo?

Porque inicias um ser humano que nasceu inocente na barbaridade que são as touradas. Pelo menos deixavas a rapariga escolher, quando crescesse. Amar fazer mal aos touros e a outros animais não é normal, não vês isso? Tenho pena que ela cresça contigo como exemplo de "homem"...

Porque dizes que é uma honra e um acto puro segurar um bebé enquanto toureias. Puro? Já viste a ferida que o touro tem? O seu dorso rasgado e sangrento, a dor que sente, a humilhação, é pura para ti? É uma honra infligir sofrimento com a tua filha a ver? Meu amigo, ofereço-me desde já para ter a honra de te espetar a bandarilha no buraco do cu e a tua mulher pode assistir, achas que é puro o suficiente?

Trata-te, seu atrasado mental.



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O nosso futuro chefe da nação teve um primeiro dia como Presidente eleito à grande. O querido Marcelo Rebelo de Sousa estacionou num lugar para deficientes e ainda fez o favor de não pôr o cinto de segurança enquanto conduzia.

No vídeo podem ouvir o aviso sonoro do carro activado pela falta do cinto enquanto Marcelo fala. Ou seja, nem no dia em que sabia estar a ser filmado fez o obséquio de se comportar de acordo com as leis. Esteve-se simplesmente a cagar. "Que se foda", pensou. "Mas quem é que manda aqui?".

Depois deve ter ficado meio vesgo com o cheiro a pastéis de nata e estacionou num lugar para deficientes para ir a uma pastelaria. Cívico. Respeitador. Cinco estrelas!

É este o homem que elegeram. Um homem que se acha maior do que o comum dos mortais, melhor do que cada um de nós, acima da lei. Alguém que foi professor durante 30 anos e que em minutos de filmagens mostra a sua falta de educação e despreocupação para com o cidadão comum.

Se fosse qualquer um de nós levaria uma multa avultada, no mínimo, mas ele teve direito a ovação e tudo. País triste.








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