Palavras do Abismo

9 minutos. Foi o tempo que o afro-americano George Floyd esteve com a cara empurrada contra o asfalto. 9 minutos a suplicar, a pedir água, a dizer que não conseguia respirar. 9 minutos que representam aquilo que o mundo ainda é: o homem branco a subjugar o negro. Em 9 minutos, morreu. 

Ouve-se o eco do típico comentário racista: "aaahh, mas alguma coisa ele teve de fazer". Queridos, não era nenhuma questão de vida ou de morte. Ele não tinha reféns, não ameaçou ninguém, não tinha nenhuma arma, não representou perigo. Foi acusado de burla quando estava a fazer um pagamento. 

Era advogado, tinha 46 anos, e soube-se imediatamente que estava inocente. Dizem que ele resistiu à detenção, as testemunhas dizem que não. Quem o matou anda à solta enquanto decorre um inquérito, que como sempre não dará em nada.

Não me fodam, o racismo existe, a desigualdade existe, e na América se não fores um homem branco heterosexual (de preferência com porte de arma) corres o risco de levar uma sova, de não teres oportunidades na vida ou, simplesmente, de morrer na via pública. E é claro que isto não é só na América. 

Não, não vai ficar tudo bem, porque nunca esteve. Desculpa George, as pessoas são uma bosta.




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Confesso que quando morre um escritor que aprecio me custa mais do que quando se trata de algumas pessoas que fizeram parte efectiva da minha vida e que nela nada, ou só mal, acrescentaram.

Era muito jovem (tinha talvez uns 13 anos) quando li o meu primeiro livro de Luís Sepúlveda - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Esses tempos já lá vão, mas lembro-me de gostar. Lembro-me também de o reler, já em adulta, e dos novos contornos que assumiu dentro de mim. Com o discernimento da maturidade, a história tomou todo um novo peso, e os ecos do respeito e da amizade bateram ainda mais forte. É essa parte da magia dos livros de Sepúlveda - capazes de encantar as gerações mais novas e de tocar os meandros da alma dos adultos.

No início deste ano, numa das idas à terrinha, visitei a estante para revisitar alguns livros que não lia há algum tempo e trouxe comigo o "Diário de um killer sentimental". Um livro completamente diferente, cómico, irónico, e no entanto, como sempre, com uma moral elevada. Quis o destino que o estivesse a ler enquanto Sepúlveda estava a ser diagnosticado com o Covid-19. 

E agora, partiu. Senti uma pequena partícula dentro de mim crescer e manifestar um extremo desconforto. Ele fez parte do meu crescimento e, consequentemente, da pessoa que sou. A minha inteligência emocional é melhor também por causa dele. "O mais português dos escritores latino-americanos", com uma história de vida tão complexa e rica que o ajudou a ser um ser humano melhor. Dizem os amigos que gostava de ser tratado por Lucho. Obrigada por tudo, Lucho. És um dos que vai viver para sempre.




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António Variações foi um visionário, um sábio, nascido numa era que não o compreendeu mas que carrega e carregará consigo, para sempre, palavras mágicas que, mais tarde ou mais cedo, acabamos por senti-las como nossas.

"Estou além" é uma canção muito inteligente, alegre nos acordes e algo sombria na mensagem, que nos fala da eterna insatisfação do ser humano. Há inevitavelmente momentos de maior confusão interna em que esta canção nos assenta que nem uma luva e, enfim, temos a pressa e a ansiedade de chegar onde só estamos bem onde não estamos. A lado nenhum.

Mais dia menos dia, um dia acordamos desejosos que o dia acabe. Sabemos de antemão que nada de bom virá de mais um nascer do sol. Sabemos que serão apenas 24 horas pesando sobre os ombros, mais uma ruga, uma rotina, um cabelo branco, mais um dia sem significado. Queremos sair desta linha monótona, mas não sabemos como. Queremos ir para outro lugar, mas não sabemos qual.

Questionamos o que estamos aqui a fazer. Pesamos os "ses" da vida e onde poderíamos estar se tivessemos ido para a esquerda em vez de para a direita. Os pensamentos vão recuando no tempo, e questionamos até as escolhas que fizemos na adolescência e infância. E se tivesse estudado outra coisa? E se tivesse emigrado? E se me tivesse tornado uma eremita vivendo isolada num monte alentejano? Todas as respostas possíveis embrulham-se num novelo que, embora confuso e sem conseguirmos descobrir o início e o fim da meada, nos parecem melhores do que a vida que levamos.

Tentamos descortinar onde aconteceu o ponto sem retorno que definou a vida que levamos hoje. Tudo parece errado. Se existiram más decisões, sentimos que as tomámos todas. E apesar dos clichés que nos atiram, que nunca é tarde para mudar, para ir, para conhecer, falta-nos a energia e a coragem para refutar um presente construído por nós mas que, a cada dia, nos vai passando ao lado.

Um dia destes, ouvindo o Variações, confirmei para mim mesma que as dúvidas nos assaltaram desde o início dos tempos e vão continuar a assombrar a nossa existência até que o último humano desapareça da Terra. Nascemos e morremos sozinhos, mas estamos unidos nesta incessante busca por um lugar de pertença. Alguns fazem esta travessia no deserto com a animação típica dos optimistas; outros, têm sempre qualquer coisa atravessada na garganta que não sai nem a ferros, acumulando frustrações.

A vida é um cemitério de expectativas.

 
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"Doença, velhice, aborrecimento, insuportável griséu. Nada que não seja sobejamente conhecido à face da terra."

in Dublinesca, de Enrique Vila-Matas (2010)

gri·séu
adjectivo
1. Cor cinzenta esverdeada.
substantivo masculino
2. [Portugal: Algarve] Ervilha grada.

Engraçada a forma como descobrimos regionalismos. Com que então no Algarve griséu é ervilha grada! Muito bom, mas depreendo que o autor de Dublinesca não estava a pensar em ervilhas associadas à velhice e ao aborrecimento. Não deixa de ter uma certa piada, porque há muita gente aborrecida quando vê ervilhas no prato. Adiante, aqui, podemos dizer que griséu é aquele estado cinzentão em que muitas vezes nos vamos encontrando ao longo do nosso caminho. Porque nem tudo é cor, arco-íris e dias felizes, o céu não está sempre azul e nem sempre é tudo sorrisos; o griséu cá está para nos dizer que a vida também tem tonalidades mais monocromáticas. E está tudo bem.


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É sabido que a raça humana é uma valente merda. Cuspimos à grande no prato onde comemos, temos um umbigo gigante (o mundo gira à volta dele), o individualismo permanece, o egoísmo enaltece os comportamentos cada vez mais erráticos de quem se está a cagar para outra coisa que não eles próprios. Apesar dos esforços de muitas pessoas, e até mesmo da comunicação social que tem divulgado muitas imagens, estudos, chamadas de atenção, ora para o excessivo uso do plástico, ora para o esgotamento dos recursos, ora para as espécies que morrem e que sofrem com o nosso lixo, tal não é suficiente para uma geração muito, muito rasca, que neste momento assola o país.


Este vídeo foi gravado por estes jovens que se dispuseram a limpar a porcaria que os outros fizeram na praia de Carcavelos, e fazem um apelo para que cada um cumpra a sua parte. Reuniram sacos e sacos de lixo, ao fim de um dia com aquele calor infernal que tivemos há duas semanas. Estas atitudes são louváveis, e quem de nós (civilizados) nunca andou com um saquinho a apanhar merda dos outros na praia? Tudo muito bem, só que esses canalhas vão achar que têm criados, que não têm de limpar porque há quem limpe, e mesmo se não houver, é para o lado que dormem melhor.

 

Mais fotos de exemplo de uma rapariga indignada com o lixo nessa mesma praia. Eu sei que há porcos de merda de todas as idades, de todos os estratos sociais, mas parece-me, de acordo com os relatos, com as fotos, vídeos, que os adolescentes de hoje são uns burros acéfalos e vaidosos que se importam mais com as selfies do que a morte do planeta, e que o nível de bateria do telemóvel é mais preocupante do que a extinção das espécies ou a escassez de recursos. Odeio generalizações, mas estes chamados adolescentes da pastilha deviam ficar sem um dedo por cada porcaria que deitam para o chão, até terem apenas um coto que nem lhes permitisse limpar o rabo. 


Um exemplo fulcral é o Sudoeste. Um festival da pastilha para miúdos da pastilha típicos que vão lá para tudo e mais alguma coisa menos pela música e para serem civilizados. Como moça alentejana, eu fui ao Sudoeste, claro, era o apogeu do verão. E posso garantir que isto não era assim. E eu tinha os cornos no ar nessa altura da vida em que tudo acontece, e mesmo assim, eu e os meus amigos tínhamos o mínimo de consciência, e nunca vi as coisas chegarem ao estado, nem nada que se pareça, com o que podemos ver. Nessa imagem, no topo, podem ver um print do recinto do Sudoeste este ano, e em baixo, uma fotografia do recinto do campismo do Vagos Metal Fest também este ano (tirada por uma pessoa conhecida). Os metaleiros é que são feios, porcos e maus, não é?

Não sei se o mal pode ser corrigido. É difícil endireitar quem se está a cagar, e vê-se que ninguém os meteu na linha quando deviam. É a geração que compra tudo feito, completamente sem valores, sem moral, sem hábitos que os ajudem a ser pessoas melhores. Não lêem, na televisão só vêem lixo dos degredos e afins, se vão ao cinema é para engatar e estar a falar, se vão para a praia é para fazer poluição sonora e física, se vão para os festivais é para beberem até cair, se vão à escola é para fazer merda e passar à rasca, enfim, não dão uma para a caixa, e o futuro é negro.
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A capa de junho da revista National Geographic está a dar que falar, pelas melhores e piores razões. Quanto à parte positiva, é uma composição genial, que na sua simplicidade consegue passar a ideia do que se passa.

No entanto, estamos a falar de um dos maiores flagelos dos nossos tempos - o plástico nos oceanos. São 8 biliões de quilos de plástico que, todos os anos, vão parar ao fundo do mar. As consequências são gravíssimas para a vida de todos nós, afectando a biodiversidade, a vida marinha, o ambiente e, consequentemente, afecta muitas mais áreas.

Temos de cuidar da nosso planeta, da nossa casa, para que ele vá aguentando todo o mal que lhe fazemos e para que continue a ser habitável para todas as espécies, incluindo a humana. E cabe a cada um de nós preservá-lo.

Ainda há uns dias fui à praia e saí de lá com uma tristeza imensa e a certeza de que vamos todos parar ao buraco do esgoto. Tanto, mas tanto lixo, que as pessoas vão despejar às imediações. Até móveis, cadeiras velhas, mantas, roupas, despejadas ao acaso, mesmo havendo grandes caixotes por perto. As pessoas não querem saber, só se querem livrar do que é velho, mantendo as casas vazias para os egos gigantes ocuparem o espaço todo.

O plástico nos oceanos, tal como a capa indica, é apenas a ponta do icebergue. Há muitas coisas simples que podemos fazer para reduzir a produção de plástico, mas a missão não acaba aí. Só sendo responsáveis é que este planeta sobreviverá. Neste momento, não tenho muita esperança na sua sobrevivência. Não enquanto uma raça que se acha superior a todas as outras existir.


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