Palavras do Abismo

Se estás a ler isto e axas que não à nenhum poblema, bem-ajas! És também o público-alvo da tele-escola. Hádem cá vir ensinar como se escrever. Ficas-te com a pulga atráz da orelha? Trouxestes os lápis e o caderno? Bora começar!

Se encontraste menos de 8 erros no parágrafo em cima, precisas de uma ajudinha. Se encontraste uns 3 ou 4, és simplesmente burro e não tens salvação. Mas podes tentar - não mata, e herrar é umano, certo?

A tele-escola, que vai começar na próxima segunda-feira, é não só a esperança do universo escolar para os jovens estudantes em tempos de pandemia, como também vai ser uma oportunidade para nós, adultos, revermos certas matérias. Têm ali uma oportunidade imperdível de aprender o que nunca aprenderam ou cimentar muito do conhecimento que voou para longe ao longo da vossa existência. Apesar de eu ser uma espécie de polícia da língua portuguesa (não totalmente eficiente, implacável e conhecedora como queria), vou assistir, principalmente às aulas de Geografia. Sou tão péssima que dói e nem encontro essa dor no mapa. Nem vou falar da Matemática - depois de 12 anos a levar com ela a única coisa que ficou foi a regra de 3 simples. É pouco para 12 anos, ou não? Também vou tentar aprender qualquer coisinha de Alemão e Espanhol, visto que ouço muito Rammstein sem saber o que estou ali a cantar e vejo também algum porno espanhol que merece melhor compreensão.

Uma parte boa é que podem aprender temas básicos sentados no sofá com uma cerveja na mão. Mas não abusem, ou esquecem-se de tudo o que vão aprender. Se tiverem filhos, têm sempre uma desculpa para ver o canal RTP Memória pelo canto do olho, enquanto mantêm aquela fachada de durões/duronas que se estão a cagar prá escola. 

Cheguem-se à frente. Não saber não é vergonha, vergonha é não querer saber. Podem não ter interesse numa carrada de temas, mas uma coisa que fazem todos os dias é comunicar. Seja ao telefone, em mensagens parvas no Whatsapp, em descrições intermináveis nas fotos do Instagram, a destilar ódio a comentar porcarias no Facebook... pelo menos façam-no com qualidade. Quando estão a debitar merda nas redes sociais, os erros ortográficos tiram-vos a credibilidade. Assim, assistam às aulas de Português, e quem sabe daqui a umas semanas já conseguirão escrever bosta mas com qualidade. Um dia, talvez leiam um livro. Força!






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Alerta - este filme nada tem que ver com a Xana Toc-Toc, a não ser que a moça sofra de algum Transtorno Obsessivo Compulsivo (daí o TOC).

Toc-toc é uma comédia espanhola da Netflix, leve, indicada para aqueles dias em que não nos apetece pensar muito e nos quais precisamos sorrir. No filme, várias pessoas com TOC veem-se fechadas no mesmo espaço. Cada uma delas apresenta diferentes manifestações da doença - há uma mulher obcecada com germes e bactérias que não toca em nada nem ninguém e que gasta o ordenado em embalagens de toalhitas; há um homem que não consegue pisar as linhas do chão - nos passeios, nos tapetes, etc; outra tem de verificar tudo em casa - o gás, as luzes, se tem as chaves consigo - tantas vezes que acaba por perder eventos importantes da vida; e por aí fora.

É um grupo de 6 pessoas cuja interacção por si só provoca situações inusitadas, que embora pareçam estranhas e exageradas, posso assegurar, como pessoa que convive com o TOC, têm muito fundo de verdade. Aliás, apesar da "lufalufa" característica das comédias espanholas do género, o filme pode até servir como catalisador para que alguém que sofra do problema resolva procurar ajuda e/ou saiba rir de si próprio. É um filme colorido, divertido/absurdo e com boas interpretações.

Há duas pessoas na minha vida - o namorado e uma amiga - que padecem de TOC. Há coisas que são ao mesmo tempo engraçadas e maçadoras. Por exemplo, quando vou às compras com o meu namorado já sei que, se existirem duas portas, só podemos usar a da direita. Igualmente, só podemos ir para as caixas da direita. Tem de ir lavar as mãos centenas de vezes. Não toca nos botões do Multibanco com os dedos. Fica doido se vê um CD cujas letras não estejam perfeitamente direitas - e quase me mata se abre a bolsa dos CD's e não estão na ordem que ele mesmo definiu e que eu não entendo. Enfim, é uma risota e um stress diário. Vejam o filme e compreendam "esta gente" 😂


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Dentro de todas as palhaçadas relacionadas com o assunto da greve dos motoristas de materiais perigosos, a maior, para mim, é a palhaçada da comunicação social. Eu sei que é verão, silly season e tal, e os profissionais do ramo contam, durante agosto, com os grandes calores e incêndios para fazer notícia. Ora na ausência destes assuntos, esta greve calhou na mouche para tapar buracos que antes eram preenchidos a perguntar ao Zé se a água algarvia está do agrado.

Todo o alarmismo que está a acontecer há uma semana tem como maiores culpados a comunicação social. Grevistas, governo, sindicatos e demais intervenientes vão fazendo o seu papel, bem ou mal, mas os jornalistas estão a roçar o ridículo. Há uma semana que estão plantados nas bombas a contar carros nas filas, num tom de alarme mesmo quando não se vê um pintelho no horizonte.

"Ora estamos aqui e está tudo NORMAL, tudo corre de forma REGULAR, aqui ainda há todos os combustíveis como HABITUAL, mas esse cenário pode mudar a qualquer momento, a procura vai ser imensa nas próximas horas. Como podemos ver, tudo decorre a um ritmo COMUM, como é NATURAL para o período do meio da manhã. Não sabemos no entanto como vai ser nos próximos dias, sendo que se espera o apocalipse zombie". (Repare-se em como foram ao dicionário consultar sinónimos para "normal".)

Ou então.

"É o HORROR, já não vemos o fim às filas, os clientes necessitam de combustível para o trabalho e para as férias, há pessoas com jerricans, é o ESCÂNDALO, há discussões, o FIM DO MUNDO em ceroulas, vamos agora entrevistar um visado
- Está aqui há quanto tempo? Uma meia-horita.
- Veio pôr gasolina ou gasóleo? Gasolina.
- Precisa de combustível para trabalhar? Não. Mas pronto.
- Como acha que vai sobreviver? Vou comer pão duro e arroz branco, mas tenho petroil.
- Quem é o culpado disto? Os motoristas, que abusam e não pensam nas pessoas. Os patrões deles que lhes falham. O governo que não resolve.
OBRIGADO e BOA SORTE!"

Ligar a televisão num canal noticioso neste momento é ver uma variável destas situações. Não há mais nada para transmitir, por isso transmite-se o nada, o vazio. Criam-se cenários de perigo onde não os há, aumentam as necessidades, exageram nas reacções, têm conversas de chacha, apontam dedos para um lado e para o outro, chamam comentadores que não se sabe de onde apareceram para gritar uns com os outros, fazem perguntas de merda aos intervenientes, repetidamente, porque, enfim, é agosto. A guerra das audiências exacerba esta situação toda e às vezes é melhor sintonizar o FOX Movies e não comprar o jornal do que aturar esta merda.

Quanto se desligarem deste excesso de "informação" terão tempo para pensar em como somos tão dependentes destas matérias primas, e o que podem fazer para se libertarem da pressão do ouro negro, caro, poluente, que promove conflitos, diferenças, pobreza, e em como somos uns peões num jogo entre potências mundiais que só pensam em lucro e para os quais somos umas formiguinhas consumidoras. Eu, se tivesse um canal, falava sobre isto em vez de acampar nas bombas de Vizela, comendo sandes super inflaccionadas, com uma unha de manteiga e uma folha de alface dobrada em dois.


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GLOW é uma série de comédia da Netflix que, por muito que custe a acreditar, é baseada em factos reais.

Nos anos 80 nasceu o grupo GLOW - Gorgeous Ladies of Wrestling. Cheias de glitter, penteados enormes, laca, mil e uma cores berrantes, maquilhagem exagerada, fatos super cavados, estas fortes e inovadoras mulheres protagonizaram grandes momentos de televisão (e não só). Indo contra a predominância masculina na indústria do wrestling, elas mostraram que as mulheres também são combativas, criativas, inventivas e capazes num 'desporto' duro de roer.

Quando comecei a ver a série da Netflix que conta a história destas mulheres pensei que era um exagero. Não deviam ser assim. Só depois de ver vídeos e fotos como esta em baixo, pensei, OK - se calhar a realidade até foi mais estranha e espatafúrdia que a ficção.



A série é uma lufada de ar fresco - muito divertida, leve, com a dose certa de drama - mas o que mais destaco é a construção das personagens. Eu sei que a maioria são baseadas em mulheres que realmente existiram, e isso ajuda à definição das personas, mas mesmo assim. Por trás de cada wrestler há uma backstory, sempre influenciada pela mulher que cada uma é. É muito interessante assistir à construção dessas personagens e saber que as distinguiríamos à distância, e que passados uns quantos episódios já sabemos enumerar as características de cada uma (e não são poucas). E isto em episódios de meia hora.

O seu crescimento enquanto profissionais também é espantoso. De notar que começaram apenas para ganhar dinheiro e por falta de alternativas numa época em que o protagonismo feminino no mundo laboral era muito baixo, e acabaram por abraçar o projecto e fazer dele o mundo delas, e um sucesso completo.

Os anos 80 estão realmente lá. Não são só os já mencionados penteados e maquilhagem super exagerados. As cores, os hábitos das pessoas, as convenções sociais - fazendo de GLOW um dos melhores retratos da década que já vi em televisão. É nostálgico para muitos, uma risota em muitos momentos, mas também sério, ao abordar temas como o racismo, a infidelidade ou o aborto.

Papei duas temporadas num instante, e a terceira está quase a chegar, em Agosto.

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Apesar de ser baseada numa história real que conhecia por alto, fiz questão de ver a série The Act sem saber mais, e poder assim surpreender-me. Deste modo, pude conhecer esta história surreal que ultrapassa a ficção em larga escala. É daquelas que nos faz arrepiar cabelo, tão inacreditável e chocante que diria ter sido escrita por Hitchcock.

Em linhas gerais, Dee Dee Blanchard era uma mãe que fez da sua própria filha refém, inventando-lhe doenças e limitações sem fim, desde tenra idade até ao dia em que a filha, Gypsy Rose, se revoltou e conspirou para a matar, o que acabou por acontecer em junho de 2015.

Dee Dee convenceu a filha e o mundo de que esta não podia andar, mantendo-a numa cadeira de rodas, que era demasiado fraca para brincar, que tinha leucemia, asma, epilepsia, alergia aos doces, problemas de visão, distrofia, apneia do sono, que tinha de se alimentar por uma sonda, que não podia conviver com outros meninos, que tinha danos cerebrais, que tinha de estudar em casa, rapava-lhe o cabelo dar um ar real à coisa, impediu o pai de ter uma relação com ela... Para além de ser uma das maiores manipuladoras da História com todos estes problemas médicos e muitos mais, Dee Dee apenas deixava Gypsy ver filmes da Disney, vestir-se de princesa, mantendo-a com mentalidade de criança, para parecer sempre criança também por dentro, frágil, débil, inspirando a comiseração dos vizinhos, conhecidos e desconhecidos que enviavam donativos frequentemente.

Para além disso, Dee Dee mentia à própria filha, e a quem perguntasse, sobre a idade real de Gypsy, extendendo ainda mais a mentira. Gypsy não era uma rapariga doente, nem nunca foi, mas é claro que acabou por ficar extremamente traumatizada e socialmente estranha pela maneira horrível como cresceu. Aquando da idade adulta, Gypsy arranjou maneira de se ligar à internet, acedendo a um mundo completamente novo, obtendo também algumas respostas, e é lá que viria a conhecer o seu namorado, com quem conspirou para matar a mãe.

Uma história tão estranha é meio caminho andando para dar uma óptima série, e é realmente estrondosa. Mas para isso muito contribui o duo de actrizes - Patricia Arquette como Dee Dee e Joey King como Gypsy - simplesmente perfeitas, fabulosas, tão fantásticas que já sinto os ecos dos Emmys. O design de produção, que seguiu detalhamente os pormenores, desde a casa onde viviam, até às roupas, maquilhagem, abriu as portas para o elevado realismo da série. A realização e cinematografia são também de ressalvar - tudo isto nos prende ao ecrã desde o primeiro episódio.

Não deixem de ver uma das melhores séries dramáticas do ano. Disponível na HBO.


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Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



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