Palavras do Abismo



Confesso que quando morre um escritor que aprecio me custa mais do que quando se trata de algumas pessoas que fizeram parte efectiva da minha vida e que nela nada, ou só mal, acrescentaram.

Era muito jovem (tinha talvez uns 13 anos) quando li o meu primeiro livro de Luís Sepúlveda - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Esses tempos já lá vão, mas lembro-me de gostar. Lembro-me também de o reler, já em adulta, e dos novos contornos que assumiu dentro de mim. Com o discernimento da maturidade, a história tomou todo um novo peso, e os ecos do respeito e da amizade bateram ainda mais forte. É essa parte da magia dos livros de Sepúlveda - capazes de encantar as gerações mais novas e de tocar os meandros da alma dos adultos.

No início deste ano, numa das idas à terrinha, visitei a estante para revisitar alguns livros que não lia há algum tempo e trouxe comigo o "Diário de um killer sentimental". Um livro completamente diferente, cómico, irónico, e no entanto, como sempre, com uma moral elevada. Quis o destino que o estivesse a ler enquanto Sepúlveda estava a ser diagnosticado com o Covid-19. 

E agora, partiu. Senti uma pequena partícula dentro de mim crescer e manifestar um extremo desconforto. Ele fez parte do meu crescimento e, consequentemente, da pessoa que sou. A minha inteligência emocional é melhor também por causa dele. "O mais português dos escritores latino-americanos", com uma história de vida tão complexa e rica que o ajudou a ser um ser humano melhor. Dizem os amigos que gostava de ser tratado por Lucho. Obrigada por tudo, Lucho. És um dos que vai viver para sempre.




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Em primeiro lugar, devo salientar o mais óbvio. A parecença física entre o actor Jonathan Pryce e o Papa Francisco é assombrosa. Já o havia notado no Game of Thrones (na altura surgiram imensos memes de comparação) e aposto que quem teve a brilhante ideia de fazer este filme foi precisamente porque era necessário pôr o homem a interpretar o Papa. Era o desígnio divino. Até conheço uma pessoa que pensava que o Papa Francisco tinha dado uma perninha como actor. Ele sentiu-se estúpido quando lhe disse, mas aceito o erro. É uma semelhança paranormal.

Feito o aparte, gostei bastante do filme da Netflix que concorre com 3 nomeações aos Óscares - Melhor Filme, Melhor Actor para Jonathan Pryce e Melhor Ator Secundário para Anthony Hopkins. Considero até que não teve (tem) a atenção devida, muito por causa de todo o buzz do The Irishman (imerecido, na minha opinião), também Netflix.

O Papa Bento XVI e o Papa Francisco são, como é do conhecimento geral, pessoas completamente diferentes. O primeiro é conservador, tradicional, e o seu papado esteve envolto em polémicas que abalaram a Igreja católica. Já o segundo, transporta consigo ideias de progresso e perdão, sendo uma pessoa muito mais simples, humilde, aberta, próxima das pessoas.

O que eu não sabia - mas também não acompanho estas coisas de perto - é que no papado de Bento XVI, o Cardial Jorge Bergoglio (que viria a ser o Papa Francisco) lhe havia pedido a reforma. Bergoglio estava decidido, e foram as longas conversas que ambos tiveram que o demoveram. Bento XVI, a quem muitos chamavam nazi e acusado de encobrir crimes graves no seio da Igreja, apesar de tudo prezava muito as qualidades humanas de Jorge e sabia perfeitamente do que o mundo precisava.

No filme são retratadas estas conversas, e outras, e é-nos dado a conhecer o passado tormentoso do Papa Francisco. Assistimos de perto à resignação polémica de Bento XVI e ao processo que elegeu o actual Papa. Testemunhamos a ligação improvável destes dois homens, sendo que isto, para mim, é mesmo o melhor do filme. As situações são obviamente romantizadas, eu sei, mas não deixam de ser baseadas em factos reais. Há até vários artigos que analisam o que é verdade e o que tem uma base de verdade mas que não se passou bem assim.

O que é certo é que dois homens profundamente diferentes em tudo conseguiram sentar-se, conversar, entender-se, rir, criar uma ligação. É uma pequena lição de vida, não é? E no entanto não deixa de ser um filme sobre dois velhos que acreditam numa coisa na qual eu não acredito. E sem explosões, gajas nuas ou reviravoltas de última hora se fez um filme do caraças com uma realização brutal por parte de Fernando Meirelles e dois dinossauros da interpretação.

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Fui com pezinhos de lã ver o Joker ao cinema. Por um lado, odeio filmes de super-heróis. Por outro, adoro o Joaquin Phoenix. Então, fui com expectativas moderadas.

Afinal, não tinha nada com que me preocupar. Não é um filme de super-heróis. É quase uma biografia a um dos maiores vilões da banda desenhada e do cinema. Ao contrário do que estamos habituados com estas personagens saídas dos comics, não há efeitos ou truques na manga. Aqui, o Joker é humano. É o produto da sociedade. Tal como cada um de nós.

O enredo é uma sucessão de eventos que vão acontecendo com Arthur Fleck até ele vestir a pele de Joker. Começamos por conhecer o Arthur palhaço de rua e que trabalha com crianças. Um homem simples, embora resignado, e assombrado pela doença mental. Por ser diferente, a comunidade não o deixa esquecer que ele não encaixa no estereótipo de homem adulto e bem sucedido. A cidade só lhe retorna uma fria indiferença, e até mesmo desprezo, e Arthur acaba por ser consumido pela incompreensão, pela solidão, e tudo descamba quando tudo o que ele acreditava (que já era pouco) acaba por desaparecer.

É claro que o filme não seria a mesma coisa sem Joaquin Phoenix. Nem consigo imaginá-lo de outra forma. E as palavras faltam-me para descrever o que vi este homem fazer no ecrã. Começando pela linguagem corporal, trabalhada até ao limite, até à profundidade do olhar, tudo está perfeito. Tanto que poderia ter sido um filme mudo e seria genial na mesma. Este homem fez um trabalho fenomenal para entrar na personagem e é tudo impressionante. Oscar para o Quim, já!

E depois, o resto... a banda sonora poderosa e super apropriada; o ambiente dark; a fotografia; as mortes fantásticas; as cenas perturbantes, violentas... Não percebo porque é que tanta gente odiou o filme (aliás, até percebo, porque não se enquadra nos típicos filmes fáceis e ocos dos super-heróis) e percebo as discussões sobre quem é o melhor Joker - se o Heath ou o Joaquin), mas seja onde for que se posicionem, esta é uma obra de arte que têm de ver pelo que é e deixar, pelo menos, as comparações de lado. É um dos melhores filmes do ano (senão o melhor, até agora, para mim) e aí não há volta a dar. Lamento, haters. Numa era em que tudo é robotizado, alterado, melhorado, onde a tecnologia é rainha, é uma lufada de ar fresco ter um filme tão humano e uma lenda como o Joaquin à sua frente.

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Árctico é um filme de 2018 protagonizado por Mads Mikkelsen. Pronto, o selo de qualidade está garantido, podemos acabar por aqui. É verdade que o dinamarquês "me encanta", mas o filme é mais do que o Mads. Mas não muito mais, porque todo o peso da trama recai nos seus ombros.

Ele interpreta um piloto cujo avião se despenhou algures no Ártico. Completamente sozinho num cenário branco de neve, suportando o frio imenso, vai sobrevivendo dia após dia pondo em prática as suas skills de sobrevivência. Este é um ponto que diverge dos outros filmes do género. Normalmente, os personagens que se veem nestas situações vão sobrevivendo (ou não) por tentativa e erro, fazendo inúmeras coisas erradas. Aqui, Overgård faz tudo bem, mas não é suficiente. Todos os dias, limpa a área de SOS, carrega um rádio manualmente na esperança de obter algum contacto, verifica os iscos feitos com canas improvisadas com as quais vai apanhando peixe.

Não sabemos há quanto tempo ele está ali, mas a rotina repete-se. Até ao dia em que é quebrada pela queda de outro avião... Dos dois tripulantes a bordo, uma mulher ainda respira. Overgård leva-a consigo para o seu avião caído, trata-lhe os ferimentos, dá-lhe de comer e beber quando ela tem períodos de semi-consciência. Vai falando com ela, mas dado o seu estado grave e diferente nacionalidade torna-se quase um monólogo. Depressa toma consciência de que, para ajudá-la a sobreviver, terá de sair dali. Terá de carregá-la e contar apenas consigo próprio e com um velho mapa para tentar chegar a um ponto onde pensa que conseguirá ajuda.

Assim, puxando um trenó onde carrega esta desconhecida mulher deitada, aventura-se numa difícil e longa caminhada que é uma ode ao homem versus natureza.

A beleza deste filme reside em muitos pontos. Um dos mais óbvios são os cenários fantásticos, o branco sem fim das montanhas, as intempéries, a mãe natureza arreliada. Outro, é, claro, o Mads. Esta tem de ser uma das interpretações da sua vida. Para além de carregar o filme às costas, fá-lo impecavelmente e com um evoluir de emoções que assusta. Começamos por vê-lo resignado, calmo, solitário, mas competente, nas suas tarefas, assistimos ao evoluir da sua empatia por aquela mulher e acabamos por vê-lo numa luta desenfreada e sofrida pela sobrevivência de ambos.

É um dos melhores filmes de sobrevivência que irão ver, dramático, intenso, com uma cinematrografica fantástica, com um Mads de peso, num filme quase silencioso mas que transmite emoções até quando o céu muda de cor...


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José e Pilar eram uma força da natureza - um era as nuvens brancas que passam no céu do outro; o outro era o tronco da árvore, sendo o outro a terra que o sustentava. Apesar de tão diferentes na sua génese, José Saramago e Pilar del Rio eram mais do que um casal, uma equipa - eram faíscas, complementos, eram como o amor deve ser, companheirismo, amizade, compreensão, descartando os estigmas que lhes colaram, a diferença de idade, a nacionalidade diferente; eram duas pessoas que o destino juntou e a prova de que tudo na vida é posto no seu devido lugar, mesmo que venha tarde nos anos.

Este documentário (quase ao jeito de reportagem) de Miguel Gonçalves Mendes é uma ode ao escritor, à pessoa de Saramago, e à sua musa, Pilar, o seu pilar. Eu, que tenho coração de pedra, comovi-me com a simplicidade deste homem e o seu querer dar-se aos outros. Ele, que nunca parou de escrever, que tinha tanto por dizer, e cujo medo era mesmo esse - morrer sem ter largado tudo cá para fora. Se há alguém que merecia a imortalidade, ou pelo menos viver umas centenas de anos, seria Saramago, e tenho a certeza que seria brilhante por séculos, se séculos de vida tivesse. Enfim, a sua obra viverá para sempre e quem nunca o leu está a desperdiçar um tesouro que iria mudar qualquer coisa lá dentro.

Assistimos à importância de Pilar em toda a vida de José, tanto nas coisas práticas como a gestão da sua agenda, como sendo um poço sem fundo de energia que durava e durava, em torno dele, por ele. Fiquei supreendida pelo furacão que é esta mulher, pela sua determinação, força inabalável, pela resposta na ponta da língua, pela humanidade. Vemos a intimidade simples dos dois, principalmente em Lanzarote, lar que escolheram, ilha que os acolheu como filhos da terra.

Vemos também a luta de Saramago por escolher as batalhas certas, testemunhamos a sabedoria de um génio que nasceu de pé descalço na Azinhaga do Ribatejo e que nunca prosseguiu os seus estudos. Vemos tudo isto e agradecemos por os caminhos de José e Pilar se terem cruzado. Por terem os dois existido, por serem o motor de algo tão belo que ultrapassa tudo o que poderia dizer.

O filme José e Pilar (assim como o livro que se seguiu) é uma ode à beleza, poético, imperdível, admirável, arrebatador, que só visto.

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Há 10 anos que os Rammstein não lançavam um álbum. Os fãs desesperaram, ansiaram e muitas unhas foram roídas nesta década. A banda que conheci com a óbvia Du Hast tornou-se numa das minhas favoritas de sempre - às vezes, nos momentos em que me sinto mais íntima com eles, chego a concluir que é a minha favorita. O facto de cantarem em alemão se calhar contribui para isso. Mal os percebo, farto-me menos. Quase tudo neles é simples e por isso tantas vezes são criticados. Isso e por serem provocadores com temáticas menos simpáticas. Mas não é por terem melodias menos complicadas e não tentarem encontrar o sentido da vida nas notas musicais que vou gostar mais ou menos deles. Ouvi-los adequa-se ao que estou a sentir, quase sempre, e por isso sinto-me tão próxima que dói.

Basicamente, não passa um dia em que não oiça Rammstein. Se estou no trabalho, estou quase sempre com raiva de alguém, e oiço Rammstein. Se estou no ginásio e preciso de pujança, oiço Rammstein. Se preciso de marcar o ritmo de uma caminhada com aquele teclado característico, oiço Rammstein. Se quero ouvir a melhor cover de sempre, ponho a Stripped a tocar. Portanto, precisava de novas músicas de Rammstein. Este álbum homónimo, que traz um enigmático fósforo sobre um fundo branco, não se me entrou imediatamente. As duas primeiras, Deutschland e Radio, que foram singles, tiveram videoclip e foram lançadas primeiro, conquistaram-me logo. Isto apesar de não corresponderem às típicas músicas deles. São muito mais dançáveis, combinam na perfeição o industrial e os ritmos que nos fazem abanar o esqueleto - acho até que se podem denonimar de dance metal, digo eu, que não percebo nada de música e dou os nomes que quero às coisas.

Quando o videoclip da Deutschland foi lançado foi o falatório total. Primeiro, porque "brincam com o Holocausto" e blá blá blá, depois porque metem uma mulher negra a parir cães, mas digo-vos, isto é uma produção do cacete, uma obra-prima dos videoclips modernos, um hino ao motivo pelo qual inventaram o filme, um épico dos vídeos de música.



Agora que já ouvi o álbum quinhentas vezes já gosto das músicas todas. Mas há uma, bem especial, que desde o incío me bateu bem forte e é para essa, Puppe, que é o meu destaque. Não é que seja uma música pesada - não é - mas tem ali algo de muito negro. A letra fala de um menino que fica no quarto enquanto a irmã se prostitui no quarto ao lado. Ele tem uma boneca, e na música relata-nos tudo o que está a fazer à boneca para se sentir melhor. Ora eu não sabia isto quando ouvi a música pela primeira vez, e mesmo assim senti o negrume a percorrer-me o corpo. O refrão é um grito de revolta, que até parece sair de tempo. Parece até que o Till se está a cuspir todo. Tem ali muitos diabos a sair-lhe da garganta. É uma música do caraças.


Para mim, o fósforo já pegou fogo.
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