Palavras do Abismo

"Sully", de Clint Eastwood, conta a inacreditável história do voo 1549 que aterrou de emergência e com sucesso no Rio Hudson, depois de perder os dois motores após uma colisão com pássaros, 3 minutos depois de levantar voo. 155 pessoas seguiam a bordo e todas escaparam ilesas. O acontecimento ficou conhecido como o "Milagre no Rio Hudson", que é também o título português do filme.

Isto aconteceu em 2009 e agora Tom Hanks interpreta o capitão Chesley "Sully" Sullenberger, responsável pelo feito. Com o seu sangue frio e experiência salvou a vida daquelas pessoas e tornou-se rapidamente um herói, ainda para mais quando, nos EUA, tudo o que envolva desastres aéreos apela mais ao coração depois do 11 de Setembro.

Gostei imenso do filme. É claro que a história verídica ajuda. O que se passou é inacreditável e as hipóteses de sucesso eram muito reduzidas. E com tantas vidas em jogo, são os ingredientes suficientes para uma fórmula de sucesso cinematográfica. Mas o trabalho de Clint Eastwood foi muito mais do que um relatar dos acontecimentos. Foi a linha temporal escolhida que mais me impressionou, não linear, e mesmo assim nunca perdendo o fio à meada. Nunca apelou à lágrima fácil (coisa que odeio), mas sim à lógica e à elevação natural do homem que se tornou herói.

Tom Hanks é, enfim, Tom Hanks. Ele não sabe fazer pior. Está impecável na pele do homem que "apenas estava a fazer o seu trabalho" e que viu a sua glória ser posta em causa por várias entidades, que lhe quiseram pôr nos ombros o fantasma de uma má decisão. Um dos melhores filmes de 2016.

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Esta não é uma descoberta nova, mas é uma descoberta recorrente. Cada vez que a oiço. Se tivesse a tarefa impossível de escolher a minha música preferida, provavelmente seria esta. A "High Hopes" dos Pink Floyd tem a capacidade única de me tirar do sério, de me arrepiar, de me provocar uma nostalgia melancólica que me chega à medula.

Há décadas que oiço (e sinto) a porra da música e toca-me sempre. Envolve-me numa viagem ao passado, onde o que foi já não volta a ser. Regresso à infância e à adolescência, sinto o sol, os cheiros e os sons dessa altura. Tudo me atinge como um raio de luz, quente, e sinto-me como se estivesse lá atrás durante aqueles minutos onde as minhas memórias são vivas.

"A relva era mais verde", "a luz era mais forte", "o sabor era mais doce", naqueles dias que não tinham fim e onde a idade adulta era um mito tão distante. A guitarra, depois, chora, num solo fabuloso que é a machadada final que me diz que aquelas sensações que vivi são apenas isso, memórias. O tempo passou e afinal as noites que pareciam intermináveis conheceram um fim.

Mas a lembrança não é tristeza. A distância larga dessas memórias é um saudosismo terno e uma certeza irrevogável que existiram tempos inocentes, sem amarras e sem preocupações, em que o mundo era só aquilo mas era todo nosso.  A perda dessa inocência e do desconhecimento é que dói.

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Walter vive na Noruega e na altura tinha 13 anos. Voltava da escola quando lhe apareceram à frente quatro lobos. Lembrando-se do que aprendeu na escola, não desatou a correr, evitando despertar o sentido de ataque dos lobos. O que ele fez foi muito mais original.

Pegou no telemóvel, colocou o som nas alturas e pôs Megadeth a tocar. Os bichos zarparam. Assim, simplesmente. Ouviram o Mustaine, decidiram que era demais e fizeram-se à vida.

Ou os lobos são sensíveis às notas árduas do heavy-metal, ou podem ser fãs de Metallica que não aguentaram o desplante de verem tocados os seus velhos rivais. Seja como for, isto pode ser uma grande descoberta, uma forma "pacífica" de evitar ataques de lobos, visto que enfrentam o risco de extinção e ninguém os quer magoar.

Agora, miúdos, não usem isto como desculpa para terem telemóvel. Se não vivem em locais isolados e remotos, não têm desculpa. Era ver o Martim, de Cascais, a pedir à mamã o favor de lhe dar um novo iPhone para evitar ataques de leões.


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Uma tradição tão bonita dos nuestros hermanos e eu não sabia disto. Aqui ao lado, na Catalunha, os caganers são uma forte tradição de Natal. São pequenos bonecos, sentados, a arrear o calhau, que se colocam no presépio. É habitual fazerem-se caganers com grandes figuras da sociedade, e por isso há bonecos de toda a gente a cagar - figuras políticas como Trump ou Obama; personalidades da música como Freddie Mercury ou Prince; figuras do desporto como Messi ou o Ronaldo; e muito, muito mais. Se existe e é famoso, provavelmente tem a sua figura a defecar.

Que prenda linda. Nada diz "gosto de ti" ou "tenho saudades tuas" como um boneco de cócoras a arrear o calhau, com o cu de fora e a bosta visível e enroladinha. Nada nos aproxima mais de Jesus e do sentimento de paz do que um boneco a cagar. Eu gosto disto. Primeiro, porque representa a vulnerabilidade do ser humano - toda a gente caga, todos se expõem, desde o pobre à rainha de Inglaterra. É algo que nos une, que nos mostra que somos todos iguais.

E depois, porque a merda dá sorte. Não é isso que se diz quando se pisa uma bosta? (Embora eu esteja farta de pisar merda e dinheiro, nem vê-lo). Os caganers têm conta no Twitter. É espreitar e tirar ideias para o Natal. Quem sabe se, por exemplo, aquela sobrinha que está na idade difícil não ficaria deliciada com uma figura do Bieber a deitar tudo cá para fora.









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"Que raio de galimatias, de conversa fiada que isto é! Que quer ele de mim? Raios o partam, também me podia bater na cabeça e deixar-me sem sentidos, matar-me. Para que me dá isto? Qual é o objectivo? Será um teste propositado? Será que me quis baralhar? Já me baralhou completamente."

in Agarra o Dia, de Saul Bellow (1956)

Esta até se percebe pela lógica do texto, mas foi a primeira vez que li tal termo - "galimatia". Portanto, o narrador está confuso e baralhado com a situação, mas nós não temos de ficar:

ga·li·ma·ti·as

substantivo masculino de dois números
Discurso ridiculamente confuso

Conheço tanta gente que só profere galimatias! Conhecesse eu este termo mais cedo e já as tinha posto de sobreaviso. Vou já começar a avisá-las que estão cheias de galimatias, e com sorte pensarão que têm alguma doença grave e deixar-me-ão em paz, pelo menos até pesquisarem no Google.







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Hoje confirmou-se a vinda dos Guns N' Roses ao nosso país, a 4 de junho do próximo ano. Os preços, a partir dos 69€, são um rombo, mas não os considero um roubo, visto que se trata de uma das maiores bandas de sempre, com um dos melhores guitarristas de todo o mundo e arredores e um dos mais carismáticos e únicos vocalistas do universo. E nunca os vi - é um dos a riscar da wishlist!

Tudo isto é muito bonito. Mas também cá vêm os Korn, os Ghost, os Depeche Mode, os Red Hot Chili Peppers, os Foo Fighters, os Moonspell, que também estão no meu top de preferências. Em relação às bandas que não estão no top mas que gostava muito de ver, terei de mencionar os Skunk Anansie, os Aerosmith, Deep Purple, Foals ou Biffy Clyro.

E ainda 2016 não acabou. Muitas mais confirmações estão por vir. Mas porra pá, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Às vezes estamos à míngua sem nada de jeito, e agora é tudo de seguida. Pobres carteiras. E são coisas boas. Ser selectivo com coisas boas é uma treta. Portanto, quem souber de uma maneira rápida de ganhar dinheiro que não envolva prostituição que me dê uma apitadela.

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"Não tenho ciúmes, não me importo que se deite com outras pessoas. Eu faria o mesmo. Se tivesse paciência para isso. Mas fazer sexo dá muito trabalho. Quando conhecemos bem alguém, é mais fácil. Dirigimos as nossas línguas para os recantos certos. Pousamos os olhos nas melhores partes. Sem medo de nos ferirmos nas rugas. Com desconhecidos, andamos relativamente perdidos. Sem mapa. Somos turistas. Não habitamos aquelas pessoas. Estamos de passagem. Não sabemos se a rua por onde andamos é perigosa. Quando habitamos uma pessoa, conhecemos as ruas todas. Não nos perdemos. Não, não tenho paciência para fornicar. Não tenho mapas para me orientar na geografia de um estranho."

in Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz (2016)

O jogo de sedução pode ser desafiador para os mais jovens ou para os permanentemente aventureiros que não resistem aos perigos e palpitações da descoberta. Mas, conforme o tempo passa, dá demasiado trabalho. Se já nos perdemos nas ruas conhecidas de alguém, que também nos conhece os pontos certos, aquilo que gostamos e como nos levará às nuvens, é demasiado penoso e dúbio procurar as mesmas coisas, que já se têm por certas, em desconhecidos.
Resumindo, pôr os cornos pode dar uma trabalheira do caraças. 


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Quando cai um avião é sempre uma merda. A morte é inevitável, assim como as dúvidas em torno do acontecimento. Nos últimos anos têm acontecido alguns acidentes, mas poucos tão chocantes como o de ontem. Por várias razões -

porque estava lá dentro uma equipa de futebol, desporto que nos é tão próximo;

consequentemente, porque eram jovens, atléticos, cheios de energia e vida, e a viver um momento muito especial das suas vidas profissionais, com um percurso fantástico e inesperado até à final da competição para onde se dirigiam;

porque se passou com brasileiros, nossos irmãos, incluindo alguns rostos que conhecemos bem (pelo menos os fãs de futebol);

porque houve sobreviventes saídos daqueles escombros, coisa muito, muito, rara;

porque nesta era, e porque de futebol se tratava, existem montes de fotos, vídeos, celebrações, partilhas nas redes sociais, daqueles jovens, momentos antes de morrerem.

O universo faz cenas maradas e inexplicáveis. Que os jogadores, a equipa técnica, os jornalistas e os membros da tripulação que perderam a vida descansem em paz. O pior, será para aqueles que saíram com vida. Aqueles que vão ficar com mazelas físicas e psicológicas que os marcarão para sempre. Aqueles que irão rever o que se passou, vezes sem conta, quando fecharem os olhos à noite. Aqueles que se perguntarão porque se foram os outros, e não eles. Aqueles que sentirão medo, culpa, saudade. Aqueles que olharão para as tais fotos e vídeos e sentirão facas por dentro a dilacerá-los. Até ao fim da vida.

O mundo chora por vós, Chapecoense.


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Há algum tempo que não ia ver a bola, e uma pessoa apercebe-se que o tempo passa e que está velha conforme fica mais difícil ver a dita cuja. Ora eu, míope e apenas com óculos para ver ao perto, vi-me grega (referência directa ao Mitroglou) para descortinar o que se estava a passar, visto que, como sempre, fico na zona pobre, lá em cima, ao longe, onde o ar é mais frio e as carteiras mais vazias.

Uma pessoa não pode dar parte de fraca quando veste o manto sagrado, logo, passei o tempo a acenar, a dizer que sim e que não, a usar monossílabos e evasivas. "Epá, que entrada dura!" - "Pois foi, pois foi". "Aquilo era amarelo!" - "Hum hum". "Acho que quem vai marcar o livre é o Raul, pelo menos é ele quem está a ajeitar a bola" - "É mesmo!". Resumindo, ou abro a carteira para comprar bilhetes mais perto do campo, ou abro a carteira para comprar uns óculos para ver ao longe. De qualquer maneira, se quero ir à bola como deve ser, tenho de largar o pataco.

Foram papoilas saltitantes, sim senhor, mas desfocadas como se as estivesse a ver através de um vidro embaciado. Confesso que a partir dum certo momento, usei a câmara fotográfica para fazer zoom e ver a coisa como deve ser. Senão teria de mudar o hino - as camisolas berrantes, que nos campos a vibrar, são manchas vermelhas dançantes.


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Esta série, "The Young Pope", é qualquer coisa de extraordinário. Eu já desconfiava que má não podia ser, já que é realizada pelo italiano Paolo Sorrentino, responsável, por exemplo, por "A Grande Beleza" e "Juventude", duas pérolas do cinema. Esta é a sua estreia (e que estreia!) em televisão.

"The Young Pope" é a história fictícia do mais jovem Papa de sempre, que é também o primeiro americano com tal título. É Jude Law quem enfia as vestes do Papa, e nunca antes tinha gostado tanto de o ver num papel. Está abismal, perfeito. Este Papa é tudo menos convencional e tudo o que ele faz e diz é um choque. É ver a Igreja a entrar em pânico cada vez que ele abre a boca, arrependendo-se de o ter escolhido para chefe máximo da Igreja. Já para nós, espectadores, é um mimo. Ao contrário do que a sua idade poderia deixar adivinhar, ele é a presença mais conservadora do Vaticano e vai fazer de tudo para preservar valores e métodos antigos, instalando, também, o medo e a confusão através de meios pouco ortodoxos.

Tudo o resto é também fantástico, desde o argumento, passando pela banda sonora, até à fabulosa fotografia. Tudo é poético, ao mesmo tempo que é também negro, inesperado, chocante. Fica-se de boca aberta, rimos, ficamos colados ao ecrã. Não deixem de ver se tiverem oportunidade - dá no TVSéries.


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