Palavras do Abismo

"Quando vejo crianças deficientes (antes de mais, isto é um feito de Deus, não meu) cantarolando enquanto enfeitam alegremente os cabelos com os seus dejectos malcheirosos, penso em Adão naqueles dias pré-maritais. Eu sei que ele é o vosso tetra-até-ao-gray-n-avô e tudo isso - mas a verdade é que era um imbecil. Passeava-se pelo Paraíso com um sorriso beatífico estampado na cara, satisfeito com um Tudo tão pouco merecido que acabava por ser Nada, tão cheio de uma felicidade irreflectida que bem podia estar totalmente vazio. Apanhava flores. Chapinhava na água. Ouvia o cântico dos pássaros. Rolava nu pela relva luxuriante como um bebé num tapete de pele de ovelha. Dormia de noite com os membros estendidos e a cabeça imperturbada por sonhos. Quando o Sol brilhava, ele rejubilava. Quando a chuva caía, ele rejubilava. Quando nem o sol brilhava nem a chuva caía, ele rejubilava. Adão era o tipo de gajo que só funciona a uma velocidade. Até que surgiu Eva."

in Eu, Lúcifer, de Glen Duncan (2003)

Lúcifer relata-nos o que já sabíamos - antes de as mulheres aparecerem na vida dos homens eles eram apenas básicos. Tanto no Paraíso como na Terra, tanto no princípio dos tempos, como hoje e amanhã. A primeira foi Eva, que lançou o desafio e estabeleceu a fasquia de entusiasmo mesmo não fazendo nada de especial. Limitou-se a perguntar os porquês enquanto Adão rejubilava com os raios de sol na fronha. Que inveja tenho de Adão, tão lento e simples mas tão feliz com as pequenas coisas. Mesmo só tendo uma velocidade, como todos os seus descendentes.


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Anda por aí a circular esta notícia, com um muito falado anúncio de emprego. Trata-se de uma vaga para provedor de chocolates. As redes sociais vieram abaixo, alunos puseram em causa os cursos que estão a tirar e pessoas como eu, atrás de uma secretária o dia todo, começaram a pensar no sentido da vida.

Para mim, deixou de ter. Tive eu tantos anos a tirar um curso e uma década a trabalhar em escritórios para saber, agora, que existe a profissão de provador de chocolates, a quem pedem um "feedback objectivo e honesto", "paixão pela confeitaria" e "vontade de experimentar novos produtos". Peanuts.

Tenho pena da pessoa que está a gerir este recrutamento porque deve ter milhares de milhões de currículos a encher a caixa de correio. E tenho pena também que, por isso, estejam a perder a melhor provedora de chocolates de sempre. Mas também não me apetece emigrar para Inglaterra, por isso fica aqui a minha carta de recomendação para caso alguma empresa portuguesa precise dos meus skills.



Caros,

A maioria dos humanos é feita de água, eu sou feita de cacau e creme de avelãs. Como chocolate desde que acordo até à hora de deitar. Procuro formas saudáveis de o fazer para não ser uma gordurosa nojenta, mas no geral o meu corpo move-se a açúcares.

Consigo dar-vos dezenas de marcas de chocolates, de cabeça, em poucos segundos. Consigo descrever a que sabem, os seus ingredientes principais e a textura. Confesso, há alguns que não me passam pela boca, como chocolate de côco ou com passas, mas de resto é sempre a aviar. E quem diz chocolate, diz bolos, crepes, sobremesas, gelados ou bonbons.

Já andei horas a pé quando tinha o carro avariado para ir buscar um bolo brigadeiro, que me deu o desejo. Já andei a fazer vaquinhas no trabalho por não ter moedas e me apetecer sacar desesperadamente um Kit Kat da máquina. Quando há aniversários na empresa, peço a quem sei que está de dieta para lhes ficar com a fatia do bolo. Uma vez comi seis porque ainda me entregaram as sobras e tive diarreia, mas valeu a pena. Há quatro anos atrás tinha 13 cáries (obrigada à CUF de Alvalade, foram incansáveis, mas também paguei-vos a reforma).

Não me vou alongar mais, só queria passar a mensagem que sou doida por chocolate e ele é louco por mim, porque fui abençoada com o mais belo requisito de todos e que vocês não mencionam no vosso anúncio - mas deviam: como que nem uma besta e não engordo. Viva!

Cumprimentos,
Regina Twix M&M. Snickers, que vai ser encontrada morta numa overdose de açúcar.



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Tinha chegado a casa para o almoço de Natal, e apesar de ter chegado bem cedo, já estavam todos a acabar de comer. Mal entrei na divisão, todos se calaram, desviaram o olhar, evitaram-me e foram-se levantando, saindo da sala.

Enquanto pousava sacos e despia o casaco fui ficando sozinha até não sobrar ninguém. Deambulei pela casa a ver se descobria o que se passava, a razão de tanto mal-estar pela minha pessoa ao ponto de me deixarem a falar sozinha depois de eu ter feito tantos quilómetros. Nisto, num dos quartos, encontro um amigo a dormir. Acordo-o, e ele, sobressaltado, pergunta se está atrasado para o Natal. Noto-lhe uma certa ressaca e explico-lhe pacientemente o que se estava a passar.

Tal como eu, também achou estranho que todos tivessem ido embora sem dizer palavra. Fomos andando pela casa, que é enorme e envidraçada (não sei onde o meu subconsciente foi buscar a ideia de que a minha família teria dinheiro para uma casa destas) e depressa descobrimos que todas as portas e janelas que dão para o exterior estão trancadas. Mau maria...

Para piorar a situação e dar aquele toque de surrealidade, apercebemo-nos da presença de pequenas criaturas lá fora, que se vão aproximando devagar, espreitando por entre a folhagem do jardim com uma cara muito séria. São crianças índias com ranho na cara, todas vestidas com a camisola do Celtic de Glasgow. Têm ar de más, muito más, têm bastões, paus, e facões nas mãos, e cheira-me que não nos vão deixar sair dali com vida. Mas felizmente acordei, e com vontade de visitar a Escócia.


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Lovage é um dos milhares de projectos onde o talentoso Mike Patton (Faith no More) deu o seu contributo. Foi lançado apenas um álbum em nome dos Lovage, em 2001, onde participam também Jennifer Charles e o mentor do projecto, Dan the Automator.

Vê-se que é um álbum feito por pessoas que adoram música e que são para lá de talentosas. Até o nome é espirituoso - Music to Make Love to Your Old Lady By - sugestivo e muito adequado. Fiquei fã do projecto e gostava de o ter conhecido há mais tempo, mas só agora o Spotify achou que eu ia gostar.

Esta música que escolhi para mostrar, Book of The Month, foi a primeira que ouvi e é a minha preferida. Tem o ritmo de uma música para fazer o amor mas tem uma letra super cómica e irónica, que começa por falar de germes e doenças (não deixando por isso de ser coisa séria e com uma musicalidade fantástica!). Ora ouçam.

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Denzel Washington e Viola Davis são um duo fantástico no filme "Vedações". Ambos têm prestações ao nível do melhor que fizeram nas suas carreiras, e isso mereceu-lhes a nomeação aos Oscares de Melhor Actor e Melhor Actiz Secundária.

Relativamente ao filme, é uma história bem dramática passada na América dos anos 50, onde as diferenças de tratamento racial são bem prementes. A trama acompanha uma família negra na qual Troy (Denzel) é o patriarca e Rose (Viola) a sua esposa. Troy tenta educar os filhos e sustentar a família do jeito que sabe melhor, mas o seu julgamento e as suas atitudes são algo retrógradas.

Apesar de se achar superior, como homem, devido às dificuldades que teve de ultrapassar, ao tempo que passou na prisão, e à superioridade física que teve por ter sido atleta, ele não é de todo o exemplo que acha que é, tanto para os filhos (um de cada mulher), como para a esposa. Isto dá origem a alguns confrontos e diálogos tempestuosos que tornam as situações cada vez mais tensas conforme o filme vai avançando.

É uma grande película, mas penso que é aqui que o filme peca. Achei estes diálogos longos demais e portanto um pouco afastados da realidade. Não obstante, as prestações do duo referido são colossais. Já estava fã da Viola Davis depois de "As Serviçais" e da série "How To Get Away With Murder" e agora ainda fiquei mais. Quanto ao Denzel, dispensa apresentações.


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O Yom Kipur é uma das datas mais importantes do calendário judaico e traduz-se como o Dia do Perdão. Não vou falar sobre os contornos religiosos da data, que não sou conhecedora o suficiente - o que importa é a forma como é comemorado em Israel.

Neste dia, em que é suposto ser-se perdoado pelos pecados e liberto dos bens que agarram a alma, o país pára. Não há carros nas ruas e não há transportes públicos (nem aviões). Não há transmissão na rádio, nem sequer emissão de televisão. Está tudo fechado. As pessoas vão para as ruas, passeiam, aproveitam o dia, andam de bicicleta, convivem, respirando bem o ar que, nesse dia, melhora de qualidade em 99%.

Apesar de não haver uma lei que proíba os carros de circular o respeito é quase total. As auto-estradas e vias parecem um cenário do The Walking Dead antes de chegarem os zombies.

Há outras coisas que os israelitas não fazem neste dia e que não me parecem tão bem - como não tomar banho, fazer sexo, nem usar desodorizante - mas, pesado tudo na balança, adorava ter um dia assim. Um dia sem ouvir carros, buzinas, travagens, insultos no trânsito, sem stress, sem trabalho, sem estímulos externos que distraiam a mente. Apenas nós, o sol, o mundo, um livro, e ouvir os pássaros. Quem me dera.

PS: aprendi sobre este dia no livro "Sete Anos Bons", de Etgar Keret.










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Vi o filme "Arrival" e posso dizer que as 8 nomeações aos Óscares são totalmente merecidas. Aliás, até podia ter mais (Amy Adams como Melhor Atriz), mas a Academia assim não o decidiu.

Nem vou falar da cinematografia, fotografia e realização - são brutais mas impossíveis de explicar. Só vendo. Falando apenas da história, que trata da chegada de aliens ao nosso planeta através de 12 naves espalhadas pelo mundo, é incrível como a premissa principal - o propósito dos aliens na Terra - é tão bem elaborada. É claro que não vou dizer qual é - acompanhar esse processo com a dupla de protagonistas é uma grande experiência.

Adorei a parte da comunicação com os extraterrestres, é totalmente inovadora e algo nunca antes visto. Até o seu próprio aspecto é genial e inédito. O que mais me marcou foi mesmo a questão da linguagem. O modo como é descodificada, aos poucos, para se poder perceber o que eles estão a tentar dizer, até se encontrarem pontos comuns, é soberbo.

É a primeira vez que gostei tanto de ver Amy Adams, talvez por, finalmente, ter um papel "humano", de uma pessoa normal e sem merdas. Está fantástica e destaca-se claramente. Só pelo facto de um filme de ficção científica estar nomeado, coisa rara, já podem perceber que coisa boa é de certeza. Podem confiar em mim e ver, garanto que odiar, pelo menos, não vão.


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No fim de semana cheguei à terrinha e barrei uma fatia de pão alentejano com manteiga corada. Saí de casa para dar uma voltinha com um amigo e uma gaivota doida varrida fez-me uma razia à cara que até lhe senti o bafo a peixe. Continuei no meu andamento e uns metros mais à frente a puta da gaivota faz-me um voo picado e rouba-me a fatia de pão. Ainda fiquei uns segundos agarrada ao guardanapo e a interiorizar o que se tinha passado, até que gritei A GAIVOTA ROUBOU-ME O PÃO!

Para além da risota que foi para o meu amigo, ia um velhote pescador atrás de nós que não se inibiu de também ele gozar comigo à gargalhada. Um "AH AH AH" em voz grossa foi proferido sem vergonhas, e ainda me presenteou com a história de uma senhora que no dia anterior, no mesmo sítio, lhe tinha acontecido o mesmo mas com um chocolate.

Já em casa, a minha mãe (que também se riu à grande na minha cara e disse que pagava bom dinheiro para ter assistido à situação), garantiu-me que já é um hábito, que as gaivotas andam malucas, e como ao domingo a lota está parada e não há peixe, roubam os traseuntes.

Vocês tomem cuidado. Hoje, é uma fatia de pão, amanhã podem ser as vossas carteiras (para ir comprar pão). Ou podem ser os vossos globos oculares ou parte de uma orelha. Já não se anda seguro em lado nenhum.

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Tenho uma vizinha na casa dos 60, viúva de há muitos anos, e que recentemente perdeu também um namorado para o maldito cancro. Há dias encontrei-a, feliz novamente, e lá me explicou os seus amorosos motivos. Tinha conhecido outro homem num cruzeiro e estavam a namorar.

E garantiu-me: "quem acha que o amor é diferente aos 20 ou aos 60 que se desengane. Amor é amor. Podemos conhecer-mo-nos de maneira diferente e viver uma relação diferente, mas as borboletas na barriga são as que eu me lembro de ter quando era jovem. Isso não muda. Eu julgava que o amor tinha acabado para mim, mas meti na cabeça que não havia de parar de fazer coisas, viajar, entreter-me e olha, foi exactamente num cruzeiro, a laurear a pevide, que o fui conhecer".

Contou-me mais sobre ele, que é algarvio, que adora estar com ele na casa de Quarteira e poder acordar e olhar para o mar junto dele. E garantiu-me que, seja também em que idade for, aquela fase do início da relação, em que se estão a conhecer, a impressionar o outro, a fazer surpresas, é a melhor. No dia anterior ele tinha feito centenas de quilómetros para a surpreender e tomar o pequeno almoço com ela. E a alegria dela, e o orgulho dela, o brilho no olhar, fizeram-me escrever este texto.

Não sou muito do amor (nada) nem de sentimentalismos, mas fico contente pelos outros, especialmente pelos mais velhos que não se deixam abater depois de uma vida de adversidades. Quem me dera continuar sempre assim, a cair e a levantar-me, como ela, sem parar nunca, porque parar é que é morrer. E apesar de não estar num início de uma relação, fico contente por ainda ter as borboletas sempre que o vejo, sempre que andamos à porrada ou a gozar um com o outro (isto há muitas formas de amar). Quando não me mói o juízo com merdas, claro.




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"(...) mas deviam ter tentado dizer-me isso quando aqueles primeiros cinco botões de percepção se abriram para o tecto bolorento e para aquele ar com cheiro a peúgas, para o sabor a ferro e a esgoto, para a banheira oleosa com água acastanha, para aquele solilóquio desconsolado de sussurros e ruídos."

in Eu, Lúcifer, de Glen Duncan (2003)

Ora enquanto Lúcifer devaneia neste livro engraçadíssimo contado na primeira pessoa, foram aparecendo muitas palavras novas, inclusive este "solilóquio". Apesar da estranheza o seu significado é muito simples:

so·li·ló·qui·o
(latim soliloquium, -ii)
substantivo masculino
Acto de falar sozinho. = MONÓLOGO

Faz todo o sentido. Aliás, todo o livro é um grande solilóquio. Que palavra engraçada e que vou poder aplicar tão facilmente.


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