Palavras do Abismo

Há uns dias atrás ia com o meu cunhado no carro a cantar (gritar) System of a Down a todo o vapor. Gritámos metade de um álbum a exorcizar demónios, até que a faixa mudou e dei por mim a gritar sozinha. Olho para o lado e lá estava ele com a cabeça a pender, boca aberta, perdido no sono. "Foda-se", pensei. "Como é que alguém consegue dormir num carro em andamento, durante o dia, com os System of a Down nas colunas e comigo ao lado a gritar?"

Eu sou aquela pessoa que só consegue dormir na própria cama, com a janela fechada, as persianas corridas, sem sons, sem mais ninguém presente, e só depois das 23h. Se passa um carro mais depressa na rua, acordo. Se os gatos miam, acordo. Se o meu namorado dá um peido no quarto ao lado, acordo. Quando o sol aparece, acordo. Se tenho xixi, acordo. Se algum bêbedo grita na rua, acordo. E não volto a adormecer.

E até que adormeça estou uma horita a dar voltas e voltas. Penso no que tenho de comprar no supermercado. No que tenho de fazer no trabalho no dia seguinte. No livro que estou a ler. Na série que acabei de ver. Nos problemas do mundo. Nos meus problemas. Nos animais abandonados. Na roupa que tenho para passar a ferro. A minha cabeça não tem descanso. Bem contado, durmo umas 5 horas por noite nos dias melhores. Estou a perder anos de vida.

Tenho inveja de poucas coisas na vida, mas a principal é a inveja que tenho de quem consegue dormir em qualquer lado, em qualquer lugar. Que sorte é poder fechar os olhos e desligar completamente quando se quer. Que maravilha. Quem me dera.

Nunca dormi num transporte - carro, avião, autocarro, comboio - nunca! Nem na praia ou no campo. Quando viajo, tenho de tomar comprimidos para a rinite para adormecer noutra cama (dão uma grande moca). Quem tem essa capacidade não sabe a sorte que tem. É de certeza uma das razões pelas quais tenho mau feitio. E que me faz não bater muito bem da mona.


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Vá, admitamos: cerca de 70% das reuniões são inúteis. Algumas vezes fazem sentido e são proveitosas, mas a maioria serve para certas pessoas parecerem ocupadas - aquelas que passariam o tempo a coçar o colhão não fossem estar extremamente ocupadas a passear o computador de sala em sala, qual formiguinhas trabalhadoras sem propósito na vida.

É uma completa perda de tempo - os assuntos abordados ficariam resolvidos, ou resumidos, apenas com um e-mail, que até é uma melhor forma de resolver a questão, porque fica tudo por escrito e chega a toda a gente. Aliás, muitas vezes há e-mails pré-reunião, reuniões preparatórias da reunião principal, resumo desta por e-mail, a dita reunião, o e-mail de resumo da reunião, a reunião de ponto de situação e respectivo e-mail, e assim se vão perdendo horas daquilo que estamos cá para fazer - trabalho. A cena real. O ganha-pão.

Nunca vi ninguém fazer tantas reuniões como o tuga. O tuga gosta de se pré-preparar para a preparação e de falar sobre isso com os seus pares. Mas no fundo, quando a crise chega, nunca o está. E é por isso que eu quero esta tshirt:


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No meu trabalho é raro o dia em que chego à casa de banho e digo "benza-te deus". O cheiro a peido misturado com perfume é uma constante que me dá vómitos, mas não é o pior. O pior é querer mijar e todas as cabines terem uma surpresa.

Há senhoras que não querem poisar o seu lindo e limpo traseiro na sanita. Tudo muito bem, respeito. Só que estas porcas devem mijar-se de cócoras e das duas uma: ou têm um chuveiro no lugar da rata, que dispara para todos os lados; ou não aguentam a posição de cócoras e começam aos tremeliques, criando o tal efeito de chuveiro na mesma.

Portanto, o cenário com que me deparo quando quero vazar a bexiga é o de um tampo completamente mijado, assim como o chão, que às vezes, se tivermos sorte e nos calhar o Kinder Surpresa, ainda pode conter umas pingas de sangue. E pode-nos calhar o Kinder Surpresa duplo, que é quando cagaram, também, e não quiseram pôr o seu dedo limpíssimo no autoclismo.

E depois deste pandemónio não há nada como puxar a calça para cima e bazar. O próximo que se foda. Ou a empregada de limpeza há-de chegar entretanto e limpar o cagalhão alheio.

Se não querem poisar as bordas na sanita, forrem-na com papel, ou usem o desinfectante, que está mesmo ao lado. Só que estas porcas nunca devem ter limpo nada na vida, nem a sua própria rata que deve ser lavada uma vez por semana pelas empregadas lá em casa.

Porcas do caralho armadas em finas! Já mijei em feiras e festivais com sanitas mais limpas!






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Vamos admitir: quem tem gatos sabe perfeitamente que são eles os reis da casa. Tirem o cavalinho da chuva - podem ser vocês os seus 'donos' mas servem apenas para os servir. Aquelas ingratas bolas de pêlo fofinhas. E por isso, a Made for Pets criou esta cama para felinos inspirada no Game of Thrones. Faz sentido, já que eles são os protectores dos Sete Reinos da casa, livrando-nos de insectos e afiando as unhas nas visitas indesejadas.

Olha lá que majestosos eles ficam. Escolhi esta foto porque o gato é igual ao meu gordinho, e claro, tal como o meu gordinho, foi rapidamente expulso.

 



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Olhó pequeno pug fresquinho! Feito em ponto cruz, disponível e prontinho a entregar a novo adoptante numa moldura cor de rosa bebé 10x15cm.


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"Que ideia genial e omnímoda o mundo tivera para o tornar naquilo, que partida sublimemente colossal!"

in A Mancha Humana, de Philip Roth (2001)

Então, mundo... Estás bêbedo? Tiveste uma ideia omnímoda? Mas que raio é isso? O Priberam responde:
om·ní·mo·do
adjectivo
1. Que é de todos os modos ou géneros.
2. Ilimitado, sem restrições.

Bestial. Agora já sei que a minha impaciência, a minha raiva e a vontade de bater em várias pessoas é omnímoda. Já passo por intelectual. Com um parafuso a menos, mas intelectual.


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Sempre fui um bocado reticente em relação à Sónia Tavares - a sonoridade dos The Gift, apesar de no passado ter sido fã do primeiro álbum - tem vindo a evoluir numa direcção que é mais electrónica e pop do que os meus gostos habituais. Por isso, desliguei-me da banda e deixei de prestar atenção.

Até que no dia 13 os vi ao vivo, e há que admiti-lo - a sua voz com rédea solta é qualquer coisa. É boa em estúdio, mas ganha uma dimensão ao vivo capaz de agarrar os mais reticentes (como eu), com uma personalidade poderosa e saltitante em palco trazendo toda a gente para o mesmo comprimento de onda. A voz dela ganha asas e atinge-nos de frente como um comboio com aquele timbre único, inconfundível e algo masculino.

Para além da Sónia acabei por me render a toda a banda. Eles sabem fazer a festa. Vê-se que adoram o que fazem, entregam-se para nos fazer também felizes.

Todas as fotos aqui.

Sónia Tavares The Gift
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Pois é. Tinha ele 12 anos e tinha ido ao Columbia Auditorium com um amigo, em busca de pipocas e doces grátis. Quando saiu, a sua bicicleta vermelha e branca não estava onde a tinha deixado.

Desolado, procurou um polícia e disseram-lhe que estava um na cave do edifício. E lá encontrou Joe Martin, o polícia que era também treinador de boxe e que dirigia um centro de treinos naquela cave. Muhammad (então Cassius) manifestou a vontade que tinha de bater no ladrão, e Joe disse-lhe, cheio de sabedoria, que era melhor que antes aprendesse a lutar.

Foi seu treinador durante 6 anos. Por causa de uma bicicleta roubada e das roldanas do destino todas alinhadas, naquele momento nascia uma lenda.


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Kasatka morreu no passado dia 15 de agosto. Foi finalmente eutanasiada - estava doente desde 2008. No entretanto, foi usada como parideira e como entretenimento mórbido para quem a quisesse ver no SeaWorld de São Diego.

Foi capturada muito jovem - mal teve tempo de conhecer o oceano. A sua casa. De onde os humanos sedentos de dólares a tiraram sem se importarem minimamente com o seu bem-estar. Passou do interminável oceano, cheio de sal, espaço, alimento, liberdade, para um tanque. Teve filhos, e foi-lhe administrado Valium para aguentar a perda dos que foram transferidos para outros tanques...

Quem pagou bilhete para a ver, e às outras orcas, no SeaWorld, alimentou uma das indústrias mais negras - a do cativeiro. A que, por meros minutos de entretenimento, priva os animais de uma vida em pleno. Em nome do dinheiro, apenas e só. É apenas mais um passo na direcção da destruição do planeta - das espécies, dos habitats, e da alma humana. Os animais não estão no mundo para nos arrancar umas palminhas, e isto tem de acabar.

Quem leva as criancinhas ao Zoomarine ou aos espetáculos de golfinhos do Jardim Zoológico está a fazer precisamente o mesmo. Para vossa informação, os golfinhos não estão a sorrir. Assim parece, mas é apenas a sua fisionomia. Eles pertencem aos rios e aos mares, e vivem numa piscina. Desenganem-se os que pensam que ali eles são felizes - são apenas escravos. Podem argumentar que são bem tratatos, alimentados, que têm os cuidados de saúde de que necessitam, que para eles vai dar ao mesmo. São prisioneiros, palhaços aquáticos num circo falso que só faz feliz o estúpido humano.

Respeitem a natureza, respeitem os animais, respeitem o planeta. Não colaborem com uma indústria que, como todas as outras, só quer o vosso dinheiro. Só que aqui estão vidas em jogo. Vidas de quem não quer ter nada a ver com a nossa sede de poder.

Descansa em paz, Kasatka, e todos os animais que morreram às nossas sedentas mãos, em cemitérios coloridos disfarçados de sorrisos.
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Imaginem o seguinte cenário: num futuro distópico, a poluição e os desastres ecológicos tornaram-se tão imensos e com consequências tão graves, que as mulheres deixaram de ser férteis. As que ainda conseguem ter filhos são uma minoria, e tornam-se no bem mais precioso do planeta. E, como tudo o que é valioso, acaba por ser pervertido e vendido.

Com a tomada de posse de um governo totalitário com bases religiosas, estas mulheres são raptadas, separadas da sua família, passam a ser propriedade do Estado e levam com uma lavagem cerebral com o objectivo de quererem parir filhos para os outros, de forma a contribuírem para o bem maior. São colocadas nas casas de casais abastados com o único objectivo de fornicar com os maridos, sob o olhar e aprovação das suas inférteis esposas, para lhes dar filhos e continuar a popular o planeta.

Portanto, a mulher torna-se num objecto, numa parideira que não tem escolha sobre o seu ventre e que tem de entregar o seu fruto a outra família, sem olhar para trás. Mas, claro, a consciência está lá, a dor, o sofrimento, a escravidão sexual disfarçada com outro nome.

Há uma realização fabulosa, actores e actrizes fora de série, uma fotografia gigante, uma banda sonora fantástica, e todos os episódios, sem excepção, são de fazer cair o queixo. Para além disso, é daqueles cenários que pode facilmente acontecer. É assustador pensar nisso, mas seja daqui a 50 ou 500 anos, estou convicta de que a infertilidade vai impedir o ser humano de destruir completamente o planeta...

É pesada, íntima, forte, visionária, genial, e é, para mim, uma das melhores séries do ano, senão a melhor. A primeira temporada tem 10 episódios - devorei-os de seguida - e foi renovada. Oh joy!


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