Palavras do Abismo

É uma notícia que passou ao lado de muita gente. O governo vai distribuir mais de 100 toneladas de açúcar para alimentar abelhas sobreviventes dos incêndios. De acordo com os comentários que li isto é impopular, porque "primeiro estão as pessoas", e não sei se ria se chore.

Para estes génios que estão em primeiro lugar no topo da evolução, informo que sem abelhas não há pessoas. E elas já estão em perigo. Logo, nós estamos em perigo.

As abelhas são as maiores responsáveis pela polinização e, logo, pela reprodução e perpetuação das espécies vegetais. São elas as maiores obreiras das florestas e das culturas agrícolas. Para os espertalhões que dizem não comer vegetais e que querem é hambúrgueres, lembrem-se do que comem as vaquinhas. Sem abelhas, não há hambúrgueres. Não há nada.

Já dizia o Einstein, esse gajo com mania que era esperto, que sem abelhas o humano desaparecerá da face da terra em menos de 4 anos. E elas já estão a desaparecer, devido às catástrofes climatéricas e ao uso de produtos tóxicos na agricultura. É mais um tiro no pé da raça humana.

Por isso, tiro o chapéu a esta medida. Para os que entendem que a prioridade devia ser dada ao ser humano, aqui está ela. Ajudar as abelhas é ajudar todos nós - a reflorestação das nossas zonas ardidas e termos comida na mesa depende destes insectos completamente desvalorizados.


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Este não é um daqueles exemplos que parecem distantes geograficamente e que por isso podem parecer fantasia - a dona Palmira Cruz tem 100 anos, é de Linda-a-Velha, e vai ao ginásio 5 dias por semana. A sua saúde mental e física é invejável. Ela encontrou no ginásio um escape depois da morte do marido e é um exemplo para as gerações mais jovens (mesmo que isso signifique acima dos 70 anos!). Há pessoas que encontraram nela um exemplo e uma força para elas próprias fugirem à inércia e à solidão da terceira idade.

A mulher que assistiu a duas guerras mundiais não tem filhos, mas adoptou como sua a filha da madrasta que morreu bem cedo. Apesar de ter esta filha e "netos emprestados", prefere morar sozinha e faz quase tudo sem ajuda - tem apenas uma empregada uma vez por semana que faz os trabalhos mais difíceis. De resto, cozinha, limpa e vai ao ginásio como gente grande.

Sendo uma solitária que adora desporto, revejo-me totalmente nesta senhora, e quem me dera poder chegar a esta idade, se tiver esta destreza, genica e clareza das ideias. Dona Palmira, você é grande!

Conheçam aqui a sua história.


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"Mesmo assim, seca-me a boca e emborco uma cerveja para me dessedentar."

in Todos os Pássaros do Céu, de Evie Wyld (2014)

Eu sei, eu sei. Esta tira-se pelo sentido mas pareceu-me rebuscada e arcaica o suficiente para merecer menção. Ora: 

des·se·den·tar 
verbo transitivo e pronominal
Matar a sede a alguém ou a si próprio. = REFRESCAR, SACIAR

Fácil! Tão simples como tirar a sede. Assim, quando virem alguém a beber água, digam-lhes que estão a dessedentar. Quem sabe se não irão ficar com a pulga atrás da orelha e marcam uma consulta...


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Sabemos perfeitamente quem é o pai de quem, mas não deixa de ser engraçado. Este bastidor em ponto cruz foi pedido por uma amiga fã de um dos maiores vilões de sempre, e aqui está ele, um Darth Vader cheio de piada.


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Este podia ser o slogan do Texas, onde é mais fácil ter uma arma do que terminar o secundário. O último ataque que vitimou dezenas de pessoas numa igreja é só mais uma demonstração da estupidez que assola o país das maravilhas bélicas. Ser portador de armas numa igreja, para começar, é legal. Porque nunca se sabe quando será preciso provar a fé derramando sangue por Cristo, porque o vinho é overrated.

O filho da puta é um "atirador", portanto, nada de terrorismo aqui, de acordo com a Comunicação Social. Mais um caso isolado a juntar a inúmeros outros debaixo do tapete. Estes casos isolados ultrapassam em muito os movidos por ideologias políticas, os chamados actos de terrorismo que se diferenciam pela cor da pele, basicamente.

O presidente Caca-Trump veio dizer que o problema não são as armas, é a doença mental. Pois claro. As armas não se disparam sozinhas. Pobres delas. O facto de uma pessoa com problemas mentais poder aceder a armas mais rapidamente do que comer um Big Mac é um dano colateral, e pelos vistos vale a pena correr esse risco. Quando o Caca-Presidente é patrocinado pela NRA, a única coisa que podemos pedir é que todos os casos de risco sejam detectados rapidamente para assim se poder evitar a tragédia - um cenário completamente digno do mundo do Dr. Seuss.

Todo o derramamento de sangue é lamentável. A diferença de tratamento de quando se trata de um crime político motivado por pessoas de outra etnia ou um destes casos em que um branco católico é o culpado é inaceitável. É preciso agarrar todos os problemas pelos cornos, e não só aqueles que vêm do Médio Oriente. O terrorismo interno é uma realidade, as mortes são reais, as famílias inteiras dizimadas são igualmente reais. Mas faltam os tomates para fazer alguma coisa. Quando é para limpar merda, começa-se dentro de casa...




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"Wind River" (2017) é um filme protagonizado por Jeremy Renner, que interpreta um experiente caçador no controlo dos animais selvagens numa longínqua reserva nativo americana. Num cenário completamente branco, frio, repleto de neve, ele descobre o cadáver de uma rapariga de 18 anos que conheceu toda a vida. Depois de chamadas as autoridades, aparece uma inexperiente, mas dedicada, agente do FBI, que, apesar da sua inadaptabilidade àquelas terras inóspitas, vai interessar-se verdadeiramente em saber o que se passou.

O caçador, veterano em seguir pistas, e a agente, formam então uma parelha que vai perseguir a verdade, apesar de o caso não merecer a devida atenção por parte dos superiores. Somos inseridos numa investigação difícil que acompanhamos desde o momento em que a rapariga nativa americana aparece morta no meio da neve, descalça e pobremente vestida, a 8km da casa mais próxima, até descobrirmos o que se passou, que será revelado em duas cenas finais de tirar o fôlego.

Isto é baseado em factos reais e uma das premissas do filme é chamar a atenção para isso mesmo - o facto de não ser dada a devida atenção às comunidades nativo americanas, onde, em particular, imensas raparigas desaparecem sem deixar rasto e não há o menor interesse das autoridades no assunto.

Os cenários são fantásticos, onde o branco predomina e as intempéries não perdoam, dando uma aura melancólica ao filme, que, emprestada à banda sonora composta por Nick Cave Warren Ellis, o tornam numa obra sublime que ultrapassa o argumento.

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"A pastorícia e a agricultura iam dando o que fazer e o que comer e ficavam por conta de Deus, que não raro passava longas temporadas sem enviar sinais que recompensassem a devoção bem espelhada em romarias e procissões marcadas no calendário e nas constantes louvaminhas em altares de grande riqueza na entrega e pobreza nos artefactos.

in O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais (2012)


Eu louvaminho, tu louvaminhas... Nunca tinha ouvido tal expressão, mas vamos lá:


lou·va·mi·nhar
(louvaminha + -ar)
verbo transitivo
1. Louvar excessiva e afectadamente.
2. Lisonjear.

Parece-me palavra adequada ao contexto. Louvar a um Deus pode efectivamente tornar-se excessivo e obsessivo. E há quem louvaminhe em volta dos chefes, a ver se cai mais um euro; e louvaminhar gajas boas também, mas aí custa mais do que um euro. Louvaminhem, mas moderadamente!


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Quem acompanha o The Walking Dead conhece bem este taco de nome Lucille, sedento de fazer vítimas! Negan é o seu dono, e "Eeny meeny miny moe" foram as suas palavras quando uma das personagens mais queridas da série acabou por levar com a sua fúria e ficar com o crânio esmagado...

E como é um momento fofinho, mereceu esta aplicação fofinha em ponto cruz num bastidor de madeira pronto a pendurar, que já tem uma fã da série como dona.


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Este 'senhor', Neto de Moura, que deve ser um encornado de primeira, foi o homem que justificou a agressão sofrida por uma mulher por ter encornado o seu esposo. O juíz citou a Bíblia, esse guia das almas que todos nós seguimos à risca, para atenuar a situação do cabrão que afincou na mulher.

Diz ele que "o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem". É. Realmente uma traição deita a pessoa visada abaixo, dá-lhe cabo da confiança, mas pelos vistos só os homens é que sofrem desse despudor. Os homens são uns santos que têm sempre a sua esposa em alta consideração. Não há qualquer registo que alguma vez um homem tenha posto os cornos à mulher. Nunca. Nenhum de nós sabe de casos desses. Mas, mesmo que se saiba, o homem é aquele macho com necessidades sexuais impossíveis de agradar e que tem de recorrer inevitalmente à patareca fora de casa.

Diz ainda que "Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de delapidação até à morte." E esse é o exemplo das sociedades que queremos seguir, seu anormal! Queremos que as mulheres andem tapadinhas só com os olhos de fora, e que não tenham direito a estudar e a trabalhar, queremos que sirvam como repositório de esporra e sejam parideiras, queremos que se calem e acatem tudo! Que sejam violadas sem direito a dizer um pio, que sejam atacadas e assediadas na rua, nos transportes e em casa! Que mundo perfeito!

Mais uma nota - "Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte." Sorte dessa puta que só levou umas marretadas no focinho. Castigo bem leve. Devíamos seguir a Bíblia mais vezes, e assim podíamos vender as filhas como servas, seríamos poligâmicos, teríamos de casar virgens, teríamos direito a ter escravos, faríamos rituais com sangue, matávamos prostitutas à pedrada e as mulheres com o período ficariam em casa durante uma semana. Parece-me bem, hein?

Este senhor é um papalvo que ficou preso num século que nem o viu nascer. Não há nada que justifique a violência num casal. Este juíz de merda derrama para o chão séculos de evolução e pisa em cima. Bronco do caralho, nojento de merda.


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"1922" é um filme acabinho de sair na Netflix, baseado num conto de Stephen King. E tal como em tudo o que o meu mestre faz, fui ver logo a correr.

A ação passa-se nesse ano. Wilfred James vive com a mulher e o filho no campo, onde o casal tem terras e planta milho. Acontece que essas terras pertencem à mulher. Agora que o pai dela faleceu, ela pretende vender as terras e rumar para Omaha, a cidade grande, onde sonha abrir uma loja de roupa.

Ora Wilfred e o filho não ficam nada contentes com esta pretensão - não querem abdicar da vida no campo, que é tudo o que conhecem e que adoram. Perante a intransigência da mulher, elabora um plano para a matar - a única solução possível para a sua vida permanecer tal como é.

Mas, claro, nada é simples. É a culpa que ataca, é a vida que não volta a ser o que foi, é o deteriorar da relação com o filho, é tudo a desmoronar, são os sonhos a cair por terra, tal castigo divino a entrar em ação. Vemos a arrogância e a certeza transformarem-se em arrependimento e desilusão de forma magistral.

Thomas Jane, que desempenha o papel de Wilfred, foi para mim uma surpresa. Desconhecia-o, e foi o estandarte deste filme, elevando as emoções deste homem, e a falta delas, a um patamar elevadíssimo. É um filme negro e trágico que decorre a um ritmo que talvez a muitos possa parecer lento - a mim pareceu-me verdadeiro - ganhando o estatuto de fábula. Uma nota extra-positiva para a fotografia.



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