Palavras do Abismo



Podemos estar descansados, porque esta mulher é a dona da cidade! Com ela, não temos de nos preocupar, porque as ruas serão para os carros, e estarão livres de pragas! Ratos? Não? Pessoas! A correr! Onde é que isto já se viu?

Cara Manuela,

Nunca fui muito à bola consigo, mas agora que vejo o quão elitista é, e que gosta de destilar o seu ódiozinho nas redes sociais como toda a gentinha, ainda menos vou.

A cidade não tem de se movimentar de acordo com a sua rota diária. Quanto muito, tinha de lhe dar acessos alternativos para a senhora não levar com a praga em cima. Mas olhe, uma novidade: a cidade não é sua. Seria um pouco mais sua se saísse do conforto do banco quentinho e pisasse o chão (sim, com o seu próprio pé!), e apreciasse a beleza das sete colinas com os seus próprios olhos; se respirasse a brisa que vem do rio; se pisasse a nossa calçada. Assim, através dos vidros porcos da sua viatura, é normal que a sua vista esteja um pouco turva.

Só pode, porque "normais" são aqueles que se mexem ou querem mexer, que vivem realmente a cidade, que celebram a vida, que querem fazer algo por si, e não quem quer chegar em 10 minutos ao destino ao domingo e que fica piurso com a normalidade alheia. Quanto à sua vontade de os atropelar, eu também tenho vontade de a atropelar, mas visto que só anda de cu tremido torna-se impossível. Lembra-se da última vez que atravessou uma passadeira? Não? Mas aposto que se lembra da última em que não parou numa.

Quanto ao "bom ar da cidade"... cof cof. A cidade não tem bom ar. Graças, também, a pessoas como a madame que se deslocam de carro para um percurso de 10 minutos. Mas é claro que não repara nisso visto que só respira filtros de ar condicionado. Mas pode ficar com esse todo!

Atentamente,
um membro da praga estranha que gosta de praticar desporto na cidade.
Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários
Este "senhor" que se julga Deus, dono da razão, e detentor de todo o conhecimento sobre a mente e corpo humanos, diz o seguinte:

"Vi um documentário aterrador. O pior que se pode ver antes de ir para a cama. O documentário era sobre um transexual. (...)

Depois da operação, entrevistavam o fulano que se queria transformar em fulana. Numa voz estranha, deu umas respostas que tornaram óbvio estarmos perante uma pessoa débil mental. Dizia umas patetices. Mostrava-se ansioso por se tornar uma mulher. Mas aí eu pergunto: se em vez de lhe operarem o corpo para se parecer com uma mulher, por que não optaram por tratá-lo psicologicamente para adaptar a mente ao físico que realmente tinha? (...)

Depois cortou o pénis, explicando que ia aproveitar uma parte deste para fazer o clítoris. Neste ponto, não consegui ver mais e mudei de canal. (....)

Se a sua cabeça já era confusa, tornar-se-á muito mais confusa depois da operação. Nunca poderão ter uma vida familiar normal: não podem ter filhos e qual é o homem que se vai casar com uma mulher que já foi um homem? Só por caridade alguém condescenderá em fazê-lo. (...)

Se um homem pensar que é uma galinha, os médicos não vão transformá-lo em galinha."

Podem ver o texto na íntegra aqui.
 
Bem. Aterrador é ainda existirem pessoas assim. Pessoas que acham que querer mudar de sexo, sentir-se no corpo errado, é doença mental, que se resolveria com uma terapiazinha, provavelmente com uns choques eléctricos. Ou prendê-los, abrir-lhes os olhos com uns palitos, e obrigá-los a ver cenas entre um homem e uma mulher - todos no corpo certo - a cupular, como deus manda.

Aterrador são estes velhos do restelo acharem que a normalidade é apenas aquilo que conhecem, aquilo que a sociedade lhes disse que era normal e que eles aceitaram sem dizer ai nem ui; é não admitirem que as coisas não são lineares, não são a + b, que o universo, e a mente, o cérebro, os sentimentos, as emoções, não são uma fórmula matemática.

Aterrador é chamar de débil mental a quem, numa atitude corajosa que ele nunca saberá o que é, mostrar ao mundo que não temos de ser infelizes, que devemos perseguir o que desejamos, viver na pele que queremos, que não temos de ficar presos uma vida inteira às convenções e à tal "normalidade" que nos impingem.

Aterrador é dizer que ninguém vai querer uma pessoa assim. Assim como? Que foi em frente quando existem pessoas como o senhor arquitecto que acham que deviam ter estado quietinhas? Que cumpriram o seu sonho? Que decidiram ser felizes? E por não poderem ter filhos, são pessoas incompletas? O objectivo primordial da espécie é parir? Gostar de nós próprios, não conta para nada?


Aterrador é comparar um homem ou uma mulher que estão a cumprir um sonho, num processo custoso, longo, demorado e controverso, em que muito provavelmente foram criticados e ostracizados pelo mundo inteiro, com a pretensão de ser uma galinha...


Aterrador é partilhar este planeta com pessoas cuja mente ficou presa no séc. XIX e que ainda se auto-intitulam de liberais. Se cada um se metesse na sua vida, isso é que era bom. Se deixassem os outros serem felizes da maneira como são, se aceitassem a diferença, o mundo era um lugar bem melhor. Se vos faz impressão, ignorem, deixem-nos ser. A indiferença é melhor do que a promoção da opinião odiosa.

Aterrador é você, senhor arquitecto. E se não fosse essa tacanhez e pequenez, não teria essas trombas.



Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Curb Your Enthusiasm é uma série de 2000 que tem como estrela principal Larry David, nada mais nada menos do que o co-autor do Seinfeld (a par do próprio Jerry Seinfeld), argumentista e produtor executivo de uma das melhores séries de comédia de sempre.

Em Curb Your Enthusiasm, Larry interpreta uma versão mais ou menos ficcional dele próprio, como um argumentista semi-reformado e com muito dinheiro no bolso devido ao sucesso de Seinfeld. Segundo o mesmo estilo, há muito humor (negro), inúmeras peripécias, e a participação especial de vários actores de renome (interpretanto quase sempre versões deles próprios), incluindo os de Seinfeld, que se debatem com a popularidade que atingiram na série mas que agora não conseguem arranjar mais trabalhos porque estão grudados àquelas personagens que todos conhecemos.

As situações em que Larry se mete são hilariantes, e identifico-me bastante com ele porque está sempre a meter-se em merda por ser demasiado sincero, como se não tivesse um filtro social que o impedisse de dizer tudo o que pensa. É como se ele não conhecesse as convenções sociais e estivesse sempre a meter-se em apuros e em mal-entendidos. Para além disso, tudo o irrita. Portanto, o que não faltam são situações desconfortáveis e há muito que não me ria à gargalhada a ver uma série.

Apesar de já ter uns anitos nunca a tinha visto, e agora que comecei não consigo parar. Estou quase a acabar a segunda temporada, e há 9 até agora. Acho que vocês também vão gostar.

Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários
Continente. Véspera de ano novo. As caixas entupidas de gente carregada com camarão e espumante. Na caixa ao meu lado, um velho vê uma mulher passar à sua frente na fila.

Ele: Desculpe lá, mas a fila é lá atrás.
Ela: A minha filha está aqui na fila. Fui só buscar uma coisa e voltei.
Ele: São sempre as mesmas desculpas!
Ela: Você não está a ver aqui a minha filha?!
Ele: A fila é lá atrás!

Nisto ela desiste de argumentar e começa a ladainha:

Ela: ALELUIA ALELUIA GLÓRIA A JESUS! DEUS O ABENÇOE!
Ele: ... você...
Ela: ALELUIA ALELUIA VÁ NA PAZ DO SENHOR!
Ele: Tá bem tá...
Ela: BOM ANO, NA GRAÇA DO SENHOR! ALELUIA!
Ele virou-se finalmente para o outro lado.

Foi preciso chegar quase a 2018 para saber como espantar os velhos chatos que acham que a idade lhes dá o estatudo de polícias da fila. Não sei o que faríamos sem eles. Isto também pode ser uma solução para muitas outras situações. Tipo quando o meu chefe me chamar para outra reunião. ALELUIA ALELUIA VAI NA PAZ DO SENHOR (mas não me leves contigo...).

Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários
"Deixei o carro no centro e devorei um pequeno-almoço pantagruélico. Clara deu cabo de uma fatia de tarte de maçã quase do tamanho dela."

in A Substância do Mal, de Luca D'Andrea (2016)


Ora esta é muito fácil percepção e parece-me que a usarei bastante, visto que se me assenta que nem uma luva.

pan·ta·gru·é·li·co
(Pantagruel, antropónimo + -ico)
adjectivo

1. Relativo a Pantagruel, personagem do escritor francês François Rabelais (cerca de 1494-1553) (ex.: filosofia pantagruélica).
2. Que apresenta grande diversidade e grande quantidade de comida (ex.: almoço pantagruélico).
3. Que é muito grande (ex.: apetite pantagruélico). = ENORME, GARGANTUESCO, GIGANTESCO

A tal personagem do Rabelais chamada Pantagruel era um gigante, daí o uso. Dado o meu apetite pantagruélico e a minha necessidade pantagruélica por bolos e chocolates, cheira-me que o usarei muito. Vou agora tomar o meu pequeno-almoço pantagruélico.


Share
Tweet
Pin
Share
4 comentários
Mas quem é que quer saber como se chamam as crias desta mulher? Porque é que as redes sociais, as revistas e a televisão nacional fazem disto notícia? Eu quero lá saber se se chamam Amoor, ou Odioó, ou Puutá, ou Cocóó! Gostava era que as pessoas não alimentassem este "jornalismo" e o ego destas pessoas que vivem de se expôr e que se põem a jeito à humilhação, ao falatório, e à cavadela da vida privada.

Para quem perde tempo com isto, em vez de contarem as doze badaladas daqui a uns dias, entoem os nomes das vítimas dos incêndios deste ano. Ou os serviços que vamos pagar mais em 2018. Ele há com cada uma...


Share
Tweet
Pin
Share
2 comentários

Considero o Paulo Furtado, aka, The Legendary Tiger Man, um dos melhores músicos não só nacionais, como internacionais, e acho que tem sido subvalorizado ao longo da carreira, que já vai bem longa. Se ele tivesse nascido noutro país acredito que reconhecimento não lhe faltaria.

O seu último trabalho, Misfit, foi lançado há alguns dias e depois de o ouvir em loop durante algum tempo posso dizer que gosto imenso. Tem uma boa vibe, com muito, muito, rock n' roll e com aquela vertente blues que ele tão bem incorpora. O álbum foi gravado no Rancho de La Luna, no deserto californiano, e se fechar os olhos consigo sentir a vibração árida desértica muito facilmente. É um disco com personalidade, profundo, mas que nos faz mexer bem à superfície. É impossível ouvi-lo parado.

Pela primeira vez, Paulo Furtado deixou de ser one-man-band e contou com a participação de Paulo Segadães na bateria e João Cabrita no saxofone. O resultado é amplamente positivo. Se tivesse de escolher uma faixa seria provavelmente a primeira, Motorcycle Boy, que é uma introdução pujante que nos põe imediatamente a bater o pé. Infelizmente não tem videoclip, e deixo aqui a também belíssima Fix of Rock'n'Roll.

O álbum ainda não foi lançado fisicamente mas pode ser ouvido gratuitamente nas plataformas digitais, incluindo no Spotify.

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Esta montra. Não consigo perceber o que se passa na cabeça de quem encenou esta cena de amamentação com uma porca e os seus bacorinhos mortos. Achou que era engraçado? Provocador? Que era uma forma genial de chamar clientes?

Acima de tudo, é uma mãe com os seus filhos mortos. Como se estivessem a mamar, como se estivessem vivos e a alimentar-se. É mais do que sádico, é triste. E não, não se trata do choque apenas para os que não comem carne. A pessoa que a partilhou comigo come carne, e outras a quem mostrei também, e todas mostraram asco.

Matar outros seres vivos para a alimentação é uma coisa, fazer disso um circo macabro é outra. É como se uma agência funerária pusesse na montra um cadáver duma mulher com o seu bebé a mamar. "Ui, que comparação" vão dizer os que se acham os chefes da pirâmide alimentar. Para mim, são todas vidas que acabaram. Seria a promoção do negócio ao mesmo nível.

Não faça parte de uma sociedade que se vangloria perante a piada da morte. Não pague para que isto aconteça. Tratam-se de animais que está provado terem emoções e uma inteligência comparável a uma criança pequena. Já morreram para saciar o vosso palato, provavelmente em condições miseráveis; vangloriar este tipo de piadas é completamente escusado.
Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Em boa hora a Netflix lançou esta série alemã, porque é brutalíssima. Ela começa com o desaparecimento de uma criança, e não tarda a desaparecer mais uma. Este último, Mikkel, é filho de um polícia, e a investigação para se descobrir o seu paradeiro e o da outra criança não trará qualquer fruto. Simplesmente, não há vestígios deles em lado nenhum. Os seus parentes enlouquecem com a situação, enquanto nós, os espectadores, vamos descobrindo o que se passa com Mikkel.

Quando um estranho, nos primeiros episódios, lança o comentário - a questão não é onde está o Mikkel, mas quando - está lançado o mote que precisávamos para confirmar as nossas supeitas: o rapaz viajou no tempo. E isto poderia parecer estúpido e eu seria a primeira céptica a chamar o tema de estúpido e a desistir da série, mas está tão bem feita, tão real, que uma pessoa acaba de a ver e começa a duvidar de tudo o que pensa que sabe. Os padrões espaço-temporais que conhecemos são facilmente postos em causa e fica-se assim um bocadinho a bater mal.

A trama é complexa, principalmente devido às personagens infinitas e damos por nós já sem perceber em que ano estamos e quem é quem em que ano... mas a série faz um trabalho belíssimo em atar pontas soltas, lembrando-nos sempre, de forma sublime e subtil. Os actores fazem um trabalho abismal, as imagens são lindíssimas, dominadas pela chuva e por um ambiente frio (não fosse alemã!), e tudo, até o genérico inicial, é brutal.

Dark é comparada frequentemente com a Stranger Things, mas garanto que é apenas a impressão inicial. Eu acabei de ver uma e comecei outra, e existiram coisas que me fizeram efectivamente lembrar, mas essa impressão acabou imediatamente. Dark é menos jovial, mais séria, mais estranha, levanta sérias dúvidas, e é muito mindblowing.

Foi renovada para a segunda temporada. Aguardo ansiosamente.

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Praise the Lord!

Share
Tweet
Pin
Share
1 comentários
Newer Posts
Older Posts

Translate

Seguir por email

Seguir

  • twitter
  • Google+
  • pinterest

Recentes

Categorias

pessoas estranhas música gajas coisas boas filmes desabafos animais cinema as coisas que se aprendem portugal morte trabalho vida merda sonhos séries tristeza ambiente redescobertas musicais vozes de gaja

Top da semana

  • Joker (2019)
  • Like a Stone
  • Mid90s (2018)
  • Desperdiça cada dia
  • Always Happens Like That
  • Forever a firestarter

Arquivo

Pesquisar

Blogs fixolas

  • Abencerragem
    «All Your Love»
  • Ponto Aqui! Ponto Acolá!
    Camille Pissarro - "Boulevard Montmartre"
  • Manuscritos da Galaxia
    Vertiiigooooo...
  • Unicornia Cross Stitch
    Terminator - pdf pattern
  • Naturalmente Cusca
    Sobre o Caso Ronaldo
  • thebarraustuffs
    Matt Hollywood & The Bad Feelings
  • Dissertações (pouco) científicas
    E lá se foi o bem bom
  • Por Falar Noutra Coisa

Visitas

No abismo

Created with by ThemeXpose | Distributed by Blogger Templates