Palavras do Abismo


A Michelle apareceu-me nas sugestões do Spotify, que como sabe que gosto pouco de ouvir gajas, apenas me sugere as melhores. Michelle é uma das melhores. Imediatamente fez-me lembrar uma versão feminina do Leonard Cohen, e só pela lembrança saudosa do falecido já me soube pela vida. Não se pode dizer que a sua voz é rouca, mas também não é limpa nem cristalina - se o fosse não estaria aqui a ser mencionada. É assim para o entaramelado, ali algures entre o estar bêbeda e num estado medidativo, mas atento, com algo de masculino.

As suas músicas são simples, a atirar para o melódico e carregadinhas de uma melancolia dark apenas impulsionadas por teclado, guitarra e sintetizador, num estilo a que chamam slowcore rock e lo-fi pop. Ela, no seu site, diz-nos que as suas canções são trágico-cómicas, melódicas, sentimentais, e com uma sombra de glamour. Caracteriza o seu mais recente álbum como mantendo a tradição do realismo negro combinado com humor em baladas íntimas entregues com letras cortantes e fatalistas. Vá, eu concordo com tudo.

Pelos vistos a senhora é bastante conhecida na Europa de Leste. Ela é Canadiana, mas os seus pais são emigrantes russos e, tendo o Russo como primeira língua, admite que as suas maiores influências são de lá. Até emprestou as suas músicas a alguns filmes feitos no Leste. O seu background até é cinematográfico - trabalhou 10 anos como realizadora antes de enveredar pela música. Este gosto pela imagem está patente nos seus trabalhos, nos videoclips, nas capas dos discos, nas fotografias.

Esta "Party Girl" foi a tal música que me apareceu primeiro no Spotify e que me levou a entrar no estranho mundo de Michelle. Teve uma capacidade imediata de me acalmar, e só por isso é de valor.

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A filha de Mildred (Frances McDormand) foi brutalmente violada e assassinada. Passaram-se meses e não há um único suspeito do crime. Revoltada contra as forças policiais, Mildred decide alugar o espaço de três outdoors e preenchê-los com mensagens directamente endereçadas ao chefe da polícia, Willoughby (Woody Harrelson).

A ideia é simples e é uma estrada pouco frequentada, mas mesmo assim a colocação dos cartazes gera indignação no seio da polícia, especialmente no agente Dixon (Sam Rockwell), cuja pouca experiência e espírito rebelde o colocam sempre no fio da navalha à beira da explosão. Ainda para mais, o chefe Willoughby sofre de um cancro e é querido por todos, e tanto os colegas como a população consideram que Mildred foi longe demais naquele ataque pessoal.

Escusado será dizer que Frances McDormand é a força motriz de todo o filme, como é seu hábito em tudo o que protagozina. Desde o Fargo que sou sua fã incondicional, admiração que ficou reforçada na série Olive Kitteridge. Os papéis de mulheres fortes cabem-lhe que nem uma luva e aqui, na pele da desbocada Mildred, espelha na perfeição a mulher que quer ver na cadeia o homem que lhe levou a filha e que lhe destruíu a família. Por trás da máscara de betão que usa para mostrar a sua força infinita, sentimos constantemente a sua mágoa por saber, no fundo, que nada do que fará lhe trará a filha de volta.

Gostei bastante do filme e é um pouco diferente do que estava à espera - esperava algo agressivo e negro, mas tornou-se mais sobre a redenção, e em como a empatia, a ajuda, e as mãos amigas surgem de onde menos se espera, apresentado-nos uma forte moral. Está nomeado para 7 Oscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Actriz, Melhor Ator Secundário e Melhor Argumento Original.

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"Quando os corpos foram exumados e levados para sepulturas novas, as famílias dos desaparecidos fizeram uns pequenos cenotáfios."

in Atos Humanos, de Han Kang (2014)

ce·no·tá·fi·o 
(francês cénotaphe)
substantivo masculino
Monumento sepulcral erigido em memória de um morto sepultado noutra parte.

Os cenotáfios são então túmulos ou monumentos vazios construídos em memória dos mortos que estão enterrados noutros locais. Afinal, o mundo está cheio de cenotáfios, tanto em memória de indivíduos como de grupos, sendo os de soldados falecidos em guerra talvez os mais comuns. É claro que todos sabemos da existência destes monumentos, mas que se chamavam cenotáfios é para mim uma novidade.


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James e Alyssa têm 17 anos e não são adolescentes normais. Ele tem a certeza de que é um psicopata - os seus hábitos não são nada comuns para alguém da sua idade. Incluem matar animais, taxidermia, arranjar coisas, mutilar-se, e para além disso as suas apetências sociais são praticamente nulas. A sua mãe suicidou-se à sua frente quando era pequeno. Daria tudo para matar uma pessoa.

Alyssa não tem filtro - pensa e diz tudo o que lhe vem à cabeça. É rebelde por natureza, perspicaz, é cool. A relação com a mãe é algo turbulenta e tem um padrasto doentio e parvalhão. Quando os dois se cruzam e aprofundam a relação, é mágico. James acha que ela é perfeita para ser a sua vítima; ela começa a vê-lo como um potencial namorado e um meio para atingir um fim - convence-o a fugir da pouca vida que têm e ir conhecer o pai dela, que se tornou ausente muito cedo.

A aventura começa e os dois vão construindo uma relação hilariante, mas ao mesmo tempo trágica, à medida que as coisas se complicam. Passam a ser dois fugitivos, criminosos, que correm da culpa e de uma vida à qual já não podem voltar. A química entre eles é indesmentível e dá azo a várias situações que nos derretem e apoquentam.

O modo como a série é feita é genial. Os diálogos são brilhantes, e o facto de lhes "ouvirmos" os pensamentos antes de eles os verbalizarem tem muito a dizer sobre aquilo que efectivamente pensamos e o que acabamos por dizer. A fotografia é brutal, assim como a banda sonora. É uma série para todos - adolescentes e adultos. É fresca, tem humor negro, personagens muito bem trabalhadas e actores fantásticos. Tem momentos estonteantes e belos que nos deixam boquiabertos, saudosistas, emocionados. Vê-se num ápice: cada episódio tem apenas 20 minutos e ficamos presos desde o primeiro.

Está disponível na Netflix. Recomenda-se fortemente uma espreitadela.

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Não sei quantas vezes já os vi. Venham cá as vezes que vierem, irei sempre vê-los. Ou até deslocar-me lá fora, como já fiz. Irei, mesmo que venham com as muletas e em cadeira de rodas. Porque foram a primeira banda de metal que ouvi - a partir do momento em que me emprestaram o Black Album na escola a minha vida nunca mais foi a mesma. Foi por eles e através deles que o metal se apoderou de mim e fez de mim a pessoa que sou hoje. Foram a porta de entrada para um mundo do qual me orgulho de pertencer, onde se encontra muita da família que eu escolhi. Foram a chave para um modo de vida que me assenta que nem uma luva. Foram essenciais para me descobrir.

Ainda mal tinha maminhas e já sonhava vê-los de perto, tinha fantasias com o James e os cadernos da escola preenchidos com juras de amor eterno. Se eu dissesse a essa adolescente que iria tê-los pertinho, pertinho, pertinho, ali ao alcance de alguns braços, ela iria salivar e chorar baba e ranho.

Irei vê-los sempre. E ontem fui. Desde a última vez que os vi têm o cabelo mais branco e alguns quilos a mais. Eu também já tenho alguns brancos, e uns quilos a menos. Todos mudámos, mas somos exactamente os mesmos. Eles continuam a ser uns putos que sabem o que estão a fazer e que se divertem em palco. Eu continuo a olhar para eles com aquele brilhozinho nos olhos. O público continua a esgotar os lugares por onde eles passam. Eles continuam a gostar de nós, de tocar para nós, e a dizer que somos o melhor público do mundo. E às vezes até acho que somos.

A empatia entre Metallica e Portugal é velhinha mas bem firme. É uma história de amor que acredito que só acabe quando todos morrermos - nós e eles. Eles mudaram o mundo, mudaram a música, e quer gostem deles ou não, quer já estejam fartos ou não, terão de admitir que a música é o que é hoje porque eles existem.

Quanto ao concerto de ontem. Os jovens que ponham os olhos neles. Um palco no meio do recinto - proporcionando uma grande proximidade - uns quadrados por cima do palco a passar vídeos que contam histórias e uns pequenos drones que apareceram por lá para dar uns efeitos foram as únicas coisas necessárias para um espectáculo do caraças. Não estou a criticar as bandas que andam com uma parafernália de coisas atrás, camionetas de luzes, efeitos, confetis, realidade aumentada - cada um faz o que quer e cabe tudo na definição de espectáculo - mas há qualquer coisa na simplicidade que nos liga mais à música e uns aos outros.

Terem tocado Xutos e dedicado o momento ao Zé Pedro. Eles não tinham de o fazer. Andam por cá desde antes de eu nascer. Nem precisam de tocar para viver. E no entanto dão-se ao trabalho de aprender músicas locais e de saber mais sobre as bandas dos países que visitam, e isso para mim é humildade. Ser uma das maiores  bandas do universo - senão a maior - e fazê-lo, torna-os ainda maiores.

Irei sempre. E ficarei com saudades deles, todas as vezes.










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A trama segue uma menina de 6 anos, Moonee, que vive num motel barato em Orlando, com a jovem mãe, Halley. Apesar de o motel não aceitar estadias prolongadas, o gerente, interpretado por Willem Dafoe, facilita e altera os processos de modo a que as famílias carenciadas consigam por lá ficar e manter uma espécie de tecto.

Paredes meias com a Disneyworld, o cenário pobre contrasta com os turistas abastados dos quais vamos tendo conhecimento enquanto aquelas pessoas tentam sobreviver um dia de cada vez.

Halley, a mãe, vive essencialmente de subsídios e de falcatruas. Mantém uma atitude radical perante a vida e enfrenta todas as pessoas como se todos lhe devessem - essa atitude é absorvida pela filha, que com 6 anos é uma espécie de líder entre as crianças e que não tem respeito pela autoridade e pelos mais velhos.

Quem for ver este filme à espera de uma história com princípio, meio e fim, desengane-se. É quase documental - seguimos "apenas" a vida destas pessoas, o seu dia-a-dia, os seus desabafos, dificuldades, o modo como fazem de qualquer coisa uma alegria imensa - tanto, que ficamos envergonhados por precisarmos de muito mais para criarmos momentos felizes. É quase como se fossemos voyers, espreitando para dentro das portas das vidas que não sabíamos existirem.

O grupo de actores infantil é de uma impertinência profissional de louvar; assim como as cores do filme, de um azul e cor de rosa limpos e brilhantes. Acima de tudo, é a simplicidade deste filme que me faz adorá-lo, porque não tem de existir uma parafernália de recursos para se ser belo. É triste, é ternurento, é trágico, é inocente, é mágico - é a vida.

Nomeado para Melhor Actor Secundário (Willem Dafoe).

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"O único pecado de Hale era ser insuportavelmente obnóxio. Tinha de superar aquilo."

in Fortaleza Digital, de Dan Brown (1998)


O Hale, neste livro, é um grande chatinho impertinente, com muito músculo e com uma mania gigante a condizer. Mas também é obnóxio e isso não sabia o que era.

ob·nó·xi·o |cs|
(latim obnoxius, -a, -um, submisso, dependente, cobarde)
adjectivo
1. Submisso, servil.
2. Funesto, nefasto.

Vá, não crucifiquemos tanto o Hale. Quem de nós não é obnóxio de vez em quando? Eu bem sei que se me aparecesse uma piton no caminho virava um bocadinho obnóxia. Mas também sei que nunca serei obnóxia noutros sentidos...


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O Intermarché de Beauvais, França, está a fazer uma promoção nos frascos de Nutella - €1,40 em vez de €4,50. Ora a mim e provavelmente a você que está a ler isto, isto não seria um motivo para provocar o caos completo e uma luta pela sobrevivência em pleno supermercado. Mas aconteceu.

O stock de hoje evaporou-se em menos de uma hora. Foi publicado este vídeo em baixo que mostra a anarquia - pessoas aos berros, outras a tentar roubar o frasco alheio, num local já completamente desarrumado e destruído. A polícia foi chamada a intervir.

É tão estúpido, tão mesquinho. Somos umas meras peças de xadrez nesta sociedade de consumo onde devia ser o consumidor a mandar, mas em vez disso são os interesses económicos a fazer-nos de parvos, e caímos que nem patinhos. Nunca na minha vida pensei ver uma situação destas por causa de Nutella em promoção. Insultamos, somos violentos, tornamo-nos bestas, por um bocado de chocolate mais barato.

A Nutella é nociva, um completo poço de açúcar refinado, e talvez advenha daí esta agressividade toda. Há produtos no mercado tão ou mais saborosos, e até mais baratos, que este veneno. Há produtos que não usam esta quantidade de açúcar, e que utilizam alternativas como açúcar de cana, de côco, entre outros. A Nutella também utiliza óleo de palma, grande responsável pela desflorestação e pela extinção de vários animais. Por isso, se você é guloso, como eu, saiba que pode continuar a ser, respeitando o próximo e o planeta. Algumas sugestões:

. Fazer em casa (a melhor opção) - é fácil, saudável, barato, e só precisa de 4 ingredientes. Ver aqui.
. Costumo comprar este online. É óptimo, com açúcar de cana e óleo de girassol.
. Esta opção existe no Continente e já apanhei imensas vezes em promoção.

Vá lá, não temos de ser umas bestas para poupar uns trocos, ainda por cima por coisas que não valem a pena. Eu sei que a guerra por comida e água vai acontecer, mas por Nutella? Get a life...


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Em 2003, o filme "The Room", realizado por Tommy Wiseau, foi lançado. Devido às más interpretações, às falhas na narrativa e técnicas, depressa se tornou numa anedota. Felizmente ou infelizmente para Tommy, o filme é tão mau que se tornou de culto.

"The Disaster Artist" conta precisamente a história da elaboração deste filme, com base também no livro com o mesmo nome contado na primeira pessoa por Greg Sestero - o melhor amigo de Tommy, com quem este decidiu dar o passo de fazer o filme e ser actor no mesmo. James Franco realiza e interpreta Tommy Wiseau, e o seu irmão Dave Franco dá corpo a Greg Sestero.

Tommy é um homem excêntrico, no mínimo. Tem muito, muito dinheiro, que ninguém sabe de onde veio. Também ninguém sabe a sua idade nem as suas origens. As suas capacidades de socialização são quase inexistentes. É uma pessoa estranha mas tem um sonho: ser actor. Perante o facto das portas de Hollywood se fecharem constantemente na sua cara, e tendo em conta a sua volumosa conta bancária, decide, em conjunto com o amigo Greg, dar corpo a um filme. Então, ele escreve, realiza, produz e é o actor principal em "The Room".

O projecto vai avançando ninguém sabe muito bem como, pois Tommy é irascível e muito difícil de lidar. Chega atrasado, recusa-se a partilhar com a equipa partes importantes do projecto, não fornece as condições necessárias à produção, não se esforça por memorizar as falas, enfim, tudo parece destinado ao fracasso.

O filme por si só é bastante divertido e até custa a crer que é biográfico por aquela personagem ser tão nonsense e inacreditável. James Franco faz um óptimo trabalho tanto na realização como na pele do personagem. Creio que se não tivessem existido as recentes balelas em relação ao assédio sexual teria sido nomeado para Melhor Ator (ganhou o Globo de Ouro). Assim, foi apenas nomeado para Melhor Argumento Adaptado.

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No regresso a casa, sentei-me perto de um grupo de estudantes. Nisto, oiço:

- Já viste o Dunkirk? - pergunta um rapaz.
Ao que uma rapariga responde:
- Já chega de filmes sobre Nazis e a Guerra Mundial... Como se sentirão os alemães com tanta atenção? Para além disso nós nem nascemos nessa época, é normal que nos fartemos das coisas que não conhecemos..."

Penso no yoga... inspiro, expiro, encho a barriga como se fosse um balão... lembro-me que não tenho o direito de estrangular ninguém que não me esteja a atacar fisicamente, e ponho os fones para não arriscar ir presa no seguimento da conversa da geração que esqueceu a História.


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