Palavras do Abismo

Andava eu numa fase confusa da adolescência, em que não sabia se gostava mais de Backstreet Boys ou de Metallica, quando os The Prodigy se meteram lá pelo meio e deram-me novos horizontes. Abriram caminho por mim adentro com um poder que não consegui controlar, numa cena musical que na altura foi completamente inovadora. Suspirei muito com a imagem do Keith Flint. Aquela bola de fogo pronta a explodir, extravagante, enérgica, toda aquela imagem rebelde - aquele cabelo característico, todos aqueles piercings e tatuagens que me tiravam do sério e que, obviamente, influenciaram os meus gostos e aquilo que sou. Desde aquele tempo até hoje que os The Prodigy são uma das minhas bandas favoritas e o Keith é uma das figuras que tenho seguido como a um ícone.

Tive o prazer de os ver ao vivo, bem pertinho de mim, um par de vezes. E repeti, a quem me ouviu falar, que foram concertos de uma vida. Inesquecíveis. O corpo, sem pedir licença, dá o que tem e o que não tem porque eles fazem o que querem com os nossos invólucros. A sensação de esgotamento feliz e loucura ainda toma conta de mim quando penso na última vez que os vi.

Raio de geração amaldiçoada. Brilhante, demasiado brilhante para um mundo demasiado merdoso. Viver uma vida longa não é para todos e a sua escolha foi feita. Privou o mundo de si mesmo, e por isso, nós, fãs, ficamos coxos, numa obscuridade de incompreensão que prevalecerá, porque, garanto, nunca sabemos o que vai na cabeça sequer na pessoa que está ao nosso lado neste momento. Só sei que quando chegarmos ao Inferno teremos uma banda sonora do cacete.

Vemo-nos por aí, Firestarter.


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O sonho começou com um grande vendaval - tão grande que, espreitando pelas janelas, víamos as pessoas voar e a serem atiradas para todos os lados. Tirei, inclusivé, uma foto espectacular de uma senhora loira e magra, agarrada aos seus sacos de supermercado, voando por entre edifícios, com os seus cabelos longos em rodopio, mas com uma grande calma aparente reflectida no rosto. Acho que estava a aproveitar o vento para ir para casa a voar sem usufruir dos transportes públicos àquela hora de ponta que, como todos sabem, são uma chatice maior do que todos os ventos e vendavais juntos.

Achei a minha foto digna de capa da National Geographic e fui para casa, desejosa de a mostrar ao meu namorado. Qual o meu espanto quando abro a porta do quarto, e o vejo todo nu, sentado, à minha espera, com dois calmeirões ao lado, também nus, estendidos na cama, naquele repouso suado que se segue ao esforço sexual.

Não foi preciso ele dizer nada - o cheiro a sexo era palpável, e sabia o que ele tinha feito. Ele estava à minha espera para me contar, e fê-lo com uma cara de pau e com uma conversa fácil que manifestava a sua opinião de que, como tinha sido com gajos, não era traição a sério.

Fiquei triste com a situação, manifestei a minha raiva, gritei, mas no fundo, mesmo sendo um sonho, apercebi-me que a minha mágoa aconteceu mais por ele não me ter convidado para a festa do que propriamente pela traição. Os sonhos são tramados.



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Tony "Lip" Vallelonga é um americano de ascendência italina, chefe de família, que trabalha como segurança num clube nocturno. Quando este fecha portas para renovações, Tony procura trabalho. A oferta mais promissora surge de onde menos espera - uma vaga para ser motorista de um pianista de renome, Don Shirley, que por acaso era negro.

O facto de ser um homem duro com jeito para usar os punhos foi determinante para ser escolhido, e o motivo começa a ser óbvio cedo no filme - Don Shirley é frequentemente vítima de ataques racistas nesta América dos anos 60. Tony, que é um homem também ele alimentado por alguns preconceitos, começa por torcer o nariz por ter de servir um homem negro e com manias de estrela, mas, em última análise, precisa de alimentar a família e tenta encarar aquele trabalho como outro qualquer.

Portanto, temos um homem do povo, branco, algo preconceituoso, a conduzir um pianista negro, com maneiras nobres e muitas manias e requisitos, pelas estradas americanas - e isto, por si só, é um óptimo começo para um filme que, ainda por cima, é baseado em factos reais. Todos sabemos que, quando a realidade ultrapassa a ficção, ainda ficamos mais intrigados, e embrenhamo-nos mais na história.

É um par estranho que vai vivendo algumas aventuras e dissabores nos locais por onde passa e, apesar de se ter passado há décadas, a história faz ecoar em nós resquícios de um tempo que não ficou assim tanto para trás. O racismo ainda é, infelizmente, assunto do dia, e enquanto houver ódio e intolerância no coração humano, não irá acabar. Ou seja, nunca acabará. São as situações mais extremas que nos abalam e que nos fazem questionar como é que tal foi possível, e como é que ainda é possível, e porque é que julgamos os outros pela aparência, como se a cor da pele ou o local onde nascemos determinassem tudo o que podemos ser.

O par de actores é espectacular e foram feitos para estes papéis. Tanto Viggo Mortensen como Mahershala Ali estão perfeitos (este último um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário), revelando um entrosamento e um trabalho extraordinário para entrar na pele daqueles homens que o destino juntou para lhes mudar a vida. As diferenças entre os dois homens, as suas origens, estrato social, tudo está patente nas linguagens corporais, nos modos e gestos, nas maneiras de falar ou na linguagem a si.

O filme tem muita elegância em todos os seus atributos, como a realização, o visual ou a banda sonora tocante. Agora que já vi quase todos os filmes que foram nomeados aos Oscares, posso dizer que era o meu terceiro favorito à corrida (depois de The Favourite e Roma, dos quais falaremos um dia), mas consigo aceitar completamente a decisão de ter ganho o prémio. Pode ter sido uma vitória política, mas pouco importa. É um grande filme, trabalhado por grandes profissionais, com todos os ingredientes para agradar a um público alargado e muito bem executado, que toca algo no mais profundo de nós.

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"Era um ginásio não longe da nossa casa futura. Frequentavam-no sobretudo tipos já na decadência, sujeitos calvos e de ventre excessivo, matronas cheias de roscas, a mama caída. Era a hora de o fado ajustar contas com eles, eles não queriam. Era a hora do fôlego asmático, da enxúndia, do ouvido córneo, as junturas perras."

in Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira (1990)

en·xún·di·a
(latim axungia, -ae)
substantivo feminino
1. Gordura animal, em especial das aves e dos suínos. = BANHA, UNTO
2. Camada adiposa. = BANHA, GORDURA
3. Substância gorda.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

A idade faz coisas indesejáveis ao nosso corpo - a pele crespa e manchada, as articulações que precisam de óleo, os cabelos brancos a marcar forte presença, as carnes moles penduradas sujeitas à inevitável gravidade. Mas o que não sabia é que também trazia enxúndia, mas acho fantástico. É uma maneira de chamar gordos aos gordos sem que eles percebam. É mal que atravessa idades, porque as pessoas entopem-se de enxúndia na enxúndia das carnes e dos fritos e depois é ver a enxúndia a transbordar do cós das calças e dos regos dos cus que insistem em ficar destapados, porque não há pano para tanta enxúndia. Ah, palavras novas...


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Trabalho no Campo Grande, Lisboa. Todos os dias, à hora do almoço, vou ao ginásio, e tenho de atravessar a entrada do metro. E todos os dias tenho de fazer uma pista de obstáculos por entre as ciganas que me esfregam os "xáles", os quatro pares de brincos por 50 cêntimos ou a "calça da moda" na cara. Para além de serem umas 10 a barrar a entrada, obrigando as pessoas a respirar-lhes o bafo para conseguir passar, corre-se o risco sério de ficar surdo com tantos decibéis de gritos.

OLHÓ XÁLE A DOIS E MEIOOOOO
Ó CARA LINDA, OLHÁ CAMISOLA DAS MODAS
É SÓ HOJE, É SÓ HOJE, UM AÉRIO, SÓ UM AÉRIO

Nada a que não estejamos habituados nas feiras, em espaços abertos. Agora, numa entrada de um metro onde aquela mulherada faz eco e onde inventam bancas em cima de caixotes improvisados que nos barram a passagem, é chato. A juntar ao homem das cautelas, ao outro que vende carteiras, aos jeovás, à dos cachorros quentes, à das pipocas, aos da Amnistia Internacional e demais pedinchões, aos professores Mamadus a distribuir aqueles quadradinhos brancos de promessas, aquela entrada de metro tem mais sovaco por metro quadrado que o aeroporto em dia difícil.

Engraçado, engraçado, é quando aparece a bófia. Nesses momentos vê-se quem é que tem o seu negócio "legalizado". É claro que as ciganas pegam sumiço. Só as vi serem apanhadas uma vez, ficando com o seu material confiscado. De resto, têm uma habilidade inacta para fugir aos senhores agentes, como se os farejassem e comunicassem entre si por pensamento. Puf, já foram. Da sua presença, só resta a memória, os ecos nos ouvidos, e pedacinhos de plástico e cartão no chão, ou um eventual brinco da moda.

Mas quando pensamos que a costa está livre do mulherio, basta que a bófia dobre a esquina para elas aparecerem novamente vindas do nada. Não faço ideia onde estiveram. Parecem a CMTV, escondidas debaixo de uma pedra, prontas para qualquer desgraça e infortúnio, uns autênticos Luis de Matos do material contrafeito.

Odeio que invadam o meu espaço pessoal. Sejam as ciganas que passam o material das leggings (ou légues) no braço para eu sentir o estupendo material, seja o professor Mamadu que me estende o papelucho até mo roçar no nariz, seja estar com a cara à altura do cu de alguém quando subo escadas, não interessa, o importante é manter as pessoas à distância de, pelo menos, um braço. Se for um braço do Shaquille O'Neal, melhor. É por isso que estas mulheres me dão afrontamentos, pois sinto-me violada pelos seus corpos que insistem em roçar no meu e pelas suas vozes que entram por mim adentro sem pedir autorização. 


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"_ As pessoas deitam fora tudo e mais alguma coisa - declarou Mike. - A lixeira? Faz-me mal ao coração ir até lá. A sério. Mata-me.
_ Pois é - concordou Ben. - Muitas daquelas coisas poderiam ser reparadas. Além disso, há pessoas na China e na América do Sul que não têm a ponta de um corno. É o que a minha mãe diz.
_ Há pessoas que não têm nada de nada aqui no Maine, lépido rapaz - retorquiu Richie, implacável."

in It - A Coisa (livro 2), de Stephen King (1986)


lé·pi·do 
adjectivo
1. Alegre, prazenteiro.
2. [Informal] Lesto; ligeiro e alegre.

in dicionário Priberam online

Até é estranho aprender uma palavra fofinha e positiva num livro tão negro e cheio de maldade. Mas assim é o meu querido e imprevisível Stephen King, esse senhor que escreve, sei-o agora, lepidamente. Tão lepidamente que é invejado e conhecido no meio pela quantidade de livros que publica em tão pouco tempo. Lá vai ele, rápido, ligeiro e leve, escrevendo mais um épico e fazendo História.

Quanto ao It, livro que há muito aguardava a edição portuguesa (porque eu gosto de ler na língua de Camões) é um livrão cujas duas partes perfazem mais de 1200 páginas, que nunca, em tempo algum, alguém conseguirá adaptar de forma conveniente ao cinema ou à televisão. É demasiado, é impossível. Até a própria essência e premissa têm de ser fortemente adaptadas para que possam ser percebidas nesses meios. Por isso, não há nada como ler. É uma história sem igual. De qualquer forma, a adaptação de 1990 é do melhor que já se fez no terror, e ultrapassa facilmente a recente versão-pipoca.


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O filme é inspirado numa história real, e tem como base o livro de Ron Stallworth, de 2004. Nele, Ron relata como foi o primeiro polícia negro em Colorado Springs, nos anos 70, e como se conseguiu infiltrar no KKK.

Apesar de já ser olhado de lado e de sofrer de bullying às mãos dos seus colegas brancos, Ron (John David Washington) não hesitou em responder a um anúncio que visava recrutar membros para a organização de supremacia branca. Chegou a falar ao telefone com David Duke, líder do KKK, que não o identificou como negro ao telefone... E assim Ron, polícia negro, viu-se neste inusitado processo de recrutamento. Mas, claro, era preciso um homem branco para o substituir nos encontros, e eis que Flip (Adam Driver), seu colega polícia, assumiu a sua identidade nessas ocasiões. Quis o destino que Flip fosse judeu, e é apenas um dos inúmeros apontamentos hilariantes. Um negro e um judeu infiltrados no KKK - parece o início de uma anedota.

Apesar do tema ser extremamente sério, e de ficarmos estupefactos com a estupidez infinita do ser humano, o filme é quase como uma sátira que mascara com bom humor os pensamentos e acções chocantes de um grupo de acéfalos, quase como se fossem caricaturas. Apesar de o racismo ser feio, uma das coisas mais feias desde que o mundo é mundo, Spike Lee consegue fazer-nos rir, gargalhar até, com o seu retrato destas pessoas que se acham no topo do mundo só porque nasceram brancas.

É um filme que levanta alguma poeira e que tem muita atitude, com um cunho muito marcante de Spike Lee, que no fundo é um exímio contador de histórias. Só acho que exagerou um bocadinho na duração do filme - algumas partes acabaram por ser esticadas e espremidas sem darem sumo por aí além. Quanto às nomeações, o Adam seria um digno vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário, mas já não tenho tanta certeza quanto ao prémio de Melhor Filme (sendo que já vi melhores este ano). Não deixa de ser um dos filmes do ano, capaz de agradar a todos os públicos, com uma mensagem abrangente e poderosa, humor na dose certa, deliciosos pormenores, com um tema abominável que já devia ter ficado enterrado no passado.

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Há pouco vi esta notícia e achei maravilhoso.

O mecânico norte-americano Cross Scott, de 21 anos, viu uma mulher inanimada dentro de um carro, prontificou-se a partir o vidro para a ajudar e, vendo-a sem resposta, iniciou o processo de reanimação cardiorrespiratória. Ora o moço, sem formação alguma na área da saúde ou de suporte básico de vida, lembrou-se de um episódio do The Office, em que se faziam justamente uns exercícios de reanimação, e onde foi dito, pelos vistos acertadamente, que o ritmo ideal para comprimir o peito é ao som do “Stayin’ Alive” dos Bee Gees.

Então, entoou a canção e vá de bombear ao som da mítica canção de 1977, e não é que a senhora voltou a si momentos depois? Isto é fantástico em tantos sentidos. Em primeiro lugar, sinto-me muito melhor porque o vasto tempo que passo a ver séries pode não ser em vão... Depois, imaginar o homem a tentar salvar a mulher cantando "AH AH AH AH STAYIN' ALIVE, STAYIN' ALIVE" dá-me uma vontade de rir do caraças. E, deus meu, a ironia do nome da música! E, finalmente, porque revi um momento mítico desta série que é uma das melhores de sempre. Michael Scott forever!

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Nada do que possam ter visto do Ben Stiller vos vai preparar para a excelência que é a série Escape at Dannemora. É dos melhores trabalhos de realização que alguma vez vi. Foi uma supresa dos diabos, não estava prepararada para isto. Mas já lá vamos.

A minisérie é baseada numa fuga real que aconteceu em 2015 numa prisão americana - um evento tão mirabolante e surreal que por si só ultrapassa a ficção. Os prisioneiros Richard Matt (Benicio del Toro) e David Sweat (Paul Dano) trabalharam durante meses, arquitectaram o plano perfeito para escapar e, depois de o fazerem, ainda estiveram a monte imenso tempo nas densas florestas que separam a prisão do Canadá. Para conseguirem escapar, contaram com a ajuda de Tilly (Patricia Arquette), uma funcionária da prisão que se envolveu emocional e fisicamente com ambos os condenados.

O plano arquitectado por Matt já é por si só uma obra de arte, mas conhecer todos os trâmites do mesmo, ver as suas ideias a ganhar luz, a sua personalidade calculista a surgir, assistir à forma como manipula as situações e pessoas à sua volta (especialmente Tilly) é algo muito especial e interpretado de forma perfeita por Benicio del Toro. É um papel feito à sua medida e não imagino mais ninguém a fazê-lo. Paul Dano, que pouco conhecia, surpreendeu-me deveras, como Sweat, o braço direito de Matt, o homem que representa o trabalho e a força, em oposição à parte cerebral do seu parceiro. Já agora, não posso deixar de mencionar a parte inicial do episódio 5, protagonizada exactamente por Paul Dano - deve ser o melhor long shot que alguma vez vi, é um hino absoluto à televisão, até ao cinema, e só me apetece fazer vénias ao Ben Stiller. Se virem, vão facilmente saber do que falo.

Deixei a Patricia Arquette para o fim porque não tenho muitas palavras para descrever a perfeição com que desempenhou este papel. Transformou-se fisicamente e entrou na pele desta mulher de corpo e alma. Tilly é uma mulher simples mas ambígua, que tem noção do que faz mas sem ver maldade por aí além, que representa também a vontade de escapar - da sua vida linear e sem aventura. O marido, interpretado por Eric Lange, também merece uma menção honrosa e é mais um caso extraordinário de adaptação física e emocional ao homem, Lyle Mitchell.

Houve um esforço enorme para aproximar a série à realidade, não só no trabalho extraordinário dos actores, mas também também nos locais - tanto a prisão, como a vila, os arredores, tudo o que vemos é real. Isto torna-se um aspecto muito importante que torna a narrativa ainda mais imersiva. A juntar à realização, à fotografia, à banda sonora, torna esta série uma das melhores do ano.

Esta é daquelas que, se tiverem oportunidade, é obrigatória. Está a passar no TVSéries. Foi nomeada nos Globos de Ouro para Melhor Minisérie e a Patricia arrecadou o de Melhor Atriz - super merecido. Antevejo que faça também muito sucesso nos Emmy.

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Vivemos num mundo estranho. Um mundo em que, se um desesperado roubar uma maçã para dar aos filhos esfomeados, incorre em pena de prisão ou em multas que nunca poderá pagar; e onde um futebolista se safa com tudo. Ontem o nosso querido CR7 foi condenado a pagar quase 19 milhões de euros por ter fugido às suas obrigações fiscais. Não nos percamos na semântica - foi um roubo provado, e não foi para a prisão porque em Espanha, nas sentenças inferiores a 24 meses de prisão sem antecedentes criminais, a pena não é aplicada. Curiosamente, a sua sentença foram 23 meses. E esta hein? Por um triz. Que coincidência. Assim, o homem admitiu a falcatrua, pagou a multita que para ele são peanurs e foi à sua vida.

O povo português (e não só) tem uma capacidade imensa de perdoar no que toca às suas estrelas maiores. É como se não fosse nada, está tudo bem. Estão constantemente a criticar quem lhes rouba os cêntimos do bolso que tanto lhes custam a ganhar, têm sempre uma palavra a dizer sobre todas as políticas, são os maiores justiceiros nas redes sociais, mas é deus lá em cima e o Cristiano cá em baixo, intocável e sereno.

"Mas ele ajuda os pobres", "ele eleva o nome de Portugal", "é o melhor futebolista do mundo", blá blá blá. Tudo correcto, mas experimentem não pagar as vossas dívidas e depois digam se foram tratados com a mesma dignidade e respeito. Depois, o homem saiu do tribunal com o maior sorriso no rosto, todo ele autógrafos, charme e perfume, no pasa nada.

Hoje vi esta imagem e pensei, tal e qual. O dinheiro governa o mundo. Ninguém achou a situação estranha, anormal. Não houve manifestações, nas notícias apenas menções, nas ruas apenas fãs a pedir autógrafos. E só me leva a concluir, que nós não odiamos os emigrantes. Odiamos é emigrantes pobres.



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