O que podemos fazer para travar as alterações climáticas

fevereiro 06, 2026

Esta conversa é muito antiga. Sabemos há décadas que estes dias difíceis iriam chegar e decidimos ignorar. Muitos riem-se dos 'maluquinhos' das alterações climáticas quando há manifestações e protestos. Muitos até olham para o que está a acontecer e dizem que é um inverno normal, enquanto vidas são destruídas pelas intempéries e garantem que nunca terem visto nada assim. Muitos estão apenas fechados na sua bolha e dela não querem sair, porque isso implica mudar hábitos, estar aberto à discussão, dar um pouco mais de si, fazer um esforçozinho, e isso é o oposto do que é ser grunho. 

Muitos apenas não estão informados sobre o que podem fazer, e isso também é culpa da falta de informação dos governos, pois muitas das decisões individuais que se podem tomar implicam pagar menos impostos e gastar menos, e isso não lhes convém. É para esses que quero falar. As mudanças de hábitos são duras e implicam sair da zona de conforto, mas existem alterações comportamentais que todos podemos adoptar para travar estes fenómenos cada vez mais violentos e frequentes.

1) Deixar de comer ou reduzir o consumo de carne
Milhões de hectares de terrenos arborizados ardem ou são desbastados por ano para dar lugar a locais de pasto e de plantação de soja para alimentar gado. Conforme a população aumenta, o consumo de carne aumenta, e diminuem as áreas de floresta, tão importantes para o equilíbrio dos ecossistemas. Para além disso, o gás metano libertado pelas vacas é um acelerador do aquecimento, fazendo com que a pecuária seja responsável por 15% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Outro dado chocante é que a plantação de soja destinada a alimentar o gado dava à vontade para alimentar toda a África e ainda sobrava. Porque é que não é feito? Porque não dá dinheiro. Portanto, o poder está em cada um de nós. Eu fi-lo há 11 anos e cortei completamente. Não foi fácil, eu era a rainha dos bitoques! Mas não consegui, em consciência, continuar a consumir ignorando tanto estes factos como a crueldade animal. Reduzir também ajuda. Há movimentos como o Segundas Sem Carne com o intuito de informar e ajudar qualquer um que queira fazer a sua parte.

2) Tirar o leite de vaca das nossas vidas
Esta decorre da anterior e as razões estruturais são as mesmas - a criação de gado para nosso proveito. Não existe mais nenhum ser vivo no mundo que ande a mamar leite de outra espécie na idade adulta. Não existe, porque não é necessário. Não precisamos de leite de vaca, assim como nenhuma outra espécie precisa. Esta invenção de merda que nos impuseram com propósitos económicos é outra das mentiras que ajuda ao declínio ambiental, para além da própria crueldade associada à prática - as vacas são obrigadas a ser inseminadas constantemente ao longo da vida, veem os seus filhos mortos uma e outra vez, para estarem sempre de mamas cheias para nos servir. Para quê? Existem bebidas vegetais alternativas, e são tantas que alguma vos há-de cair no goto. Amêndoa, soja, aveia, noz, caju, coco, arroz... Se nenhuma vos aprouver sois uns esquisitos do caralho. 

3) Ter menos filhos ou não ter
Esta ainda é mais polémica e entra no domínio ético. Não se pode, em democracia, obrigar ninguém a limitar o seu número de filhos. No entanto, os dados são óbvios - desde 1950 a população mais que triplicou. O consumo de recursos está pelas ruas da amargura e tem consequências diretas naquilo que se passa. Mas, mais uma vez, é daquelas coisas envoltas em polémica - os governos querem que existam mais pessoas para pagarem mais impostos e assegurarem o estado social (quando existe), querendo que coloquemos mais filhos neste mundo onde nem casa para morar se consegue pagar com um ordenado; outras nações, como a Rússia, fazem incentivos à natalidade para ter carne para canhão para as guerras. Enquanto isso, nos países que já estão para lá dos limites da sua capacidade, como na China, vimos leis em vigor até há pouco tempo como a política do filho único; no Japão, a população adquiriu voluntariamente um pensamento mais crítico e está a reduzir por iniciativa própria. Ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade que nos impõe um papel - estudar, trabalhar, casar, ter filhos, morrer - e muitas pessoas não conseguem conceber uma vida para lá disso. 

4) Viajar menos
A liberdade é para prezar e conhecer o mundo é um privilégio como há poucos. Viajar é bom e eleva a alma, sair dos nossos limites e conhecer outras culturas faz-nos ser pessoas melhores. Mas o que é certo é que, por muitos comportamentos sustentáveis que tenhamos, uma viagem de avião pode deitar tudo abaixo, especialmente entre continentes. E algumas pessoas fazem-no várias vezes por ano. Como em tudo na vida, o equilíbrio é a chave - uma viagem internacional por ano e conhecer o nosso país nas restantes oportunidades pode sê-lo. Assim também fomentamos a nossa economia e temos oportunidade de conhecer zonas menos óbvias que precisam do turismo interno para crescer e sustentar as suas populações.

5) Não consumir fast fashion
É um dos piores problemas e um dos menos falados. Nós já temos demasiada roupa e não precisamos de mais, mas somos vítimas das modas, que agora deixaram de ser sazonais para serem semanais. A roupa produz-se a um ritmo alucinante e muito acima das nossas necessidades. Se para uma única t-shirt são necessários 2500 litros de água para a sua produção, imagine-se a quantidade pornográfica que é jogada ao lixo todos os dias. E para quê? Provavelmente, temos no armário roupa que nos chega até ao fim da vida, mas é claro que isso nunca vai acontecer. Aplica-se o mesmo: equilíbrio. Estar a comprar roupa nova porque a influencer tal ou a apresentadora tal usa, e na semana seguinte fazer o mesmo, é só estúpido, um desperdício de dinheiro e de recursos. Se nos limitarmos a comprar peças de boa qualidade nos momentos em que precisamos, que durem, e que sejam intemporais, boa. Deixamos de ver ilhas de roupa nos mares africanos, que é para onde vão os restos das novas coleções que não se venderam e a roupa que metemos naqueles contentores supostamente para ser reaproveitada, mas apenas uma pequena parte o é. Comprar e vender em segunda mão é também uma boa prática. Pensem duas vezes antes de dar dinheiro a empresas como Shein, Inditex (Zara, Pull&Bear, Bershka...), Primark, H&M, entre outras do género. Elas não querem saber de vocês nem do planeta.

Existem muitas mais pequenas coisas - usar os transportes públicos, promover o teletrabalho quando é possível, reparar equipamentos em vez de substituir, melhor gestão dos produtos de época, locais e importados (precisam mesmo de comer tantos abacates?) e por aí fora, mas seria necessário que os governos tivessem interesse real em promover este tipo de comportamento em vez de alimentar o capitalismo. Don't get me wrong - ninguém é ingénuo aqui, o dinheiro faz o mundo girar e não há volta a dar; mas tem de haver um ponto de equilíbrio onde possamos viver confortavelmente num planeta saudável para nós e para as gerações vindouras.

Atenção, não há mal nenhum em nos mimarmos sem culpa. Mas um mimo só é um mimo porque não acontece com regularidade, senão seria rotina. Não é fácil estar constantemente a receber estímulos para comprar tudo e mais alguma coisa, é assim que as coisas são feitas hoje em dia. Estamos a falar com amigos sobre lavar roupa com este tempo húmido, vamos às redes e apanhamos anúncios de máquinas de secar. As nossas necessidades, gostos e leviandades são exploradas e servidas em bandejas a todo o momento.
Tudo parece conspirar para nos enfiar produtos pelos olhos adentro, mas isso é também a nossa maior arma - o consumidor tem a faca e o queijo na mão, e o mercado vai sempre adaptar-se aos seus comportamentos. Por isso, quando pensarem que a vossa ação individual não serve de nada, é mentira. Tudo tem o seu impacto, cada ação a sua reação. Nós ainda podemos mudar o decorrer das coisas.


📷Misper Apawu / Associated Press




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