Têm-me dito que as músicas "alentejanas" têm dominado o panorama musical nacional e que é um exagero. Sobre isso, pouco posso dizer com propriedade - não oiço rádio, mal vejo TV, não sei que músicas andam a usar nas novelas ou nos anúncios (são essas que acabam por ser trauteadas de forma mais massiva). Sei que usamos e abusamos de fórmulas de sucesso e que isso tem atravessado gerações, mal ou bem. Neste ponto, não me sinto mal por ser auto-info-excluída, musicalmente falando.
Este ano também não vi o Festival da Canção. Acho que Portugal se posicionou mal e ficou do lado do agressor Israel, a fonte inesgotável de dinheiro ensaguentado - dispenso. Mas foi impossível fugir da informação de que ganharam os Bandidos do Cante. Já se esperava, são dos poucos que não se recusam a participar na Eurovisão e a contribuir para o problema. Fui ouvir a música. Não gostei. Mas não é isso que importa.
O cante cantou as dificuldades do trabalho na terra, suado e mal pago. Do abuso de empregadores, de papo cheio, enquanto o povo andava encurvado de sol a sol. Canta um tempo em que os alentejanos arranjaram mil e uma formas de fazer e aproveitar pão para fazer face à fome e miséria. O cante foi usado por movimentos anti-fascistas e uma forma de usar a melancolia que vem do âmago da pobreza. Contém em si uma resignação, e ao mesmo tempo a esperança de melhor. Por isso, virem estes rapazes que dizem cantar cante a demarcar-se de uma posição política, não só é inapropriado, como acho ofensivo.
Mudem o nome e digam que tocam baladas de amor com sotaque alentejano, que no fundo é o que fazem. Não quero ser purista e dizer que aquilo não é cante, porque os tempos avançam e as coisas mudam. A minha interpretação e a minha opinião como alentejana é que não é, mas façam o que entenderem. Não desvirtuem é este património imaterial da humanidade que vem de um lugar sofrido e de luta. Não promovam o desconhecimento e não desvirtuem todo um povo.












