Agilulfo é um nobre, um marquês que em tempos de República habita a Malandrinha, imponente casa senhorial nas montanhas. Quando sobe à vila, Agilulfo abrilhanta - as costas ficam mais direitas, os olhos menos vesgos, fala de forma mais coerente, fazendo assim mais jus ao seu tÃtulo. Inversamente, emburrece quando desce as montanhas - mal fala, encurva-se, fica aéreo e sem resposta, destrambelhado de pensamentos e movimentos, repleto de dificuldades mil.
As mulheres solteiras sonham em desposá-lo e não se poupam a esforços, vestidos bonitos, maquilhagens requintadas e poucas subtilezas. Não é que tomem Agilulfo por um bom partido, mas querem ser marquesas e habitar a Maladrinha de tantos aposentos e janelas, ter à disposição os melhores tecidos e a possibilidade de andarem de queixo erguido. O interesse dos homens é fazê-lo descer as montanhas, para se aproveitarem do emburrecimento do marquês e fazer-lhe pedidos que ele não tenha capacidade de negar, e também rir-se às suas custas, ao mesmo tempo desejando que ele fosse mulher para lhe fazerem o que quisessem enquanto estivesse emburrecido.
Enquanto alguns têm interesse no luxo de um tÃtulo, outros escolhem emburrecer um homem para sacar umas boas gargalhadas. É uma das questões do livro que nos faz pensar - se temos a hipótese de abrilhantar um homem, ouvi-lo e aproveitar a sabedoria que nos possa trazer, porque é que escolhemos ver a sua versão encolhida, desamparada, estragada, imbecilizada? O que é que ganhamos no proveito sacado de uma pessoa desprotegida, sem defesas, sem honra?
O século dos imbecis, de Valter Hugo Mãe, traz à tona o egoÃsmo da sociedade, de todas as sociedades passadas e futuras, numa sátira tão divertida quanto real. As personagens, como é apanágio do autor, são tão bem construÃdas que se torna comovente a forma como quase as cheiramos. Entre o absurdo e o corriqueiro, elas são as estrelas, concentrando em si tudo o que de humano e desumano nos habita. Mostram como as decisões nunca são apenas decisões, que os atos são seguidos de consequência, e que, no fim das contas, somos mais fortes quando nos rodeamos da nossa boa gente e não quando isolamos os mais fracos para deles fazer pouco.
Valter Hugo Mãe é um verdadeiro contador de histórias, um dos nossos melhores contadores de histórias, e lê-lo foi mais uma vez um privilégio. É com mestria que traça este paralelo entre a ficção e a vida de todos nós, que perdemos a lucidez perante o deslumbramento e que somos tão melhores quando decidimos subir a montanha juntos.












