O ciclista Tadej Pogačar é estranho porque não é possível que seja um simples ser humano. Nós, os amantes do ciclismo, somos privilegiados por poder viver ao mesmo tempo que este homem e testemunhar a sua superioridade. É o melhor ciclista no ativo e vai a caminho de se tornar o melhor que alguma vez viveu. Ficamos embasbacados, boquiabertos e emocionados com aquilo que ele é capaz de fazer, e com um sentimento de "não, não é possível", cada vez que faz uma das dele, como atacar a solo a 100 km da meta sem haver ninguém capaz sequer de lhe cheirar a sombra. Pobre Vingegaard, ou até Evenepoel, que tiveram o azar de nascer na mesma era que o extraterrestre esloveno.
Devido a esta superioridade incontestável tem surgido uma questão - o fim do suspense. Se o Pogačar está presente numa prova, é quase certo que a vai ganhar. Este ano, só não ganhou uma (Paris-Roubaix, 2º lugar atrás de Wout van Aert), e para mim foi a melhor - porque adoro o Wout, e porque teve um resultado diferente do que o esperado, o que trouxe uma dose extra de emoção que há muito não saboreava.
Pogačar domina tanto o ciclismo, que a própria Tour de France, a maior e mais prestigiada prova de ciclismo do mundo, alterou o perfil numa das etapas da primeira semana numa tentativa de manter maior equilíbrio - esperavam assim que não houvesse tanta diferença entre os ciclistas na classificação geral logo no início para manter o suspense em aberto. Adivinhem - estamos no fim da primeira semana e Pogačar vai confortavelmente no primeiro lugar.
Quem ama o ciclismo vê as provas na mesma, mas fala-se de uma certa descida das audiências assim que Pogačar assume a dianteira. A não ser que exista alguma doença, desconforto, ou um azar como um furo ou queda, não é expectável que alguém lhe morda os calcanhares, e a partir daí vemos a corrida pelos restantes atrativos - a luta pelos outros lugares do pódio, pelas restantes camisolas e vitórias de etapa. Eu tenho sentimentos contraditórios - gosto de ciclismo o suficiente para ver todas as provas na mesma, mas sofro um pouquinho pela falta de emoção por saber quem vai ganhar. Os fãs de futebol podem fazer o paralelo - se soubessem desde o início que a Argentina ia ganhar o Mundial, teriam interesse em ver a competição para ver quem fica no pódio, ou quem é o melhor marcador da prova?
No fim das contas, adoro o Pogačar - é um talento inigualável, é um prazer vê-lo a fazer o que gosta, e a querer sempre mais. Não dá borlas, é ambicioso, e é uma pessoa correta para os seus colegas e adversários. Ele sozinho move milhares de pessoas para o ver, e é uma inspiração para miúdos, que veem que se pode ser uma estrela em desportos fora do futebol. Só que, enfim, não posso deixar de desejar, por vezes, que ele tenha um dia menos bom, menos inspirado, que sofra um bocadinho com o calor, ou outra coisa qualquer que não lhe cause grande estrago, para ver outra pessoa brilhar. No fundo, a pessoa estranha sou eu: venero-o, e desejo-lhe um bocadinho de mal ocasional. 😓












