Uma das diferenças entre a esquerda e a direita é que a esquerda promove a liberdade de cada um fazer o que quiser com o seu corpo, enquanto a direita mais extremada quer ter várias palavras a dizer sobre a individualidade e decisões que só cabem a cada pessoa. Vejam-se os exemplos do direito à eutanásia ou ao aborto, lutas de esquerda, enquanto que a direita se preocupa mais se as mulheres se tapam com burcas ou se pessoas trans podem alterar o seu género num papel.
Porque é disso que se trata - a alteração do próprio nome ou género num papel. Algo que não afeta absolutamente ninguém a não ser a própria pessoa. Ninguém fica mais rico ou mais pobre, não se resolve qualquer problema estrutural como a saúde, habitação, salários ou educação, ninguém paga mais ou menos impostos por isso. No entanto, é algo de maior importância para o próprio. Para alguém que sofreu toda a vida por não se sentir bem no seu próprio corpo, o seu invólucro, o seu templo, é um passo para a auto-aceitação que os seres sem empatia nunca irão atingir.
Não estamos apenas a privar jovens de 16 anos de o fazer, mas também adultos. ADULTOS. Nem em adulto uma pessoa tem a liberdade de fazer o que quiser sem aprovação médica. Nem a Ordem dos Médicos nem a Ordem dos Psicólogos concorda com isto, mas os partidos da direita (tirando a IL) acharam melhor confiar nas opiniões de cento e tal grunhos com o cu sentado no Parlamento do que na ciência e de quem percebe realmente do tema e acompanha estas pessoas.
Há muitas coisas graves nisto, sendo a mais óbvia o retrocesso dos direitos dos transexuais, mas outra das coisas graves é o PSD ter imposto a disciplina de voto. Ou seja, não permitiu que cada deputado votasse individualmente. Isto é impôr limite à liberdade individual dentro do partido, e também pode mostrar uma realidade diferente - se cada deputado do PSD tivesse votado conforme aquilo em que acredita, esta lei teria passado? Nunca saberemos.
Nascem bebés em ambulâncias ou no chão de salas de espera, temos urgências fechadas, vivemos uma guerra que nos está a tirar poder de compra (logo, qualidade de vida), temos pessoas afetadas pelas tempestadas que ainda não viram pingo de ajuda, não há casas acessíveis para se viver, os ordenados são baixos... E no entanto, as prioridades do governo até agora foram: mudar o logotipo da república portuguesa, baixar o IVA para as touradas, regular o uso de burcas, reverter a lei que impede que se façam AL's a torto e a direito, tirar direitos a trans, dificultar a vida a imigrantes ou recusar aumentar subsídios a doentes oncológicos. A violação está em espera para se tornar crime público há um ano. Se acham isto normal e aceitável, fazem parte do problema.
É uma pena que a direita moderada esteja a deixar de existir para se encostarem mais à extrema-direita. Penso que é no convívio saudável entre uma esquerda e direita moderadas que se encontram pontes e pontos comuns para avançarmos juntos. Ninguém precisa de uma sociedade polarizada promotora do ódio relativamente a minorias que estão a servir como bode expiatório a problemas que não existem. Estamos a retroceder, e nada indica que fiquemos por aqui. A seguir, poderá estar em causa o direito ao casamento ou adoção gay, e quem sabe, se recuarmos mais uns aninhos, poderão estar a dizer às mulheres qual é a altura do decote permitido ou que não podem viajar sem autorização do marido. Não tomem nada por garantido.
Haja paciência. Bons tempos em que cada um mandava no próprio pipi.












