Está a decorrer a Futurália e o stand do Chega é esta coisa que podem ver no fim do texto, que diz, entre outras frases, "Isto não é o Bangladesh" ou "Sorria, estamos a ser substituídos". Esta narrativa já toca a chalupice de gente como o maluquinho Afonso Gonçalves, promotor do inexistente sangue puro lusitano. Pasme-se, branco, desocupado, e a viver de donativos duvidosos. Não é sempre assim?
Em primeiro lugar, não percebo como é que esta mensagem se encaixa numa feira de Educação. É aproveitamento puro das visitas escolares dos mais jovens, a geração TikTok facilmente influenciável, o público alvo e fácil da desinformação e onde há espaço para o crescimento do ódio. Não importa que a mensagem seja desadequada a uma feira de educação - há jovens a tirar selfies, a postar e a repostar a mensagem, e ao partido o alcance importa-lhes mais que o conteúdo.
Várias outras questões se levantam:
- Porquê o Bangladesh? Não é a maior proveniência de imigrantes, e nem sequer está no Top 5. Temos mais imigrantes ucranianos do que bengalis. Ou seja, não há problema nenhum que "nos invadam" desde que sejam brancos. Também nenhuma palavra sobre os imigrantes brancos e ricos provenientes do UK ou EUA que estão a f*der o mercado imobiliário, certo? Para esta gente, o problema são os 30 asiáticos pobres que dividem um T0 só com tijolo e um buraco para cagar e não o norte-americano que desembolsa milhões por uma casita na Graça que acabou de despejar uma idosa para o efeito. Portanto, sim, é um discurso puramente racista.
- Quem é que vai pagar a reforma do André Ventura, ou a minha? Temos mais ou menos a mesma idade, nenhum de nós tem filhos. Não estamos a alimentar a futura segurança social com crias, e precisamos que quem esteja a nascer agora fique por cá, trabalhe e desconte, para nós podermos ter reforma. Se contarmos apenas com os nascidos e criados cá, estamos lixados. Esta é a realidade - a Europa está envelhecida, as pessoas têm cada vez menos filhos (e bem), mas sem a renovação das gerações não se garante a sustentabilidade da segurança social e das nossas futuras reformas.
- Por quem se tomam? O vosso ADN é melhor do que o dos outros em quê? Acham que são os melhores espécimes da raça humana? Eu olho para o Pedro Pinto e o meu desejo é que esse tasqueiro asqueroso seja substituído rapidamente e os seus genes se desvaneçam na via láctea. Olho para os ladrões, tachos, agressores e violadores que compõem o Chega e sim, quero que sejam substituídos por pessoas melhores, não me importa de onde venham. "Estamos a ser substituídos" - antes estivessem!
- Quem é que está a coordenar essa substituição megalómana? Porque se o plano é substituírem os europeus pelos asiáticos, tem de haver um plano, certo? É demasiada gente, o território é grande, tem de haver liderança e ações coordenadas para pôr em prática este plano de substituição populacional, certo? Alguém já os viu?
- E os milhões de portugueses espalhados por todo o mundo? Uma pessoa levanta um tapete no Sudão e sai de lá um tuga. É um plano para substituir a população mundial, para que os bebés já nasçam de bigode?
Deixem de ser ridículos. Andamos com esta conversa desde sempre e nunca nos aconteceu nada. A demografia mundial vai mudando conforme o contexto externo e interno - as guerras, regimes repressivos, catástrofes naturais, perseguições religiosas, crises económicas, questões éticas, etc, têm ditado o fluxo das populações desde que o mundo é mundo. Já tivemos tantas fases em que arranjámos tantos bodes expiatórios, que com o tempo foram-se mesclando na sociedade e tornando-se parte da normalidade. Nos anos 70 recebemos tantos chineses, que foram também visados por racistas, e agora são mais uma parte da nossa cultura e totalmente integrados. Nos anos 80, após a independência das PALOP, recebemos com relutância e racismo os habitantes das ex-colónias que explorámos até ao tutano. No final dos anos 90 tivemos os kosovares que fugiram de uma guerra, e lembro-me de como eram explorados em trabalhos de merda e postos de parte. Depois do 11 de setembro, foi a fase de estar contra todos os muçulmanos. Os nossos ódios também são cíclicos porque a diferença é um ótimo bode expiatório para os nossos problemas. E cá estamos, com apenas 15% da população imigrante, e a tentar criar mais um medo infundado.












