Regressava da zona de Lisboa, e após sair da Autoestrada em Grândola para rumar a casa, o cenário mudou completamente. O caminho normal na estrada nacional transformou-se num deserto de barro, com colinas imensas sem uma única árvore ou vegetação, ou qualquer outro ser vivo. Pensei que me tinha enganado, mas quando tentei voltar para trás já não existia qualquer sinal da estrada por onde vim.Continuei a conduzir e comecei a ver sinais da existência humana, como centenas de pneus empilhados, parecendo formar barreiras de proteção. Havia mais barreiras ao longo do caminho, umas formadas por ferro velho, outras por carros velhos empilhados uns em cima dos outros, outras com lonas e arame. Parecia o Mad Max na Comporta.Foi assim durante vários quilómetros. Começou a escurecer e fiquei acagaçada, sem encontrar nada que se pudesse chamar uma estrada e sem ver ninguém. Quando o sol se pôs, deixei-me ficar dentro do carro e preparei-me para passar a noite no banco de trás. Aí sim, começaram a sair pessoas de todos os lados. Acendi os faróis para as ver melhor, e aproximaram-se do carro. Estavam vestidas parcamente, como pessoas das cavernas, e olhavam para mim e para o carro como se estivessem a olhar para um extraterrestre. Tinham a sua própria língua e falavam entre si sem que eu percebesse nada. No entanto, não achei ameaçador, e saí do carro. Ficaram embasbacados e pareciam temer-me.Gostava muito de saber a continuação da história, mas acordei. Ficou-me um sentimento de algo inacabado, que ainda dura. Quem eram aquelas pessoas? Porque é que precisavam de barreiras de proteção e só saíam durante a noite? Porque é que as estradas desapareceram e só havia barro por todo o lado? Tanta tecnologia e não sei quê, e não temos maneira de regressar a sonhos inacabados. Uma pena.












