Estava na praia, e embora fosse uma praia selvagem alentejana, enormíssima, com meia dúzia de pessoas separadas no mínimo por 20 metros, uma família veio quase colar-se a mim. Percebe-se imediatamente que são betos da área de Lisboa, habituados a esta proximidade no areal.
Era uma família de pai, mãe, cinco filhos (logo por aí percebe-se que são betos), e na verdade eram todos muito tranquilos - à exceção do pai. Ele só comunicava através de gritos, BERROS MESMO.
"TERESINHA! TERESINHA! OLHA PARA MIIIM", e segurava o telemóvel para fotografar a adolescente, que nem se virou. A mulher virou-se. "DIZ À TERESINHA PARA OLHAR PARA MIM!". Ela não disse nada, virou-se e continuou a olhar para o mar. Ele foi ter com elas. "TIREM UMA FOTO COMIGO!". Elas posaram, sem qualquer emoção no rosto. "SORRIAM! SORRIAM! EPÁ NEM SORRIEM!"
Voltou para o guarda-sol, onde estava outra filha a tentar dormir à sombra. Começou a tirar-lhe fotos. Ela pediu-lhe por favor para não o fazer. Ele continuou. "EH EH EH! MAIS UMA! AGORA DAQUI!". Ela deu-lhe uma sapatada no pulso com a mão. "AIIII ALEIJASTE-ME, TITA! DÓI! VOCÊS, PÁ, A MAGOAR O PRÓPRIO PAI!!"
Um puto mais novo veio também para a sombra, e o pai: "VAI À ÁGUA!!!". O miúdo respondeu calmamente que não queria. "MAS ESTAMOS AQUI, A ÁGUA ESTÁ BOA, VAI À ÁGUA". Voltou a responder que não lhe apetecia. "MAS ESTÁ TÃO BOA, VAI LÁ MERGULHAR!". Aí, o puto levantou também a voz para dizer que não queria, e ele não o podia obrigar.
O senhor e as suas madeixas louras fizeram birra e foram a resmungar deitar-se na toalha. [Nota: adultos a fazerem birra é o maior turn-off de sempre] Mas não durou muito tempo. Chega o filho adolescente que tinha estado a caminhar, ele levanta-se de um salto e diz "MANEL, ÉS TU QUE VAIS TIRAR UMA SELFIE COM O PAI!", e posiciona-se, mostra os dentes brancos demais, o filho de braços cruzados sem expressão, só a deixar-se levar, claramente saturado.












