Pessoas estranhas #142 - Ventura em sofrimento

fevereiro 09, 2026

Penso que os apoiantes de André Ventura o vejam como uma pessoa perseverante, um bulldog agarrado ao osso, uma pessoa forte que não recua, um mentor de espírito inabalável. Ultimamente, existe uma alteração na imagem pública com que Ventura se tem apresentado e que corresponde a um líder sofrido.

Acho que o ponto de viragem foi o episódio do refluxo gastro esofágico. Sentiu-se mal em público e as imagens que retrataram a sua dor correram os meios de comunicação e as redes sociais. Acredito que essas imagens mostrem uma dor real, reforçada também pelo aspeto inesperado da situação. No entanto, foram as únicas - tudo o que veio a partir daí é too much e parece forçado.

Como se gerou uma onda de apoio, que é normal quando alguém mostra uma debilidade de saúde, ele ou alguém do seu gabinete de comunicação achou por bem aproveitá-la e esmifrá-la ao máximo, mesmo quando não faz sentido. Agora, vemos aquela cara franzida de esforço hercúleo em qualquer coisa que faça. Mesmo nas entrevistas e debates, há uma componente de coninhas choramingão que não sei se não estará a contribuir para os piores resultados do Chega comparando com as legislativas, tanto nas autárquicas como agora nas Presidenciais. Tipicamente, as pessoas que apoiam a extrema direita querem uma energia macha com pulso forte, e nada me tira da cabeça que muitos votantes habituais do Chega tenham votado no Cotrim na primeira volta também por essa razão.

De todas as estratégias usadas até agora, penso que esta foi o maior tiro no pé. Começou na foto na cama do hospital após o refluxo. Aí, as pessoas já sabiam o que era e que não se justificava tanta exploração do ocorrido, que é uma situação clínica bastante simples e comum. Agora, o novo normal é vermos imagens dele com um sofrimento enorme no rosto ao carregar umas garrafas de água, a benzer-se em frente a um porta-bagagem, a adicionar chuva falsa para aumentar mais o dramatismo... Pensem nos ídolos de Ventura, e tentem imaginar o Salazar a franzir a cara e forçar o choro ou o Trump mostrar dificuldades em carregar um garrafão - nunca aconteceria.

Acredito que esta exploração da admissão de fraqueza em que "estar sozinho contra o sistema" o deixa num estado mais débil física e psicologicamente se virou um pouco contra ele. O bulldog está a mostrar que é um pouco caguinchas como um caniche, e acho que não está a cair bem numa facção de apoiantes que exige mais virilidade e auto-controlo. A mesma coisa com a descida dos votos entre as mulheres. Tudo isto é interpretação minha, mas acho que este sofrimento performativo e dramatizado pode não ter caído no goto de muitas, que sofrem de dores todos os meses e que conhecem as dores do parto, e outras, sem vacilar. Não é que não tenham empatia por quem sofre - simplesmente parece que há quem sofra por quase nada e queira alavancar nisso a sua imagem política. A minha previsão é que o menino da lágrima termine em breve esta estratégia que não deu grandes frutos.





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