Livros bacanos #9 - Salvo o meu coração, tudo está bem, de Héctor Abad Faciolince (2024)
abril 23, 2026Luis Córdoba é um padre muito amado não só na sua comunidade, como em todo o país, pois é um dos maiores especialistas em cinema, ópera e música clássica da Colômbia. Ao longo do seu caminho, a sua simpatia, paciência e benevolência sem limites fizeram com que se rodeasse de verdadeiros amigos de todas as idades, géneros e religiões. Os seus conhecimentos profundos, o seu jeito para ensinar, a sua eloquência e bondade fazem dele uma pessoa muito admirada e querida por todos.
Acontece que o padre Córdoba tem um coração grande demais, figurativamente e literalmente. Ele é muito alto e muito gordo, e o seu coração dilatado já não aguenta viver mais no seu corpo - precisa de um transplante o quanto antes. Como a casa que divide com o seu grande amigo Aurelio (e narrador desta história muitos anos depois) tem demasiados degraus para o seu coração frágil, uma amiga oferece-se para o acolher numa casa térrea e tranquila enquanto espera um dador.
Nesta casa moram a sua amiga Teresa, divorciada e mãe de duas crianças, a empregada doméstica Darlis, e a sua filha. E de repente o padre Córdoba vê-se cuidado e rodeado de amor por uma verdadeira família composta por duas mulheres e três crianças. Começa a sentir coisas que nunca sentiu e deixa-se abarcar pelo sentimento avassalador de viver em família - desde contribuir para a educação daquelas crianças que lhe deram uma outra vida, até aceitar ser mimado por duas mulheres adultas que o adoram e só querem que ele esteja bem e feliz.
Este cenário e esta experiência familiar trazem à tona muitos pensamentos e conversas sobre o celibato e a provação e sacrifício que os padres têm de fazer no seu sacerdócio. É mesmo necessário? Ainda faz sentido privar os padres dessa experiência familiar? Porque é que noutras religiões e noutras vertentes do catolicismo é permitido que os padres tenham uma família? Deve ser uma imposição, ou uma escolha? Esta é uma das discussões, entre muitas outras, levantadas por este livro, que abarca cultura, a vida em Medellín, a amizade, e o impacto que as pessoas têm na nossa vida.
O facto do narrador ser o seu melhor amigo e companheiro de casa padre Aurelio, com quem priva há décadas num companheirismo comovedor, traz mais uma dimensão emocional e mais camadas para descobrirmos sobre Luis Córdoba, o "Gordo", um ser humano de exceção que acontece ser devoto a Deus, e cujo facto de o coração já não lhe caber no peito é mais do que simbólico. E quando percebemos que a narrativa é uma homenagem a uma pessoa real, entra mais uma camada de simbolismo.
Pode não ser um livro para todos - o desenrolar é lento, por vezes muito musical ou descritivo. A mim, o retrato do coração grande e frágil que tudo abarca e os pilares da amizade inabaláveis tocaram os meus próprios ventrículos. Achei muito belo, poético, e a construção da personagem principal, a sua profundidade e humanidade, deram-me alguma fé - não baseada na fé católica, mas na esperança que nos alimenta de que existem pessoas realmente excecionais e que deixarão a sua marca mesmo muito tempo após a sua morte.

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