Pessoas estranhas #151 - o pai-criança

agosto 13, 2026

Estava na praia, e embora fosse uma praia selvagem alentejana, enormíssima, com meia dúzia de pessoas separadas no mínimo por 20 metros, uma família veio quase colar-se a mim. Percebe-se imediatamente que são betos da área de Lisboa, habituados a esta proximidade no areal.

Era uma família de pai, mãe, cinco filhos (logo por aí percebe-se que são betos), e na verdade eram todos muito tranquilos - à exceção do pai. Ele só comunicava através de gritos, BERROS MESMO.

"TERESINHA! TERESINHA! OLHA PARA MIIIM", e segurava o telemóvel para fotografar a adolescente, que nem se virou. A mulher virou-se. "DIZ À TERESINHA PARA OLHAR PARA MIM!". Ela não disse nada, virou-se e continuou a olhar para o mar. Ele foi ter com elas. "TIREM UMA FOTO COMIGO!". Elas posaram, sem qualquer emoção no rosto. "SORRIAM! SORRIAM! EPÁ NEM SORRIEM!"

Voltou para o guarda-sol, onde estava outra filha a tentar dormir à sombra. Começou a tirar-lhe fotos. Ela pediu-lhe por favor para não o fazer. Ele continuou. "EH EH EH! MAIS UMA! AGORA DAQUI!". Ela deu-lhe uma sapatada no pulso com a mão. "AIIII ALEIJASTE-ME, TITA! DÓI! VOCÊS, PÁ, A MAGOAR O PRÓPRIO PAI!!"

Um puto mais novo veio também para a sombra, e o pai: "VAI À ÁGUA!!!". O miúdo respondeu calmamente que não queria. "MAS ESTAMOS AQUI, A ÁGUA ESTÁ BOA, VAI À ÁGUA". Voltou a responder que não lhe apetecia. "MAS ESTÁ TÃO BOA, VAI LÁ MERGULHAR!". Aí, o puto levantou também a voz para dizer que não queria, e ele não o podia obrigar.

O senhor e as suas madeixas louras fizeram birra e foram a resmungar deitar-se na toalha. [Nota: adultos a fazerem birra é o maior turn-off de sempre] Mas não durou muito tempo. Chega o filho adolescente que tinha estado a caminhar, ele levanta-se de um salto e diz "MANEL, ÉS TU QUE VAIS TIRAR UMA SELFIE COM O PAI!", e posiciona-se, mostra os dentes brancos demais, o filho de braços cruzados sem expressão, só a deixar-se levar, claramente saturado.

"O QUE QUEREM JANTAR HOJE?" - nova investida para alguém falar com ele. O Manel encolhe os ombros, e é a única reação que recebe. "VÁ LÁ, IDEIAS, IDEIAS!". Ninguém reage. Já estava na minha hora, e deixei de conseguir concentrar-me na leitura com todo este chavascal, por isso fui embora.

Ouvi aquele pai por apenas 10 minutos e fiquei extenuada. Compreendo que alguns pais queiram ser fixes, ou queiram apenas garantir que as férias são memoráveis, mas há algumas pessoas sem noção. Sem noção do espaço pessoal, da invasão de privacidade, dos decibéis ou, no mínimo, da necessidade de alguma tranquilidade nas férias. Ele não dava descanso a ninguém, e pareceu-me mais uma criança de quem a mãe tinha de cuidar. Certamente que gostam do pai, mas a cara daquela família era de cansaço, saturação, e um bocadinho de vergonha alheia. A meu ver, não lhe estarem a responder torto já era um sinal de respeito.

Era um pai-criança: constantemente a chamar a atenção, a amuar, a querer fotografias, sem parar quieto, a precisar que lhe deem conversa. Alguém que lhe dê um baldinho e uma pá, por favor. Há pessoas que têm de se ajudar um pouquinho mais a si próprias a não serem too much.




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