The Story

segunda-feira, fevereiro 16, 2009


"You see the smile that's on my mouth
It's hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through like you do
And I was made for you

All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
Oh but these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true... I was made for you"

Brandi Carlile - "The Story"
(2007)


Um sorriso esconde tanto. Uma risada alta, bem sonora, é tão mentirosa. Mente, tanto, com todos os dentes que tem na boca. Não passa de uma máscara que esconde sabe-se lá o quê. Uma mente em desordem, um fundo negro, que de sorridente, não tem nada. Ninguém conhece ninguém, apenas se conhece o invólucro. A não ser que se consiga ver os olhos desse alguém e descortinar, para lá do óbvio, o não óbvio, o escondido, o que falta interpretar, o desconhecido.

E correr as linhas do rosto, uma a uma, e tentar perceber tudo. Todas as histórias, todos os lugares, todas as desilusões, os caminhos. Cada marca é uma vida à parte, que sobrevive à custa da dúvida marcante que sobra de um percurso sinuoso. E todas as marcas juntas formam um todo harmonioso, quando tudo o que é bom e mau se junta num rosto, e quando todas as dores e alegrias se juntam num olhar.

Mas. Se não houver ninguém para interpretar essas marcas e esse olhar. De que é que servem?

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3 comentários

  1. Eu odeio essa senhora e essa música...sim a letra é bonita. Mas aquela voz de quem vai ao wc e não consegue fazer nada dá cabo de mim :P

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  2. 1/2

    Fiquei muito contente ao ver que tinhas também reflectido sobre esta música. Com efeito, a primeira vez que eu a ouvi no cinema nem queria acreditar na forma precisa como cada palavra desenhava mais um traço perfeito numa apresentação incrível da nossa vida, do seu carácter biográfico, da forma como a nossa história nos marca e como essa história (como aliás toda a nossa vida) tem um carácter dialogal, tende intrinsecamente para a partilha. Quanto à voz da cantora, parece-me adequada, variando entre a melancolia e a dileceração interna, entre a harmonia e a falta dela. Por tudo isso, alegrou-me saber que tinhas reflectido sobre isto, com a tua habitual agudeza. Queria, no entanto, introduzir mais algumas ideias que me ocorreram enquanto te lia e recordava a música.

    Em primeiro lugar, parece-me acertado que nós, dos outros, conhecemos apenas um invólucro, um riso que esconde uma disposição misteriosa. Na verdade, se o outro fosse apenas o que nós conhecemos dele, então teria uma vida extremamente superficial e desinteressante. A vida é um mecanismo gigantesco de uma complexidade avassaladora. Nós olhamos de fora para o resultado abreviadíssimo de milhares de roldanas vitais. Agora, o que me parece igualmente interessante é que quando tentamos olhar para nós mesmos por um esforço da vontade, então também nos escapa a infinita complexidade de nós mesmos. Lembramo-nos de algumas coisas que pensámos e que estejam ainda mais presentes, de um ou outro acontecimento que nos marcou, deste ou daquele projecto em que estamos envolvidos, mas não temos um olhar que, feito malabarista, consiga manter no ar os milhões de momentos e de sentidos que nos fazem. Na verdade, nós olhamos quase sempre para nós mesmos de forma simplificada, absortos no que está na ordem do dia, ou então espremendo o limão seco do nosso cérebro, tentando recordar aspectos marcantes da nossa vida, a sua articulação entre si, a sua importância, e tentando perceber a forma como vemos o futuro, aquilo que desejamos, o que faria sentido para nós. Tentando ver-nos, vemos à distância um ou dois edifícios e uma massa indistinta de fundo. Normalmente não percebemos o bulício da cidade que somos. Por isso mesmo, quando procuramos realizar a nossa identidade, temos imensas dificuldades, pois não sabemos ao certo o que é a nossa essência. Por isso não é só o outro que nos foge, mas nós mesmos estamos sempre a escapar-nos, como um prisioneiro a quem se deixou a porta aberta por não se ter chave. Normalmente nem damos por esta falta de nós mesmos, noutros momentos as trevas crescem e revelam-nos o que temos de nós mesmos. Aí conhecemo-nos um pouco melhor, aí recebemos algumas pistas de como e por onde nos procurar.

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  3. 2/2

    Há, pois, uma falta de nós, um vazio de si que nos preenche. E no entanto a música e a tua interpretação dão alguma (e só alguma) esperança. Ver os olhos de alguém, descortinar, interpretar, conhecer. Há algo no nosso percurso sinuoso que permite iniciar uma decifração e essa decifração depende de um olhar exterior - um olhar exterior de nós próprios em relação a nós, de outro em relação a nós e de nós em relação a outro, tudo isto interligado entre si. A distância da reflexão, do afastar-nos da vivência compulsiva da vida, com todos os seus riscos, dá-nos também a oportunidade de reconstruirmos os nossos passos, de tentar perceber para onde vamos e o que é que nos move. Este afastamento da vivência compulsiva, quando relativo aos outros, é também o que permite aceder a eles como o mistério que eles também são (para si próprios e para nós). É o que permite juntarmo-nos a eles no esforço de ser. É o que permite um verdadeiro e profundo cuidado com eles. Equivale a um tentar ouvir a sua história, ao mesmo tempo que eles próprios também a tentam ouvir. Por outro lado, também nós próprios precisamos do dinamismo e do incentivo do olhar do outro, o olhar que quer escutar e não nos deixa repousar no silêncio confuso de viver absorvido no mundo, num desconhecimento de si. Este repouso é algo para que sempre de novo começamos a escorregar e por isso a partilha de palavras custosamente arrancadas ao silêncio é um caminho para tentar construir um rosto por baixo da máscara com que nascemos.

    Protréptico

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