Livros bacanos #6 - Última Confissão, de Ozzy Osbourne (2025)

janeiro 19, 2026

O livro debruça-se sobre o período entre 2018 e 2025, mas também em muitos momentos cruciais do passado que contribuíram para que o Ozzy fosse o Ozzy que conhecemos.

Em 2018, decorria a No More Tours II e era suposto ser a última tour de Ozzy Osbourne. Ia prolongar-se para 2019 com centenas de concertos em todo o mundo. No entanto, a digressão foi marcada por sucessivos azares com a saúde que fizeram com que tivesse de cancelar ou adiar concertos - desde a queda na cama que lhe partiu o pescoço, uma primeira de várias cirurgias que correu mal, infeções por estafilococos na ponta dos dedos, pneumonias, covid, só para mencionar alguns. Isto, somado ao Parkinson. Passou muito mal, muitas vezes. Não foi de ânimo leve que o aceitou. Aos 70 anos, era agora ou nunca.

Desiludar os fãs é algo com que Ozzy nunca soube lidar e acreditou sempre que iria superar e conseguir voltar a atuar. Aconteceu brevemente com umas aparições esporádicas, mas nunca mais foi o mesmo. Por conta do medo de desiludir, demorou a contar a verdade sobre o que realmente se passava com ele. Essa admissão seria confirmar a hecatombe que o seu corpo se tinha tornado e que estava mais perto do fim do que nunca. Com este livro, deu-nos a conhecer as suas emoções nesses momentos complicados e quase funciona como um pedido de perdão aos fãs para percebermos (posso incluir-me) que ele fez tudo o que pôde.

Apesar do tema aparentemente não ter nada de feliz, o tom é muito jovial e divertido. Ozzy tinha imensas histórias mirabolantes para contar, muitas delas sobre personalidades que bem conhecemos. Foi incrível saber que o Lemmy Kilmister era um rato de biblioteca ou como interrompeu o Slash quando este estava numa cama de hotel com uma mulher. Também é giro saber que o próprio Ozzy era um fanboy, que se sentia um autêntico puto engasgado junto aos seus ídolos, como o Paul McCartney

Claro que todo o livro é marcado pelo uso das drogas - foram décadas de abuso que deram origem a todo o tipo de episódios absurdos, até mesmo assustadores e de quase morte. A julgar só pelo que é contado no livro, é inacreditável como é que aquele homem durou tanto tempo. Imagine-se o que ele não contou. Ou do que não se lembrava.

As suas origens muito humildes, a vergonha de crescer com dislexia, o primeiro casamento, o modo como a Sharon lhe salvou a vida inúmeras vezes (e depois de ler, acredito piamente que isso é literal), as quezílias com os outros membros dos Black Sabbath, os muitos amigos que faleceram das formas mais estúpidas e violentas, ou a sua crescente relação com os animais, são alguns dos temas abordados, e que nos dão um retrato do porquê de o Ozzy ser quem é.

É uma leitura emocionante (e não só para fãs) e muito humana, que nos aproxima da pessoa por trás da estrela do rock. Depois de ler, fiquei ainda mais agradecida por ter tido o privilégio de o ver no concerto em Lisboa mesmo antes de tudo descambar. É uma sensação egoísta que não consigo evitar.
O facto de o livro ter sido lançado post-mortem e percebermos que o esteve a escrever quase até ao fim, é mais uma camada emocional - no fundo, quando nos aproximamos do fim e sabemos, não temos problemas em soltar os destroços que estão presos no mais fundo de nós.



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