Os meus dois tostões sobre os candidatos às Presidenciais
janeiro 16, 2026As presidenciais são já no próximo domingo e decidiremos os dois candidatos que seguem para a segunda volta. As tracking polls têm estado a dar no pó - mudam absurdamente de um dia para o outro e não existe uma tendência clara para além de que o único candidato de esquerda que é capaz de ter um bom resultado é o António José Seguro. À direita, qualquer um está em posição de ir à segunda volta. Vamos lá fazer uma cábula rápida.
Marques Mendes
A ser eleito, seria um braço direito do atual governo. Ou seja, todos amigos, todos a rumar para o mesmo lado, todos igualmente inúteis. Seria um autêntico amén para o Montenegro e a via mais fácil para o governo. Não causaria fricção - o que é pena, porque não está a ser uma legislatura propriamente feliz. Não confio nas suas capacidades diplomáticas, nem nele como pessoa. É um privilegiado que olha de cima para os outros (apesar da sua altura), com uma conta bancária bem recheada e servicinhos duvidosos feitos ao longo de muitos anos.
Almirante Gouveia e Melo
Há 6 meses todos diziam que ia ganhar. Hoje, é duvidoso que se aproxime sequer dos seus oponentes diretos. Acho que antes todos o viam como a figura militar - mais brusca, com uma postura mais dura - mas a partir do momento em que começou a abrir a boca o povo foi perdendo o interesse. Tentou adaptar o seu discurso a todos, e o resultado foi perder o apoio de quase todos. Não tenho dúvidas que a sua experiência militar seria útil se fossemos um país relevante, só que ninguém quer saber de nós a esse ponto (a não ser que o Trump queira os Açores). Tirando essa experiência, só é relevante na arte de posar bem num fato com insígnias e apertar mãos.
Catarina Martins
Eu gosto da Catarina, acho que é bem intencionada e tem os valores no sítio certo. Em termos pessoais, representa ideais e causas eu defendo - o fim das touradas, a eutanásia, a legalização das drogas leves, a justiça social, a igualdade para todos, o ambientalismo, e por aí fora. No geral esteve bem nos debates. O problema da Catarina é não ter uma pila. Este país não está preparado para eleger uma mulher. Podia ser de esquerda, direita, do meio, uma tirana ou uma santa, ter todos os skills adequados à função - não importa. Isso, mais a associação ao estigma Bloco de Esquerda (e ao celeuma inexplicável relativamente à Mariana Mortágua), que saiu debilitado depois das últimas eleições, faz com que, com muita pena, a Catarina não tenha hipóteses.
Cotrim de Figueiredo
O bon vivant, que gosta de boa roupa, bons carros, bom gel. Gosta de se comparar fisicamente com os outros candidatos, por ser mais ativo, ser mais alto, mais atlético, ter menos barriga. Muito popular entre praticantes de padel, donos de start-ups e de alojamentos locais. Acho que não trabalhou até aos 40 e poucos anos. Nas redes, está a dar uma de influencer. Portanto, tem tudo para representar bem o povo português (ironia). Nos últimos tempos meteu água quando começou a ser mais pressionado pela comunicação social e meteu-se por caminhos mais extremados. A autorização do homem para a interrupção voluntária da gravidez, o facto de poder votar em Ventura, e a condescendência perante as acusações de assédio dizem exatamente o que ele é - um homem incapaz de lidar com a contrariedade (porque o papá, a mamã e a empregada sempre lhe fizeram as vontades).
António Filipe
Representa muito bem os ideais do seu partido, e isso é o maior problema. Não consegue ser concreto relativamente ao tema Rússia / Ucrânia, ou sequer chamar ditador a Maduro. Tal como o PCP, mete, e bem, em cima da mesa, temas como os direitos no trabalho ou o direito à habitação, mas ainda representa algo de bafiento e pouco progressista em vários temas. O partido tem votado contra temas ambientais ou animais, e até mesmo na eutanásia, defendendo a sua postura como "a lei não está boa o suficiente", preferindo portanto perpetuar o que está do que fazer avançar aos poucos. António Filipe defendeu também os touros de morte. Portanto, para mim, é opção morta.
António José Seguro
A única esperança da esquerda. Ainda assim, uma esquerda assim-assim. É um diplomata, talvez demasiado diplomata. Por isso, tem muito cuidado com a linguagem, a postura, o tom de voz. Quer transmitir segurança, tranquilidade, e isso pode fazê-lo parecer choninhas. No entanto, um presidente da república é isso mesmo - um choninhas quase sem poderes, uma figura de porcelana para ficar bem na fotografia, apertar mãos e cortar fitas. Não seria a minha escolha, mas acho que cumpriria. Parece ser um ser humano razoável, e nos dias de hoje isso é qualquer coisa.
André Ventura
Deixei quase para último porque os seus eleitores não têm paciência ou capacidade para ler e se chegaram até aqui foi a fazer scroll. Igual a si próprio - os seus alvos, a retórica e as técnicas de comunicação são as mesmas de sempre. Queixa-se de que não tem atenção e é a pessoa com mais tempo nas televisões. Fabrica fake news. Sabe todas as técnicas para se aproveitar dos ódios. Tem de falar mais, mais alto, e com mais gafanhotos que os outros. Entra em contradições conforme o vento. Temos de lhe tirar o chapéu no facto de ser aguerrido e conseguir manter isso ao longo do tempo - eu fico cansada só de ouvir. No fim do dia, sabe apontar problemas, mas não consegue dar soluções concretas. Acho que também está confuso sobre o papel que um PR deve ter. O discurso anti-sistema também já não pega - qualquer pessoa percebe que ele está profundamente enraizado no sistema e quer continuar a estar.
Jorge Pinto
Similarmente à Catarina Martins, partilhamos muitos dos valores e causas. Para mim, são dois candidatos muito parecidos que deviam ser só um. Espero que o Jorge venha a ter papéis de relevância na política nacional, mas não creio ser este o papel nem o momento. Quando disse que desistiria da candidatura se todos à esquerda o fizessem para apoiar Seguro, foi um tiro no pé. Obviamente que as suas palavras foram aproveitadas e deturpadas imediatamente, e passou por fraco e sem confiança em si próprio. Acho que é um gajo porreiro, inteligente, que sabe falar bem, e com mais experiência poderá tornar-se relevante na política nacional, seja na oposição ou na composição de um governo ao género de uma geringonça (saudades).
Manuel João Vieira
O artista, o gajo do povo e completamente fora de qualquer sistema. Aquele que, com rábula e sátira, lá vai falando de temas fraturantes. Aquele que tudo promete e nada entregará - tal como todos na política. Com o absurdo, revela as fragilidades de um país. O facto de ter finalmente entrado nos boletins de voto é a maior vitória de Vieira. Não terá mais nenhuma. Não haverá um seguimento. O voto em Vieira será um voto de protesto tanto ao estado em que estamos, como às fracas alternativas que temos. Não é que me importasse de o ver em funções diplomáticas - imagino-o a receber o Macron com um fadinho sobre bordéis franceses ou sugerir atingir o Putin com pilas das Caldas. Vota Vieira, por vinho na torneira e contra a pasmaceira.
Os outros dois não os conheço o suficiente para falar deles, mas o André Pestana até parece um ser humano decente. Agora vão, meus filhos, votem, votem muito, em consciência, e tenham em mente que a democracia é para defender. Por muito chateados que estejam, por muito que queiram causar impacto, lembrem-se que votar, falar abertamente sobre política ou trocar ideias publicamente, não é garantido. Sei que não é fácil conceber um mundo em que estas coisas não existem porque a maior parte de nós já nasceu em democracia, mas está ao virar da esquina. Basta olhar para o mundo. Temos de deixar claro que é o povo quem decide e assim continuará.

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