Sobre as praxes e o Meco

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Nunca fui adepta de praxes. Quando passei por elas fiz metade das actividades, só para não ser catalogada na minha primeira semana em Lisboa como a anti-social da Faculdade. Foi a primeira e a última vez. Nem tão pouco voltei a fazer parte de qualquer actividade "social" do mundo universitário, fossem arraiais, festarolas, jantares, etc.

Que sou anti-social já é do conhecimento de todos, mas não é só isso. Simplesmente não vejo o interesse. Alegam que as praxes servem para a integração, fazer amigos, conhecer a Faculdade e as tradições ou passar um bom bocado. Ora bem, os amigos que fiz no meu percurso universitário não os conheci nas praxes. O que conheci durante as mesmas foi basicamente o pátio e a área envolvente onde éramos vítimas de partidas, ou seja, ficávamos sujos, com latas penduradas nos pés e o corpo todo pintado. Na festa, a integração que vi foi miúdas bêbedas a fazerem as vontades aos membros da Comissão de Praxes, a colocarem-se em poses sexuais, a simularem cenas de sexo e a ficarem eternamente conhecidas como "as porcas" da Faculdade. Na minha opinião, é triste e parvo. 

Compreendo que há quem goste e só participa quem quer. Sei que há coisas inocentes e realmente divertidas e outras que nem tanto. Cedo tomei a minha decisão de desistir das praxes e de nunca mais participar em nada parecido, mas também há que perceber, e isto é uma realidade, que nem toda a gente tem a capacidade de dizer não. Seja porque querem impressionar os mais velhos e integrar-se o mais rapidamente possível, fazer amigos à força porque têm medo de penar sozinhos o resto do tempo da vida estudantil, terem medo de ser olhados de lado durante os anos seguintes ou simplesmente porque são fracos de espírito.

Tudo muito bem e cada um sabe de si, mas nos últimos anos a violência das praxes tem gerado alguns casos preocupantes e acho que é altura de alguém olhar para elas e regulamentá-las, impor limites, qualquer coisa. As brincadeiras com conotação sexual estão tão banalizadas que já são "normais". Nos últimos anos existiram casos de agressão, ameaças relativas à vida académica, alunos depositados em bosta de vaca, insultos desmedidos e muita falta de respeito.

E agora seis alunos estão mortos. Uma história triste e envolta em tanto mistério que não pode augurar nada de bom. Alunos que estavam numa praia à noite, incontactáveis, com clima instável e grandes ondas. Um sobrevivente que se recusa a falar. Uma Comissão de Praxes que recusa dar declarações.

Revejo-me neste texto e nesta opinião e espero mesmo que alguém olhe para este flagelo em crescimento dentro em breve.


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