Avançar para a morte sem saber

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Não consigo imaginar a agonia que é avançar para a morte, vê-la pairar, aproximar-se, e finalmente tomar conta de nós, sem o querermos, e nada podermos fazer senão assistir.

O actor italiano Raphael Shumacher representava numa peça de teatro e era suposto, como parte da actuação, ter simulado suicídio com uma corda ao pescoço. Mas algo correu muito mal e a corda apertou mais do que era suposto. Foi um elemento do público que reparou que a agonia do actor era real e correu para ele, alertando para o sucedido, mas era tarde demais. Já estava em coma cerebral, e acabou por morrer há poucos dias. Tinha 27 anos.

Isto é a vida a gozar. É o destino a cuspir na nossa cara. É deus e o diabo a jogarem à sueca com as nossas vidas a prémio. Não há justificação para isto. É sádico. Não me cabe na cabeça, não consigo imaginar, o que aquele jovem sentiu ao perceber que estava a morrer. Ele, que não o queria, que nunca tinha posto essa hipótese, enfiou uma corda ao pescoço sem saber que era a última coisa que havia de fazer, com centenas de pessoas a assistir, a olhar para ele, apreciando o valor da peça enquanto largava o último suspiro.

É mais do que triste, é macabro. É pior do que um acidente mortal, pior do que saltar da ponte ou tomar uma data de comprimidos para morrer. É dar-se como voluntário para a morte, a pensar que se vai perpetuar a vida através da arte.

Descansa em paz, embora eu ache que estejas onde estiveres, não deves ter muita.

Raphael Shumacher


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