O que são "50 anos disto"?

janeiro 25, 2026

Esta coisa do "temos de acabar com 50 anos disto", que tem sido a retórica mais habitual por parte de André Ventura, deixa-me muito confusa. Percebo que a manipulação pelo ódio mova as pessoas - é muito fácil amplificar o descontentamento, más experiências pessoais, a falta de serviços básicos ou os traumas de cada um e generalizar, criando um bode expiatório onde concentrar a raiva. Mas não consigo perceber como é que os "50 anos disto", que correspondem ao fim da ditadura, podem ser algo mau. 

Se se está a referir ao facto de o país ter sido governado maioritariamente por dois partidos nesse período, isso é uma decisão do povo. Povo esse que tem uma palavra a dizer exatamente porque não vivemos em ditadura. Está a chamar burro ao povo, é isso? Sempre existiram vários partidos disponíveis onde pôr a cruz, e o que terá de corrido de bem ou mal, foi o povo que elegeu livremente. O senhor Ventura quer que os eleitores votem em si num processo democrático, mas quer regressar a um tempo em que não existia um processo democrático. Mais confusa fico.

Se se está a referir à corrupção, visto ser um termo com que frequentemente enche a boca, também não entendo. Não há nada mais corrupto do que controlar a imprensa e a inexistência de um poder judicial independente, como era há mais de 50 anos. Se existia censura e não havia instituições para cobrança de responsabilidades, é claro que nunca se falava de corrupção. Comparando com hoje, em que temos investigações públicas, transparência fiscal obrigatória, operações na Justiça e debates abertos em imprensa livre, com exposição e punição de casos reais, eu diria que estamos objetivamente melhor, não? Novamente, mais confusa fico.

Ora pensemos em algumas coisas que os últimos 50 anos nos trouxeram. Direitos no trabalho - direito a férias pagas, à greve, subsídios de férias e Natal, contratos escritos, ordenado mínimo, limitação das 8h de trabalho diárias, descanso semanal obrigatório, fim do trabalho infantil. Saúde e educação públicas. Menos pobreza e miséria. Mais direitos para as mulheres, incluindo o de voto e o de se deslocar sem autorização do marido. O analfabetismo era gritante e hoje é residual. Hoje pode ler-se o que se quiser, ver os filmes que se quiser, ouvir a música que se quiser. Podemos escrever e falar de política sem tortura e prisão. Podemos estar em grupo na rua. Temos acesso a produtos que antigamente eram proibidos. Os seus queridos portugueses de bem moravam em barracas lúgures. Havia surtos de cólera, e até de malária. Como é que alguém olha para estas coisas e pensa: "antigamente é que era bom"? Só quem tinha muito dinheiro e era amigo do regime é que vivia bem, e se as memórias que têm desse tempo são áureas, parabéns, vocês são privilegiados e não têm empatia.

Conforme a distância temporal relativamente à ditadura aumenta, mais André Ventura se agarra a esse argumento. A memória coletiva vai-se esbatendo conforme as gerações se renovam e ele aproveita esse distanciamento para ocupar os espaços em branco com um discurso saudosista que promete tudo de bom com a vinda de três Salazares. Para os miúdos que estão hoje na escola, o 25 de abril é apenas uma matéria nos livros de História, e apesar dos esforços dos professores, é mais divertido ver vídeos do TikTok com dancinhas sobre "putos castanhos". Se tiverem a sorte de ter avós ou bisavós que viveram na ditadura, pode ser que alguns tenham paciência para os ouvir; mas essa ausência de referências vivas é inevitável e ajuda ao distanciamento. Por isso é tão importante continuar a relembrar o que os "50 anos disto" realmente nos trouxeram. Como se não bastasse a liberdade de sermos e fazermos o que quisermos, desde que não se prejudique o próximo.

Aliás, o fim do Estado Novo foi tão extraordinário que até o Ventura concorda. Está a representar este papel porque tem fome de poder e foi através deste tipo de discurso que finalmente o pastor conseguiu o seu rebanho. Como tudo o que é colocado na Internet permanece na Internet, apesar de ele ter apagado, testemunhamos que no fundo ele sabe que "50 anos disto" afinal até são agradáveis. E prefiro-os, nos seus altos e baixos, porque viver em liberdade é uma dádiva. Que raio de anti-sistema que o sistema que critica pariu.





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