O companheirismo e fair-play no ciclismo

maio 24, 2026

Quem segue o ciclismo sabe perfeitamente que os 9 dias de camisola rosa no Giro d'Italia por parte de Afonso Eulário é um feito absolutamente extraordinário e histórico, que nos enche de orgulho. Ele não chegou lá sozinho - teve sempre a equipa a seu lado, mas em especial Damiano Caruso, veterano de 38 anos. Já anunciou que este é o seu último ano como profissional, e está a passá-lo a ser o braço direito de Afonso Eulálio. Cuida dele como se fosse um pai, um irmão mais novo, um melhor amigo. Todas as vezes que o Afonso sofreu e se viu sozinho, Caruso apareceu como um anjo, ou neste caso, como um trator, a rebocá-lo encostas acima. Foi buscar-lhe água e mantimentos, protegeu-o do vento, protegeu-lhe a posição, foi buscá-lo lá atrás nos problemas mecânicos, deu-lhe força em forma de palavras e de toques subtis. Fez o que pôde e o que não pode para proteger Eulálio até ao fim das suas forças e foi tão bonito de se ver. Ontem, Eulálio perdeu a camisola rosa (novos objetivos estão no horizonte), e no fim foi nos braços de Caruso que se deixou ficar. Esta imagem correu mundo. Tenho visto muitos comentários nas redes sociais a dizer o mesmo - quando Caruso quiser vir a Portugal, não pagará nada, ficará por nossa conta.


Imagem: Giro d'Italia

Não preciso de explicar a quem já segue o ciclismo, porque o sabem - é um desporto de sacrifício pessoal (e talvez o mais perigoso dos desportos) mas também de sacrifício coletivo. Outra imagem que marcou a etapa de ontem foi o martírio de Tim Rex, que seguia assim, quase em lágrimas, entre esgares de sofrimento, boca aberta, salivando, tudo para rebocar o seu líder Vingegaard até o mais longe possível na impiedosa montanha.


Também ontem, um ciclista de outra equipa (Juan Pedro López, da Movistar), viu que o nosso Afonso estava em sofrimento e despejou o seu bidon, com preciosa água numa etapa quente, com centenas de quilómetros em subida, em cima dele. Vimos também ciclistas a ir buscar água para colegas de outras equipas que não tinham o carro de apoio por perto. No fim só ganha um, mas ninguém fica para trás.


Tudo isto foi só ontem, mas acontece diariamente. É um desporto em que se cuida do próximo. Obviamente que há exceções (sim, Ayuso, estou a falar contigo), mas de modo geral era bom que o fair-play e a entreajuda que se vive no ciclismo se reproduzisse não só noutros desportos, mas na vida.

Este ano, na Volta à Catalunha, Remcon Evenepoel e Jonas Vingegaard seguiam isolados na frente e era certo que um deles ia ganhar. Remco caiu, e Vingegaard podia ter ganho, mas decidiu deixar-se ficar para trás e ser apanhado pelos perseguidores, desistindo da etapa, porque "não queria ganhar assim". Já o ano passado tinha esperado por Pogačar depois de este cair, que é só o melhor ciclista do mundo. E quem não se lembra de Iúri Leitão, que nos Jogos Olímpicos, quando foi medalhado, também esperou pelo adversário que caiu? Há um desportivismo tão enraízado na modalidade, tão comovente e bonito de se ver.

O meu avô era ciclista. Todas as semanas saía com o seu grupo de ciclistas e faziam centenas de quilómetros. O meu avô era o mais velho e o mais experiente, e como tal seguia sempre em último no comboio do grupo, tanto para controlar o que se passava na frente, como para servir de pára-choques caso acontecesse algo lá atrás. Numa dessas saídas, o meu avô fechava o grupo, que seguia na berma da estrada. À sua frente seguia um rapaz de 18 anos. Um indivíduo, saído duma discoteca de manhã e cheio de substâncias, passou com o carro por cima do meu avô e ele morreu. Foi um choque para toda a família, como é óbvio, mas o choque maior foi para o jovem adolescente que, se não fosse o meu avô a fechar o grupo, teria morrido ele. Os seus sentimentos eram uma mistura de culpa e de agradecimento que carregou, e tenho a certeza que ainda carrega consigo. A minha família doou-lhe todas as bicicletas do meu avô - se alguém as valorizava, era ele. E ele, todos os anos, organiza um passeio de bicicleta em homenagem ao meu avô, fazendo o percurso que estavam a iniciar no dia fatídico. Obviamente que queria que o meu avô estivesse vivo, mas tenho a certeza de que se tivesse deixado o rapaz no fim da fila e se ele tivesse morrido, o meu avô jamais suportaria andar por cá.

Tenho muito orgulho por, desde o momento em que o meu avô me ensinou a andar de bicicleta, também me ter passado este código de conduta, e por isso todos estes atos que vou vendo nas provas de ciclismo tocam-me profundamente e entendo-os totalmente. É o verdadeiro um por todos e todos por um, e faz-me ter um bocadinho mais de esperança na humanidade.


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