Pessoas estranhas #153 - a influencer Erola Jons

agosto 25, 2026

A organização da Vuelta (Volta à Espanha) achou que seria engraçado ter uma influencer a fazer conteúdos, de modo a chamar a atenção do público mais jovem, fornecendo entretenimento e momentos cómicos. Até aqui, tudo bem, ou pelo menos, tolerável. No entanto, seria de esperar que esta influencer, a Erola Jons, mostrasse algum respeito pela modalidade, pelos ciclistas, e por ela própria, o que não aconteceu.

Foi-lhe concedido acesso aos bastidores, por isso ela conseguia circular pela área de descanso dos ciclistas, zona mista, autocarros, e cabia-lhe fazer diretos para o Youtube e Twitch. Erola é conhecida no TikTok por fazer vídeos a flirtar com homens desconhecidos e a mostrar a sua reação, e decidiu não mudar nadinha da sua abordagem numa prova desportiva de calibre mundial (portanto, não sabe fazer mais nada). 

Quando tem a oportunidade de se aproximar de Pogačar, chama-lhe Pogachita (?), e ele mostrou desconforto. O que ela faz? Chama-o novamente de Pogachita, e pergunta-lhe: "Porque é que hiperventilas quando me vês?". Ele responde "O quê?" com cenho franzido, responde algo genérico e afasta-se. Já tinha dito antes, quando ele terminou a prova, "vou-lhe perguntar se ele também é assim tão rápido em privado", o que é para lá de inapropriado. Referindo-se a Joshua Tarling, irmão do falecido jovem ciclista na Volta à Portugal há semana e meia, diz que tem 20 etapas para o conquistar e que o vai fazer rapidamente. A outro ciclista da Netcompany, disse "Estás aqui para competir, ou para me distrair? És tão giro". Na zona em que os ciclistas mudavam de roupa, ficou a olhar e disse: "Tanta beleza desconcentra-me! Que calores, ao ver aqui tanta licra e tão justinha". E isto é apenas uma pequena parte dos "conteúdos".

Tudo isto é cringe e inapropriado. Em primeiro lugar, acho que é óbvio para toda a gente que comentar o corpo dos outros e sexualizá-lo é errado, ainda para mais num contexto em que não faz o mínimo sentido e onde ninguém está prali virado. Em segundo lugar, está a fazer o que os homens fizeram durante séculos (e ainda fazem, e com impunidade em muitos meios), que é sexualizar o sexo oposto e minimizá-lo nas suas competências laborais, que neste caso são desportivas. A comentadora da Eurosport, Laura Meseguer, mostrou a sua indignação e apontou isto mesmo, dizendo que Erola está a reverter anos de progresso em que as mulheres lutaram por oportunidades num desporto dominado por homens. Em terceiro lugar, é um desrespeito pelos jornalistas desportivos em geral, que estudaram durante anos, penaram para ter um lugar ao sol numa área super competitiva, e nunca têm acesso àquela área de bastidores, enquanto a Erola o teve e para isso bastaram os milhões de seguidores por atitudes de sedução com estranhos na rua.

Resultado: a UAE (equipa de Pogačar, João Almeida e Ivo Oliveira) fez uma queixa formal e a partir de agora a influencer já não tem acesso irrestrito à zona mista e vai precisar da autorização das equipas para circular junto aos seus autocarros e fazer entrevistas. Bastou um dia desta palhaçada para toparem que isto não é normal.

A culpa é de muita gente - da organização, do parceiro que a contratou, e da própria, que pelos vistos só tem uma receita de sucesso, ser flirty, e nem se deu ao trabalho de decorar um ou dois nomes de ciclistas ou informar-se sobre a modalidade. Podia ter sido uma oportunidade de ouro, podia ter feito trocadilhos e ter sido irónica, ter feito piadas, alimentado rivalidades, sem ter de sexualizar e deixar os outros desconfortáveis. Em vez disso, tornou-se ela própria uma piada e minimizou tudo o que as mulheres têm feito para entrar nos mundos dominados por homens.

No fim, conseguiu exatamente aquilo para que foi contratada: chamar a atenção. Só se esqueceram de explicar que era para a Vuelta, não para ela.

“Why do you hyperventilate every time you see me?” "What?"



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