As coisas que se aprendem #118 - leito de Procusto

junho 07, 2026

 "O que digo é que não existe um conjunto convencional e invariável de regras pelas quais as pessoas sejam julgadas; não há nenhum leito de Procusto para esticar ou encurtar as suas mentes e vidas"

in Notícias de Lugar Nenhum Ou Uma Época de Tranquilidade - Um Romance Utópico, de William Morris (1890)

O que é esta coisa do leito de Procusto?
Na mitologia grega, Procusto atraía viajantes para a sua casa e convidava-os a pernoitar numa cama de ferro. Era uma armadilha - se os viajantes fossem mais pequenos que a cama, Procusto esticava-lhes o corpo, podendo até partir-lhes os ossos para o efeito; se fossem maiores que a cama, cortava-lhes as pernas. Todos tinham de caber na perfeição.

É uma metáfora que simboliza a imposição de um modelo único para toda a gente, típico também do autoritarismo, onde todos devem encaixar dentro de um padrão rígido, mesmo que se recorra a violência e a métodos pouco ortodoxos. Ignoram-se as individualidades e as diferenças para que todos caibam nos mesmos moldes. No fundo, é mais fácil controlar manadas do que indivíduos cientes das particularidades humanas.

Esta lógica tem vindo a ser transportada ao longo dos séculos e aplicada a temas da modernidade. Por exemplo, nos padrões de beleza, onde quem deles foge é facilmente ostracizado em determinados setores da sociedade. Também se vê muito em algumas grandes empresas, onde as pessoas são números e força de trabalho, tratados como um bloco, ignorando quem são como indivíduos. Ou até mesmo na religião, onde muitas se recusam a ver para lá dos seus dogmas ou a aceitar crenças que divergem do padrão que estabeleceram para si próprias.

Curiosamente, o fim de Procusto foi a prova do seu próprio veneno. Foi derrotado por Teseu, que o forçou a deitar-se na própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés para ele lá caber. Por mim, era assim que terminariam todos os autoritarismos, com a reposição da justiça num irónico olho por olho, dente por dente.



Também podes gostar

0 comments