Freddie
julho 01, 2026Era o brincalhão mais brincalhão. Nunca vi um gato tão feliz por qualquer coisa. Caía um bago de arroz no chão e ele brincava todo contente. Deixava cair um guardanapo ranhoso - alegria. Atacadores, uma linha, um fio, um esparguete cru, uma meia, um botão, uma tampa, cartão, uma ervilha... tudo servia para o entreter, tudo era felicidade, tudo era puro. Adorava ir para debaixo das cobertas do sofá e de lençóis fazer sprints e dar aos pés de barriga para cima; dava corridas absurdas que terminavam a derramar vasos ou equilibrado em cima de portas, naqueles centímetros impossíveis (e depois miava porque tinha medo de descer). Escondia-se no escuro o tempo que fosse preciso, para dar um tapinha nos outros gatos quando passassem e fugir. Era um ninja perspicaz para sair porta fora e ir comer o que estivesse nos vasos da vizinha da frente. Todos os dias em que ele esteve comigo, eu ri-me às gargalhadas.
Era o comilão mais comilão. Não só em quantidade, mas em variedade. Não se podia deixar uma frigideira ou pratos com comida sem vigilância, porque ele ia de fininho lambuzar-se e era preciso uma grua para o retirar, já com o focinho cheio de molho de tomate ou caril. Só não ligava a fruta. De resto, arroz, massa, puré, batatas, até seitan, soja ou tofu, marchava tudo. Passava-se dos carretos com camarão ou atum e era preciso isolá-lo enquanto houvesse. Assim que sentia que havia comida, começava a murmurar "mmm mmm mmm" com um olhar esbugalhado, aflito, como se fosse a última comida do mundo e ele o mais digno de a devorar. Tantos ralhetes e risadas me arrancou.
Era o mais dado e gostava de todos os seres vivos. Gostava de qualquer pessoa, quer já a tivesse visto ou não. O conceito de "desconhecidos" não existia. Bastava alguém ter pele para ele a querer lamber, bastava alguém ter braços para receber um abracinho dele. A mesma coisa com gatos, gostava de todos. Não tinha qualquer problema, mesmo que os outros tivessem com ele. Tenho uma gata de feitio difícil que lhe bufava e queria bater, e ele impávido e sereno, apenas olhando com curiosidade e deixando passar. Nada o incomodava. Por vezes queria matar-me de amor, quando eu acordava sufocada por estar deitado em cima da minha cara, ou quando me lambia tanto os pés que me fazia uma exfoliação não solicitada.
Era o mais engraçado só a estar quieto. Tinha as posições mais estranhas para estar deitado, ou apenas a existir, sentado, de língua torta e de fora. Encontrava os sítios mais ridículos para descansar. Se a porta de vidro estivesse fechada, ele ficava a respirar para cima dela, muito estático, a olhar para o lado de cá, até que alguém a abrisse, mesmo que desse para dar a volta. Adorava lamber-se a toda a hora, portanto estava quase sempre húmido e com ar esgrouviado.
Era um gato ainda jovem, 6 anos, e só esteve comigo durante 2, mas teve um impacto tão grande que não consigo ultrapassar. Em fevereiro do ano passado, foi operado para retirar uma massa benigna do lombo, e provavelmente foi aí que lhe entrou uma bactéria que começou a comê-lo por dentro. Poucos meses depois, os sintomas apareceram, foi internado, fez uma carrada de exames e tratamentos para descobrir o que era e para tentar combater, mas nada resultou. Fui visitá-lo duas vezes por dia durante um mês, mesmo aos fins de semana, com a clínica fechada, acompanhando a assistente que ia tratar dos internados. Fui um zombie durante esse período, e carreguei, e ainda carrego, um sentimento de profunda injustiça. Tanto eu como o dono dissemos tantas vezes "o Freddie não merecia isto". Até as médicas veterinárias ficaram tocadas, porque também elas "nunca tinham lidado com um gato como ele". Ele foi submetido a tudo, as patas picadas por todo o lado para lhe apanharem veias, uma carrada de exames, de jejuns, medicamentos fortes, e suportava tudo estoicamente, ainda lhes agradecendo com torrinhas e lambidelas enquanto conseguiu levantar a cabeça.
Claro que, como gato dramático, teve de morrer num dia dramático - o dia do apagão. Era segunda-feira de manhã, as veterinárias ligaram a dizer que a última tentativa tinha falhado e que não havia mais nada a fazer. Fui lá despedir-me pela última vez, cheguei a casa, incapaz de trabalhar, de comer, de respirar, e a luz foi-se. Pareceu que o mundo não tinha conseguido lidar com a perda daquele ser cheio de luz, e cortou-a toda. As circunstâncias únicas deram-me tempo para fazer o luto descansada, em reclusão e paz, e por isso apreciei e agradeci o dia do apagão como poucos.
Sinto falta dele todos os dias e é-me difícil aceitar a sua partida precoce. Nunca mais fui a mesma. Hoje sonhei com ele e acordei estrebuchada ainda de madrugada com lágrimas pelo rosto. Nunca me tinha acontecido. Senti um aperto no coração tão grande e a necessidade de vir falar sobre ele, comigo própria, escrevendo e lendo, conservando a sua memória, para ver se me liberto um pouco. Porque não sei que fazer mais. Tantos animais passaram na minha vida, e está difícil aceitar a partida do Freddie. Meu companheiro, melhor amigo, beijoqueiro, pachá, luz quando não houve.

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