Pessoas estranhas #152 - a Rute Sousa

agosto 18, 2026

Não há nenhum mal em fazer parte de um grupo de mulheres conservadoras. Se existem mulheres que querem voltar atrás no tempo, viver uma vida submissa ao marido, dedicarem-se à maternidade, serem donas de casa e quem sabe, não votar ou não vestir o que querem, é lá com elas. É essa a beleza do mundo, há espaço para todos, mesmo para quem não tem as mesmas convicções ou siga padrões de vida mais arcaicos. O que é errado é querer impor o seu modo de vida aos outros e julgar quem não o faz.

Esta Rute Sousa (que no entanto não tem marido nem filhos) tem sido uma acérrima defensora desse modo de vida mais conservador, e tudo bem. Faz os seus vídeos, os seus posts, fala com a sua comunidade, e embora eu não concorde com nada do que diz, está no seu direito. Borrou mais a pintura ao fazer parte do grupo de "influencers" que foram para Israel tentar vender-nos que está tudo bem, que são uns anjos e o resto do mundo é que está errado, que não há genocídio e eles são uns heróis. Neste caso, já contribuiu para minimizar e encobrir um país assassino, e já me fez comichão. Mas tudo bem, na generalidade somos pessoas informadas e sabemos perfeitamente o que tentaram fazer ali - só cai quem quer.

Agora, a conversa é outra. As declarações sobre o aborto passaram um bocadinho das marcas. Na visão dela, o aborto seria proibido para toda a gente - e aqui já está a querer impor a sua visão aos outros. A parte pior e mais mediatizada foi ela dizer que é contra o aborto, mesmo quando a vítima foi violada. Aqui, não se trata de ser de esquerda ou direita - isto é um absurdo em termos humanitários para qualquer espetro político. A sua amiga Rita Matias já tinha dito na televisão nacional que se uma filha dela, de 12 anos, tivesse engravidado fruto de uma violação, quereria que ela fosse para a frente com a gravidez. Isto é horrendo, uma aberração, uma falta de empatia tremenda, e estão a forçar um bocado a barra. Mais uma vez, não acho que tenha que ver com o partido que apoiam, conheço muita gente de direita que acha isto tão macabro quanto eu.

Uma violação é de uma violência absoluta, é estar assustado, temer pela vida, não ter controlo sobre o nosso corpo, perder a inocência, é dor, sangue, lágrimas, pânico, choque, vergonha, muitas vezes culpa. É raiva, revolta, tristeza, entorpecimento, depressão, trauma. É algo que não se esquece para o resto da vida, provoca pesadelos, desconfiança, ansiedade, perda de sono, perda de apetite. Há quem queira tirar a sua própria vida depois de uma situação destas. Mas a Rute Sousa acha que é o ambiente perfeito para se criar uma criança. Um ser que vem ao mundo no decorrer do evento mais traumatizante na vida de uma mulher. Um bebé, planeado ou não, deve nascer num ambiente de amor, e devemos e podemos escolher com quem criar uma família. Ainda para mais, se a pessoa violada for ela própria uma criança, estar-se-ia a roubar uma infância - uma criança a criar outra criança nascida de um episódio de horror, porque a Rute Sousa acha que sim. Para mim, isto é psicopatia.

Se alguém é contra o aborto, é só não fazer. Se alguém é contra o casamento homossexual, é só não casar com alguém do mesmo sexo. Se alguém é contra as pessoas trans, é só não fazer transição de género. Não precisa de adoptar determinada forma de vida, mas isso não dá automaticamente o direito de impedir os outros de o fazer. Qual é o problema? É terem de ver essas pessoas no dia a dia e saber que existem? Pois eu também tenho de levar com pessoas trogloditas na televisão nacional e o mundo continua a girar. Pessoas "especialistas em comunicação", que é como agora chamam aos influencers, que vão debitar tretas evangélicas em direto para um país supostamente laico. 

Pensem pela vossa própria cabeça. Não defendam alguém cegamente só porque pertence ao vosso partido, à vossa vizinhança, comunidade, ao grupo de amigos, local de trabalho ou grupos de Facebook. Se algo vos parece cruel e macabro, provavelmente é mesmo. É possível ser-se conservador e ser-se empático. É possível até ser contra o aborto, mas abrir exceções em situações de violação, risco de vida para a mãe, malformação do feto, morte fetal, entre outras. Isso não faz de vocês menos pró-vida, faz-vos mais humanos, compreensivos e conscientes de que não vale tudo. Por exemplo, no recente caso em que um pai violou e engravidou a filha menor, se ela não tivesse tido um aborto espontâneo, achariam normal obrigar a rapariga dar à luz o seu filho-irmão? Repugnante. Já agora, a contradição - as vidas das crianças mortas por Israel, não valem nada? Sejam críticos, estejam abertos ao diálogo e conscientes de que nem tudo é preto ou branco.

Se o modo de vida que a Rute Sousa defende é aquele que quer para si, tudo bem. O problema é querer transformá-lo numa regra para todas as outras mulheres. E é aqui que vejo uma contradição: enquanto defende que as mulheres devem aceitar um papel submisso e doméstico, ela própria usa uma plataforma pública para dar opiniões, influenciar milhares de pessoas e participar ativamente no debate político. Não há nada de errado nisso - pelo contrário, ainda bem que pode fazê-lo. É precisamente essa liberdade que deveria querer para as outras mulheres. Caso contrário, isto é só bazófia, oportunismo, e caça aos likes e views.



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