A falta de coragem para fazer diferente - o ciclo vicioso do futebol pela goela adentro

agosto 19, 2026

Ontem fez-se história no Ténis português: Nuno Borges e Jaime Faria estão nos oitavos de final do torneio Masters 1000 Cincinnati - é a primeira vez que dois tenistas portugueses estão nessa posição no mesmo torneio. Para lá chegarem, bateram alguns dos melhores tenistas do mundo, como Ben Shelton ou Andrey Rublev. Quando Borges bateu o russo, escreveu a seguinte mensagem na câmara: 


Toda a razão. O ténis português está on fire, as coisas têm corrido bem (não só neste torneio). Tem sido emocionante, intenso, com reviravoltas, serviços canhão acima dos 230km/h, pontos extraordinários. No entanto, olhando para as capas dos jornais desportivos, é como se nada se passasse. Em baixo estão as capas dos principais jornais desportivos de hoje, e este feito é uma nota que mal se consegue ler. Só querem saber de futebol, futebol, futebol. Ontem não existiram jogos de futebol, não se passou nada de especial, e mesmo assim inventam destaque onde não há - neste caso, novelas sobre reforços. 


Esteve a decorrer a Volta a Portugal, competição histórica que vai comemorar 100 anos, e há tanta gente a seguir ciclismo no país... Olhando para as capas dos jornais desportivos, é como se não tivesse existido. Mesmo no malogrado dia do falecimento do ciclista Finlay Tarling, foi mais um apontamento secundário nas capas. E mesmo assim, foi esse terrível acontecimento que justificou diretos e espaço nos programas de comentário desportivo, nunca a prova em si.

Tivemos bons resultados nos europeus de Natação e de Atletismo, onde ganhámos medalhas - mais apontamentos nos cantos das capas dos jornais. Afonso Eulálio esteve 9 dias de camisola rosa no Giro de Itália e ganhou a camisola branca - um cantinho na capa. Fernando Pimenta é uma máquina de papar medalhas. Vasco Vilaça está em primeiro lugar no Mundial de Triatlo e nem uma menção. 

Somos um país de futebol e eu sou fã de futebol, mas isto é demais. Temos atletas de topo em tantas modalidades, e eles merecem muito mais do que ser notas de rodapé. Tirando o futebol, é uma luta sobreviver como atleta em Portugal, e ainda têm de lidar com a falta de coragem dos media portugueses. Os diretores editoriais têm uma responsabilidade, e aquilo que escolhem destacar vai estar visível nos quiosques, nos sites, nos telejornais matinais, nas redes sociais. É uma pescadinha de rabo na boca - se acham que não há interesse nas modalidades, têm o poder de o fomentar. Pelo menos experimentem - nos dias em que não há nada de interessante para dizer sobre o futebol, destaquem os feitos extraordinários que os atletas portugueses têm feito, e são tantos! 

Esta capa é do jornal L'Équipe. Uma grande capa a destacar a vitória abismal da ciclista Demi Vollering na Volta à França feminina. Aqui, o futebol é que é uma nota. Não só uma modalidade é o destaque principal, como é uma prova feminina - impensável nos jornais portugueses. Os melhores jornais do mundo são-no por alguma razão, e a pluralidade e diversidade são algumas das razões que justificam o seu sucesso. Haja mais colhões e úteros de ferro para arriscar fazer diferente.



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