Livros bacanos #12 - O Desfufador - Volume 1: Contágio, de Valério Romão (2025)

setembro 04, 2026

Alex foi abandonado quando se percebeu que não cresceria mais. Anão, mas com sonhos grandes, não teve uma vida fácil. Fez muitas coisas, como ser homem-canhão para festas de estudantes e stripper para um nicho muito específico, mas a coisa mais especial que conquistou foi uma relação próxima com um golfinho de feitio difícil. Tornou-se também um fervoroso opositor do turismo insustentável de Lisboa que descaracteriza a cidade e expulsa os seus habitantes a favor de "estranjas" endinheirados que tornam a cidade um parque de diversões.
Alejandro nasceu em Miami. Nunca soube quem era o pai e a mãe morreu cedo, deixando-o aos cuidados de uma tia que não queria nada que ver com crianças, especialmente do sexo masculino. Acabou por ser criado pelo grupo das amigas da tia, todas mulheres lésbicas que odeiam homens. Criaram-no demasiado protegido do mundo, fazendo com que Alejandro se tornasse diferente e no mínimo inapto para a vida. No entanto, ele tem algo de especial, uma aura fora do normal, que atrai mulheres e provoca insegurança nos homens.
Hélder era uma criança metida consigo mesma, até que o pai o levou para o campo para fazer dele um homem à séria. Tornou-se um sociólogo boémio constantemente embeiçado por alunas, dado a teorias da conspiração, e que se meteu em assuntos polémicos por notoriedade e dinheiro.
Catarina é uma personagem misteriosa - anda pelo mundo procurando um homem e lemos os seus relatos diários das buscas.

Estas são as personagens cujas histórias vamos acompanhando. Para além de uma construção de personagens exemplar, detalhada e viva, o que mais destaco neste livro é a fabulosa ironia. Não sei se alguma vez me ri tanto com um livro. É pura sátira em diamante, que resulta especialmente bem porque tanto se destaca pela utilização de linguagem brejeira e adjetivos levados da breca, como pela presença de pensamentos profundos e filosóficos. Fazendo uso de alguns dos males dos nossos dias - turismo de massas, machismo ou o modo como tratamos os animais, Valério Romão recorre a um humor impiedoso que acerta no alvo como crítica social.

A escrita em si também é bastante distinta, não se limitando à simplicidade de parágrafos e pontos finais. Há pensamentos, falas ou outras línguas que se metem no discurso e que poderiam gerar alguma confusão, mas são encaixadas de forma extremamente natural no fluir da leitura, que não obedece a uma estrutura fixa.

A narrativa, cheia de ritmo e sempre com algo a acontecer, "empurra" as personagens para o mesmo cenário final, que é um majestoso caos, bizarro e louco, e um deleite para os sentidos. É um livro muito fora da caixa, mordaz, tão divertido quanto reflexivo, e venha o segundo volume.



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