Pessoas estranhas #157 - os adolescentes do heightmaxxing
novembro 06, 2026A sociedade sempre nos impôs o que era a beleza, o sex appeal, o que é ser atraente para um parceiro ou o que nos faz parecer mais machos, mais competentes, mais líderes, mais apetecíveis, com mais estatuto. Na era das redes sociais tudo ainda é mais exacerbado - os filtros tornam toda a gente gira, sem rugas, mais musculada, sem borbulhas ou manchas. Por isso eu percebo de onde isto vem, a pressão é muita e vem de todo o lado. Toda a gente se compara a toda a gente e qualquer coisa é usada para se inferiorizar e expor ao ridículo.
É algo que não vem de hoje e não acabará amanhã, e entre os maiores preconceitos existentes é para com os homens baixos. A altura é simplesmente algo que não se escolhe, e por isso rebaixar, fazer bullying ou piadas constantes com isso é inaceitável. Não estou a falar de preferências, todos somos livres de gostar de homens ou mulheres mais baixos, altos, gordos, magros, loiros, mulatos, tatuados, carecas ou peludos. Outra coisa é minimizar alguém por uma característica física, e é algo que está embutido há tanto tempo e tão normalizado, que inconscientemente olhamos para alguém baixo como menos capaz a vários níveis.
Isto dito, não é de estranhar que alguns homens adolescentes estejam a recorrer ao heightmaxxing. E o que é isto? Há um medicamento ("Erda") que é usado para tratar alguns tipos de cancro da bexiga. Um estudo da Universidade Médica de Viena verificou que quando foi testado como tratamento do cancro em crianças, provocou o aceleramento do crescimento em duas crianças com tumores do sistema nervoso central. A informação, claro, chegou ao TikTok, e os adolescentes têm tentado obter esse medicamento no mercado negro. Isto não só acarreta os riscos de tomar algo sem supervisão para uma finalidade não aprovada medicamente, como acabam por obter não o medicamento, mas as matérias primas que o compõem.
Estas pessoas estão tão desesperadas para se tornarem num ideal que estão dispostas a correr todos os ricos dos efeitos secundários pela esperança de crescerem uns centímetros. Entre os efeitos colaterais estão a diarreia, dores, deslocamento de unhas e excesso de fosfato no sangue, que está associado a risco de AVC, perda de massa óssea, fadiga extrema ou riscos renais. Estão a colocar a sua qualidade de vida e o seu futuro em risco para se encaixarem num modelo aos seus olhos mais aceitável.
O ideal seria que todos crescessem com confiança em si mesmos, que todos aprendessem que o que lhes dará sucesso com as miúdas, no trabalho, nos estudos, na família e em todo o lado, é serem seres humanos decentes em primeiro lugar. É uma pena que tudo hoje em dia esteja tão ligado às aparências, ao corpo, ao que vestimos, ao botox que pomos, à maquilhagem que usamos. A máscara parece ter mais valor que o ser humano por trás e este tipo de disparates estão a ganhar cada vez mais espaço. É assustador.
Há tantos homens baixos admiráveis, giros, talentosos, engraçados. Lembrem-se que o Prince, o Bruno Mars, o Kit Harrington, o Kevin Hart, o Tom Cruise, o Daniel Radcliffe, o Kendrick Lamar, o Dustin Hoffman, o Mark Zuckerberg, o Messi ou o Prestianni são (ou eram) todos baixos, e isso não os impediu de terem sucesso, dinheiro e mulheres. Até podem dizer que só têm mulheres porque têm dinheiro, mas olhem por exemplo para o Messi, que está com a mesma mulher desde que era um zé-ninguém. Há coisas que falam mais alto, e embora pareçam abafadas nestes tempos em que a imagem é rainha, ainda vão contando e serão elas que sobreviverão e vos tornarão inesquecíveis.

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